Rui Leitão
Há noites que o tempo não
consegue apagar. Mesmo depois de um século, permanecem vivas na memória de uma
cidade, transmitidas de geração em geração como uma história de medo, coragem e
resistência.
Amanhã, Cajazeiras rememora uma
dessas noites. Completa-se o centenário da invasão da cidade pelo bando de
cangaceiros comandado por Sabino Gomes, lugar-tenente de Lampião. Foi uma noite
de tiros, incêndios, saques e pavor, mas também de resistência de homens e mulheres
que decidiram enfrentar a ameaça que avançava sobre suas casas e suas vidas.
Para marcar os cem anos daquele
episódio, a ACAL – Academia Cajazeirense de Artes e Letras, com o apoio da
Secretaria de Cultura do Município, reunirá pesquisadores e historiadores no
Casarão da Rua Epifânio Sobreira, a partir das 19 horas. Será uma oportunidade
para revisitar um dos capítulos mais dramáticos da história de Cajazeiras e
devolver às novas gerações a memória de uma cidade que, naquela noite, precisou
lutar pela própria sobrevivência.
A programação, organizada pela
presidente da ACAL, professora Nadja Claudino, contará com palestras do
pesquisador Wesley Rodrigues Dutra, do professor Rigonaldo Pereira e da
escritora Fabiana Agra, que fará o lançamento do livro Sabino Gomes: O Carcará de
Lampião. Também será exibido o filme O Carcará, baseado na obra literária do
escritor Ivan Bichara Sobreira.
O ataque teve grande repercussão
na imprensa. O jornal O Nordeste, da Diocese de Fortaleza, foi o primeiro a
noticiar o acontecimento. Na edição do dia seguinte, estampou uma manchete que
registrava a dimensão do episódio: “A próspera cidade de Cajazeiras, na
Paraíba, é atacada pelo grupo de Sabino Gomes”. As primeiras informações
chegaram por telegramas enviados de Lavras de Mangabeira. A notícia descrevia
uma cidade surpreendida pela chegada dos cangaceiros. O medo, certamente,
espalhou-se pelas ruas à medida que os estampidos dos rifles anunciavam a
presença do bando.
Por volta das 23 horas, quando o
grupo chegou à Rua Sete de Setembro, um estrondo rompeu novamente o silêncio da
noite. Uma explosão na Usina de Força e Luz, instalada ao sopé do Açude Grande
e dirigida pelo técnico José Sinfrônio, produziu tamanho impacto que os
cangaceiros imaginaram estar diante da chegada de reforços policiais. O barulho
inesperado contribuiu para o recuo do bando.
Foram mais de cinco horas de
pavor. Enquanto os homens resistiam, famílias inteiras procuravam fugir da
cidade. Mulheres, crianças e idosos buscavam abrigo nas proximidades, tentando
escapar da violência que tomara conta das ruas. E, no meio daquela noite de
angústia, Dom Moisés Coelho, bispo da Diocese, permaneceu em oração.
O ataque de Sabino Gomes não foi
apenas um episódio da história do cangaço. Foi uma experiência vivida por uma
comunidade inteira. Uma cidade que, durante algumas horas, conheceu o medo de
perder suas casas, seus familiares, seus bens e a própria tranquilidade. Ao
longo do tempo, escritores e pesquisadores registraram diferentes aspectos
daquele acontecimento. Cada relato acrescentou uma peça à memória coletiva de
Cajazeiras.
Agora, cem anos depois, a ACAL
abre novamente essa página da história. Não para cultuar a violência do
cangaço, nem para transformar a tragédia em lenda, mas para compreender o que
aconteceu e preservar a memória daqueles que viveram aquela noite. Porque o
tempo passa, as testemunhas desaparecem, as casas são reconstruídas e as ruas
mudam de aparência. Mas uma cidade também é feita das histórias que guarda.
Cajazeiras precisa lembrar daquela noite.
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