terça-feira, 28 de setembro de 2021

Marcélia Cartaxo e Soia Lira são indicadas para o Troféu "Grande Otelo" do cinema brasileiro.

As atrizes cajazeirenses Soia Lira e Marcélia Cartaxo

As atrizes cajazeirenses Marcélia Cartaxo e Soia Lira são indicadas no Grande Prêmio do Cinema Brasileiro - Troféu Grande Otelo, um dos mais importantes do audiovisual no país. As nossas duas atrizes destacaram-se juntamente com a atriz paraibana Zezita Matos - que também está sendo indicada para o prêmio, no longa-metragem Pacarrete, do cineasta Allan Deberton. 

Marcélia é a protagonista e foi indicada na categoria Melhor Atriz. Já Soia e Zezita, na categoria Melhor Atriz Coadjuvante. O filme recebeu 15 indicações, entre eles o de Melhor Longa de Ficção, Melhor Longa de Comédia, Melhor Primeira Direção, Melhor Roteiro Original e de Melhor Ator Coadjuvante para João Miguel. O longa de Allan Deberton foi gravado na cidade de Russas, Ceará. A cerimônia de entrega dos troféus Grande Otelo ocorrerá no dia 28 de novembro e será transmitida ao vivo pela TV Cultura.



Cine Éden

 por: Lincoln Cartaxo de Lira. Advogado, administrador e escritor.

Prédio onde funcionou o Cine Éden. Na parte de cima havia uma danceteria 

Eu era garoto, não tinha entrado na adolescência, mesmo assim, jamais consegui me libertar das imagens de então, associadas ao velho Cine Éden, cinema localizado na minha cidade natal (Cajazeiras). Com fachada meio sombria de um azul anil desbotado, para um moleque, a verdadeira caverna de sonhos, com todos os tesouros de magia, fascinação...   


E me veio à lembrança, quando fui barrado pelo Juizado de Menores (rábula, Zezé Moreira) ao tentar assistir um filme proibido para menores de 14 anos. E aí meu leitor, fiquei com olhos marejados e fiz força pra não chorar, tamanha era a minha vergonha e desapontamento. Apesar de estar usando camisa de manga cumprida e calça social só para ver se dava pra entrar no cinema. 

É, ressalte-se, um tempo em que o estudo era grande, o tempo era largo e o dinheiro curto, que só dava mesmo para pagar a meia entrada.

Todos os pares de olhos voltados para o retângulo da tela panorâmica superscope, no instante que o senhor Carlos Paulino (dono do cinema) acionava a cigarra para que o projetista desse início à sessão, como também, ao seu auxiliar (acrobata de tirar o fôlego) para fechar as grandes janelas através de uma cumprida trava de madeira.

De repente uma cortina bordô pesada se abria para a sala de projeção, onde saia o feixe de luz levando o espectador a rir, chorar e se emocionar, e antes de desligar todas as luzes, o operador deixava uma iluminação mais fraca durante a apresentação do Canal 100, no qual fazia ver o lado lírico, dramático, delirante do futebol brasileiro, sob a direção fantástica de Carlos Niemeyer. 

Quase sempre o filme era antecedido pela trilha sonora da lendária banda The Pop’s (Driving Guitar, O Guarany, Noturno de Chopin, Johnny Guitar...), enquanto chupávamos as balas compradas em sua modesta bomboniere.

Assisti muitas coisas, naquela época. Mas as recordações marcantes são dos filmes com Ben Hur, Os Dez Mandamentos, Cleópatra, Laurence da Arábia, Spartacus. Destaque para esse último: a história real do escravo rebelde Spartacus , com Kirk Douglas, numa interpretação marcante e comovente, talvez possa ser considerado uma obra-prima dos grandes clássicos do cinema épico de todos os tempos.
V
ez por outra, dependendo da localização do assento, o mau cheiro de urina, pelo menos, não fazia distinção de classe social, atingia inexoravelmente a todos desse fedor cinemático.
E o melhor: a quebra das fitas durante a exibição era um deus nos acuda, levava a sessão a ser interrompida para o conserto, debaixo de vaia ensurdecedora da plateia.

O domingo igual a qualquer outro, estava eu lá na porta do cinema para pegar a matinê, levando pilhas de gibis para trocar com outros cinéfilos.

Soube, por amigos, que ele resistiu até o fim, diante da fúria da televisão, seguido pelo vídeo cassete paralelamente com a explosão das locadoras. Ficou por meses exibindo os mesmos filmes, alternando apenas os cartazes, até cerrar as portas de vez, dando lugar (acredito) a um estabelecimento mercantil ou para alguma igreja sem eira nem beira.

Desaparecendo, assim, uma usina de sonhos e magia dentro daquela que já foi a sétima arte e hoje tornar-se, cada vez mais, uma indústria de frias regras comerciais. Em bom e velho português: “mercenários”. 

No cenário mais verossímil o grito estridulante de Johnny Weissmuller, o Tarzan do cinema, dava mostra que o sonho não tinha limites. E o sonho era, no mais das vezes, americano.

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fonte: https://lincolncartaxo.blogspot.com/

domingo, 12 de setembro de 2021

O Cine Pax

por: Mariana Moreira 

Atual prédio onde antigamente funcionou o Cine Pax. Imagem: Google Maps 


Na tela enorme do cinema um mundo se descortinava diante dos olhos da menina que, oriunda da zona rural, se encantava com as maravilhas da urbanidade, como a energia elétrica, as imagens de televisão, o cinema, as casas conjugadas, o barulho dos automóveis, o pão aguado (ou francês) no café da manhã. O cinema passa a fazer parte de sua vida muito precocemente. Morando no treco da Rua Pedro Américo que dá acesso a Rua Dr. Coelho éramos vizinhos do Cine Pax, um dos cinemas pertencentes à Diocese. O outro, o Apolo XI, situava-se nas proximidades. Além disso, outras aventuras de exibição cinematográfica eram registradas, como cinema mambembe de Otrope.

Não apenas a proximidade do cinema me introduz na magia da sétima arte. O bilheteiro e porteiro era colega de colégio de uma das minhas irmãs. Isso era um valioso passaporte para assistir, de graça, a filmes quase todas as noites. Fitas, inclusive, com recomendações de faixa etária bastante superior a minha idade. E qual malabarismo desenvolvia para fugir a implacável perseguição do representante do juizado de menores; um senhor surdo mudo cujo nome a distancia do tempo apagou e que, várias vezes, percorria o cinema a cata de penetras que ousavam assistir a filmes proibidos. Com destreza para escapar ao vigilante facho de luz de sua lanterna.

Retomada a normalidade viajava nos cenários deslumbrantes de emocionantes histórias de amor, nas  aventuras dos heróis de capa e espada, no destemor dos cowboys de velho oeste americano, com sua indômita bravura, abrindo fronteiras, exterminando índios e instituindo o modo de ser que domina o mundo. Na mesma viagem de sombras e fantasias, soltava o riso inocente com as peripécias e trapalhadas do Gordo e do Magro, dos Três Patetas, ou se emocionava com a tragédia dos amores impossíveis das adaptadas tragédias shakespearianas. Um mundo novo onde sonhar era a medida de todas onde sonhar era a medida de todas as coisas e a vida se contagiava com o chiado do projetor que lançava imagens tão deslumbrantes na grande tela branca. O fim da exibição trazia a realidade do cotidiano, mas deixava a sabor encantado do onírico que acalentava as saudades de Impueiras, a ausência dos pais, a incerteza do futuro.

Nos anos de 1980 a cidade de Cajazeiras assiste, impassível, ao fechamento dos seus três cinema. A massificação da televisão traz a comodidade da sala de estar, mas rouba o encantamento do sentar-se na poltrona e, entre pipocas, balas e beijos roubados da namorada, ver abrir-se ante seus olhos magias e realidades inventadas pela genialidade do homem. A televisão desencantou o mundo do cinema, alterou sociabilidade e deixou a cidade mais pobre de sonhos e encantamentos. E nas lembranças ainda revoam os cheiros, odores e sabores do Cine Pax hoje transformado em auditório, mas onde, outrora, como eu, muitos construíram mundos, ergueram fantasias e sonharam vidas. 



Artigo publicado no Jornal A União do dia 10 de Setembro de 2021.

segunda-feira, 6 de setembro de 2021

A MAJESTOSA CATEDRAL DA PIEDADE.

foto: não encontrei nenhuma referência sobre a autoria da foto


Linda, majestosa e imponente. A beleza da Catedral de Nossa Senhora da Piedade consegue superar chegando ao clímax quando encontra fotógrafo inspirado como esse que fez essa foto, ou quando sua fachada ganha fleche de luzes e cores, assim como se apresenta na imagem acima. Considerada o principal templo católico dos cajazeirenses, a catedral tem na sua história, dois períodos tidos como importantes na fé e devoção do povo de Cajazeiras.


O primeiro, por volta de 1915 quando esse título de catedral passou a ser assumida pela atual igreja matriz de Nossa Senhora de Fátima, cuja sua primeira construção, ou seja, a edificação da primeira casa de orações da cidade se deu no século XIX, em 1836. De todas as igrejas católicas do município de Cajazeiras, a matriz de Nossa Senhora de Fátima é uma das mais antigas, tornando-se um importante acervo do patrimônio histórico da igreja romana na terra das cajazeiras.


O segundo período que marca a sua história, se deu com a expectativa do inicio de sua construção, que começou em 31 de janeiro em 1937, durante o bispado de Dom João da Matha de Andrade Amaral. Com a quase que completa conclusão da construção, em 20 de janeiro de 1957, veio em seguida à inauguração e as instalações definitiva no novo templo, em 1959.


De característica arquitetônica ligada as construções românicas, estilo que predominou antes do surgimento do gótico, a Catedral de Nossa Senhora da Piedade tem na marquise do hall da sua grandiosa torre, uma escultura da Pietá, que foi uma sugestão do então bispo Dom Zacarias Rolim de Moura, que administrou a diocese do sertão até 1990. Além da imagem da Pietá, na mesma torre, há dois anjos em tamanho real, Gabriel e Arcanjo estão escorados, como de estivesse guardando o templo e vigiando a cidade 24 horas. 

 

Sendo um motivo de orgulho de todos habitantes, a igreja dedicada a Nossa Senhora da Piedade que também é a padroeira da cidade é sem dúvida uma das mais belas do sertão da Paraíba, já que sua torre extremamente alta se destaca na paisagem, podendo ser vista dos vários pontos mais distante da zona urbana do município e, ainda pelos visitantes que vão chegando pelas estradas e caminhos que dão acessos à cidade.   


Sempre, entre os dias 05 e 15 do mês de setembro de cada ano, é realizada a festa consagrada a Virgem Maria. Na festa além das atividades sociais e culturais, também acontece as celebrações litúrgicas, com destaque para a grande romaria para homenagear e invocar a santa de todos os cajazeirenses.


Cleudimar Ferreira




sexta-feira, 3 de setembro de 2021

CINEMA, NUNCA MAIS.

por: João Batista de Brito (escritor e critico de cinema e literatura)


Toda história tem seu tempo e seu lugar. Esta não faria sentido, a não ser na provinciana João Pessoa dos anos quarenta.

A família era das mais tradicionais e o casarão ficava no Parque Solon de Lucena, na época considerado área nobre da capital. Filha única, Doralice fora criada com o zelo esperado: babá, aula de piano, Aliança Francesa, ginásio no Colégio das Lourdinas, secundário na Escola Normal, e tudo mais cabível a uma moça de família rica, ainda mais filha única.

Foi no tempo da Escola Normal, ali na Praça João Pessoa, que os problemas apareceram. Não se sabe como, Doralice conheceu esse rapaz, Júlio, e, em pouco tempo começaram um namoro que, com certeza, se a família soubesse, desaprovaria de chofre. Residente no bairro de Jaguaribe, humilde balconista de loja, o rapaz estava longe de ter as credenciais necessárias. Os dois sabiam disso e por isso mesmo se mantinham furtivos, feito dois criminosos.

Só conheciam o caso algumas das colegas da Escola, e, possivelmente, algumas das irmãs e mães dessas colegas, e... O fato é que o namoro chegou aos ouvidos da família, e daí a pouco, estava peremptoriamente encerrado. Se Júlio sofreu, não se sabe, mas, Doralice ficou mal, muito mal. Filha obediente engoliu o veto, a separação, a dor...

Passou-se o tempo e, com as estratégicas providências da família, eis que, anos mais tarde, apareceu “o homem certo” para Doralice, esta agora já nos seus vinte e um anos de idade. Seis anos mais velho que ela, Constantino era um alto comerciante, dono de vários negócios na cidade. Com apoio e reforço da família, o namoro logo virou noivado, que logo virou casamento.

E assim Doralice foi se adaptando, como podia, a essa nova forma de vida, em sua confortável nova residência, uma das mais elegantes da rua Duque de Caxias.

Não é que não gostasse de Constantino, mas sentia que seu afeto por ele – um homem bondoso e simpático – era, em princípio, diferente do que sentira por Júlio. Havia carinho, sossego, respeito, mas não havia chama. Por isso, toda noite rezava à Virgem Maria para esquecer de vez o passado e aceitar o presente.

Aparentemente a Virgem Maria lhe atendeu ao pedido. Já fazia cinco anos de casamento, e tudo caminhava dentro da normalidade esperada. Na condição de esposa e dona de casa, Doralice vivia se não feliz, ao menos tranquila, e, mais importante, em paz com sua consciência.

Essa paz começou a ser ameaçada naquele dia em que decidiu que as roupas de cama e mesa da casa estavam gastas. Conversou com o marido, o qual, rindo do problema, lhe lembrou de que as Lojas Medeiros e Cia, ali na subida da Guedes Pereira, eram da família: era só ir lá, escolher e mandar entregar. Nem pagar precisava, completou ele, ainda rindo.

Ela foi e... Susto! Quem a atendeu? Sim, ele, Júlio, o mesmo Júlio que, agora que o revia, sabia nunca haver esquecido. Estava mais maduro, porém, formoso como sempre, com sua sensualidade morena, o brilho no olhar, a fala doce e o sorriso encantador. Sem quaisquer referências ao passado, Doralice, embora trêmula e um pouco tonta, desempenhou como pôde o papel de freguesa, e ele, aparentemente muito bem, o papel de atendente. Entre os tecidos mostrados, ela não deixou de notar o anel em sua mão esquerda, visão que não sabia se a acalmava ou se mais a perturbava. Na despedida, trocaram olhares demorados e enigmáticos, talvez – quem sabe? – esperançosos perigosamente esperançosos.

Na noite daquele dia Doralice não conseguiu dormir. E não houve chá de camomila que a acudisse. Então seu ex-amado era empregado de seu esposo! O destino estava maldosamente brincando com ela... E a insônia persistiu por noites e noites.

Notando-a abatida, o marido aconselhou-a a divertir-se um pouco. Ele mesmo não gostava de filmes, mas, a cidade estava cheia de cinemas. O Rex, o Plaza, o Brasil, estavam próximos, e ela podia aproveitar a companhia da amiga vizinha Carlota – por que não?

Assim, numa sexta-feira qualquer Doralice revolveu aceitar os insistentes convites da vizinha Carlota, e foram assistir à primeira sessão noturna do Cinema Filipéia, aquele que ficava ali por trás do Palácio do Governo. Sem prestar atenção ao cartaz, compraram ingresso e viram o filme.

Sem conseguir conter o choro, da primeira à última cena, Doralice saiu do cinema arrasado, bem pior do que já estivera em toda a sua vida. Do modo mais cruel que se possa imaginar, o filme contava a sua história. Havia eventuais diferenças nos enredos, o da tela e o dela, porém, as tristes implicações emocionais eram as mesmas. Não era à toa que o filme se chamasse “Desencanto”.

O fato é que, depois daquela dolorosa sessão no Filipeia, Doralice decidiu: cinema nunca mais!