domingo, 25 de outubro de 2026

O Palhaço, o Filho da Lua e a Floresta: Uma experiência pioneira do teatro infantil em Cajazeiras.

Cleudimar Ferreira 


Recorte: Jornal A União, 1983. Acervo: Cleudimar Ferreira


Na história do teatro em Cajazeiras, o antigo Grupo Cênico Boiada levou ao palco, em 1983, uma história de fantasia, resistência e defesa da natureza, numa experiência que marcou a trajetória do teatro cajazeirense.

Pois bem, nesse ano o teatro de Cajazeiras viveu uma experiência que merece ser recuperada e valorizada pela história cultural da cidade. O Grupo Cênico Boiada, vinculado às atividades do Núcleo de Extensão Cultural da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), Campus V, por meio da Coordenação de Artes Cênicas, realizou aquela que, segundo a memória de seus participantes, foi a primeira experiência de encenação concebida diretamente para o público infantil na cidade.

O espetáculo, intitulado O Palhaço e o Filho da Lua contra o Caçador da Floresta, tinha texto e direção de Marcus Pequeno. A estreia aconteceu no auditório do Colégio Diocesano de Cajazeiras, reunindo jovens atores amadores em torno de uma proposta que buscava aproximar o teatro das crianças, utilizando a fantasia, o humor e a aventura para abordar questões sociais e ambientais.

A realização não se limitou à apresentação inaugural. Depois da estreia, o grupo levou o espetáculo a outros espaços de Cajazeiras, entre eles o Centro Social Urbano (CSU), ampliando o contato com o público infantil. A montagem também chegou a Pombal e a João Pessoa, através da Gincana Cultural Descubra a Paraíba, realizada pelo MOBRAL, levando a experiência teatral produzida no sertão para outros públicos paraibanos.

Uma floresta ameaçada e a união dos oprimidos

A trama apresentava um casal de curumins — indiozinhos interpretados por Aguinaldo Cardozo e Amazonina Cardoso — que vivia em uma floresta habitada por diferentes animais. A tranquilidade daquele ambiente, porém, estava ameaçada pela chegada de um caçador acompanhado de seu cão medroso e sonolento, personagem que, conforme a narrativa, se caracterizava pela covardia.

O caçador pretendia perseguir e eliminar os animais, expulsá-los da mata ou aprisioná-los. A destruição da vida silvestre abriria caminho para a derrubada da floresta e a implantação de um empreendimento agropecuário ligado a interesses econômicos externos.

A história infantil adquiria, assim, uma dimensão que ultrapassava a aventura. Na leitura política presente na concepção do espetáculo, a floresta representava um território ameaçado pela exploração econômica, enquanto seus habitantes simbolizavam aqueles que precisavam unir forças para defender a própria existência.

O confronto entre os personagens podia ser compreendido como uma representação da luta entre opressores e oprimidos. De um lado, o caçador, movido pela intenção de dominar e destruir; do outro, os habitantes da mata, ameaçados de perder seu espaço e seu modo de vida.

É nesse ponto que a presença do palhaço ganha importância. Associado ao humor e à linguagem acessível às crianças, ele se juntava aos curumins e aos animais para enfrentar a ameaça. A resistência deixava de ser uma ação individual e se transformava numa luta coletiva.

No desfecho, a união dos personagens conseguia dominar o caçador e expulsá-lo da floresta. A ameaça era afastada, os animais recuperavam seu espaço e a vida voltava à normalidade. Para o público infantil, a história apresentava uma mensagem de solidariedade: diante de uma ameaça comum, a união pode se tornar uma força capaz de mudar o curso dos acontecimentos.

A criação do espetáculo e seus realizadores

A montagem também representou um exercício de criação coletiva, reunindo diferentes profissionais e artistas na construção de sua linguagem visual e cênica.

O cenário foi produzido por Marcos Pê, responsável por criar o ambiente em que se desenvolveria a ação dramática. Para tornar real essa fantasia Marcos teve que pintar um imenso painel de fundo que representação uma floresta densa e fechada, acrescido adereços que simulavam cipós e outros atrativos de uma mata fechada. O figurino foi concebido e confeccionado por Noemia, esposa de Marcus Pequeno, contribuindo para a caracterização dos personagens e para a composição do universo fantástico da peça.

Além de Aguinaldo Cardozo e Amazonina Cardoso, que interpretavam o casal de curumins, o espetáculo reunia outros integrantes do Grupo Cênico Boiada, entre eles Marcos Pê, Marcos Ramalho, Francisco Lira, Amazonina Cardoso, Aguinaldo Cardozo, Patrícia Albuquerque, Francisco Batista Amaro, Claudimar Ferreira, José Clementino, Josefa Harkley e Wildenir Albuquerque, conforme a relação publicada pelo jornal A União em 1983.

A participação do Núcleo de Extensão Cultural da UFPB, Campus V, situava a experiência no âmbito da aproximação entre a universidade e a comunidade. A extensão universitária possibilitava que conhecimentos, práticas artísticas e experiências de criação circulassem para além dos espaços acadêmicos, alcançando diferentes públicos.

Nesse sentido, levar uma montagem especificamente destinada às crianças aos palcos de Cajazeiras significava ampliar as possibilidades de atuação do teatro local. O público infantil passava a ser considerado não apenas como espectador eventual, mas como destinatário de uma criação artística concebida para suas formas de percepção, imaginação e compreensão do mundo.

O Brasil de 1983: entre a crise política e a busca por novos caminhos culturais

Para compreender melhor o significado daquela experiência, é necessário situá-la no Brasil de 1983. O país ainda vivia sob o regime militar instaurado em 1964. João Figueiredo ocupava a Presidência da República, e o processo de abertura política, iniciado nos anos anteriores, avançava em meio a disputas, limitações institucionais e crescente mobilização da sociedade.

A situação econômica era difícil. A inflação elevada, a recessão, o desemprego e o peso da dívida externa agravavam as condições de vida da população. Ao mesmo tempo, a reorganização dos movimentos sociais e sindicais e o fortalecimento das forças de oposição ampliavam as pressões por mudanças políticas.

Em março de 1983, o deputado Dante de Oliveira apresentou uma proposta de emenda constitucional que pretendia restabelecer as eleições diretas para presidente da República. A campanha das Diretas Já ganharia força nas ruas em 1984, tornando-se uma das maiores mobilizações populares daquele período. Portanto, quando o Grupo Boiada preparava seu espetáculo, o Brasil atravessava uma fase de transição, na qual as demandas por participação política e democratização começavam a ocupar um espaço cada vez mais expressivo.

No campo cultural, também se discutia a necessidade de ampliar e organizar a atuação do poder público. A cultura ainda estava vinculada ao Ministério da Educação e Cultura, e a criação de um ministério próprio somente ocorreria em março de 1985, durante o governo de José Sarney. Os debates que antecederam essa mudança refletiam o interesse crescente de artistas, intelectuais e gestores por políticas culturais mais específicas e por maior reconhecimento da diversidade das manifestações artísticas brasileiras.

Essas transformações não significavam que todas as experiências culturais estivessem diretamente vinculadas à oposição política ou que cada espetáculo constituísse uma manifestação partidária. O cenário, entretanto, ajuda a compreender por que temas como liberdade, desigualdade, exploração e resistência tinham especial relevância naquele período.

O espetáculo do Grupo Cênico Boiada permite uma leitura nesse sentido. Ao apresentar um caçador disposto a destruir a floresta em benefício de interesses econômicos, a narrativa colocava em cena o conflito entre a busca pelo lucro e o direito dos seres ameaçados de permanecer em seu ambiente. A luta dos curumins, do palhaço e dos animais contra o invasor podia ser entendida como uma metáfora da resistência coletiva diante de uma força que pretendia impor sua vontade aos demais.

Essa interpretação ganha ainda mais significado quando se considera a história das políticas de desenvolvimento implantadas durante a ditadura militar, especialmente na Amazônia, onde grandes projetos de infraestrutura, incentivos econômicos e expansão das fronteiras agropecuárias contribuíram para intensificar a ocupação territorial e o desmatamento. Embora a narrativa teatral não deva ser confundida com uma descrição literal de um projeto específico, seu conflito dialogava com preocupações reais sobre a exploração da natureza e os interesses econômicos que orientavam a ocupação de territórios.

O MOBRAL e a Gincana Cultural Descubra a Paraíba

Foi nesse contexto que o Grupo Boiada se preparou para participar da Gincana Cultural Descubra a Paraíba, promovida pelo Movimento Brasileiro de Alfabetização (MOBRAL).

Criado durante o regime militar, o MOBRAL tinha como objetivo central desenvolver ações de alfabetização de jovens e adultos, mas, ao longo de sua trajetória, também passou a promover atividades culturais, comunitárias, esportivas e de lazer. A gincana constituía uma dessas iniciativas, utilizando diferentes modalidades de participação para mobilizar grupos e divulgar manifestações culturais.

Uma matéria publicada em A União, produzida pela sucursal de Cajazeiras, registrou a participação do grupo na competição. Sob o título “Grupo Boiada concorre ao primeiro lugar da gincana”, a notícia informava que o conjunto estava na última fase da disputa, na modalidade de teatro, com o espetáculo O Palhaço e o Filho da Lua contra o Caçador da Floresta.

O jornal relatava que o Boiada havia obtido o primeiro lugar na terceira fase da gincana, realizada em Pombal, com a pontuação máxima. A matéria também informava que o grupo se preparava para a etapa final, prevista para uma segunda-feira, no auditório do Liceu Paraibano, em João Pessoa, a partir das oito horas da manhã, com entrada gratuita para todas as crianças.

A notícia é um documento importante porque registra a circulação de uma produção teatral originada em Cajazeiras e sua participação numa iniciativa de alcance estadual. Mais do que anunciar uma apresentação, o texto jornalístico permite recuperar nomes, espaços, datas aproximadas e etapas de uma trajetória que poderia permanecer restrita à memória dos artistas envolvidos.

O recorte também demonstra que o espetáculo não ficou limitado à estreia. Sua participação na gincana e as apresentações em outras cidades mostram que a montagem percorreu diferentes espaços e encontrou oportunidades para alcançar públicos além de sua comunidade de origem.

É importante, contudo, distinguir o resultado já documentado da etapa realizada em Pombal da classificação final da competição: a matéria comprova a vitória naquela fase, mas não permite afirmar, por si só, que o grupo conquistou o primeiro lugar geral da gincana.

Uma experiência que merece permanecer na memória

A importância de O Palhaço e o Filho da Lua contra o Caçador da Floresta não se resume ao seu argumento nem à participação na Gincana Cultural Descubra a Paraíba. Ela também está no significado de se produzir, em Cajazeiras, uma montagem concebida diretamente para crianças, reunindo dramaturgia, direção, cenário, figurino e interpretação em torno de uma proposta artística específica.

Ao levar o espetáculo a escolas, espaços comunitários e palcos de outras cidades, o Grupo Cênico Boiada contribuiu para ampliar o alcance do teatro produzido no sertão paraibano. A experiência demonstrava que a criação teatral não precisava se limitar aos grandes centros para tratar de questões sociais, mobilizar artistas e estabelecer diálogo com diferentes públicos.

A peça também oferece uma lembrança de como a linguagem infantil pode abordar assuntos complexos sem abandonar a imaginação. A ameaça à floresta, a exploração econômica e o confronto entre forças desiguais apareciam traduzidos em personagens reconhecíveis, numa narrativa em que a solidariedade se tornava condição para a vitória.

Quatro décadas depois, a recuperação dessa história permite olhar para além das lembranças individuais e reconhecer uma parte da trajetória cultural de Cajazeiras. O recorte de A União, somado aos depoimentos dos participantes, ajuda a recompor os acontecimentos e a devolver visibilidade a artistas que, em diferentes funções, contribuíram para a construção do teatro local.

Preservar essa memória é também reconhecer que a história cultural de uma cidade não se faz apenas com grandes edifícios, instituições ou acontecimentos consagrados. Ela se constrói nos ensaios, nas apresentações, nos figurinos, nos cenários, nas viagens e no trabalho de pessoas que acreditaram na possibilidade de fazer arte onde viviam.

Em 1983, o Grupo Cênico Boiada colocou em cena curumins, um palhaço, animais e um caçador. Sob a aparência de uma aventura infantil, apresentou um conflito sobre poder, exploração e resistência. E, ao fazer da união dos personagens o caminho para salvar a floresta, deixou uma mensagem que ultrapassava os limites do palco: a defesa da vida e do espaço coletivo depende da capacidade de agir em conjunto.

Recuperar essa experiência é devolver à história do teatro cajazeirense uma de suas passagens significativas — uma criação que uniu fantasia, reflexão social e o desejo de ampliar os horizontes da arte para as crianças do sertão.

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REFERÊNCIAS:
- Cultura e política: a criação do Ministério da Cultura na redemocratização do Brasil — revista Tempo Social, USP.
- A reabertura política, de 1979 a 1985 — Memórias da Ditadura.
- Situação ruim da economia nos anos 80 favoreceu o movimento das Diretas Já — Agência Câmara.
- Decreto nº 91.144, de 15 de março de 1985 — criação do Ministério da Cultura.
- Os processos de desenvolvimento e desmatamento da Amazônia — Estudos Econômicos. 

segunda-feira, 19 de outubro de 2026

UBIRATAN DI ASSIS e a transformação cultural da AUC dos anos 80

Uma página importante na história do movimento estudantil de Cajazeiras



A história da Associação Universitária de Cajazeiras (AUC) não pode ser compreendida apenas pelos registros administrativos, pelas disputas internas ou pelas dificuldades materiais enfrentadas pela entidade ao longo de sua existência. Até porque a entidade nunca tene um patrimônio físico, tampouco material. Apenas tinha um fichário com perfis de seus associados, muitos preenchidos ainda a caneta esferográfica.

Nesse modelo adaptativo do seu tempo é necessário observar, também, o papel desempenhado por aqueles que procuraram ampliar seus horizontes, atribuindo-lhe novas funções e aproximando-a da vida cultural da cidade. Nesse contexto, destaca-se a atuação de Ubiratan di Assis, (Bira), como era conhecido na época, cuja passagem pela presidência da AUC representou, segundo a memória de sua atuação, um momento de valorização das artes, da produção cultural e da participação dos estudantes na vida intelectual de Cajazeiras.

Três matérias jornalísticas publicadas em A União, preservadas em recortes de jornal, ajudam a compreender o ambiente em que se desenvolveu essa experiência. Embora tratem de assuntos distintos, elas revelam uma associação envolvida em disputas políticas internas, preocupada com sua organização institucional e empenhada em conquistar condições materiais para continuar funcionando. Claro, era regida por jovens preocupados mais em viver seus momentos do que se apegar as coisas materiais. Lidas em conjunto, essas notícias oferecem elementos para situar a gestão de Bira em um período de tensões, mas também de afirmação da identidade da entidade.

acervo: cleudimar ferreira

A primeira matéria, intitulada “A AUC entra com ação contra Ubiratan”, registra o conflito entre o ex-presidente e a direção que o sucedeu. O texto informa que a disputa chegou à esfera judicial e que a legitimidade das decisões tomadas por Bira estava sendo contestada pelos novos dirigentes. A notícia menciona, ainda, a gestão 1978/1979 e a situação de Ubiratan no quadro da associação após 27 de julho de 1979. 

O episódio demonstra que sua saída da presidência não ocorreu sem divergências. Entretanto, é importante distinguir o registro jornalístico dos conflitos da avaliação histórica de sua contribuição. A existência de uma disputa administrativa não apaga, por si só, o trabalho realizado durante uma gestão, assim como as acusações formuladas por adversários não devem ser tomadas, automaticamente, como expressão definitiva dos fatos. Para compreender a importância de Bira, é preciso considerar também aquilo que sua atuação deixou como referência para a história cultural da cidade. 

Essa dimensão aparece de maneira mais direta na segunda matéria, intitulada “Ex-presidente da AUC desfaz as acusações de opositores”. Nela, Ubiratan apresenta sua defesa e contesta as críticas dirigidas à sua administração. Entre os argumentos registrados pelo jornal, afirma que a AUC não deveria se envolver em política partidária, defendendo uma entidade voltada à integração dos estudantes e ao fortalecimento de suas atividades.

acervo: cleudimar ferreira

O texto também registra sua preocupação com o desenvolvimento físico, moral, cultural e social da associação. Bira procura justificar as decisões tomadas durante sua gestão, menciona as dificuldades financeiras e administrativas e defende a necessidade de soluções para os problemas da entidade. A matéria revela, portanto, um dirigente interessado em apresentar publicamente sua versão dos acontecimentos e em preservar a legitimidade do trabalho que havia realizado.

Mais do que uma simples resposta aos adversários, essa declaração permite perceber uma concepção de associação universitária que ultrapassava as tarefas burocráticas. A AUC poderia ser um espaço de encontro, formação, convivência e expressão dos estudantes. E é justamente nesse ponto que ganha importância a contribuição cultural atribuída à gestão de Bira.

Conforme a memória de sua atuação, Ubiratan foi o presidente que mais claramente imprimiu à AUC um caráter cultural, priorizando a realização de eventos artísticos e ampliando a presença da entidade na vida cultural de Cajazeiras. Entre essas iniciativas, merece destaque o Festival Regional da Canção no Sertão, além de exposições de artes, apresentações teatrais e outras manifestações que abriram espaço para a criatividade, a sensibilidade e a participação de artistas e estudantes.

Essas atividades tinham um significado que ia além do entretenimento. Em uma cidade cuja história está profundamente ligada à educação, a uma tradição de formação intelectual e à efervescência dos grupos artísticos, promover festivais, teatro e artes visuais significava oferecer oportunidades de expressão e estimular o contato da comunidade com diferentes linguagens culturais. A AUC, sob essa perspectiva, deixava de ser apenas uma organização representativa dos universitários para atuar também como agente de dinamização cultural.

O Festival Regional da Canção no Sertão, em particular, representa um marco importante nessa lembrança. Um evento dessa natureza podia reunir intérpretes, compositores, músicos e apreciadores da canção, contribuindo para a circulação de ideias e para o reconhecimento de talentos. Ao abrir espaço para a música e para outras manifestações artísticas, a associação ajudava a fortalecer um ambiente em que a juventude não se limitava a acompanhar a cultura produzida em outros lugares, mas também podia participar de sua criação e difusão.

acervo: cleudimar ferreira

A terceira matéria, “Sede de Associação Universitária será construída em breve”, amplia o quadro histórico. A notícia informa que a sede provisória da AUC, instalada em galpões da Rede Ferroviária Cearense alugados pela entidade, havia sido demolida por determinação da administração municipal de Epitácio Leite Rolim, para o alargamento e a continuidade de uma rua. Diante da perda daquele espaço, a associação conseguiu do prefeito a doação de um terreno de 1.600 metros quadrados, onde pretendia construir sua sede própria.

O jornal também menciona os universitários Robson Bastos, diretor de Relações Públicas, e José Moreira Lustosa, vice-presidente, e registra o planejamento de promoções para arrecadar recursos destinados à construção. Entre elas, estava a instalação de uma barraca nas festas natalinas de Cajazeiras, com a venda de comidas, bebidas, artesanato e outros produtos.

Essa notícia revela as dificuldades concretas enfrentadas pela associação para assegurar sua continuidade. A conquista de um terreno e a perspectiva de uma sede própria representavam a busca por estabilidade institucional e por um espaço capaz de abrigar as atividades dos estudantes. Não se deve, contudo, atribuir automaticamente essas iniciativas à gestão de Bira, pois o recorte não estabelece essa relação. Seu valor para a análise está em mostrar o contexto material e organizacional em que a AUC precisava afirmar sua presença.

As três matérias, examinadas em conjunto, revelam uma entidade atravessada por divergências, empenhada em defender sua organização e preocupada em garantir condições para existir. Mas a memória da atuação de Ubiratan di Assis acrescenta a essa história uma dimensão que não se esgota nas disputas registradas nas páginas do jornal: a transformação da associação em espaço de promoção cultural.

É por essa contribuição que Bira merece ser lembrado. Sua importância não reside apenas no fato de ter ocupado a presidência da AUC, mas na marca que deixou ao valorizar a música, o teatro, as artes visuais e os encontros culturais. Enquanto os documentos jornalísticos registram as controvérsias de seu tempo, a memória de suas iniciativas aponta para um legado que precisa ser reconhecido na história cultural de Cajazeiras.

Agora sobre o clima do discurso que propõe a sua volta, resgatar essa trajetória significa compreender que as instituições estudantis também podem desempenhar um papel decisivo na formação cultural de uma cidade. Quando abrem suas portas à arte, criam oportunidades, aproximam pessoas e estimulam a produção de conhecimento e sensibilidade. Foi nessa direção que, segundo a memória de sua gestão, Ubiratan di Assis procurou conduzir a AUC.

Bira, assim, permanece como uma referência de uma época em que a Associação Universitária de Cajazeiras encontrou na cultura uma forma de ampliar sua atuação e de participar mais ativamente da vida da cidade. Uma história que merece ser preservada não apenas como lembrança de um ex-presidente, mas como parte da memória daqueles que fizeram da arte e da cultura instrumentos de encontro, expressão e transformação social.

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domingo, 27 de setembro de 2026

Cajazeiras: uma cidade diante do medo

Rui Leitão



Há noites que o tempo não consegue apagar. Mesmo depois de um século, permanecem vivas na memória de uma cidade, transmitidas de geração em geração como uma história de medo, coragem e resistência.

Amanhã, Cajazeiras rememora uma dessas noites. Completa-se o centenário da invasão da cidade pelo bando de cangaceiros comandado por Sabino Gomes, lugar-tenente de Lampião. Foi uma noite de tiros, incêndios, saques e pavor, mas também de resistência de homens e mulheres que decidiram enfrentar a ameaça que avançava sobre suas casas e suas vidas.

Para marcar os cem anos daquele episódio, a ACAL – Academia Cajazeirense de Artes e Letras, com o apoio da Secretaria de Cultura do Município, reunirá pesquisadores e historiadores no Casarão da Rua Epifânio Sobreira, a partir das 19 horas. Será uma oportunidade para revisitar um dos capítulos mais dramáticos da história de Cajazeiras e devolver às novas gerações a memória de uma cidade que, naquela noite, precisou lutar pela própria sobrevivência.

A programação, organizada pela presidente da ACAL, professora Nadja Claudino, contará com palestras do pesquisador Wesley Rodrigues Dutra, do professor Rigonaldo Pereira e da escritora Fabiana Agra, que fará o lançamento do livro Sabino Gomes: O Carcará de Lampião. Também será exibido o filme O Carcará, baseado na obra literária do escritor Ivan Bichara Sobreira.

O ataque teve grande repercussão na imprensa. O jornal O Nordeste, da Diocese de Fortaleza, foi o primeiro a noticiar o acontecimento. Na edição do dia seguinte, estampou uma manchete que registrava a dimensão do episódio: “A próspera cidade de Cajazeiras, na Paraíba, é atacada pelo grupo de Sabino Gomes”. As primeiras informações chegaram por telegramas enviados de Lavras de Mangabeira. A notícia descrevia uma cidade surpreendida pela chegada dos cangaceiros. O medo, certamente, espalhou-se pelas ruas à medida que os estampidos dos rifles anunciavam a presença do bando.

Por volta das 23 horas, quando o grupo chegou à Rua Sete de Setembro, um estrondo rompeu novamente o silêncio da noite. Uma explosão na Usina de Força e Luz, instalada ao sopé do Açude Grande e dirigida pelo técnico José Sinfrônio, produziu tamanho impacto que os cangaceiros imaginaram estar diante da chegada de reforços policiais. O barulho inesperado contribuiu para o recuo do bando.

Foram mais de cinco horas de pavor. Enquanto os homens resistiam, famílias inteiras procuravam fugir da cidade. Mulheres, crianças e idosos buscavam abrigo nas proximidades, tentando escapar da violência que tomara conta das ruas. E, no meio daquela noite de angústia, Dom Moisés Coelho, bispo da Diocese, permaneceu em oração.

O ataque de Sabino Gomes não foi apenas um episódio da história do cangaço. Foi uma experiência vivida por uma comunidade inteira. Uma cidade que, durante algumas horas, conheceu o medo de perder suas casas, seus familiares, seus bens e a própria tranquilidade. Ao longo do tempo, escritores e pesquisadores registraram diferentes aspectos daquele acontecimento. Cada relato acrescentou uma peça à memória coletiva de Cajazeiras.

Agora, cem anos depois, a ACAL abre novamente essa página da história. Não para cultuar a violência do cangaço, nem para transformar a tragédia em lenda, mas para compreender o que aconteceu e preservar a memória daqueles que viveram aquela noite. Porque o tempo passa, as testemunhas desaparecem, as casas são reconstruídas e as ruas mudam de aparência. Mas uma cidade também é feita das histórias que guarda. Cajazeiras precisa lembrar daquela noite.

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sábado, 26 de setembro de 2026

Reflexões sobre os atentados no Cine Teatro Apolo XI, em Cajazeiras e no Riocentro, no Rio de Janeiro


Imagens do atentado no Riocentro. Fotos: Arquivo Histórico

Na noite de 2 de julho de 1975, o silêncio do Sertão paraibano foi abruptamente quebrado no centro de Cajazeiras. Logo após a exibição do filme Sublime Renúncia, quando o público já havia sido dispersado do auditório do Cine Teatro Apolo XI, o encontro fortuito com uma espécie de bolça escolar deixada debaixo da cadeira habitualmente usada por Dom Zacarias culminou em uma explosão com capacidade de vitimar dois funcionários do cinema.

No caso do parágrafo anterior, o artefato vitimou fatalmente o soldado Altino Saturnino da Silva e o funcionário Manuel Justino Conrado, além de deixar dois feridos. O episódio, que ganhou repercussão nacional, guarda uma ligação profunda e inquietante com outro momento sombrio da história recente do país: a explosão no estacionamento do centro de convenções do Riocentro, no Rio de Janeiro, ocorrida na noite de 30 de abril de 1981 durante as celebrações do Dia do Trabalhador.

Separados por quase seis anos e mais de dois mil quilômetros, os dois atentados desenham uma linha contínua da atuação clandestina da extrema-direita e de setores da linha-dura das Forças Armadas durante a ditadura militar brasileira. Ambas as ações fundamentaram-se em táticas terroristas voltadas a alimentar o clima de ameaça e instabilidade, buscando frear os movimentos de abertura política ou intimidar vozes dissonantes e espaços de resistência.

Além da tensão política, Cajazeiras vivia um período de efervescência cultural e artística marcante, transformando a cidade em um polo de resistência no interior do Nordeste. O teatro local mantinha intensa produção com a montagem de peças de forte teor político-ideológico, impulsionadas pela atuação engajada de grupos como o GRUTAC, METAC e o Grupo CAJÁ.

Esse ambiente era fortalecido pela realização dos Festivais de Poesia, cujos versos e declamações abordavam abertamente os temas da repressão, da censura e do desejo de liberdade, bem como pelo Festival Regional da Canção no Sertão, palco onde compositores e intérpretes utilizavam suas músicas para denunciar e refletir sobre o momento político vivido pelo país.

No caso fluminense, o alvo era um festival de música que reunia milhares de jovens e expressivos nomes da MPB engajados na oposição. No Sertão paraibano, o alvo da bomba era essa própria efervescência política e cultural promovida no espaço físico de um cinema pertencente à igreja de Cajazeiras.

A cidade vivia uma conjuntura sociopolítica singular, marcada pela convivência entre um bispo de perfil tradicionalista, Dom Zacarias Rolim de Moura, e uma marcante presença de padres da ala progressista da Igreja Católica, muitos deles vindo de missões na Itália.

Esses religiosos mantinham forte engajamento em causas sociais e utilizavam com frequência programas discursivos da Rádio Alto Piranhas, emissora da própria diocese, como veículo de formação crítica e apoio aos direitos da população local, o que despertava, talvez, a constante vigilância do aparato de inteligência do regime. 

O vínculo dos padres estrangeiros com a igreja católica cajazeirense foi rompido pela proibição temporária, pela diocese, do espaço radiofônico que muitos usavam na Rádio Alto Piranhas. O recorte de jornal que segue é uma prova desse momento. Ele é parte de uma matéria com o título: “Dom José não vai tomar posição no caso de Cajazeiras”, publicada no Jornal A União da edição de sábado, 24 de maio de 1980, página 5.

Recorte regista o corte dos programas de radio, feitos 
pelos padres italianos na Rádio Alto Piranhas

A logística e as condições operacionais para a realização do atentado no interior do solo paraibano contavam com um terreno amplamente aparelhado pela presença militar. Para se ter uma ideia, Cajazeiras abrigava nesse tempo a guarnição do Tiro de Guerra, composto de um sub tenente, um sargento e um pelotão de cem soldados recrutas que funcionava como ponto de apoio e monitoramento para as agências de segurança do Estado.

Somava-se a isso a recente conclusão dos trechos locais da BR-230, a rodovia Transamazônica, cujas obras de infraestrutura mobilizaram o 1º Batalhão de Engenharia de Construção do Exército. A intensa circulação de comboios e máquinas, a forte presença de contingentes militares e a abundância de artefatos explosivos de demolição colocados à disposição das frentes de engenharia criaram o ambiente ideal de acesso a insumos controlados, permitindo o trânsito e a atuação ostensiva de agentes da repressão sem levantar suspeitas locais.

O paralelismo entre o Sertão e a capital fluminense se consolida de forma contundente também no manejo das investigações e no desfecho reservado a ambos os crimes. No Riocentro, a intenção de explodir o artefato dentro do pavilhão lotado para culpar a esquerda radical desmoronou quando a bomba detonou (para a felicidade dos artistas e do público presente) precocemente no colo do próprio sargento do Exército Guilherme Pereira do Rosário, levando o comando militar a forjar um Inquérito Policial Militar de fachada para acobertar os oficiais envolvidos.

Em Cajazeiras, a colocação do explosivo debaixo do assento do bispo serviu para alimentar especulações, semeando suspeitas e acusações direcionadas ao clero progressista, aos movimentos estudantis da região e políticos de tendência esquerdista – como foi o caso do suplente de senador Bosco Barreto.

Para justificar o cerco aos focos de esquerda atuante na cidade e ao mesmo tempo minimizar a propagação do foca nesse contingente ideológico, buscou-se culpabilidade em tudo, até na inteligência popular. Fogueteiros, eletrotécnicos e pseudo de inventores, passaram ser possíveis mentores do artefato. Mas nada ou quase nada, do aparato militar foi destacado nas investigações e interrogatório que se sucederam.

Passados 51 anos, as apurações sobre o atentado ao Apolo XI foram gradativamente paralisadas e empurradas para o esquecimento institucional, assegurando a impunidade dos verdadeiros responsáveis e confirmando o padrão de acobertamento promovido pelo estado brasileiro no período autoritário e com a inoperância dos governos atuais.

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sexta-feira, 25 de setembro de 2026

Manoel Correia: do Tipi para Cajazeiras

Foto de seu Manoel Correia - Manoel do Tipi. fonte: Internet

Instigado pelas histórias “que ouvi falar” — como costuma dizer a gente quando o tempo já levou os documentos, mas não conseguiu apagar as lembranças —, chega até nós a figura de Manoel Correia do Tipi, natural de Aurora, cidade do Ceará, vizinha a Cajazeiras. Diziam que ele era um engenhoso homem do campo, um rurícola empreendedor, desses que aprendiam a sonhar mesmo vivendo num tempo em que quase tudo era difícil. Por conta disso, tornou-se um homem de “recursos”. As histórias que atravessaram os anos contam que ele possuía muitas terras, criava gado e cavalo de raça.

Dizem que Manoel Correia parecia não se conformar com o seu tempo. Mesmo vivendo no meio do mato, mantinha os olhos e os ouvidos voltados para o que era novidade, para o que havia de moderno. Um exemplo dessas suas investidas foi a compra de um rádio. Num tempo em que transmissão de rádio e o sonho da energia elétrica pareciam coisa distante, quase impossível — coisa que nem existia na cabeça de muitos —, ele já tinha lá no seu sítio, rodeado de serrotes, o seu aparelho de rádio e costumava ouvir a Rádio Nacional. Foi também ouvinte da estreia da Voz do Brasil e acompanhava o noticiário da BBC de Londres para os países de língua portuguesa.

E não ficou só na escuta das novidades. Foi o primeiro a usar um gerador movido a querosene para dar luz à sua casa e, claro, alimentar o seu rádio. Naquela paisagem sertaneja, onde a noite ainda chegava acompanhada daquela escuridão medonha, a luz do gerador devia parecer quase uma pequena revolução. Era como se a modernidade, por uns instantes, tivesse resolvido baixar ali no Tipi. 

Também foi um dos primeiros a ter carro na região: um Ford de capota, ano 1921. Uma verdadeira maravilha da tecnologia para os padrões daquele tempo. Mas ter um automóvel numa terra de estradas tão precárias não era suficiente. Era preciso abrir o caminho por onde ele pudesse rodar. E Manoel Correia fez isso. Para o seu veículo poder sair do sítio até a divisa da Paraíba, ele construiu uma estrada de mais de seis quilômetros, facilitando suas idas e vindas a Cajazeiras, cidade onde cultivava grandes amizades e mantinha seus negócios. 

Assim como Raimundo Ferreira, os seus negócios em Cajazeiras seguiram o mesmo caminho. Pelo que o povo comenta, ele chegou a ter quarteirões inteiros de casas e prédios, espalhados por vários cantos da cidade. Alguns deles ficavam em pontos nobres, como aqueles que pertenciam a outro empresário da terra, José Cavalcanti Primo. 

Mas Manoel Correia também tinha lá as suas manias — e talvez sejam justamente essas coisas que ajudam a deixar uma pessoa mais viva na memória da gente. Era apostador fervoroso do jogo do bicho. Por causa disso, ganhou em Cajazeiras o apelido de “Mané Peru”. Dizem que a alcunha veio porque ele conseguiu “quebrar”, por três vezes, o bancador do jogo na cidade, apostando direto no peru. 

Manoel Correia tinha seus cavalos de campo, tudo puro-sangue escolhido a dedo, que ele tratava como verdadeiras relíquias. Não eram só bicho de criação. Tinham nome, gênio e, de certo modo, um lugar todinho deles na vida do dono. Um cavalo chamado Relâmpago, por exemplo, era montado por Mané Pedro das Braúnas, empregado da sua inteira confiança. Todo final de tarde, o animal era posto pra correr.

Num galope só, ele fazia o percurso do Tipi até Cajazeiras em coisa de uma hora e meia. E era justamente nessa chegada à cidade que se cumpria outro costume de Manoel Correia: sua aposta diária no jogo do bicho, que, naquele tempo, corria às seis da tarde. Contam que ele jamais saía de casa antes das quatro da tarde e, mesmo assim, nunca perdeu o horário de fazer a sua fezinha. 

Talvez houvesse, naquela corrida de fim de tarde do Relâmpago, algo mais do que apressamento. Havia a obrigação com o jogo, é verdade, mas tinha também a cidade esperando, as amizades, os negócios e aquele pequeno costume que se repetia no cair da tarde. Enquanto o cavalo levantava poeira pela estrada entre o Tipi e Cajazeiras, o relógio ia correndo sem barulho em direção às seis. 

E assim, entre terras, gado, cavalo de raça, rádio, luz de gerador, estrada aberta por conta própria, negócios, amizades e as apostas no peru, a figura de Manoel Correia do Tipi foi ficando guardada na memória de quem ouviu contar a sua história.

Hoje, quando esses causos são contados de novo, talvez o que mais fique não seja só a imagem do homem de “recursos”, mas a de alguém que, mesmo vivendo no sertão de um tempo tão difícil, parecia estar sempre uns passos à frente do seu próprio tempo.

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domingo, 20 de setembro de 2026

CANTATA DE INVERNO

by Cleudimar Ferreira



O ronco distante das nuvens boquiabertas, espalhadas no espelho turvo do céu que ameaçava precipitar sobre a manhã daquele dia, nos alegrava e dava força para descer a colina. Meu pai, satisfeito com aquele "climão", pegou a roçadeira e os dois sacos de estopa. Passou por mim, olhou de lado e perguntou:

– Vamos?

Engoli às pressas o resto do café que ainda fumegava na caneca de ágata, agarrei a gaiola com o alçapão e o galo-de-campina, e respondi:

– Vamos!

Saímos na descida sinuosa que moldava nosso caminho em direção ao baixio. Ainda era cedo demais para aquela aventura. Passava pouco das cinco horas daquela manhã e o sol sequer dava sinal de vida, face ao cortinado de nevoeiro baixo que dificultava a visão do percurso, enquanto o tempo chuvoso encobria a terra mergulhada numa penumbra úmida e silenciosa.

Seguimos por aquele caminho encharcado em direção à roça. A cerração nos presenteava com um belo cenário, embora difuso e estranho aos meus olhos, tão diferente dos dias claros que eu estava acostumado a enxergar. Mesmo com a visão embaraçada pela névoa, seguíamos andando por aquele caminho estreito, quase fechado por mata-pasto. Íamos em busca do que naquele plantio tinha de melhor para ofertar e colher.

Quando chegamos, meu pai entrou no escuro verde do milharal, quebrando todas as espigas maduras que alcançava. Era fartura pura! Aproveitei aquele instante em que observava o trabalho do meu pai e desapareci capoeira adentro, carregando a gaiola na mão. Não precisei caminhar muito. Procurei apenas o melhor local para armar o alçapão. A oferta de pássaros naquele lugar era grande, principalmente de galos-de-campina, que pareciam surgir por toda parte aos meus olhos de menino de nove anos.

Ao voltar para o roçado, abri mais os ouvidos para os pesados barulhos dos trovões que ecoavam por trás da Serra do Boqueirão e me embrenhei novamente dentro do plantio de milho, à procura do meu pai. Após alguns minutos de busca, avistei-o mais abaixo, à beira de um pequeno riacho de águas dormidas e mansas, cristalinas e ainda geladas pela chuva torrencial que havia caído na noite anterior. Quando me aproximei, ele arregalou os olhos e foi logo perguntando onde eu estava e o que andava fazendo dentro do capoeiral. Respondi que tinha ido armar o alçapão para pegar pássaros.

Deixamos a beira daquele córrego e seguimos em direção à parte mais alta da roça. Era naquele trecho da roça de milho que ficavam os plantios de melancia, pepino e maxixe. Quando chegamos, encontramos à nossa espera uma das mais belas recompensas que aquela terra podia oferecer. Parei para contemplar, admirado, aquela exposição de frutos frescos, revestidos pelas gotas transparentes do orvalho da manhã. As melancias repousavam entre as ramas verdes, enquanto pepinos e maxixes se espalhavam pelo chão úmido, como se a chuva da noite tivesse renovado a vida de tudo que ali existia.

No plantio de melancia, meu pai começou a percorrer as ramas da fruteira, batendo levemente em cada fruto e escutando atentamente o som que produziam. Procurava a melhor, a mais madura e suculenta que pudesse encontrar entre aquelas ramalheiras. Com a experiência que tinha no cultivo daquela cultura, não demorou muito. Parou diante de uma melancia, bateu mais uma vez na casca e afirmou com segurança:

– Essa tá boa!

Em seguida, puxou da bainha a sua faca de sete polegadas e passou a lâmina na fruta. Quando a dividiu em duas bandas, revelou-se diante dos meus olhos o vermelho intenso e vivo da polpa. 

E assim ele foi fatiando... Fatiando... Até cortar a melancia em pedaços do tamanho certo para serem saboreados. Quando terminou de fracionar o fruto, entregou-me a primeira fatia. Estava fria. Docinha como o mel. Com um sabor que jamais encontrei igual. As lembranças daquele tempo pararam em mim e ficaram quardadas por definitivo – para sempre. Fizeram morada nos meus dias mais lentos, sem nenhuma pressa de partir para o esquecimento de tantos invernos bonitos e maravilhosos que vivi e que agora, folheados de detalhes pelo tempo, ainda me fazem recordar.

Foram muitos os invernos assim, generosos, que passei ao lado do meu pai. Hoje, entreabertos pelas páginas do tempo, eles continuam vivos na memória. E basta o cheiro da terra molhada, o estrondo distante dos trovões ou o vermelho de uma melancia recém-aberta para que eu volte a ser aquele menino de nove anos caminhando, numa manhã de inverno, pelos roçados do sertão.

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sábado, 19 de setembro de 2026

SE CAJAZEIRAS SOUBESSE E RECONHECESSE

por Padre José de Andrade Alves


Como seria a imagem do Padre Inácio Souza Rolim por volta de 1890, criada por IA.

Se Cajazeiras soubesse e reconhecesse que hoje é um dos dias mais marcantes de sua história, por certo estaria em festa sem igual. É que hoje se comemora o dia do seu santo; um daqueles que o foi por ter vivido uma vida longa, toda moldada nas belezas do Evangelho. Mas o Padre Rolim não viveu santidade unicamente por isso. Ele era de uma humildade e simplicidade incomensuráveis. Foi um penitente de nível supra, extremamente comedido à mesa. Como humano que era, tinha manias: a de não comer doces, para não sentir prazer, e a de não comer carnes, para não se sentir forte.

Seu cardápio diário era composto de folhas cozidas, batatas e frutas, em pequenas quantidades, e leite, somente uma meia xícara no café. Viajava a cavalo ou em mulas e, durante o percurso, comia bolachas secas; aliás, não eram bem bolachas, como são as de hoje, mas saquinhos e bolinhos que fazia à clara de ovo, com pouco sal e sem açúcar, conduzidos em bisaco de couro, envoltos em paninhos, em formato de trouxas.

Tinha seu lugar próprio de dormir, não por questão de conforto, mas, exatamente pelo contrário. Tinha o hábito de dormir ora no chão duro, que fazia o piso dos cubículos que ocupava, ora em cima de malas e bancos. Era admirável o castigo que impunha à sua matéria. Quando estendia o corpo sobre o chão duro do seu pequeno quarto, usava como travesseiro dois tijolos, ambos cobertos por um paninho, não como acolchoado, mas como forma de não deixar o couro cabeludo grudar-se naquele desconfortável e dolorido travesseiro improvisado.

Era sempre aberto ao diálogo e gostava de ir ao encontro de grupos, mas não admitia ficar na companhia de uma única pessoa. Apesar de afável a todos e todas, não admitia que mulheres tivessem a ousadia de adentrar a sós em qualquer ambiente em que estivesse. Já perto de morrer, certo dia teve um mal-estar e uma das velhas beatas que lhe dava assistência, achando que tinha de lhe prestar socorro, quase o tomou nos braços como forma de tentar reanimá-lo. O estratagema funcionou, mas, quando o Padre abriu os olhos e viu a cena, repreendeu duramente aquela senhora.

Renúncias? Neste quesito, era demais. Sendo um cultor das ciências de seu tempo, tudo tinha para brilhar e enriquecer. Viveu pobre, morreu pobre e assim o fez, ajudando sempre a quem o procurava. Achava que o maior serviço que se podia prestar era educar. Educava em sala de aula, mas também educava no campo. Tomava seu bisaco, punha a enxada nos ombros e metia-se mato adentro com os escravos para ensinar-lhes a plantar sementes de trigo e outras que não eram comuns às terras sertanejas naquele tempo. Não gostava de queimadas; era de cortar o mato fino das terras baixas e retirá-lo para fora, pois dizia que o fogo agredia a face da terra. Tinha um amor extremado às árvores, tão profundo amor que exigia de quem arrancasse uma árvore plantar duas outras. Vivia ensinando a fazer enxertos de árvores frutíferas.

Era de uma caridade sem igual. Não se contam as vezes que abrigou mendigos em Cajazeiras, alimentando-os em seus colégios. Quando a situação de miséria era mais estável, construía uma casa e abrigava o sem-teto, sem-terra e sem-pão. Fazia isso por amor. Ocorre que tinha nojo de fazer para mostrar que fez. Fazia tudo pelo bem dos outros, mas achava que ninguém deveria gastar tempo em seu benefício. Foi o santo do silêncio. Viveu sua comunhão com Deus sem o menor alarde. Acordava às 4 horas da manhã, fazia suas orações, rezava sua missa matinal e, em seguida, após seu pobre café, tinha um dos três destinos: a sala de aula, o roçado ou as viagens missionárias.

Talvez seja justamente por tudo isso que Cajazeiras tenha motivos para reconhecer neste dia uma das páginas mais marcantes de sua própria história: o homem que educava, que plantava, que cuidava das árvores, que acolhia os pobres, que renunciava às riquezas e que, acima de tudo, viveu sua fé sem alarde. Um homem que fez da própria vida uma lição. E, se Cajazeiras soubesse e reconhecesse verdadeiramente a dimensão dessa história, por certo estaria em festa sem igual.

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