domingo, 8 de fevereiro de 2026

O ISQUEIRO DE SEU TIANTÔNIO

cleudimarferreira



Os momentos e situações, por vezes vexatórios, vividos por meu avô Tiantônio - muitos que presenciei, outros contados por minha avó Baíca mostravam o quanto ele estava exposto a fatos que nem sempre se ajustavam ao seu modo de ser. Às vezes, por um traço quase quixotesco, revelava-se um homem de sensibilidade frágil, entregue de corpo e alma ao seu pedaço de chão, sujeito às fatalidades do ambiente rural e ao comportamento moldado pelo lugar onde vivia.

Se o seu solo era árido e imprevisível, com ele não era diferente: tudo podia acontecer. Por isso, aquele inseparável cigarro de palha fazia parte de seu mundo - uma espécie de calmante para a mente, algo que, ao que parecia, o deixava mais centrado e até reflexivo.

Certo dia, cansado das falhas do artifício, largou o chifrezinho acendedor e seguiu o conselho de seu compadre Antônio Soares, que apareceu matreiro, meio sorrateiro, numa daquelas tardes sertanejas:
- Antói, o que é bom mesmo é um isqueiro que não dá trabalho. O artifício é bom, mas custa a pegar. Compre um isqueiro, homi.

Ao ouvir aquela voz sussurrar em seu ouvido, ele arriscou um olhar de lado: lá estava o velho amigo e compadre Antônio Soares. Sem perder tempo, respondeu:
- Homi, tu chegas parecendo um espírito. E depois... essa ‘bixiga’ sempre acendeu; por que agora não quer acender? Tem que acender, nem que seja na marra.

Antônio Soares mirou os olhos nos do meu avô e insistiu:
- É aquilo que falei... compre um isqueiro e acabe de vez com essa briga com o artifício.
Respondeu Tiantônio:
- E se não der certo? Tem que comprar gasolina, a pedra, o pavio... e, quando a gente vai acender, não dá; é preciso tentar várias vezes e a coisa acaba falhando. Homi, tanto faz um como o outro: tudo é uma ‘bixiga’ que não presta. Bom mesmo é um facho em brasa - duvido não acender.
Antônio Soares respondeu, já encerrando a conversa:
- Mas compre um isqueiro, experimente. Quem sabe dá certo? Comigo deu; há de dar certo com você também.
Tiantônio percebeu a seriedade no apelo do amigo e, numa frase curta, finalizou o diálogo:
- Vou comprar no sábado, na feira.

Esperou o sábado chegar e, nesse dia de feira livre em Cajazeiras, foi à cidade comprar o necessário para o consumo da semana. Andou de bodega em bodega à procura de um isqueiro que melhor se ajustasse ao seu gosto, na certeza de que o objeto facilitaria acender o indispensável espanta-mosquito de suas tardes.

Depois de tanto andar, entrou, já com as pernas cansadas, na mercearia de Zimá Gonçalves. Sentou-se sobre um fardo de cordas, próximo ao balcão, e perguntou a Zimá se vendia isqueiros. Zimá, como costumava fazer com os fregueses, respondeu:
- Seu Antói, aqui tem de tudo! O senhor pode rodar essa cidade todinha atrás de um objeto, mas acaba encontrando é aqui. Aqui tem estoque! Mas o que é que o senhor quer mesmo?
Ele respondeu:
- Um isqueiro, mas que seja bom de verdade.
Zimá replicou:
- Vou vender ao senhor o melhor, o mais vendido e usado por muita gente. É este aqui!

E lhe entregou um isqueiro quadrado, de inox, com detalhes em bronze polido que pareciam ouro, popularmente chamado de “sete lapadas”. Ele se admirou com a beleza do objeto, abriu a tampa do isqueiro e testou se estava funcionando. Fez o teste, e o isqueiro não falhou. Perguntou o preço e, achando-o justo, comprou-o.

Ao final do dia, quando a feira já se desfazia e se via alguns comerciantes desmontando barracas enquanto outros fechavam as portas de suas mercearias, Tiantônio acomodou-se na carroceria da picape Chevrolet 1950 de Maçal Carolino e, pela poeira amarronzada da estrada, seguiu de volta ao Sítio Fuá.

Chegando em casa, o cansaço da viagem não foi impedimento para sua última tarefa do dia. Pegou um pedaço de sabão, um latão e uma cuia, e dirigiu-se à cacimba sulcada no leito do rio Santo Antônio. Depois de tirar o pó da estrada num refrescante banho de cuia, subiu a ladeira dos Baixios dos Soares em direção à sua residência, onde minha avó Baíca o esperava para o jantar. Após a refeição, sentou-se numa rede sempre armada na sala. Ainda ensaiou alguma conversa com a esposa, acomodada numa cadeira ao lado esquerdo da porta de entrada da casa.

Mas o cansaço do dia trouxe os primeiros cochilos daquele fim de sábado. Aí não teve jeito: inclinou o corpo e, estirado na rede, acabou adormecendo. No domingo, acordou cedo, desceu em direção ao rio e buscou as primeiras latas de água para abastecer os dois potes da cozinha. Depois de muitas idas e vindas, encheu os reservatórios, tomou um gole de café com bolo de caco e dirigiu-se à casa de seu Zé Soares, o único barbeiro da localidade.

Quando chegou, já havia vários amigos na fila, esperando a vez de fazer a barba. Cumprimentou a todos com um bom-dia e entrou na conversa. A espera foi longa, e, quando finalmente teve a barba aparada por Zé Soares, já se aproximava do meio-dia. De cara nova, pagou o barbeiro e voltou para casa, pois já estava passando a hora do almoço.

Após o almoço, como de costume, provocado pela necessidade de acomodação gástrica da comida no estômago, viu a sonolência tomar conta dos seus olhos, deitou-se outra vez na rede e adormeceu. Dormiu... e quando despertou, já era por volta das quinze horas da tarde.
Fazia calor no topo da colina onde se situava sua residência. Mas o mormaço do sertão, em sua seara, era compensado pela vista ampla dos baixios de João Ferreira e dos Soares. Pegou uma caixinha com as melhores palhas de milho - as mais finas, já cortadas em formato retangular. Junto dela, trouxe também um pedaço de fumo e sua inseparável faca amolada, e sentou-se num banco em frente à casa.

Olhando para o leste - o “nascente” - como quem procurava um sinal de chuva no firmamento, começou murmurar, a picar o fumo em farelo. E foi picando, picando, até juntar a porção necessária para o cigarro. Abriu a caixinha, escolheu a melhor palha, enrolou o cigarro e lambeu a borda para o fumo ganhar firmeza e a folha de palha lacrar. Com o cigarro pronto, sem mais o que fazer, levou-o à boca e passou a procurar entre as coisas ao seu lado: o fumo de corte, a caixinha das palhas, a faca, o velho fuso com o artifício… e o isqueiro comprado na venda de Zimá Gonçalves.

Ele olhou para o lado esquerdo, depois para o direito, e não encontrou o acendedor. Levantou-se do banco, ficou em pé, tornou a procurar com os olhos, mas nada do isqueiro. Lembrou então que podia tê-lo guardado na mala e gritou:
— Baíca, vê se deixei o isqueiro dentro da mala. Se estiver lá, traga pra mim.

Minha avó, paciente como sempre foi com o esposo, foi até a mala, encontrou o objeto e seguiu para a frente da casa, onde meu avô estava, entregando-lhe o isqueiro. O velho Antônio Ferreira, de posse daquele bonito artefato, levou o cigarro à boca e começou a acioná-lo, tentando acender o bicho. Falhou na primeira tentativa, depois na segunda. A impaciência começou atiçar seu temperamento inesperado, crescendo com a vontade de fumar. Tentou uma terceira vez – e nada do troço pegar fogo.

Com cigarro preso em uma das extremidades da boca, passou a olhar o isqueiro, examinando. Balançou, conferiu se era falta de gasolina, mas viu que estava todo correto. Tentou pela quarta vez acender o seu cigarro, mas o isqueiro não funcionou. Aí o juízo foi embora. Perdeu o controle de sua paciência e começou a chamar todo tipo de nome apócrifo com o objeto. 

Irritado, tomado de raiva, agarrou uma marreta que estava junto a uma pedra ao lado do banco, colocou o isqueiro sobre a pedra e desceu o braço. Começou a golpeá-lo sem dó, amassando por completo, sem piedade. Bateu tanto que o objeto foi se afinando até parecer uma lâmina de barbear. A cada marretada, soltava uma palavra feia, como se descarregasse no isqueiro a raiva represada.

Minha avó, ouvindo a estripulia, saiu apressada da cozinha e correu até onde o marido estava. Chegou aflita e perguntou o que estava acontecendo. Meu avô, ainda tomado de irritação, respondeu:
- É essa desgraça que tá tirando meu juízo. Mas também, olhe o que eu fiz com ele!
E mostrou o isqueiro todo arrebentado na palma da mão. Vó Baíca se assustou com tamanha grosseria, foi logo dizendo:
- Mas, home, por que foi fazer isso? Tu acabaste de comprar esse objeto. Nem tinha usado direito e já destruiu o bicho. Pra que foi gastar dinheiro com isso, se tu nem sabes usar.
Seu Antônio Ferreira respondeu à esposa, ainda contrariado:
- Deixe de conversa e me traga o fuso e o artifício. Isqueiro eu não quero nem saber mais. Além de caro, não presta, não vale nada. Bom mesmo é o artifício. Com ele eu não preciso comprar nada. Basta um capucho de algodão, um pedaço de ferro e uma pedra. A gente bate o ferro na pedra, a faísca pula e já vai pegando na lã de algodão. Assim, ó… assim, ó… tá vendo a fumaça aparecendo? Agora é só assoprar devagarinho e o fogo vai pegando, surgindo.

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terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

TUDO POR NADA - Um Conto da Vida Real

cleudimarferreira



Para Marcus, aquela tarde não parecia diferente das demais. Dizia ele: Havia pardais a contemplar o início de verão com seus cantos apelativos e contundentes sons de melancolia. Talvez, por que já anunciavam o começo da noite - para eles, pois para mim, ainda era cedo o bastante para se ver as nuvens branquinhas acomodadas no infinito azul do céu. Mas aquele coração sem perdão e duro preenchia nosso ambiente de solidão, faltava amor por parte dela. Quanto a mim, derretia de paixões e eu chorava por dentro como se fosse uma vida que queria nascer mais por ironia do destino algo o bloqueava, não deixando ressurgir.

Guardava para ela naquela tarde tantas canções. Abria o meu peito repleto de amoras, derramava meus sentimentos em cada olhar suspeito e desconfiado que assolasse a sua áurea pálida. Como era boba a minha louca paixão. Porém nem apenas um olhar; palavras, ou algo parecido, não sinalizava ser a recíproca dela. Sinal evidente da sua falta de percepção e consideração a um homem transbordado de sentimentos.

E aquela paisagem, naquele filme de amor exibido na minha vácua e tão resumida agenda diária naquele dia, era apenas um vazio sem muita importância que me destruía por dentro. E sem saber esquecer as torturas dos dias passados, andava de um canto para outro num espaço insinuoso das horas, buscando apenas rever os conteúdos que seriam aplicados em sala de aula do dia seguinte.

Porém, não quer dizer que a ociosidade era fator que me fizesse ficar acomodado durante as últimas horas que restava para o dia acabar. Talvez um irônico convite para sair, seja para fazer um programinha na padaria, seja para ir mais longe - quem sabe viajar para os quatros contos do meu quarto, fechar os olhos e não acordar mais. Seja para onde for eu estaria pronto para decolar. O que importava era fugir das águas daquele mar turbulento em que naufragava o meu coração.

Se o nosso relacionamento não estava lá àquelas coisas! Pois havia ligações trocados entre nós, perguntas sem respostas, cobranças não cumpridas e algo mais, arranhado meu coração, Pulsava ainda mais de forma letárgico o nosso já abalado e moribundo casamento. Uma relação indiferente, aleia a qualquer possibilidade de aproximação, numa obscura noite que não brilhava mais, onde as palavras alimentavam um ditado desencadeante, que cada vez dizia não, para uma possível retomada.

E foi partindo desse pressuposto, que ela, sem que eu esperasse, pois foi para mim uma surpresa, me convidou para ir até a cidade de Cabedelo. Ela ia entregar um documento da justiça a Secretaria de Educação, e como ela estava acuada, pois eu havia cobrado dela mais explicações para tantas saídas e chagadas tardes em casa, sem haver necessidade para tanto, se sentindo, quase obrigada, resolveu me chamar para ir juntos àquela cidade. Desconfiado e cauteloso aceitei convite, e assim partimos, pegamos um ônibus dos Bancários a Epitácio Pessoa.

Chegando lá, ficamos parados em uma guarita, a espera de uma condução que nos levasse até aquela cidade. Durante o tempo que ficamos a espera um ônibus, ela e eu em nenhum momento olhamos um para o outro e nem tão pouco uma palavra se quer saiu de nossas bocas. O Silêncio entre nós era absoluto; apesar do barulho que uma cidade ainda acordada produz, principalmente durante uma tarde. Não ficamos mais do que trinta minutos naquela parada, pois a tão esperada condução, finalmente apareceu e assim entramos e seguimos viagem para aquela cidade.

Dentro do ônibus, sem nenhuma graça que pudesse justificar o convite, ela ficou calada e com um semblante que norteava bastante ira, raiva, ou algo parecido. Eu preocupado e sem saída, fiquei sem jeito procurando um momento, uma brecha, que facilitasse, e me desse espaço para conversar com ela. Foi quando já tenso e sem jeito, olhei para ela. Ela se vira para mim com ar de quem o seu silêncio havia sido violado, pergunta de forma brusca:
- O que foi, por que está me olhando.
Eu respondo:
- Nada! eu não posso olhar para você não.
Ela olhando para mim como um raios-x de desprezo, responde:
- É não Marcus... já não basta tudo que você fez, agora eu vou ter que toda vez que sair de casa, sair também com você!?
Eu Olhando para ela, disse:
- E o quer que tem, nós somos casados! Você não é minha esposa.
Direta e contundente, usando a gíria “cara” ela respondeu:
- Não tem nada haver cara!
Eu respondo dizendo:
Tem sim. Você é minha esposa, e toda esposa tem prazer de sair com seu marido, tem o prazer de ter ele junto dela, todas gostas de apresentar para as amigas e amigos. Não é assim!?
- Ela replicou:
- Depende do marido.
E murmurando respondeu quase calada:
- Agora deu...
- Marcus ouvindo, respondeu:
- Agora deu por que!?
E ela continua...
- Não tem nada haver eu sair com você, cara. Agora eu vou ter que pagar “mico” com você no meu lado? Eu ei!...

Depois dessa afirmação, ela começa a soltar todo o verbo armazenado, e paulatinamente iniciou-se a desforra labial.
- Marcus põe uma coisa na sua cabeça, você tem que seguir o seu caminho, me deixe em paz, vá seguir a sua vida e me deixe viver a minha. Você tem que cuidar da sua vida. Você não pode esperar a vida inteira por mim, esse tempo já acabou. Não há mais espaço entre nós para continuarmos juntos.

Eu com o coração já dilacerado, pergunto mais uma vez.
- E é assim...
Ela responde:
- É... Marcos, não há espaço para agente continuar juntos, põe isso na sua cabeça. Eu preciso viver a minha vida. Você me sufoca.

Ouvindo aquelas palavras, fiquei em um momento calado, com um animal acuado sem saída. Como já se aproximava da cidade de Cabedelo e já havia qualquer impossibilidade de um entendimento. Abracei o silêncio e em alguns segundos me senti fora de si, e quando voltei ao normal, ouvi ela dizer:
- É aqui!

Descemos do ônibus. Ela na frente e eu atrás seguimos em direção a Secretaria de Educação daquela cidade. Durante o trajeto até aquela repartição não houve mais praticamente espaço para conversa e só o silêncio inanimado prevaleceu.
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sábado, 31 de janeiro de 2026

Ecos da Passagem do Cangaceiro Luiz Padre por Cajazeiras

cleudimarferreira 

Cangaceiro Luiz Padre - fonte: Cangaço na Literatura

O sertão guarda a memória de um jeito diferente dos livros. Ele não arquiva - ele espalha. Um acontecimento vira poeira em cordel ou no repente de um tocador de viola, depois conversa de alpendre, depois linha de jornal, e por fim se mistura ao vento que varre os terreiros nas noites de assombrações, guiada pela lua cheia clareando os lugares mais distantes do Nordeste. Assim ficou registrada a passagem de Luiz Padre por Cajazeiras, no ano de 1919: metade registrada em tinta, metade soprada na lembrança do povo.

Antes mesmo de seus passos alcançarem a Paraíba, seu nome já corria de boca em boca pelas folhas dos jornais cearenses. Bandido, facínora, terror dos sertões - os títulos vinham sempre carregados, como se cada palavra fosse também uma sentença. O sertão, que já vivia sob o peso das secas, da fome e do flagelo, ganhava agora o peso das manchetes. E manchete, naquele tempo, era coisa séria: moldava medo, criava vultos, transformava homens em presságios.

Luiz Padre surgia nas notícias envolto em dramas de honra e desavenças de sangue. Coisa comum nos sertões nordestinos do seu tempo. Falava-se que tudo começara com uma mulher - de sua Amásia, que se afastara enquanto ele andava em suas andanças perigosas. de sedução, de abandono, de vingança atravessando fronteiras de estados. Diziam que houve sedução, abandono, fuga com outro homem. O que era vida privada tornava-se narrativa pública.

Pauta assim, no sertão de então, não era apenas assunto de coração. Era uma questão de honra, e honra, naquele tempo, era coisa que se levava com gesto extreme. O sertão, que sempre resolvera seus conflitos no campo da palavra empenhada ou do rifle engatilhado, via agora seus dilemas expostos na vitrine da imprensa. Quando Luiz Padre reaparece na narrativa dos jornais, já não é apenas amante traído ou homem em conflito - é um cangaceiro em movimento, trazendo consigo homens armados, carregando no peito um misto de vingança e destino.

Cajazeiras, na noite de 24 de agosto de 1919, entrou nessa história não por escolha, mas por circunstância de quem entra num redemoinho sem ter pedido. A fazenda Cipó, ligada ao nome de Osório Bezerra, por certo um homem de bem, talvez um coronel, boa gente, virou um cenário descrito em tons de tragédia. Os jornais falavam em ataques, com fúria, espancamentos, incêndios, destruição de depósitos de algodão, cercas queimadas, gritos rompendo a madrugada. Falavam até de mutilação de corpos - crueldade que fazia o leitor da capital arregalar os olhos e apertar o papel entre os dedos.

Mas o sertão sabe que notícia tem lado e tem carimbo. Cada jornal defendia sua cor e trazia também sua rixa política, sua intenção escondida. Uns acusavam o governo de inércia. Alguns achava que era pusilânime ao extremo, outros falavam em exploração política do banditismo. Havia quem dissesse que autoridades protegiam cangaceiros; havia quem jurasse que tudo não passava de exagero da oposição. No meio disso, a verdade caminhava de sandália gasta, sem conseguir acompanhar a velocidade das versões.

Enquanto isso, telegramas cruzavam distâncias, destacamentos eram prometidos, tropas se moviam mais no discurso que na estrada. O nome de Luiz Padre crescia nas colunas como se fosse maior que o próprio homem. Virava símbolo de desordem, prova de falha administrativa, argumento de deputado em tribuna. O cangaceiro deixava de ser só pessoa: tornava-se personagem de um debate que misturava segurança, poder e disputa política.

Mas longe das capitais, o povo via de outro jeito. Para quem morava em sítio e vila, o que importava não era o jogo político - era o barulho de cascos na estrada, o rumor de homens armados, o medo de ter a porta batida à noite. O sertanejo media a história não pelo discurso, mas pelo impacto na própria vida. Uma cerca queimada era mais real que qualquer editorial inflamado.

E ainda assim, mesmo em meio ao medo, havia o olhar curioso. O cangaço, no fundo, sempre carregou essa ambiguidade: condenação e fascínio. Era violência, mas também era mito em formação. Cada narrativa aumentava um detalhe, cada relato acrescentava uma sombra. Quando se dava conta, o homem já virara lenda.

Luiz Padre passou por Cajazeiras num tempo em que o sertão vivia entre a escassez e a honra. Sua passagem não foi desfile nem conquista - foi rastro. Rastro de conflito humano, de paixões mal resolvidas, de um sistema onde a justiça oficial chegava tarde e a justiça pessoal chegava armada.

Hoje, ao reler aquelas notícias de 1919, amareladas pelo tempo, percebe-se algo curioso: os jornais falavam muito de governo, de culpa, de providências, mas pouco falavam do silêncio que ficava depois. E o silêncio é onde o sertão realmente guarda suas histórias.

Porque, passado o alvoroço, a cidade de Cajazeiras daquele tempo, retomou depois à rotina. O algodão tornou a ser colhido, as feiras tornaram a encher, as conversas mudaram de assunto. Mas a memória ficou - não como data exata, e sim como sensação. Uma lembrança de que, num certo ano distante, o nome de um homem cruzou a cidade como nuvem carregada.

O sertão não mede o passado em calendários. Mede em marcas. E a marca de Luiz Padre não foi só de violência, mas de um tempo em que notícia, política e destino humano se misturavam como poeira na estrada. Talvez, no fim, reste isso: a certeza de que todo cangaceiro é também criatura de seu tempo. E todo tempo precisa de histórias para se explicar.

Cajazeiras, com seu jeito quieto de guardar memórias, ainda conserva essa - não como glória, não como lamento, mas como parte do grande mosaico sertanejo onde homens passam e narrativas ficam. E assim Luiz Padre permanece: entre o homem que existiu e o personagem que os jornais ajudaram a criar. Nem totalmente fato, nem totalmente lenda. Apenas mais um nome que o sertão aprendeu a lembrar do seu próprio modo.

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quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

Nos Seus 41 Anos o Teatro Ica tem Programação Especial

 

O Teatro Íracles Pires (Teatro Ica) - um dos teatros mais importantes do Nordeste está comemorando 41 anos e terá programação especial neste final de semana, ou seja, quinta e sexta-feira, dias 23 e 24 deste mês de janeiro. O Ica, na cidade de Cajazeiras, no Sertão da Paraíba, contará com agenda gratuita de dança e teatro.

Na sexta-feira, dia 23, ‘O baile dos cangaceiros’ será apresentado pela Cia de Danças Populares Pisada do Sertão (criada em 2004, na cidade de Poço de José de Moura-PB), a partir das 19h. Essa apresentação de xaxado tem patrocínio do Banco do Nordeste Cultural Sousa.

Já no sábado, dia 24, às 19h30, a atração é ‘Oh! Terrinha Boa’, da Cia Arco Íris (criada em 1985). Em cena, Jucinério Félix Filho e José Ricardo Lacerda interpretam Zé do Vale e Maria Calado. Essa comédia - reconhecida como Patrimônio Cultural Imaterial da Paraíba - é sobre temas sociais como a luta agrária, o êxodo rural e a religiosidade. Essa apresentação teatral tem patrocínio da Secretaria de Estado de Cultura (Secult).

Ramificação da Funesc em Cajazeiras, o teatro da cidade leva o nome de Íracles Pires, artista com grande atuação nos movimentos culturais do Sertão até meados dos anos 1970. Inaugurado em 26 de janeiro de 1985, o ICA conta com 240 lugares na plateia e duas salas vips com 19 lugares cada uma. Um total de 278 lugares.




domingo, 4 de janeiro de 2026

CONVERSAS DE CINE ÉDEN. Sublime Renúncia: A Sombra e a Luz na Última Sessão

cleudimarferreira


Antigas intalações do Cine Teatro Éden, hoje transformadas em apartamentos

Dizem que o destino é como uma estrada de traçado indefinido que, de qualquer jeito, nos lançará ao encontro do porto onde a vida nos espera. Um inevitável caminho de incertezas abstrato, que não sabemos a que lugar vai nos levar; mas o percorremos e fatalmente o cumprimos sem poder evitar o seu percurso, e encaramos de frente os seus desdobramentos.

Na minha peregrinação nos anos 70 pelas salas de cinema que haviam em Cajazeiras, fiz a do Cine Apolo XI o meu marco temporal. Não por achar que essa sala fosse o brotinho de olhos verdes da cidade que todo rapazinho dessa época queria cortejar; era porque ali estavam todas as minhas possibilidades de estar junto dessa magia chamada cinema. Eu gostava da sua ambientação e, é claro, havia nela um tal Cícero Alves - um amigo escudeiro que sempre facilitava o meu ingresso, de graça, nas sessões; permitindo que eu assistisse aos filmes, sem pagar nada, no dia que eu quisesse.

Com essa oportunidade conquistada, eu passei a ter uma presença imperativa nas sessões do Cine Apolo XI e, todos as noites, eu estava lá; mesmo que o clima fosse de sol ou chuva. Podiam até acontecer tremores naquela região da cidade onde cinema estava fincado; eu estaria lá, pronto para juntar seus tijolos se o prédio do cinema viesse cair. Toda essa dedicação, essa obsessão, juntou-se com a minha paixão e a necessidade de sobrevivência numa cidade em que, tirando as aulas no Colégio Estadual, o que restava como lazer e diversão era a vivência diária nas dependências daquele cinema de rua.

E foi nesse cinema, em 2 de julho de 1975, que o destino não conspirou contra mim e resolveu intervir em silêncio, à sua maneira, a meu favor, preservando o que temos de mais precioso: a vida. Era uma noite sertaneja, com céu estrelado e a lua ponteando vagarosamente por entre as noves de um final de inverno em Cajazeiras. Dentro do Cine Teatro Éden, os projetores rodavam o filme ‘Ikiru’ (Viver), do diretor japonês Akira Kurosawa. Já no Cine Teatro Apolo XI, que para mim não era apenas um lugar de exibição, mas um hábito do meu corpo; um gesto da minha alma, passava por dentro da janelinha o foco em direção a tela, levando as imagens do filme Max et les ferrailleurs’ (ou seja, Sublime Renúncia), uma produção franco-italiana dirigida por Claude Sautet.

No Cine Apolo XI, o dia 2 de julho foi destacado como uma noite de estreia e o filme em cartaz, ‘Sublime Renúncia’, provavelmente tenha recebido um bom público. Sendo a sessão marcada por uma estreia, tanto eu quanto o Senhor Bispo Diocesano - mesmo o religioso sendo uma pessoa pública e eu não - éramos figurinhas carimbadas que jamais faltariam a uma avant-première nesse cinema. Mas, nessa noite, o bispo não foi e eu também não. Segundo a oralidade cajazeirense, uma viagem a Recife teria sido o motivo que levou o bispo a não comparecer ao auditório do Cine Apolo para não ver ‘Sublime Renúncia’; informação sobre qual ainda não se têm registro concessório.

Da minha parte, houve motivos, sim, e muitos. Lembro-me, como se fosse um daqueles filmes que você assistiu e que, de tão bom, não esqueceu nunca, que meu pai chegou para mim nessa noite de 2 julho e falou assim: - hoje você não vai para o cinema. E continuou falando aquelas palavras que eu não queria ouvir jamais: - Você vai ficar em casa, na Bodega, pois vou com sua mãe para o hospital; parece que ela começou a sentir as dores do parto.

Dores que se apresentavam ainda imprecisas, mas suficientes para mudar o curso desse dia; da minha vida e da minha história afetuosa com os cinemas da cidade, principalmente com relação ao Cine Apolo XI. Parecia que minha irmã caçula, Elizangela, que se preparava para nascer, anunciava sua chegada definitiva justamente para mudar o meu destino naquela noite de estreia de ‘Sublime Renúncia’.

Enquanto meu pai e minha mãe seguiam para o hospital, restou-me o balcão da bodega e a monotonia das prateleiras; um cenário que contrastava com a grandiosidade que eu imaginava haver nas imagens de Sublime Renúncia. O que eu não sabia, naquele momento de isolamento na Rua Dom Mouzinho, era que o destino não estava apenas me privando de ver um filme, mas me protegendo de algo que marcaria a minha vida para sempre.

Entre o peso das contrações que minha mãe sofria e o silêncio daquela noite sem o cinema, fiquei tomando conta da bodega, observando a rua como quem olha o mundo por uma fresta. O tempo se arrastava e cada minuto parecia maior que o anterior. Havia em mim um desconforto, uma ausência, como se uma parte do meu corpo estivesse sentada numa cadeira de ‘cimo’, em um ambiente escuro, aguardando que o projetor acordasse a tela.

A explosão da bomba ecoaria em breve, transformando a ‘rentrée’ de Sublime Renuncia - pós férias de meio de ano - em um cenário de horror para uma cidade sonolenta, acostumada com a tranquilidade do dia-a-dia. E veio o barulhão infernal que eu nunca havia ouvido antes. Pessoas da minha rua, naquela noite, saíram assustadas às suas calçadas perguntando umas às outras o que havia acontecido no centro da cidade. Dentro de mim, formou-se um silêncio estranho; um cálculo involuntário; uma sequência de interrogações, de ‘ses’, que não pediam respostas. E se eu tivesse ido? E se meu pai não tivesse a bodega? E se minha mãe não estivesse em trabalho de parto.

Os atores Romy Schneide e Michel Piccoli em duas cenas do filme Sublime Renúncia

A minha quase rotina estabelecida no Cine Apolo XI era compartilhada com Geraldo Galvão. Mas, nem eu nem Geraldo éramos funcionários daquele cinema; éramos apenas voluntários que, interessados em alguns privilégios - ou seja, em assistir a filmes de graça - ajudávamos os funcionários do cinema prestando pequenos serviços. No meu caso, eu ajudava Cícero Alves na divulgação; e Geraldo Galvão auxiliava Geraldo Conrado na parte operacional da cabine de projeção. 

Depois que a única sessão terminava e o cinema se esvaziava, era costume nosso percorrer as fileiras de cadeiras longarinas como quem vasculha ruínas recentes, à procura de pertences deixados, dinheiros caídos, bombons, chicletes, restos mínimos da distração alheia. Se eu tivesse ido ao cinema naquele dia, teria estado ao lado de Galvão, dividindo com ele essa última atividade no cinema; envolvido nessa procura inocento, distraído no exato momento em que a pasta foi encontrada debaixo do assento da cadeira onde o bispo costumava ver seus filmes - e talvez o destino, em vez de observador tardio, me tivesse feito testemunha direta da tragédia. 

Na mais real de todas as situações, a bomba explodiu e seu estampido ecoou nos ouvidos da população que, já sonolenta, se preparava para se despedir daquele dia. Sem pedir licença, um cenário de horror foi instalado, transformando o dia da estreia ‘Sublime Renuncia’ numa cena do mais perfeito filme de terror. A notícia chegou rápido no balcão de bodega, como toda informação ruim, com todas coisas graves que a fatalidade nos traz de surpresa. Eu ouvido os furos das duas emissoras de rádio local, respirava fundo como se estivesse escapado de algo grave.

Enquanto no cinema; a exclusiva cadeira do bispo e o lugar onde eu possivelmente estaria – parte de sua estrutura era abalado por uma bomba-relógio, com o seu hall tomado pelo medo, pela tenção em meios aos restos de cartazes usados como maca para conduzir feridos até o Hospital Regional de Cajazeiras - a minha irmã nascia; chegava ao mundo a pouco metros dali, nas primeiras horas do dia 3 de julho. Era uma vida abrindo os olhos e, de um lado, a destruição rasgando o outro. Em outras palavras: dois acontecimentos separados por poucas horas, unidos pelo mesmo cordão invisível.

Se minha mãe não tivesse entrado em trabalho de parto, eu estaria nesse cinema e nada impediria. Mesmo que a noite, naquele dia 2 de julho, fosse de lua cheia e as nuvens escuras no céu fizesse os cachorros uivarem ou a chuva repentina aparecesse do nada; eu estaria no Cine Apolo XI, inteiro, distraído, entregue.

A partir daquele dia, o Cine Apolo XI passou a ser também o lugar onde eu quase estive. O cinema que me formou guardava agora essa sombra: a certeza de que, por um desvio mínimo, eu poderia ter sido apenas mais um corpo assustado, ou pior, uma ausência definitiva. Talvez o destino não seja uma estrada reta; talvez seja um pequeno atraso. Um ‘hoje não’; um pedido simples: fique em casa. E é nesse quase nada que a vida, às vezes, se salva.

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terça-feira, 30 de dezembro de 2025

Esperança Está Morta

Francc Neto



Dizer “ESPERANÇA ESTÁ MORTA” não soa, aqui, como provocação nem como frase de impacto. Soa como um reconhecimento tardio, quase cansado, de algo que já vinha se esgarçando. Do mesmo modo que, quando Friedrich Nietzsche afirmou que Deus estava morto, ele não anunciou um acontecimento pontual, mas nomeou um estado de coisas: um mundo que continuava funcionando com categorias cujo fundamento já havia ruído. A esperança, hoje, ocupa um lugar análogo. Ela ainda circula, ainda é evocada, mas perdeu densidade ontológica. Funciona mais como retórica de sobrevivência do que como força real.

É nesse ponto que Albert Camus se torna decisivo. Em O Mito de Sísifo, Camus parte de uma constatação simples e devastadora: o mundo não responde. Não responde às perguntas últimas, não responde ao sofrimento, não responde à exigência humana de sentido. A esperança, quando aparece, surge como tentativa de fechar esse silêncio com uma promessa - religiosa, metafísica ou histórica. Camus chama isso de “suicídio filosófico”: não matar o corpo, mas matar a lucidez. É por isso que ele recusa a esperança como saída. Não porque defenda o desespero, mas porque recusa a mentira.

A vida, em Camus, não se justifica por um amanhã melhor. Ela se sustenta na permanência do conflito. Viver é aceitar que não há garantia, e ainda assim continuar. Quando ele escreve que é preciso imaginar Sísifo feliz, não está propondo um consolo poético, mas uma ética dura: a felicidade possível é aquela que nasce da consciência plena da repetição, da queda inevitável da pedra, da ausência de redenção. Não há progresso, não há acúmulo, não há saldo final. Há apenas o gesto reiterado, assumido sem ilusão. A esperança, nesse cenário, não apenas morreu - ela se tornou desnecessária.

Walter Benjamin, por outro lado, não abandona a palavra “esperança” com a mesma secura. Ele a desloca até quase torná-la impronunciável. Nas Teses Sobre o Conceito de História, Benjamin escreve contra a ideia de progresso com uma violência rara. O futuro, quando elevado a promessa, não salva: ele absolve a catástrofe. Cada passo dado em nome do “avanço” deixa atrás de si uma pilha de ruínas. A história, vista do ponto de vista dos vencedores, transforma o desastre em etapa necessária. É contra isso que Benjamin pensa.

A imagem do Angelus Novus, de Paul Klee, condensa essa posição. O anjo olha para trás e vê apenas destroços; gostaria de deter-se, de recompor, de acordar os mortos. Mas uma tempestade - chamada progresso - a empurra para o futuro. Aqui, a esperança deixa de ser promessa e se torna dívida. Não uma esperança para os vivos que aguardam melhorias, mas uma esperança mínima, quase negativa, dirigida aos que já não podem esperar. Benjamin chega a dizer que a esperança só nos é dada por causa daqueles que não têm esperança. Não se trata de consolar, mas de não consentir com o esquecimento.

Entre Camus e Benjamin, o ponto de contato não é pequeno. Ambos rejeitam a esperança como anestesia histórica. Ambos recusam a ideia de que o tempo, por si só, redime. A diferença está no gesto final. Camus permanece no presente, no corpo que age sem horizonte, numa ética da permanência sem promessa. Benjamin, ao contrário, interrompe o presente em nome do passado, exigindo que cada agora carregue consigo a responsabilidade pelos vencidos.

Dizer hoje “esperança está morta” pode soar, então, como um gesto duplo. Camus ouviria nisso a possibilidade de uma vida mais honesta, menos dependente de ilusões futuras, mais atenta ao peso real do existir. Benjamin ouviria a denúncia de uma esperança fraudulenta - aquela que, ao prometer o amanhã, autoriza o massacre de hoje. Em ambos os casos, não se trata de niilismo, mas de gravidade.

Talvez o ponto mais incômodo seja este: quando a esperança morre, não ficamos livres. Ficamos responsáveis. Sem Deus, sem progresso, sem promessa, resta o gesto nu - viver, lembrar, agir - sabendo que nada garante sentido a posteriori. Não há porto, não há mapa, não há redenção. Apenas a travessia, carregando consigo, como peso e não como consolo, aquilo que não pode mais ser salvo.

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A poética do amor atemporal em Chico Buarque

Rui Leitão


São músicas como Futuros Amantes que fazem Chico Buarque ser considerado um gênio. A letra, construída como um poema belíssimo, fala do amor como algo eterno, perene, transcendental. Mesmo quando não é correspondido, o amor permanece para sempre e, quem sabe, um dia — ainda que milênios depois — poderá ser vivido por outras pessoas. Por isso, é atemporal. A canção data de 1993 e integra o álbum Paratodos.

“Não se afobe, não / Que nada é pra já / O amor não tem pressa”. Chico começa aí a diferenciar o amor da paixão. A paixão é imediata, exige urgência, não sabe esperar. O amor, ao contrário, é paciente, resiste a tudo, inclusive ao tempo. Não adianta afobação: ele é sereno e perdura pela eternidade. A paixão relaciona-se ao desejo carnal; o amor, aos sentimentos da alma.

“Ele pode esperar em silêncio / Num fundo de armário / Na posta-restante / Milênios, milênios / No ar”. Os amores, mesmo não correspondidos ou não vividos em sua plenitude, não conseguem morrer. Perpetuam-se, ficam guardados, à espera de que, no futuro, possam ser utilizados. Sua realização pode ser adiada, mas permanecem vivos por milênios, enquanto não consumidos.

“E quem sabe, então / O Rio será / Alguma cidade submersa”. O compositor imagina o Rio de Janeiro, em tempos futuros, como uma cidade submersa, à semelhança da Atlântida, o continente perdido. Seus registros históricos ficariam debaixo d’água, intactos, preservados, à espera de pesquisadores dispostos a conhecer uma civilização desaparecida.

“Os escafandristas virão / Explorar sua casa / Seu quarto, suas coisas / Sua alma, desvãos”. A cidade isolada e mergulhada passará a ser explorada por escafandristas, que vasculharão tudo e penetrarão nos espaços da intimidade, onde o amor nasceu e germinou. Buscarão, nos recantos mais escondidos, vestígios da vida e da alma, tentando encontrar aquilo que não se materializou, mas permaneceu como expectativa: o amor.

“Sábios em vão / Tentarão decifrar / O eco de antigas palavras / Fragmentos de cartas, poemas / Mentiras, retratos / Vestígios de estranha civilização”. Por mais que tentem compreender, não conseguirão encontrar respostas. Seremos, para eles, uma civilização desconhecida, estranha. Os documentos narram histórias que não conseguem decifrar. Tudo se transforma em enigma indecifrável.

“Não se afobe, não / Que nada é pra já / Amores serão sempre amáveis”. A precipitação é desnecessária, porque o amor, mesmo não vivido no tempo desejado, encontrará seu destino no momento oportuno. Se hoje não se efetiva, talvez daqui a milhões de anos seja alcançado e vivido por outro. O amor existe para ser exercido, vivido e aproveitado, ainda que em épocas distantes. “Amores serão sempre amáveis”: não se perdem com o passar dos anos.

“Futuros amantes, quiçá / Se amarão sem saber / Com o amor que eu um dia / Deixei pra você”. Quem sabe, diz o eu lírico, o amor deixado em reserva — não correspondido, mas intacto em sua essência —, ofertado à pessoa amada em vida, seja vivido por outrem no futuro, sem que este perceba tratar-se de uma herança afetiva recebida.

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