Elas sempre mim atraíram e chamaram minha atenção. Olhava com olhos encantados toda aquela beleza de paisagem no plano reto, seguindo uma linha imaginária que parecia separar a céu da terra – numa visão panorâmica do que se exibia à minha frente. Imagino aqueles vales rodeados de serrotes, com sua vegetação exuberante, ainda sob o limo do inverno, compostas de cores que extrapolavam o minimalismo natural, sugerindo, ao mesmo tempo, uma sensação de calma, mansidão e amplitude.
Aquilo tudo era comum para mim, porém complexo no entendimento de um garoto campesino, até que tive contato com as primeiras imagens gravadas no papel por uma câmera fotográfica – uma espécie de Flexarel – usada por Adonias Alexandre, pioneiro em fotografar e registrar pessoas próximas a mim e o ambiente natural, espaço de convivência onde vivi os primeiros anos da minha adolescência. De cara, fiquei atraído pela novidade e, anos depois, já mais acostumado com aquela atividade, passei a vê-la como uma possibilidade de captar e registrar imagens reais e transformá-las em imagens ficcionais.
Mas eu, na minha condição de desinformado, distante do universo moderno e daquela nova tecnologia de captar imagens, não fazia conta daquele momento nem me importava tanto com aquilo que Adonias mostrava – e que passou a encantar muita gente. De concreto mesmo, o que eu queria era brincar e contemplar as belezas geográficas que via. Imagens que me cativavam, atraiam e só; nada mais. Era apenas uma criança. E em se tratando de imagem, seja ela real ou imaginária, o que fascinava meus olhos e fazia eu compreender sua importância, era aquilo que via ao natural.
Para os visionários, uma imagem não passa de uma representação visual, física ou mental de algo que desperta interesse. Seu conceito é peculiar, de valor particular, e quem lhe dá uma definição ou característica é você. Ela imita ou reflete a aparência do que nos cerca no cotidiano. E, quando vista em movimento, em preto e branco – como nas primeiras imagens do cinema – diante dos olhos de um garoto que só conhecia o ambiente multicor do mato e dos bichos, a possibilidade de uma provocação mental era grande. Foi o que aconteceu comigo.
Certa vez, vi e ouvi um amigo do meu pai chegar lá em casa e convidar todos nós para ir ver um filme na sua residência. Não dei a mínima, não sabia o que era, simplesmente ignorei. Esse amigo era também compadre do meu pai e só promovia forró, nada mais. Dias depois, todos lá de casa e das residências vizinhas se prepararam para ver a novidade que o realizador de festas, anunciou na localidade onde morávamos. Lembro muito bem: era final da primeira metade dos anos 1960. E lá fomos nós ver essa novidade, o tal filme anunciado por Zuza Emídio.
Depois de uma boa caminhada à noite pela vereda que levava todos ao local da exibição da película, finalmente chegamos. Na residência de Zuza já havia muita gente admirada, de olhos fixos, e vidrados no frontão da casa, onde as imagens passavam sobre a parede caiada, de textura grotesca, que até então só conhecia o som da sanfona e o calor do sol de uma parte do dia. Quando chegamos, procuramos ficar acomodados em algumas cadeiras e bancos. De cara, vi imagens que não se pareciam em nada com aquelas que meus olhos estavam habituados a ver.
Vi naquela parede fria uma cena em plano aberto, em preto e branco de um lugarejo encravado entre serras, atingido por uma grande chuva que, em poucos minutos, enchia uma imensa barragem. A chuva forte e descontrolada inundava o povoado circundante ao manancial. À medida que aumentava, a chuva tornava turva a visão do lugar, tanto pelo embaraço do vendaval quanto pela imagem ruim, de qualidade acinzentada, talvez gerada por um equipamento precário.
Lembro que achei aquilo tão sem graça que desprezei a exibição e fui brincar com outros garotos que estava lá, pelos arredores do terreiro de Zuza Emídio. Depois de alguns minutos, distraído com os meninos, voltei a olhar o filme, que seguia rolando e para o qual todos olhavam admirados. A cena do diluvio ainda continuava em movimento, numa sequência longa e interminável, quando, de repente, a barragem começou a se romper, com o aguaceiro transbordando por cima da barreira. Em seguida, veio o estouro e a inundação de tudo o que havia no lugarejo – casas, sítios e igrejas do povoado.
Por certo, chegamos ao local da exibição com o filme em andamento. Já parto do final, visto que, logo após a cena do diluvio, o filme finalmente chegou ao término. Ficava registrado, naquela noite, meu primeiro contato com o cinema, mesmo sem compreender bem o que era aquilo que vi. Eu era menino demais para prestar atenção naquela coisa que era projetada entre as duas janelas da frente da casa de Zuza. O que sei é que, naquela noite, diante de uma tela improvisada, a escuridão do sertão se encheu de luz e de imagens. Se imaginarmos bem, a exibição no reduto de Zuza Emídio, nos anos 60, pode ser ligada ao tempo dos exibidores itinerantes que haviam em Cajazeiras e na região do sertão paraibano.
Foi uma daquelas exibições que, de tempos em tempos, chegavam aos povoados do interior nordestino, levando para dentro da noite a luz de um projetor de 16mm e as imagens de um filme. Não me lembro de qual filme era, nem, com segurança, de quem levou o projetor e fez aquela exibição. Provavelmente, pelas características das imagens que vi, o filme exibido na casa de Zuza Emídio pode ter sido They Planted a Stone, documentário britânico de 1953, ou Project for Plenty, documentário indiano também realizado 1953.
Quanto a exibição, poderia ter sido feita por Eutrópio Cartaxo, um dos conhecidos exibidores ambulantes que percorriam a região, mas minha memória, depois de tantos anos, não consegue afirmar. Talvez tenha ficado por conta de outro desconhecido andarilho da imagem. Sei também que Zé Sozinho não teria sido, pois a exibição aconteceu nos anos 60, e o mambembe Zé Sozinho teria chegado a Cajazeiras no iniciou dos anos 70. O que ficou guardado não foi o nome do homem que estava atrás do projetor, mas a descoberta do cinema.
Naquela época, a energia elétrica era algo desconhecido por aquelas bandas. Ela existia apenas para na cidade de Cajazeiras, possibilitando o funcionamento dos projetores dos Cine Eden e Cine Pax, os únicos cinemas em atividade na cidade. Como o filme foi projetado e de onde veio a energia para fazê-lo funcionar, também não sei dizer. Talvez de um pequeno gerador, talvez de alguma engenhoca ligada a uma bateria de caminhão. Lembro apenas que o filme era em preto e branco, um média-metragem, e que a imagem, nas condições improvisadas daquela exibição, era bastante ruim.




























