cleudimarferreira
Os
momentos e situações, por vezes vexatórios, vividos por meu avô Tiantônio -
muitos que presenciei, outros contados por minha avó Baíca mostravam o quanto
ele estava exposto a fatos que nem sempre se ajustavam ao seu modo de ser. Às
vezes, por um traço quase quixotesco, revelava-se um homem de sensibilidade
frágil, entregue de corpo e alma ao seu pedaço de chão, sujeito às fatalidades
do ambiente rural e ao comportamento moldado pelo lugar onde vivia.
Se o
seu solo era árido e imprevisível, com ele não era diferente: tudo podia
acontecer. Por isso, aquele inseparável cigarro de palha fazia parte de seu
mundo - uma espécie de calmante para a mente, algo que, ao que parecia, o
deixava mais centrado e até reflexivo.
Certo
dia, cansado das falhas do artifício, largou o chifrezinho acendedor e seguiu o
conselho de seu compadre Antônio Soares, que apareceu matreiro, meio
sorrateiro, numa daquelas tardes sertanejas:
-
Antói, o que é bom mesmo é um isqueiro que não dá trabalho. O artifício é bom,
mas custa a pegar. Compre um isqueiro, homi.
Ao
ouvir aquela voz sussurrar em seu ouvido, ele arriscou um olhar de lado: lá
estava o velho amigo e compadre Antônio Soares. Sem perder tempo, respondeu:
-
Homi, tu chegas parecendo um espírito. E depois... essa ‘bixiga’ sempre
acendeu; por que agora não quer acender? Tem que acender, nem que seja na
marra.
Antônio
Soares mirou os olhos nos do meu avô e insistiu:
-
É aquilo que falei... compre um isqueiro e acabe de vez com essa briga com o
artifício.
Respondeu
Tiantônio:
-
E se não der certo? Tem que comprar gasolina, a pedra, o pavio... e, quando a
gente vai acender, não dá; é preciso tentar várias vezes e a coisa acaba
falhando. Homi, tanto faz um como o outro: tudo é uma ‘bixiga’ que não presta.
Bom mesmo é um facho em brasa - duvido não acender.
Antônio
Soares respondeu, já encerrando a conversa:
-
Mas compre um isqueiro, experimente. Quem sabe dá certo? Comigo deu; há de dar
certo com você também.
Tiantônio
percebeu a seriedade no apelo do amigo e, numa frase curta, finalizou o
diálogo:
- Vou
comprar no sábado, na feira.
Esperou
o sábado chegar e, nesse dia de feira livre em Cajazeiras, foi à cidade comprar
o necessário para o consumo da semana. Andou de bodega em bodega à procura de
um isqueiro que melhor se ajustasse ao seu gosto, na certeza de que o objeto
facilitaria acender o indispensável espanta-mosquito de suas tardes.
Depois
de tanto andar, entrou, já com as pernas cansadas, na mercearia de Zimá
Gonçalves. Sentou-se sobre um fardo de cordas, próximo ao balcão, e perguntou a
Zimá se vendia isqueiros. Zimá, como costumava fazer com os fregueses,
respondeu:
-
Seu Antói, aqui tem de tudo! O senhor pode rodar essa cidade todinha atrás de
um objeto, mas acaba encontrando é aqui. Aqui tem estoque! Mas o que é que o
senhor quer mesmo?
Ele
respondeu:
-
Um isqueiro, mas que seja bom de verdade.
Zimá
replicou:
-
Vou vender ao senhor o melhor, o mais vendido e usado por muita gente. É este
aqui!
E
lhe entregou um isqueiro quadrado, de inox, com detalhes em bronze polido que
pareciam ouro, popularmente chamado de “sete lapadas”. Ele se
admirou com a beleza do objeto, abriu a tampa do isqueiro e testou se estava
funcionando. Fez o teste, e o isqueiro não falhou. Perguntou o preço e,
achando-o justo, comprou-o.
Ao
final do dia, quando a feira já se desfazia e se via alguns comerciantes
desmontando barracas enquanto outros fechavam as portas de suas mercearias,
Tiantônio acomodou-se na carroceria da picape Chevrolet 1950 de Maçal Carolino
e, pela poeira amarronzada da estrada, seguiu de volta ao Sítio Fuá.
Chegando
em casa, o cansaço da viagem não foi impedimento para sua última tarefa do dia.
Pegou um pedaço de sabão, um latão e uma cuia, e dirigiu-se à cacimba sulcada
no leito do rio Santo Antônio. Depois
de tirar o pó da estrada num refrescante banho de cuia, subiu a ladeira dos
Baixios dos Soares em direção à sua residência, onde minha avó Baíca o esperava
para o jantar. Após a refeição, sentou-se numa rede sempre armada na sala.
Ainda ensaiou alguma conversa com a esposa, acomodada numa cadeira ao lado
esquerdo da porta de entrada da casa.
Mas o
cansaço do dia trouxe os primeiros cochilos daquele fim de sábado. Aí não teve
jeito: inclinou o corpo e, estirado na rede, acabou adormecendo. No
domingo, acordou cedo, desceu em direção ao rio e buscou as primeiras latas de
água para abastecer os dois potes da cozinha. Depois de muitas idas e vindas,
encheu os reservatórios, tomou um gole de café com bolo de caco e dirigiu-se à
casa de seu Zé Soares, o único barbeiro da localidade.
Quando
chegou, já havia vários amigos na fila, esperando a vez de fazer a barba.
Cumprimentou a todos com um bom-dia e entrou na conversa. A espera foi longa,
e, quando finalmente teve a barba aparada por Zé Soares, já se aproximava do
meio-dia. De cara nova, pagou o barbeiro e voltou para casa, pois já estava
passando a hora do almoço.
Após o almoço, como de costume,
provocado pela necessidade de acomodação gástrica da comida no estômago, viu a sonolência
tomar conta dos seus olhos, deitou-se outra vez na rede e adormeceu. Dormiu... e
quando despertou, já era por volta das quinze horas da tarde.
Fazia
calor no topo da colina onde se situava sua residência. Mas o mormaço do
sertão, em sua seara, era compensado pela vista ampla dos baixios de João
Ferreira e dos Soares. Pegou uma caixinha com as melhores palhas de milho - as
mais finas, já cortadas em formato retangular. Junto dela, trouxe também um
pedaço de fumo e sua inseparável faca amolada, e sentou-se num banco em frente
à casa.
Olhando
para o leste - o “nascente” - como quem procurava um sinal de chuva no
firmamento, começou murmurar, a picar o fumo em farelo. E foi picando, picando,
até juntar a porção necessária para o cigarro. Abriu a caixinha, escolheu a
melhor palha, enrolou o cigarro e lambeu a borda para o fumo ganhar firmeza e a
folha de palha lacrar. Com o cigarro pronto, sem mais o que fazer, levou-o à
boca e passou a procurar entre as coisas ao seu lado: o fumo de corte, a
caixinha das palhas, a faca, o velho fuso com o artifício… e o isqueiro
comprado na venda de Zimá Gonçalves.
Ele
olhou para o lado esquerdo, depois para o direito, e não encontrou o acendedor.
Levantou-se do banco, ficou em pé, tornou a procurar com os olhos, mas nada do
isqueiro. Lembrou então que podia tê-lo guardado na mala e gritou:
—
Baíca, vê se deixei o isqueiro dentro da mala. Se estiver lá, traga pra mim.
Minha
avó, paciente como sempre foi com o esposo, foi até a mala, encontrou o objeto
e seguiu para a frente da casa, onde meu avô estava, entregando-lhe o isqueiro.
O velho Antônio Ferreira, de posse daquele bonito artefato, levou o cigarro à
boca e começou a acioná-lo, tentando acender o bicho. Falhou na primeira
tentativa, depois na segunda. A
impaciência começou atiçar seu temperamento inesperado, crescendo com a vontade
de fumar. Tentou uma terceira vez – e nada do troço pegar fogo.
Com
cigarro preso em uma das extremidades da boca, passou a olhar o isqueiro, examinando.
Balançou, conferiu se era falta de gasolina, mas viu que estava todo correto.
Tentou pela quarta vez acender o seu cigarro, mas o isqueiro não funcionou. Aí
o juízo foi embora. Perdeu o controle de sua paciência e começou a
chamar todo tipo de nome apócrifo com o objeto.
Irritado, tomado de raiva, agarrou
uma marreta que estava junto a uma pedra ao lado do banco, colocou o isqueiro sobre
a pedra e desceu o braço. Começou a golpeá-lo sem dó, amassando por completo, sem
piedade. Bateu tanto que o objeto foi se afinando até parecer uma lâmina de
barbear. A cada marretada, soltava uma palavra feia, como se descarregasse no isqueiro a raiva
represada.
Minha
avó, ouvindo a estripulia, saiu apressada da cozinha e correu até onde o marido
estava. Chegou aflita e perguntou o que estava acontecendo. Meu avô, ainda
tomado de irritação, respondeu:
- É
essa desgraça que tá tirando meu juízo. Mas também, olhe o que eu fiz com ele!
E
mostrou o isqueiro todo arrebentado na palma da mão. Vó Baíca se assustou com
tamanha grosseria, foi logo dizendo:
- Mas,
home, por que foi fazer isso? Tu acabaste de comprar esse objeto. Nem tinha
usado direito e já destruiu o bicho. Pra que foi gastar dinheiro com isso, se
tu nem sabes usar.
Seu
Antônio Ferreira respondeu à esposa, ainda contrariado:
-
Deixe de conversa e me traga o fuso e o artifício. Isqueiro eu não quero nem
saber mais. Além de caro, não presta, não vale nada. Bom mesmo é o artifício.
Com ele eu não preciso comprar nada. Basta um capucho de algodão, um pedaço de
ferro e uma pedra. A gente bate o ferro na pedra, a faísca pula e já vai
pegando na lã de algodão. Assim, ó… assim, ó… tá vendo a fumaça aparecendo?
Agora é só assoprar devagarinho e o fogo vai pegando, surgindo.
DeixeSeuCOMENTÁRIO