quarta-feira, 27 de dezembro de 2023

CONVERSAS DE CINE ÉDEN. Como foi a exibição simultânea do filme “Scarface” no Cine Teatro Apolo XI e Cine Pax

por Cleudimar Ferreira



A invenção do cinema, desde o feito extraordinário dos irmãos Lumière até os dias presentes, tem exercido um certo fascínio em muita gente e, por certo, continuará fascinando gerações. Parece até que a sua incomum descoberta para o mundo, lá atrás, em 1895 — mesmo que tenha acontecido sob o pretexto do acaso e da curiosidade dos dois jovens franceses —, acentuou a ideia de que o surgimento dessa arte visual já estava traçado na linha do tempo. Em outras palavras: programado para acontecer por uma razão não explicável. Por essa singular força e enigmática forma como surgiu, o cinema passou com todo o brilho rumo ao futuro, indo por aí afora, caindo cheio de graça nas graças de muitos, sem diferenciar ninguém por suas características.


E essa despretensiosa brincadeira dos Lumière — experimento, curiosidade ou qualquer coisa como convier classificar esse momento na história do cinema — foi até certo ponto marcante para mim como admirador, consumidor e venerador dessa magia substancial na minha vida. Não tenho nenhuma feição tanto quanto alguém que vive diretamente ligada à feitura dessa atividade. Mas o movimento das inventivas imagens criadas pelos dois rapazes de Besançon me atraiu desde criança, grudou e fez morada também. Afinal, quem não gosta de um bom filme, de uma história bem contada, aditivada por imagens que encantam nossos olhos?
No presente, tão distante do que foram um dia as salas de rua no sertão paraibano, vivo apenas das lembranças e das poucas visitas que faço aos cinemas da capital quando tenho folga das atividades que exerço como professor. No mais, me deito na cama e, antes de dormir, tiro de dentro de mim os momentos que vivi como frequentador dos cinemas na minha sempre querida terra, Cajazeiras. Aí eu me deleito e construo um sono sereno, pleno de lembranças e sonhos de um tempo que ficou para a eternidade.

Partindo desse pressuposto, dos Lumière guardo apenas as lembranças do que dizem os escritos e o que contam os historiadores. Mas, dos extintos cinemas de Cajazeiras, tenho comigo a vivência e o convívio, o que me dá subsídios para falar e contar o que vi, o que passei e o que presenciei. Um desses instantes marcantes foi quando o filme Scarface foi exibido nos cinemas Apolo XI e Pax — os cinemas da diocese ou “cinemas do bispo”, como muitos se referiam a essas duas casas de exibição que já existiram em Cajazeiras.

De um lado, um exibidor apaixonado por cinema, embora conservador e durão; do outro lado, um divulgador de rua, quase programador, que apenas cumpria ordens, mas recorria às boas relações que havia entre os dois para dar pitacos, sugestões e até intervir nas decisões referendadas pelo primeiro. Indo diretamente ao ponto, falo de Dom Zacarias Rolim de Moura (bispo diocesano de Cajazeiras) e de Cícero Alves (o Cícero do Bradesco). Um, o patrão; o outro, um divulgador com outras atribuições.


Da parte de Dom Zacarias, era quase sagrado: todos os meses ia a Recife — Pernambuco, para fazer duas coisas supostamente necessárias também em sua vida. A primeira era visitar seu médico, que o medicava e o orientava em seu tratamento contra um “germe de barata” que havia adquirido. A segunda, talvez um pouco mais prazerosa para o bispo, era a de percorrer as distribuidoras de filmes, escolher a seu gosto as melhores películas e fechar, com essas empresas de cinema, a programação mensal dos seus dois cinemas.

Sob responsabilidade das distribuidoras ficava a garantia dos repasses e envios a Cajazeiras — pela Viação Gaivota, no dia e hora marcados — dos filmes programados, bem como de todo o material necessário para a divulgação interna e externa das películas.

Do outro lado, era atribuição de Cícero Alves a incumbência de fazer a divulgação de rua dos cinemas. Para que isso acontecesse, ele precisava preparar as tabuletas: cobrir todas primeiramente com papel-jornal, colar os cartazes ou fotos e fazer os letreiros indicativos com data e hora, além da classificação e censura — se era proibido para menores de 14 ou 18 anos. Tudo como mandava a tradição e a cultura cinéfila daquela época.

Cícero não tinha habilidade nenhuma com a pintura de letreiros, e essa parte cabia a mim. Eu usava as minhas habilidades de artista plástico para criar os letreiros estilizados e outros enfeites; ou seja, deixar as tabuletas mais atrativas, com condições de convencer o público a ir aos cinemas.

Era também responsabilidade de Cícero Alves — talvez a mais significativa de todas — ir buscar no Terminal Rodoviário Antônio Ferreira os filmes que chegavam a Cajazeiras vindos da capital pernambucana, por meio da empresa Viação Gaivota; além de, uma vez por outra, revisar os rolos de filmes e, principalmente, assumir a portaria dos cinemas quando de uma inesperada falta ou folga do porteiro titular.

Então, duas vezes por semana saíamos do Cine Pax às nove horas, conduzindo uma carrocinha até o guichê da Viação Gaivota. Depois que as latas com as fitas eram despachadas, nós as pegávamos e nos deslocávamos até a Cúria Diocesana para certificar e mostrar ao Bispo o conteúdo que havia chegado do Recife.

Uma vez passado pelo visto do Senhor Bispo, nos deslocávamos desse local em direção ao Cine Apolo XI. Lá, recolhíamos o material de divulgação e deixávamos, sob responsabilidade dos operadores — Paulo Conrado e Luiz Conrado —, as latas com os rolos de filme. As películas eram revisadas, quadro a quadro, pelos irmãos Conrado e, depois, prontificadas para serem exibidas nas sessões à noite.

O filme Scarface, uma produção de Brian De Palma, era sempre incluído nas programações mensais que Dom Zacarias fazia junto às distribuidoras, no Recife. Porém, nem o bispo e muito menos Cícero Alves sabiam os verdadeiros motivos de essas distribuidoras não enviarem esse filme a Cajazeiras. Muitas vezes, quando eu era convidado por Cícero para ir com ele ao gabinete do bispo, vi Dom Zacarias contrariado, chateado e, em certos momentos, até estressado por conta do entrave provocado pelo não envio da película. Dava a entender que havia um problema de logística com a distribuição de Scarface.

Se havia problema ou falha, as tentativas de correção desse imbróglio eram feitas quase todos os meses por Dom Zacarias, através de reclamações constantes via ligações interurbanas à cidade de Recife. Mas Scarface não chegava aos cinemas do bispo; em seu lugar, eram enviadas outras produções menos destacadas, que chegavam como uma surpresa para todos, já que tampouco haviam sido incluídas nas programações dos Cines Apolo XI e Pax.

Com o passar do tempo, quando o filme de Brian De Palma já estava entrando em um estágio de esquecimento — sendo considerado pelo bispo exibidor uma carta fora do baralho, ou tendo entrado subitamente na rota do esquecimento, tanto por Cícero quanto por Dom Zacarias —, eis que, em um certo sábado, fui com Cícero ao guichê da Gaivota receber os filmes que haviam chegado.



Depois dos trâmites e despachos do pacotão feito por essa empresa de transporte interestadual, colocamos a encomenda na carrocinha e, antes de sair do local, abrimos a estopa para ver que filme havia chegado. Tal foi a nossa surpresa ao ver os cartazes, algumas fotografias, bem como as latas com os rolos de filme, onde se estampava a palavra: Scarface.

Nos alegramos e apressamos o passo em direção ao Palácio do Bispo, para anunciar a Dom Zacarias a grata surpresa da chegada do filme tão aguardado por ele. Quando chegamos ao local, eu fiquei na calçada, sentado na carrocinha, fazendo a guarda do filme, enquanto Cícero se dirigiu ao recinto onde Dom Zacarias estava. Fiquei esperando por quase quinze minutos, ouvindo, mesmo um pouco distante, os murmúrios da conversa entre os dois.

Esperei por um certo tempo a volta de Cícero, até que, de repente, ele apareceu descendo as escadarias da capela anexa ao Palácio Episcopal. Ao chegar junto a mim, manteve-se simplesmente calado; sem dizer palavra, pegou o condutor da carrocinha e saiu deslizando as duas rodas em direção ao Cine Apolo XI. O silêncio era total, até eu perguntar:

— E aí, Dom Zacarias gostou da chegada de Scarface?

Com a cara fechada, meio embirrado, ele respondeu de forma quase inaudível:

— “Home”, não fale não!

Ao se aproximar da esquina da Catedral Nossa Senhora da Piedade, ele abriu a boca e começou a jogar para fora as primeiras palavras rudes, consequência da conversa estressante que teve com o bispo exibidor. Chutando tudo o que via pela frente, Cícero — contrariando o bom senso e o que manda a etiqueta — começou a berrar:

— Cara, o “home” é cruel demais! Um sujeito mau, ruim e duro com a gente. Quer porque quer fazer a estreia simultânea do filme nos dois cinemas! Ele está vendo que isso não vai dar certo.

Confesso que fiquei preocupado e sem entender a ideia encomendada por Dom Zacarias. Afinal, só havia uma cópia de Scarface. Como exibir o filme, ao mesmo tempo, nos dois cinemas? O Cine Apolo XI ficava na Zona Norte e o Cine Pax, na Zona Sul da cidade.

Em se tratando de cidade do interior, o percurso entre os dois cinemas não era lá tão longe assim; dava para ser percorrido em dez minutos. O problema era a logística. Já que o bispo havia estabelecido que a exibição do filme seria feita dessa forma, ficou acertado na conversa entre os dois que a sessão no Cine Apolo XI iria iniciar às dezenove horas e, no Cine Pax, às vinte horas — uma diferença de uma hora de um cinema para o outro, com o objetivo de não haver problemas na exibição.

Uma vez feita a programação de rua, com a colocação das tabuletas contendo os cartazes do filme em lugares estratégicos da cidade — anunciando a exibição paralela e os novos horários —, a expectativa dos operadores dos projetores era aguardar e ver, na prática, se tudo ia dar certo.

Chegou a noite, e o Cine Teatro Apolo XI começou a rodar a primeira parte do filme no horário programado. Assim que terminou a exibição do primeiro rolo, Geraldo Galvão — um voluntário com presença marcada todos os dias no cinema — pegou sem perder tempo a lata com a película, subiu em uma bicicleta e disparou para deixá-la no Cine Pax.

No momento em que Geraldo Galvão chegou no Cine Pax com a primeira parte de Scarface, Zezinho, o operador de projetor, já o esperava na portaria do cinema para levar a película até a cabine. O funcionário pegou o rolo e dirigiu-se rapidamente até o seu espaço de trabalho. Depois de rebobinar o carretel de fita e ajustar no projetor, deu início à exibição.

Tudo ia correndo muito bem, mesmo sabendo que, para satisfazer o ego do bispo Dom Zacarias Rolim de Moura, o esforço do voluntário Geraldo Galvão estava sendo imenso. Ele aceitou a tarefa simplesmente por cultivar uma boa amizade com funcionários, por amar o cinema e por vivenciar — como era de praxe entre alguns jovens de Cajazeiras naquela época — a rotina das atividades que antecediam as exibições dos filmes nos cinemas da sua terra.


Apesar do calor sudorífico e grudento das cabines de projeção dos dois cinemas — principalmente a do Cine Pax, apertada, quente e sufocante demais para os seus operadores, Zezinho e seu filho (que exercia a função de auxiliar de operador) —, até a terceira parte do filme tudo ia transcorrendo sem nenhum problema, ou melhor, ia se dando muito bem.

Porém, fatores abstratos no Cine Teatro Apolo XI — muitos ligados a uma energia externa ou, quem sabe, ao imponderável — interferiram na perfeição da projeção conduzida pelos irmãos Paulo e Luiz Conrado, causando a quebra da película na quarta parte de Scarface. O incidente induziu o público que assistia o filme a ter uma reação imediata, entre assovios e gritos, obrigando todos a suportar quase dez minutos de paralisação.

Passado esse contratempo, a exibição prosseguiu como estava antes. Quando a quarta parte de Scarface foi puxada pelas garras das bobinas do projetor do Apolo XI, Geraldo Galvão imediatamente apanhou o rolo e seguiu em disparada para o Cine Pax. Ao alcançar a portaria do cinema, o filho de Zezinho já o aguardava ansiosamente.

Preocupado com o tempo, o rapaz recebeu a quarta parte das mãos de Geraldo e, às pressas, subiu a escada caracol do Cine Pax rumo à cabine onde o pai o esperava. O jovem entrou como a luz de um relâmpago naquele espaço apertado e rebobinou o rolo contando os minutos e segundos, pois a terceira parte já estava chegando ao fim. Só houve tempo de colocá-la no segundo projetor e, assim que a película anterior terminou, ele acionou a máquina, dando prosseguimento à exibição sem deixar brecha ou “clarão” na transição da terceira para a quarta parte.

No Cine Teatro Apolo XI — com sua cabine mais moderna, ampla e dotada de ar-condicionado —, seguia a projeção da quinta e última parte do filme de Brian De Palma. Enquanto isso, lá no Cine Pax, a quarta parte ainda estava em andamento. Parecia que tudo acabaria com um final feliz — exceto para Geraldo Galvão, que já estava com as “baterias arriadas”, exausto de tanto “pra lá e pra cá” entre os dois cinemas. Foi quando, de repente, da escuridão do céu desceram sobre Cajazeiras as primeiras gotas cristalinas de uma chuva que durou fortes vinte minutos — tempo suficiente para o “The End” anunciar o final do filme.

Em questão de poucos minutos, o operador Paulo Conrado apareceu com a quinta e última parte no hall do cinema para entregá-la a Geraldo Galvão. Ficaram olhando um para a face do outro, em silêncio, até Geraldo Galvão sussurrar:

— E agora? O que faremos com essa chuva?

O segurança, de alcunha Didi, responsável pela ordenação das filas na portaria e na bilheteria, que estava bem próximo, respondeu para Geraldo Galvão:

— E agora? Agora enfrente a chuva! Vá logo, pois a quarta parte do filme no Cine Pax, se não estiver terminando, deve estar por um triz!

Sem dizer palavra ao segurança, Galvão pegou a lata com o rolo de película das mãos do operador do Apolo XI, protegeu-a debaixo da camisa, montou na bicicleta e começou a pedalar sob o temporal em direção ao cinema da Zona Sul da cidade.

Ao se aproximar do Grande Hotel — onde hoje fica o canal da Travessa Joaquim Costa — o toró, antes impiedoso, começou a diminuir moderadamente de volume. Entretanto, as águas escorriam com força, encobrindo o calçamento. Com toda a pressa do mundo, Geraldo jogou-se com bicicleta, rolo de película e tudo no meio do aguaceiro.

Nesse momento, em meio ao esforço desesperado para vencer as águas, ele sentiu um estralo seco na corrente da bicicleta e percebeu, de imediato, que ela havia descarrilado da coroa. Tomado pela preocupação com o tempo e castigado pela chuva que ainda caía, Geraldo encostou a bike no meio-fio e, após alguns minutos de luta contra a graxa e a umidade, conseguiu recolocar a corrente no lugar.

Quando chegou ao Cine Pax com a última parte do filme — visivelmente combalido e completamente encharcado —, a projeção estava parada. No auditório, a plateia permanecia apreensiva e impaciente, aguardando o desfecho de Scarface para saber se o personagem de Al Pacino sobreviveria ou encontraria o seu fim. Logo em seguida, chegaram também os dois operadores do Cine Teatro Apolo XI e o porteiro, unindo-se a Zezinho e a seu filho na força-tarefa final para concluir a exibição naquela sala da Zona Sul, considerada pelos cajazeirenses a mais popular da cidade.

 
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Créditos das imagens:
Imagem 1. (da Internet) Cícero Alves (in memoriam) e Dom Zacarias Rolim de Moura(in memoriam) Bispo Diocesano de Cajazeiras.
Imagem 2. (acervo: Cleudimar Ferraira) Cícero Alves na Cabine de Projeção do Cine Teatro Apolo XI 
Imagem 3. (de um fotograma) O ator Al Pacino em Scarface
Imagem 4. (1. Foto: Borracha) Cine Teatro Apolo XI (2. do Google Map) Prédio onde funcionou o Cine Pax




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sexta-feira, 15 de dezembro de 2023

O Casarão do Bispo - Umari, Ceará.

por Roberto Júnior
POSTAGEM PUBLICADA EM 26 DE JULHO DE 2018 NO BLOG CARIRI DAS ANTIGAS

Imponente Casarão de beira de estrada, onde nasceu e morreu Dom Zacarias Rolim de Moura 


No sítio Malhada das Pombas, em Umari, a vegetação é ampla e os baixios e morrotes encantam a vista de qualquer um, tal paisagem é completada por uma enorme construção, provavelmente do Séc. XIX, que nas margens de uma das vias rurais da cidade impõe presença, é o Casarão do Bispo.

O bispo a quem o nome faz referência é Dom Zacarias Rolim de Moura, Bispo de Cajazeiras, que aí nasceu em 1914, e seguindo os passos do pai, Bonifácio Gonçalves de Moura, que morreu na casa em 12 de março de 1941, aí também faleceu em 05 de Abril de 1992.

Pouco consegui apurar sobre o passado do imóvel antes de ser adquirido por Bonifácio, a cidade é servida basicamente pela oralidade e algo mais palpável me chegou através de memorialistas de Cajazeiras, onde a família exercia plenamente seu poder econômico e político, tendo sido o patriarca eleito deputado em mais de uma legislatura.

Na falta de documentação cartorial que me desse mais subsídios para falar sobre o imóvel em si, levei em consideração as características arquitetônicas da construção, que tem a cumeeira contando mais de 9 metros de altura, a fachada composta por 4 janelas e 3 portas, todas com arco abaulado, mas que não seguem uniformidade e não chegam a configurar uma fenestração perfeita.

Os elementos construtivos são típicos das arquiteturas vernaculares, e a estrutura do imóvel foi relativamente pouco alterada ao longo dos anos, algo necessário, uma vez que o imóvel ainda é habitado, por “Seu Miguelino”, um senhorzinho simpático que nos recebeu e nos encantou com as histórias do local, algumas fantásticas e que envolvem até causos de botijas.

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