por Padre José de Andrade Alves
Provável Imagem do Padre Inácio Souza Rolim por volta de 1890, criada por IA.
Se
Cajazeiras soubesse e reconhecesse que hoje é um dos dias mais marcantes de sua
história, por certo estaria em festa sem igual. É que hoje se comemora o dia do
seu santo; um daqueles que o foi por ter vivido uma vida longa, toda moldada
nas belezas do Evangelho. Mas o Padre Rolim não viveu santidade unicamente por
isso. Ele era de uma humildade e simplicidade incomensuráveis. Foi um penitente
de nível supra, extremamente comedido à mesa. Como humano que era, tinha
manias: a de não comer doces, para não sentir prazer, e a de não comer carnes,
para não se sentir forte.
Seu
cardápio diário era composto de folhas cozidas, batatas e frutas, em pequenas
quantidades, e leite, somente uma meia xícara no café. Viajava a cavalo ou em
mulas e, durante o percurso, comia bolachas secas; aliás, não eram bem
bolachas, como são as de hoje, mas saquinhos e bolinhos que fazia à clara de
ovo, com pouco sal e sem açúcar, conduzidos em bisaco de couro, envoltos em
paninhos, em formato de trouxas.
Tinha
seu lugar próprio de dormir, não por questão de conforto, mas, exatamente pelo
contrário. Tinha o hábito de dormir ora no chão duro, que fazia o piso dos
cubículos que ocupava, ora em cima de malas e bancos. Era admirável o castigo
que impunha à sua matéria. Quando estendia o corpo sobre o chão duro do seu
pequeno quarto, usava como travesseiro dois tijolos, ambos cobertos por um
paninho, não como acolchoado, mas como forma de não deixar o couro cabeludo
grudar-se naquele desconfortável e dolorido travesseiro improvisado.
Era
sempre aberto ao diálogo e gostava de ir ao encontro de grupos, mas não admitia
ficar na companhia de uma única pessoa. Apesar de afável a todos e todas, não
admitia que mulheres tivessem a ousadia de adentrar a sós em qualquer ambiente
em que estivesse. Já perto de morrer, certo dia teve um mal-estar e uma das
velhas beatas que lhe dava assistência, achando que tinha de lhe prestar
socorro, quase o tomou nos braços como forma de tentar reanimá-lo. O
estratagema funcionou, mas, quando o Padre abriu os olhos e viu a cena,
repreendeu duramente aquela senhora.
Renúncias?
Neste quesito, era demais. Sendo um cultor das ciências de seu tempo, tudo
tinha para brilhar e enriquecer. Viveu pobre, morreu pobre e assim o fez,
ajudando sempre a quem o procurava. Achava que o maior serviço que se podia
prestar era educar. Educava em sala de aula, mas também educava no campo.
Tomava seu bisaco, punha a enxada nos ombros e metia-se mato adentro com os
escravos para ensinar-lhes a plantar sementes de trigo e outras que não eram
comuns às terras sertanejas naquele tempo. Não gostava de queimadas; era de
cortar o mato fino das terras baixas e retirá-lo para fora, pois dizia que o
fogo agredia a face da terra. Tinha um amor extremado às árvores, tão profundo
amor que exigia de quem arrancasse uma árvore plantar duas outras. Vivia
ensinando a fazer enxertos de árvores frutíferas.
Era de
uma caridade sem igual. Não se contam as vezes que abrigou mendigos em
Cajazeiras, alimentando-os em seus colégios. Quando a situação de miséria era
mais estável, construía uma casa e abrigava o sem-teto, sem-terra e sem-pão.
Fazia isso por amor. Ocorre que tinha nojo de fazer para mostrar que fez. Fazia
tudo pelo bem dos outros, mas achava que ninguém deveria gastar tempo em seu
benefício. Foi o santo do silêncio. Viveu sua comunhão com Deus sem o menor
alarde. Acordava às 4 horas da manhã, fazia suas orações, rezava sua missa
matinal e, em seguida, após seu pobre café, tinha um dos três destinos: a sala
de aula, o roçado ou as viagens missionárias.
Talvez
seja justamente por tudo isso que Cajazeiras tenha motivos para reconhecer
neste dia uma das páginas mais marcantes de sua própria história: o homem que
educava, que plantava, que cuidava das árvores, que acolhia os pobres, que
renunciava às riquezas e que, acima de tudo, viveu sua fé sem alarde. Um homem
que fez da própria vida uma lição. E, se Cajazeiras soubesse e reconhecesse
verdadeiramente a dimensão dessa história, por certo estaria em festa sem
igual.
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