sábado, 19 de setembro de 2026

SE CAJAZEIRAS SOUBESSE E RECONHECESSE

por Padre José de Andrade Alves


Provável Imagem do Padre Inácio Souza Rolim por volta de 1890, criada por IA.

Se Cajazeiras soubesse e reconhecesse que hoje é um dos dias mais marcantes de sua história, por certo estaria em festa sem igual. É que hoje se comemora o dia do seu santo; um daqueles que o foi por ter vivido uma vida longa, toda moldada nas belezas do Evangelho. Mas o Padre Rolim não viveu santidade unicamente por isso. Ele era de uma humildade e simplicidade incomensuráveis. Foi um penitente de nível supra, extremamente comedido à mesa. Como humano que era, tinha manias: a de não comer doces, para não sentir prazer, e a de não comer carnes, para não se sentir forte.

Seu cardápio diário era composto de folhas cozidas, batatas e frutas, em pequenas quantidades, e leite, somente uma meia xícara no café. Viajava a cavalo ou em mulas e, durante o percurso, comia bolachas secas; aliás, não eram bem bolachas, como são as de hoje, mas saquinhos e bolinhos que fazia à clara de ovo, com pouco sal e sem açúcar, conduzidos em bisaco de couro, envoltos em paninhos, em formato de trouxas.

Tinha seu lugar próprio de dormir, não por questão de conforto, mas, exatamente pelo contrário. Tinha o hábito de dormir ora no chão duro, que fazia o piso dos cubículos que ocupava, ora em cima de malas e bancos. Era admirável o castigo que impunha à sua matéria. Quando estendia o corpo sobre o chão duro do seu pequeno quarto, usava como travesseiro dois tijolos, ambos cobertos por um paninho, não como acolchoado, mas como forma de não deixar o couro cabeludo grudar-se naquele desconfortável e dolorido travesseiro improvisado.

Era sempre aberto ao diálogo e gostava de ir ao encontro de grupos, mas não admitia ficar na companhia de uma única pessoa. Apesar de afável a todos e todas, não admitia que mulheres tivessem a ousadia de adentrar a sós em qualquer ambiente em que estivesse. Já perto de morrer, certo dia teve um mal-estar e uma das velhas beatas que lhe dava assistência, achando que tinha de lhe prestar socorro, quase o tomou nos braços como forma de tentar reanimá-lo. O estratagema funcionou, mas, quando o Padre abriu os olhos e viu a cena, repreendeu duramente aquela senhora.

Renúncias? Neste quesito, era demais. Sendo um cultor das ciências de seu tempo, tudo tinha para brilhar e enriquecer. Viveu pobre, morreu pobre e assim o fez, ajudando sempre a quem o procurava. Achava que o maior serviço que se podia prestar era educar. Educava em sala de aula, mas também educava no campo. Tomava seu bisaco, punha a enxada nos ombros e metia-se mato adentro com os escravos para ensinar-lhes a plantar sementes de trigo e outras que não eram comuns às terras sertanejas naquele tempo. Não gostava de queimadas; era de cortar o mato fino das terras baixas e retirá-lo para fora, pois dizia que o fogo agredia a face da terra. Tinha um amor extremado às árvores, tão profundo amor que exigia de quem arrancasse uma árvore plantar duas outras. Vivia ensinando a fazer enxertos de árvores frutíferas.

Era de uma caridade sem igual. Não se contam as vezes que abrigou mendigos em Cajazeiras, alimentando-os em seus colégios. Quando a situação de miséria era mais estável, construía uma casa e abrigava o sem-teto, sem-terra e sem-pão. Fazia isso por amor. Ocorre que tinha nojo de fazer para mostrar que fez. Fazia tudo pelo bem dos outros, mas achava que ninguém deveria gastar tempo em seu benefício. Foi o santo do silêncio. Viveu sua comunhão com Deus sem o menor alarde. Acordava às 4 horas da manhã, fazia suas orações, rezava sua missa matinal e, em seguida, após seu pobre café, tinha um dos três destinos: a sala de aula, o roçado ou as viagens missionárias.

Talvez seja justamente por tudo isso que Cajazeiras tenha motivos para reconhecer neste dia uma das páginas mais marcantes de sua própria história: o homem que educava, que plantava, que cuidava das árvores, que acolhia os pobres, que renunciava às riquezas e que, acima de tudo, viveu sua fé sem alarde. Um homem que fez da própria vida uma lição. E, se Cajazeiras soubesse e reconhecesse verdadeiramente a dimensão dessa história, por certo estaria em festa sem igual.

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