quinta-feira, 3 de setembro de 2026

IMAGENS QUE FICARAM.

by cleudimarferreira

Casa de Zuza Emídio onde foi exibido o filme. Foto: Marcos Aurélio

Imagens são cativantes e sempre vão provocar certo fascínio na gente. Essa capacidade de prender a atenção transforma o registro visual em uma ferramenta poderosa de narrativa. Afinal, uma cena bem capturada não apenas ilustra a realidade, mas também molda a forma como compreendemos o mundo. Seguindo esse pensamento, vejo as imagens do meu mundo e falo, sobretudo, daquelas do meu querer – do lugar onde vivi parte da minha infância.

Elas sempre mim atraíram e chamaram minha atenção. Olhava com olhos encantados toda aquela beleza de paisagem no plano reto, seguindo uma linha imaginária que parecia separar a céu da terra – numa visão panorâmica do que se exibia à minha frente. Imagino aqueles vales rodeados de serrotes, com sua vegetação exuberante, compostas de cores que extrapolavam o minimalismo natural, sugerindo uma sensação de calma, mansidão e amplitude ao mesmo tempo.

Aquilo tudo era comum para mim, porém complexo no entendimento de um garoto campesino, até quando tive contato com as primeiras imagens gravadas no papel por uma câmera fotográfica – uma espécie de Flexarel – usada por Adonias Alexandre, o pioneiro a fotografar e registrar imagens de pessoas próximas a mim e do ambiente natural, espaço de convivência onde vivi nos primeiros anos da minha adolescência. De cara, fiquei atraído pela novidade e pela possibilidade que se tinha de captar e registrar imagens reais e torná-las ficcionais.

Mas eu, na minha condição de desinformado, distante do universo moderno e dessa tecnologia nova de captar imagens, não fazia conta desse momento e nem me importava tanto com aquilo que Adonias mostrava – e que passou a encantar muita gente. De concreto mesmo, o que eu queria era brincar e contemplar as belezas geográficas que via. Imagens que me cativavam, atraiam e só; nada mais. Era apenas uma criança. E em se tratando de imagem, seja ela real ou imaginária, o que eu entendia era aquilo que meus olhos viam ao natural.

Para os visionários, uma imagem não passa de uma representação visual, física ou mental de algo que desperta interesse. Seu conceito é peculiar, de valor particular, e quem dá a ela uma definição ou característica é você. Ela imita ou reflete a aparência do que nos cerca no cotidiano, seja real ou imaginário. E quando vista em movimento, em preto e branco – como foi concebida no início do cinema – exposta nos olhos de um garoto que só via à sua frente um ambiente multicor de mato e bichos, a possibilidade de uma provocação mental era grande. Foi o que aconteceu comigo.

Certa vez, vi e ouvi um amigo do meu pai chegar lá em casa e convidar todos nós para ir ver um filme na sua residência. Não dei a mínima, não sabia o que era, simplesmente ignorei. Esse amigo era também compadre do meu pai e só promovia forró, nada mais. Dias depois, todos lá de casa e das residências vizinhas se prepararam para ver a novidade que o realizador de festas, anunciou na localidade onde morávamos. Lembro muito bem: era final da primeira metade dos anos 1960. E lá fomos nós ver essa novidade, o tal filme anunciado por Zuza Emídio.

Depois de uma boa caminhada à noite pela vereda que levava todos ao local da exibição da película, finalmente chegamos. Na residência de Zuza já havia muita gente admirada, de olhos fixos, vidrada no frontão da casa com as imagens que passavam na parede caiada de textura grotesca, que só conhecia o som da sanfona e o calor do sol de uma parte do dia. Quando chegamos, procuramos ficar acomodados em algumas cadeiras e bancos. De cara, vi umas imagens que não se pareciam em nada com as que meus olhos estavam habituados a ver.

Vi naquela parede fria cenas em preto e branco de um lugarejo encravado entre serras, que recebia uma grande chuva que enchia em minutos uma imensa barragem. A chuva forte, descontrolada, inundava o povoado circundante ao manancial. À medida que a chuva aumentava, tornava turva a visão do ambiente onde a cena acontecia, tanto, pelo embaraço do vendaval quanto pela imagem ruim, de qualidade acinzentada, talvez gerada por um equipamento precário.

Lembra que achei aquilo tão sem graça que desprezei a exibição e fui brincar com outros garotos que estava lá, pelos arredores do terreiro de Zuza Emídio. Depois de alguns minutos, distraído com os meninos, voltei a olhar o filme que seguia rolando, para o qual todos olhavam admirados. A cena do diluvio ainda continuava em movimento, numa sequência longa e interminável, quando de repente a barragem começou a se romper, com o aguaceiro transbordando por cima da barreira; em seguida veio o estouro e a inundação de tudo o que havia no lugarejo - casas, sítios e igrejas do povoado.

Por certo chegamos ao local da exibição com o filme em andamento, já parto do final, visto que logo após essa cena do diluvio o filme finalmente chegou ao término. Ficava registrado, naquela noite, meu primeiro contato com o cinema, mesmo sem compreender bem o que era aquilo que vi. Eu era menino demais para prestar atenção naquela coisa que era focada entre as duas janelas da frente da casa de Seu Zuza. O que sei é que, naquela noite, diante de uma tela improvisada, a escuridão do sertão se encheu de luz e de imagens. Se imaginarmos bem, a exibição no reduto de Zuza Emídio nos anos 60, podemos liga-la ao tempo dos exibidores itinerantes que haviam em Cajazeiras e na região do sertão paraibano.

Foi uma daquelas exibições que, de tempos em tempos, chegavam aos povoados do interior nordestino, levando para dentro da noite a luz de um projetor e as imagens de um filme. Não me lembro de qual filme era, nem, com segurança, de quem levou o projetor e fez aquela exibição.

Poderia ter sido Eutrópio Cartaxo, um dos conhecidos exibidores ambulantes que percorriam a região, mas minha memória, depois de tantos anos, não consegue afirmar. Sei que Zé Sozinho não teria sido, pois a exibição aconteceu nos anos 60 e o mambembe Zé Sozinho teria chegado a Cajazeiras no iniciou dos anos 70. O que ficou guardado não foi o nome do homem que estava atrás do projetor. Foi a descoberta do cinema.

Naquela época, a energia elétrica era algo desconhecido por aquelas bandas. Como o filme foi projetado e de onde veio a energia para fazê-lo funcionar, também não sei dizer. Talvez de um pequeno gerador, talvez de alguma engenhoca ligada a uma bateria de caminhão. Lembro apenas que o filme era em preto e branco, um média-metragem, e que a imagem, nas condições improvisadas daquela exibição, era bastante ruim.

Na casa de Zuza Emídio, a diversão já era conhecida: ele promovia seus bailes de forró, tudo iluminado pela luz amarela dos lampiões e candeeiros. Até que, um dia, apareceu uma novidade. Naquela mesma casa, onde até então a noite se fazia de música, dança e luz de lamparina, houve uma exibição de cinema.


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