by cleudimarferreira
Imagens
são cativantes e sempre vão provocar certo fascínio na gente. Essa capacidade
de prender a atenção transforma o registro visual em uma ferramenta poderosa de
narrativa. Afinal, uma cena bem capturada não apenas ilustra a realidade, mas também molda a forma como compreendemos o mundo. Seguindo esse pensamento, vejo as imagens do meu
mundo e falo, sobretudo, daquelas do meu querer – do lugar onde vivi parte da
minha infância.
Elas sempre
mim atraíram e chamaram minha atenção. Olhava com olhos encantados toda aquela beleza
de paisagem no plano reto, seguindo uma linha imaginária que parecia separar a
céu da terra – numa visão panorâmica do que se exibia à minha frente. Imagino aqueles
vales rodeados de serrotes, com sua vegetação exuberante, compostas de cores que
extrapolavam o minimalismo natural, sugerindo uma sensação de calma, mansidão e
amplitude ao mesmo tempo.
Aquilo
tudo era comum para mim, porém complexo no entendimento de um garoto campesino,
até quando tive contato com as primeiras imagens gravadas no papel por uma
câmera fotográfica – uma espécie de Flexarel – usada por Adonias Alexandre, o pioneiro
a fotografar e registrar imagens de pessoas próximas a mim e do ambiente
natural, espaço de convivência onde vivi nos primeiros anos da minha
adolescência. De cara, fiquei atraído pela novidade e pela possibilidade que se
tinha de captar e registrar imagens reais e torná-las ficcionais.
Mas eu,
na minha condição de desinformado, distante do universo moderno e dessa
tecnologia nova de captar imagens, não fazia conta desse momento e nem me importava
tanto com aquilo que Adonias mostrava – e que passou a encantar muita gente. De
concreto mesmo, o que eu queria era brincar e contemplar as belezas geográficas
que via. Imagens que me cativavam, atraiam e só; nada mais. Era apenas uma
criança. E em se tratando de imagem, seja ela real ou imaginária, o que eu entendia
era aquilo que meus olhos viam ao natural.
Para os visionários, uma
imagem não passa de uma representação visual, física ou mental de algo que
desperta interesse. Seu conceito é peculiar, de valor particular, e quem dá a
ela uma definição ou característica é você. Ela imita ou reflete a aparência do
que nos cerca no cotidiano, seja real ou imaginário. E
quando vista em movimento, em preto e branco – como foi concebida no início do
cinema – exposta nos olhos de um garoto que só via à sua frente um ambiente
multicor de mato e bichos, a possibilidade de uma provocação mental era grande.
Foi o que aconteceu comigo.
Certa
vez, vi e ouvi um amigo do meu pai chegar lá em casa e convidar todos nós para
ir ver um filme na sua residência. Não dei a mínima, não sabia o que era,
simplesmente ignorei. Esse amigo era também compadre do meu pai e só promovia
forró, nada mais. Dias depois, todos lá de casa e das residências vizinhas se
prepararam para ver a novidade que o realizador de festas, anunciou na
localidade onde morávamos. Lembro muito bem: era final da primeira metade dos
anos 1960. E lá fomos nós ver essa novidade, o tal filme anunciado por Zuza
Emídio.
Depois
de uma boa caminhada à noite pela vereda que levava todos ao local da exibição
da película, finalmente chegamos. Na residência de Zuza já havia muita gente
admirada, de olhos fixos, vidrada no frontão da casa com as imagens que
passavam na parede caiada de textura grotesca, que só conhecia o som da sanfona
e o calor do sol de uma parte do dia. Quando chegamos, procuramos ficar
acomodados em algumas cadeiras e bancos. De cara, vi umas imagens que não se pareciam
em nada com as que meus olhos estavam habituados a ver.
Vi
naquela parede fria cenas em preto e branco de um lugarejo encravado entre
serras, que recebia uma grande chuva que enchia em minutos uma imensa barragem.
A chuva forte, descontrolada, inundava o povoado circundante ao manancial. À
medida que a chuva aumentava, tornava turva a visão do ambiente onde a cena
acontecia, tanto, pelo embaraço do vendaval quanto pela imagem ruim, de
qualidade acinzentada, talvez gerada por um equipamento precário.
Lembra
que achei aquilo tão sem graça que desprezei a exibição e fui brincar com
outros garotos que estava lá, pelos arredores do terreiro de Zuza Emídio. Depois
de alguns minutos, distraído com os meninos, voltei a olhar o filme que seguia
rolando, para o qual todos olhavam admirados. A cena do diluvio ainda continuava
em movimento, numa sequência longa e interminável, quando de repente a barragem
começou a se romper, com o aguaceiro transbordando por cima da barreira; em
seguida veio o estouro e a inundação de tudo o que havia no lugarejo - casas,
sítios e igrejas do povoado.
Por
certo chegamos ao local da exibição com o filme em andamento, já parto do
final, visto que logo após essa cena do diluvio o filme finalmente chegou ao
término. Ficava registrado, naquela noite, meu primeiro contato com o cinema,
mesmo sem compreender bem o que era aquilo que vi. Eu era menino demais para
prestar atenção naquela coisa que era focada entre as duas janelas da frente da
casa de Seu Zuza. O que sei é que, naquela noite, diante de uma tela
improvisada, a escuridão do sertão se encheu de luz e de imagens. Se
imaginarmos bem, a exibição no reduto de Zuza Emídio nos anos 60, podemos liga-la
ao tempo dos exibidores itinerantes que haviam em Cajazeiras e na região do
sertão paraibano.
Foi
uma daquelas exibições que, de tempos em tempos, chegavam aos povoados do interior
nordestino, levando para dentro da noite a luz de um projetor e as imagens de
um filme. Não me lembro de qual filme era, nem, com segurança, de quem levou o
projetor e fez aquela exibição.
Poderia
ter sido Eutrópio Cartaxo, um dos conhecidos exibidores ambulantes que
percorriam a região, mas minha memória, depois de tantos anos, não consegue
afirmar. Sei que Zé Sozinho não teria sido, pois a exibição aconteceu nos anos 60
e o mambembe Zé Sozinho teria chegado a Cajazeiras no iniciou dos anos 70. O
que ficou guardado não foi o nome do homem que estava atrás do projetor. Foi a
descoberta do cinema.
Naquela
época, a energia elétrica era algo desconhecido por aquelas bandas. Como o
filme foi projetado e de onde veio a energia para fazê-lo funcionar, também não
sei dizer. Talvez de um pequeno gerador, talvez de alguma engenhoca ligada a
uma bateria de caminhão. Lembro apenas que o filme era em preto e branco, um
média-metragem, e que a imagem, nas condições improvisadas daquela exibição,
era bastante ruim.
Na casa de Zuza
Emídio, a diversão já era conhecida: ele promovia seus bailes de forró, tudo
iluminado pela luz amarela dos lampiões e candeeiros. Até que, um dia, apareceu
uma novidade. Naquela mesma casa, onde até então a noite se fazia de música,
dança e luz de lamparina, houve uma exibição de cinema.
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