domingo, 7 de junho de 2026

SENHOR SÃO JOÃOS:

cleudimarferreira

foto: autoria e acervo cleudimar ferreira

“Eu me chamo forró raiz – popularmente conhecido na região onde nasci, como forró de pé de serra e, não sou mais digno de que entreis em sua casa, pois as entidades que mandam nela, hoje, não mais estão permitindo a minha aproximação, sequer na calçada onde o Senhor mora. Pois bem, meu Senhor, mas se tu disseres uma só palavra por mim, eu, com certeza serei permitido, salvo da extinção por completo.”
Outro dia fiquei imaginando essa conversa.
Numa noite de junho, dessas em que a lua parece maior e mais próxima da terra, vi, em pensamento, um velho sanfoneiro caminhando sozinho por uma estrada de barro.
Trazia a sanfona pendurada no peito, o chapéu de couro gasto pelo tempo e uma tristeza escondida entre os dedos.
Caminhava devagar, como quem procura uma casa conhecida e não consegue mais encontrá-la.
Era o próprio forró.
Não o forró das luzes modernas, dos painéis de LED ou dos cachês milionários. Era o velho forró de pé de serra.
Aquele que nasceu no terreiro batido, cresceu nas feiras, dançou nos salões improvisados debaixo de uma latada e aprendeu a conversar com o povo através da sanfona, da zabumba e do triângulo.
Quando menino, eu o via em toda parte.
Ele estava na fogueira acesa na frente das casas.
Estava nas quadrilhas improvisadas no meio da rua, nas frantes das casas de chã batidos.
Estava no cheiro do milho assado, no estalar dos traques, na fumaça dos balões que ainda coloriam o céu sertanejo.
Estava no sorriso dos namorados e na alegria simples de quem passava o ano inteiro esperando a chegada de junho.
Naquele tempo, São João e forró eram quase a mesma coisa.
Um não existia sem o outro.
Mas os anos passaram.
As festas cresceram.
Os palcos ficaram gigantescos.
As cidades começaram a disputar quem fazia o maior evento, quem montava a maior estrutura, quem contratava as atrações mais caras. E foi justamente quando o São João ficou maior que o velho forró começou a ficar menor.
Primeiro perdeu espaço.
Depois perdeu horário.
Mais adiante perdeu visibilidade.
Agora, em muitos lugares, corre o risco de perder até o convite.
Olho para as programações juninas e me pergunto se alguém percebe o que está acontecendo.
Artistas que dedicaram a vida inteira ao forró tradicional são deixados de lado.
Nomes que ajudaram a construir a identidade musical do Nordeste aparecem cada vez menos.
Alguns são excluídos.
Outros recebem cachês reduzidos.
Outros sequer são lembrados.
Enquanto isso, artistas que não possuem qualquer ligação com a história dessas festas ocupam os principais espaços.
Não estou dizendo que não tenham valor.
Têm o seu público e o seu talento.
O que me intriga é outra coisa: como a casa do forró passou a tratá-lo como visita?
Como o dono da festa passou a pedir licença para entrar nela?
Talvez seja por isso que imagino o velho sanfoneiro caminhando sozinho naquela estrada.
Ele não reclama.
Não protesta.
Não grita.
Apenas segue em frente, carregando a sua sanfona e a sua história.
Porque o forró raiz tem uma dignidade antiga.
Dessas que não cabem em contratos nem em estratégias de marketing.
Dessas que sobrevivem na memória das pessoas.
E memória é coisa difícil de matar.
Toda vez que uma sanfona abre o fole em algum canto do Nordeste, ele renasce.
Toda vez que alguém dança um xote agarradinho, ele respira.
Toda vez que uma criança aprende quem foram Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro, Marinês, Os Três do Nordeste, Trio Nordestino, Santana, Flávio José e tantos outros guardiões dessa tradição, ele recupera um pedaço do terreno perdido.
Por isso, ainda tenho esperança.
Porque as festas podem mudar.
Os palcos podem crescer.
Os modismos podem passar.
Mas junho continuará pertencendo à sanfona.
E enquanto houver uma fogueira acesa em qualquer lugar do sertão nordestino, enquanto houver alguém capaz de reconhecer o som de um baião antes mesmo da primeira palavra da canção, o velho forró continuará caminhando.
Talvez mais silencioso.
Talvez mais distante dos grandes palcos.
Mas vivo.
Esperando apenas que o Senhor São João, um dia, volte a abrir a porta da própria casa e diga:
- Entre, meu velho amigo. Esta festa sempre foi sua.

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