quinta-feira, 9 de abril de 2026

O COLÍRIO DA PASSAGEM PARA O BREU

cleudimarferreira

Antônio Ferreira de Lira - Tiantonio. Foto 3x4.

Depois de um segundo casamento religioso que não deu certo, meu avô Tiantonio seguiu na sua lida, cuidando do seu pedaço de chão como se fosse a única esperança que ainda trazia um pouco de alento e distração aos seus longos dias de solidão. Agora morando só, mas em contato constante com seus vizinhos e sempre rodeado de amigos, ele também, sagradamente, visitava todas noites a casa de sua única filha, Joana Ferreira, que ficava próxima à sua. Lá, ele jantava, passava as horas e conversava sobre os afazeres de mais um dia de trabalho.

Porém a fatalidade, às vezes, aparece sem dar sinais e o seu preço, como moeda de chegada, costuma ser caro e doloroso. Certo dia, ele, com a disposição de sempre - até desproporcional aos seus anos vividos - e precisando tocar as atividades domésticos, fruto da lacuna deixada por falta de uma companheira, foi 'laxar' uns paus no terreiro da cozinha para abastecer um fogão de lenha que tinha dentro de casa. Não sabia ele que, a poucos minutos, um infortúnio estava para acontecer, que marcaria para sempre os poucos anos que lhe restavam de vida.

Desceu os três batentes da porta que abria para o terreiro e foi até um cepo de jucá que servia como base de apoio para cortar as toras de lenha. Era um trabalho repetitivo, de anos, que ele praticava e no qual não havia errado nunca. Pegou o machado, companheiro de tantos cortes e desceu-o certeiro na primeira tora seco, mas a madeira inanimada, morta, numa secura de rachar, reagiu: uma 'filepa' do pau saltou como uma flecha, atingindo em cheio o seu olho esquerdo. Não furou, mais bateu forte, a ponto de causar um pequeno inchaço.

O que parecia apenas um cisco, um ardor incômodo, logo se transformou em uma inflamação preocupante, com a visão ficando turva e embaraçada. Ao reclamar dos sintomas a Joana Ferreira - o socorro mais próximo nas horas de precisão - ela, ouvindo os lamentos do pai, aconselhou que meu avô quando fosse à Cajazeiras, procurasse um doutor para tratar do olho.

No dia seguinte, pegou carona no primeiro carro que passou na estrada para Cajazeiras. Quando chegou ao seu destino, foi direto para o consultório de Doutor Sabino - único médico oculista que havia na cidade - mas, por um capricho da sorte, o médico não estava para atendê-lo. Sem ter a quem socorrer para mostrar o olho, ele foi aconselhado por pessoas conhecidas a procurar o farmacêutico Francimar - estabelecido na Avenida Engenheiro Carlos Pires de Sá e dono da única farmácia que havia na zona sul da cidade.

Como a botica de Francimar ficava no mesmo trecho que ele sempre fazia para chagar à casa de um dos seus filhos que morava em Cajazeiras, saiu do centro da cidade e se dirigiu a essa farmácia. Ao chegou ao estabelecimento, deu bom dia e, buscando alivio para irritação que o hematoma causava no seu olho, contou ao farmacêutico o que havia acontecido com a sua visão esquerda. O farmacêutico, sem o devido exame, vendeu-lhe um colírio que prometia a cura em pouco tempo. E disse para o meu avô: 

- Seu Antônio, esse é tire e queda. Pingou no olho, em dois dias vai desinflamar.

Mas, não foi bem assim. Chegando em casa, foi fazer uso do remédio e, ao pingar a primeira gota, o mundo do meu avô desabou em chamas. Sentiu um ardor insuportável, seguido de uma dor lancinante e uma visão que se embaçava como a névoa das manhãs nos baixios do Sítio Riacho do Balsamo.

No outro dia, voltou a Cajazeiras e, ao chegar, encontrou o Doutor Sabino no seu local de atendimento. Desesperado, contou sua história ao médico e ouviu uma sentença dura como o chão do seu lugar, com o qual ele costumava lidar: o remédio errado havia queimado o globo ocular do seu olho e a luz daquela visão estava se apagando para sempre. Não havia mais o que fazer. O que começou com uma 'filepa' de pau no olho esquerdo tornou-se um rastro de sombra que não quis parar.

Como se um olho quisesse carregar a dor do outro, a doença passou pela glabela e atingiu o olho direito. Em pouco tempo, o mundo do meu avô - as veredas, o brilho do sol, as cores do seu lugar e o vulto da vegetação do sertão - foi sumindo a cada dia até virar um breu fechado. O homem disposto, que não era de muita conversa, agora tateava o ar em busca das paredes da casa; ficou totalmente cego. Naquela escuridão forçada, o som do vento, dos pássaros, dos animais domésticos e dos selvagens que habitavam as cercanias do Sítio Fuá passaram a ser os seus guias, os olhos que ele já não possuía mais.

As trevas da escuridão total trouxeram consigo um peso que o corpo de Tiantônio não estava acostumado a carregar: a impotência. Ele, que sempre fora o esteio da casa, o homem de pouca conversa e muita ação, viu-se subitamente entregue às mãos da filha, Joaninha. Era ela quem guiava seus passos, quem cuidava das suas feridas e quem tentava dar luz aos dias que se tornaram uma noite eterna.

Sem poder viver a vida social de antes e não conseguindo conciliar os trabalhos braçais que exercia ou corte de lenha no mato, a tristeza foi se instalando. O corpo, privado dos afazeres da roça que era o seu combustível, começou a definhar. Doenças do corpo e da alma se achegaram, se alojaram, aproveitando-se daquela imobilidade forçada. Seu Antônio Ferreira - meu avô Tiantonio - acabou falecendo, deixando para trás o Sítio Fuá, os amigos, o arrependimento mudo pelas desatinos cometidas em vida e a saudade nos olhos de quem ficou.

DeixeUmCOMENTÁRIO



Ilustração: Foto da ficha de filiado no Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Cajazeiras. Colaboração: Rildo Soares.

domingo, 5 de abril de 2026

O LEGADO DOS BISPOS VERMELHOS

Rui Leitão


Dom Hélder Câmara (arcebispo de Olinda e Recife), Dom José Maria Pires (arcebispo da Paraíba) 
e Dom Antônio Batista Fragoso (paraibano de Teixeira e bispo de Crateús, no Ceará)



​A Igreja Católica exerceu papel preponderante na concretização do golpe de 1964. Estimulada pelo discurso de que o país vivia sob a ameaça de um regime comunista, a instituição apoiou os militares na instalação do novo governo.

Entretanto, com o passar dos anos, percebeu o equívoco cometido e passou a adotar uma postura crítica à ditadura. Ganhava força o grupo progressista do clero, que decidiu combater as violações aos direitos humanos e a prática da tortura utilizada para extrair informações dos opositores do sistema. A Igreja abandonava, assim, sua postura secular como instituição elitista e conservadora para aproximar-se das classes populares em defesa da justiça social.
No Nordeste, três bispos destacaram-se como líderes religiosos que denunciavam as torturas e a violência repressiva imposta pelo governo militar. Por isso, passaram a ser chamados de “bispos vermelhos”. Dom Hélder Câmara (arcebispo de Olinda e Recife), Dom José Maria Pires (arcebispo da Paraíba) e Dom Antônio Batista Fragoso (paraibano de Teixeira e bispo de Crateús, no Ceará) eram apontados como expoentes da esquerda católica.
Eles enfrentaram a ditadura com coragem. Pregaram a reação ao regime e incentivaram a juventude a se rebelar contra a repressão. Apoiaram sindicatos e cooperativas na assistência aos trabalhadores, em especial aos camponeses. Defendiam a conscientização política do povo como forma de fortalecimento diante do regime totalitário. Embora recebessem frequentemente mensagens ameaçadoras, não se acovardaram e desafiaram os detentores do poder.
Na mesma noite em que Geraldo Vandré se consagrava no Maracanãzinho com a música que se tornaria o hino da resistência, Dom José Maria Pires proferia uma palestra na Faculdade de Direito da UFPB. Ao ser advertido por um estudante sobre a presença de agentes do DOPS, o arcebispo afirmou categoricamente que a presença policial não deveria constranger ninguém, pois eles ouviriam verdades sobre os problemas brasileiros.
Dias depois, na sede do Sindicato dos Vendedores Ambulantes, Dom José realizou uma de suas conferências mais corajosas daquele ano. Começou afirmando:
“O atual governo não é cristão. Neste sistema de privilégios de um pequeno grupo em detrimento de uma maioria faminta e analfabeta, não podemos ver uma maneira cristã de governar. É indispensável que ataquemos os erros políticos e econômicos, sem atacar as pessoas. Não somos contra ninguém; somos contra situações.

Precisamos de sindicatos fortes, abrigando o maior número de pessoas conscientizadas politicamente. O ideal é que caminhemos com inteligência, pois não é com fuzis nas mãos que mostraremos que temos razão. Não há dinheiro no mundo que possa comprar nossa liberdade ou a contribuição de amor que queremos dar para melhorar a situação de nossos irmãos.

Só acredito em mudança quando houver conscientização; não acredito em mudança que não seja pacífica. Contudo, pacífica não significa ser pacifista. Não posso exigir justiça por meios violentos, primeiro porque não condiz com o Evangelho; segundo porque a violência, para nós, agora, seria um suicídio.”
​Discursos como esse faziam com que os militares rotulassem Dom Hélder, Dom José Maria Pires e Dom Fragoso como os “bispos vermelhos”.

ComenteEssaPOSTAGEM 





quinta-feira, 2 de abril de 2026

Caiu na rede. Foto da Inauguração do Cristo Rei de Cajazeiras

cleudimarferreira

foto colorizada por IA, a partir da original em preto e branco


O monumento do Cristo Rei, em Cajazeiras, Paraíba - também chamado de Cristo Redentor de Cajazeiras, foi inaugurado em 15 de junho de 1939, durante as celebrações do Primeiro Congresso Eucarístico Diocesano da cidade. 
Ele foi instalado no alto do morro, no ponto mais elevado da sede do município.
O monumento foi concebido como símbolo da fé católica e da proteção espiritual sobre a população sertaneja.
Sua construção ocorreu em um período marcado por dificuldades sociais e climáticas no sertão nordestino, o que reforçou ainda mais o caráter simbólico da obra.
A iniciativa contou com o envolvimento da comunidade local, por meio de doações e esforços coletivos, evidenciando a forte religiosidade presente na região cajazeirense.
Com o passar do tempo, o Cristo Rei consolidou-se não apenas como um marco religioso, mas também como um importante elemento turístico cultural e identitário de Cajazeiras, integrando sua paisagem urbana e sua memória histórica.
Lá de cima do morro, onde o Cristo estar e onde o vento fala mais alto, o silêncio tem mais presença e o Cristo Rei reina absoluto observando a cidade.
Desde 1939, quando foi erguido entre fé e esperança, ele permanece de braços abertos - não como quem domina, mas como quem acolhe.
Naquele tempo, o sertão de Cajazeiras era mais seco, de chão duro, mas silencioso e otimista com relação ao futuro.
E talvez por isso mesmo tenha sido necessário levantar um símbolo tão grande: para lembrar que, mesmo nas dificuldades, a fé haverá de estar presente.
A estátua foi trazida por Silvino Bandeira de Melo - pai do saudoso Dr. Júlio Bandeira de Melo - médico e radialista, para o alto do morro da cidade em cumprimento de uma promessa feita. 
A imagem escultórica - parte do monumento, não foi uma obra autoral única, como a do Cristo Redentor do Rio de Janeiro.
Pode ter sido feita por encomenda, solicitada pelo prórpio Silvino Bandeira a uma oficina religiosa em Salvador onde era radicado.
As oficinas eram bastante comum naquele tempo e produzido através de moldes de reprodução em gesso ou concreto.
Ou seja, adquirida pronta ou em catálogo de arte sacra. 
Algo usual no Brasil naquele período.
O local é considerado um marco histórico e um ponto turístico religioso, embora tenha enfrentado desafios de conservação.
Até hoje, quando o sol se põe e pinta tudo de dourado, parece que ele continua ali, calado, assumindo a mesma função de sempre, a de guardião da cidade. 

ComenteEssaPOSTAGEM