domingo, 5 de abril de 2026

O LEGADO DOS BISPOS VERMELHOS

Rui Leitão


Dom Hélder Câmara (arcebispo de Olinda e Recife), Dom José Maria Pires (arcebispo da Paraíba) 
e Dom Antônio Batista Fragoso (paraibano de Teixeira e bispo de Crateús, no Ceará)



​A Igreja Católica exerceu papel preponderante na concretização do golpe de 1964. Estimulada pelo discurso de que o país vivia sob a ameaça de um regime comunista, a instituição apoiou os militares na instalação do novo governo.

Entretanto, com o passar dos anos, percebeu o equívoco cometido e passou a adotar uma postura crítica à ditadura. Ganhava força o grupo progressista do clero, que decidiu combater as violações aos direitos humanos e a prática da tortura utilizada para extrair informações dos opositores do sistema. A Igreja abandonava, assim, sua postura secular como instituição elitista e conservadora para aproximar-se das classes populares em defesa da justiça social.
No Nordeste, três bispos destacaram-se como líderes religiosos que denunciavam as torturas e a violência repressiva imposta pelo governo militar. Por isso, passaram a ser chamados de “bispos vermelhos”. Dom Hélder Câmara (arcebispo de Olinda e Recife), Dom José Maria Pires (arcebispo da Paraíba) e Dom Antônio Batista Fragoso (paraibano de Teixeira e bispo de Crateús, no Ceará) eram apontados como expoentes da esquerda católica.
Eles enfrentaram a ditadura com coragem. Pregaram a reação ao regime e incentivaram a juventude a se rebelar contra a repressão. Apoiaram sindicatos e cooperativas na assistência aos trabalhadores, em especial aos camponeses. Defendiam a conscientização política do povo como forma de fortalecimento diante do regime totalitário. Embora recebessem frequentemente mensagens ameaçadoras, não se acovardaram e desafiaram os detentores do poder.
Na mesma noite em que Geraldo Vandré se consagrava no Maracanãzinho com a música que se tornaria o hino da resistência, Dom José Maria Pires proferia uma palestra na Faculdade de Direito da UFPB. Ao ser advertido por um estudante sobre a presença de agentes do DOPS, o arcebispo afirmou categoricamente que a presença policial não deveria constranger ninguém, pois eles ouviriam verdades sobre os problemas brasileiros.
Dias depois, na sede do Sindicato dos Vendedores Ambulantes, Dom José realizou uma de suas conferências mais corajosas daquele ano. Começou afirmando:
“O atual governo não é cristão. Neste sistema de privilégios de um pequeno grupo em detrimento de uma maioria faminta e analfabeta, não podemos ver uma maneira cristã de governar. É indispensável que ataquemos os erros políticos e econômicos, sem atacar as pessoas. Não somos contra ninguém; somos contra situações.

Precisamos de sindicatos fortes, abrigando o maior número de pessoas conscientizadas politicamente. O ideal é que caminhemos com inteligência, pois não é com fuzis nas mãos que mostraremos que temos razão. Não há dinheiro no mundo que possa comprar nossa liberdade ou a contribuição de amor que queremos dar para melhorar a situação de nossos irmãos.

Só acredito em mudança quando houver conscientização; não acredito em mudança que não seja pacífica. Contudo, pacífica não significa ser pacifista. Não posso exigir justiça por meios violentos, primeiro porque não condiz com o Evangelho; segundo porque a violência, para nós, agora, seria um suicídio.”
​Discursos como esse faziam com que os militares rotulassem Dom Hélder, Dom José Maria Pires e Dom Fragoso como os “bispos vermelhos”.

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