Rui Leitão
Dom Hélder Câmara (arcebispo de Olinda e Recife), Dom José Maria Pires (arcebispo da Paraíba)
e Dom Antônio Batista Fragoso (paraibano de Teixeira e bispo de Crateús, no Ceará)
A Igreja Católica exerceu
papel preponderante na concretização do golpe de 1964. Estimulada pelo discurso
de que o país vivia sob a ameaça de um regime comunista, a instituição apoiou
os militares na instalação do novo governo.
Entretanto, com o passar dos
anos, percebeu o equívoco cometido e passou a adotar uma postura crítica à
ditadura. Ganhava força o grupo progressista do clero, que decidiu combater as
violações aos direitos humanos e a prática da tortura utilizada para extrair
informações dos opositores do sistema. A Igreja abandonava, assim, sua postura
secular como instituição elitista e conservadora para aproximar-se das classes
populares em defesa da justiça social.
No Nordeste, três bispos
destacaram-se como líderes religiosos que denunciavam as torturas e a violência
repressiva imposta pelo governo militar. Por isso, passaram a ser chamados de
“bispos vermelhos”. Dom Hélder Câmara (arcebispo de Olinda e Recife), Dom José
Maria Pires (arcebispo da Paraíba) e Dom Antônio Batista Fragoso (paraibano de
Teixeira e bispo de Crateús, no Ceará) eram apontados como expoentes da
esquerda católica.
Eles enfrentaram a ditadura
com coragem. Pregaram a reação ao regime e incentivaram a juventude a se
rebelar contra a repressão. Apoiaram sindicatos e cooperativas na assistência
aos trabalhadores, em especial aos camponeses. Defendiam a conscientização política
do povo como forma de fortalecimento diante do regime totalitário. Embora
recebessem frequentemente mensagens ameaçadoras, não se acovardaram e
desafiaram os detentores do poder.
Na mesma noite em que Geraldo
Vandré se consagrava no Maracanãzinho com a música que se tornaria o hino da
resistência, Dom José Maria Pires proferia uma palestra na Faculdade de Direito
da UFPB. Ao ser advertido por um estudante sobre a presença de agentes do DOPS,
o arcebispo afirmou categoricamente que a presença policial não deveria
constranger ninguém, pois eles ouviriam verdades sobre os problemas
brasileiros.
Dias depois, na sede do
Sindicato dos Vendedores Ambulantes, Dom José realizou uma de suas conferências
mais corajosas daquele ano. Começou afirmando:
“O atual governo não é
cristão. Neste sistema de privilégios de um pequeno grupo em detrimento de uma
maioria faminta e analfabeta, não podemos ver uma maneira cristã de governar. É
indispensável que ataquemos os erros políticos e econômicos, sem atacar as
pessoas. Não somos contra ninguém; somos contra situações.
Precisamos de sindicatos
fortes, abrigando o maior número de pessoas conscientizadas politicamente. O
ideal é que caminhemos com inteligência, pois não é com fuzis nas mãos que
mostraremos que temos razão. Não há dinheiro no mundo que possa comprar nossa
liberdade ou a contribuição de amor que queremos dar para melhorar a situação
de nossos irmãos.
Só acredito em mudança quando
houver conscientização; não acredito em mudança que não seja pacífica. Contudo,
pacífica não significa ser pacifista. Não posso exigir justiça por meios
violentos, primeiro porque não condiz com o Evangelho; segundo porque a
violência, para nós, agora, seria um suicídio.”
Discursos como esse faziam com que os militares rotulassem Dom Hélder, Dom José Maria Pires e Dom Fragoso como os “bispos vermelhos”.
Discursos como esse faziam com que os militares rotulassem Dom Hélder, Dom José Maria Pires e Dom Fragoso como os “bispos vermelhos”.
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