Há cidades que nascem de uma beira de estrada. Outras, da margem de um porto, do igarapé de um rio – de um riacho, de um arraial em pleno sertão. Cajazeiras nasceu de uma escola.
Antes que seus sinos anunciassem missas, antes que suas ruas recebessem os passos dos viajantes, antes mesmo que existisse como cidade, já havia ali naquele sítio em formação, um homem convencido de que o conhecimento seria a melhor maneira de um lugar prosperar, como também, a maior riqueza que o sertão poderia possuir para se desenvolver.
Quando o Padre Inácio de Sousa Rolim abriu as portas da sua escola que depois virou colégio, talvez nem imaginasse que estava lançando uma semente que ia nascer grande. que ia longe, capaz de atravessar séculos. não fundava apenas uma casa de ensino. Fundava uma maneira de pensar. Plantava uma vocação no solo nordestino. E poucas cidades brasileiras podem dizer que nasceram assim.
Enquanto muitas localidades do interior daquele Brasil do seu tempo, cresciam em torno de mercados, quartéis ou fazendas, Cajazeiras em pleno o sertão esquecido e distante, crescia em torno dos livros.
Talvez por isso tenha aprendido cedo que o saber nunca foi luxo. Mas, uma – sempre necessidade ordinário na vida de um ser humano. Foi dessa compreensão que nasceu uma cidade onde ensinar se tornou quase um modo de viver. Um prazer da vida.
Ao completar cento e sessenta e três anos de emancipação política, Cajazeiras continua carregando no seu peito para o futuro - com muito orgulho um título que não foi concedido por decreto nem por favor: Cidade que ensinou a Paraíba a ler.
Esse
título foi conquistado pela vocação do seu povo, pela determinação de sua gente,
que intendeu que o ensino, seja ele aplicado por intermédio de uma casa de
taipa ou de uma alvenaria de tijolos batidos, mas que a frende tivesse um
vocacionado, um padre determinado, compromissado com a educação.
Até parece que seria essa a sina que Cajazeiras cumpriria na sua trajetória histórica com a educação no tempo, seja ele presente ou futuro, ou simplesmente nas carteiras do Colégio do Padre Rolim. Escola que historicamente, foi ampliado quando surgiram os primeiros educandários na cidade já crescida.
Com o fortalecido da cidade e evidentemente com crescimento da demanda, vieram as instalações das primeiras faculdades. Sendo confirmado pela chegada das universidades que transformaram Cajazeiras num dos maiores polos educacionais do interior nordestino.
Hoje, milhares de estudantes atravessam estradas vindos de dezenas de municípios do sertão paraibano, do Ceará, do Rio Grande do Norte e de Pernambuco. Vêm em busca da mesma coisa que, há quase dois séculos, atraía jovens sertanejos: conhecimento. É curioso perceber que uma cidade do semiárido nunca aceitou a escassez como destino. Quando faltava água, inventava açudes.
E assim foi o grito contido no silencio de sua gente. Quando faltavam recursos, inventava trabalho. Quando parecia faltar esperança, inventava escolas. Talvez seja esse o verdadeiro retrato de Cajazeiras. Uma cidade que nunca esperou o futuro chegar. Sempre olhou e andou pensando em construir.
Mas Cajazeiras nunca viveu apenas de livros. Seus corredores escolares ensinaram gramática, matemática e filosofia. As ruas, por exemplo, produziram cultura e ensinaram arte. Poucas cidades interioranas produziram uma vida cultural tão intensa.
O teatro encontrou aqui terreno fértil, pronta para acolher sementes que germinaram bons frutos nas quatro linguagens da arte. Palcos improvisados tornaram-se escolas de atores. Grupos amadores transformaram-se em referências estaduais. Companhias revelaram talentos.
Nas décadas passadas, nomes dedicaram a vida à construção de uma cena teatral que fez de Cajazeiras uma referência para toda a Paraíba. Dali nasceram artistas que cruzaram fronteiras. Alguns chegaram aos palcos nacionais. Outros conquistaram espaço na televisão. Outros encontraram no cinema o lugar para contar histórias.
E todos carregaram consigo um pouco da cidade onde aprenderam que interpretar também é uma forma de ensinar. Porque a arte sempre foi uma segunda escola cajazeirense. A música também encontrou abrigo. Bandas, Corais, Compositores, Poetas, Cordelistas, Repentistas, Cantadores. Cada um acrescentou um capítulo à identidade cultural da cidade.
Nas festas populares, nos festivais, nas praças, nos auditórios, nos antigos cinemas, nos clubes e nos teatros, Cajazeiras aprendeu que cultura não é enfeite. É patrimônio, É memória, É resistência,
Também a literatura encontrou terreno generoso. Escritores transformaram o cotidiano sertanejo em páginas permanentes. Cronistas registraram a alma da cidade. Pesquisadores preservaram documentos. Historiadores impediram que o tempo apagasse personagens. Poetas ensinaram que o sertão também sabe escrever delicadezas.
E assim Cajazeiras foi acumulando uma riqueza que nenhum banco seria capaz de guardar. Sua riqueza sempre esteve nas pessoas. Nos professores. Nos artistas. Nos médicos. Nos advogados. Nos religiosos. Nos jornalistas. Nos estudantes. Nos comerciantes. Nos trabalhadores anônimos que construíram cada rua, cada casa e cada sonho.
Ao longo de cento e sessenta e três anos, a cidade atravessou secas, crises econômicas, mudanças políticas e transformações sociais. Viu partir muitos de seus filhos. Mas também viu inúmeros retornarem. Porque Cajazeiras tem um estranho poder. Quem nasce aqui nunca parte completamente.
Leva consigo um sotaque. Uma lembrança. Uma esquina. O cheiro da chuva sobre a terra seca. Os sinos da Matriz. As conversas nas calçadas. Os reencontros das festas de agosto. Os abraços inevitáveis. As histórias repetidas que nunca envelhecem. Há cidades que impressionam pelo tamanho. Outras, pelos arranha-céus. Algumas, pela riqueza material.
Cajazeiras impressiona pela capacidade de produzir gente. Gente preparada. Criativa. Sensível. Inquieta. Talvez por isso seus filhos estejam espalhados pelo Brasil inteiro. Nas universidades. Nos tribunais. Nos hospitais. Nos laboratórios. Nos palcos. Nos estúdios de televisão. Nas redações. Nas salas de aula.
Sempre levando consigo um pouco daquela cidade sertaneja onde aprenderam que o conhecimento abre caminhos que nenhuma seca consegue fechar. Hoje, quando Cajazeiras completa 163 anos, a maior homenagem que se pode prestar não está apenas em celebrar seu passado. Está em compreender sua missão.
Continuar sendo uma cidade onde a educação seja prioridade. Onde a cultura encontre espaço. Onde o teatro continue formando artistas. Onde a música continue emocionando. Onde os livros continuem sendo companheiros. Onde a memória continue sendo preservada. Porque cidades também envelhecem.
Mas algumas envelhecem como as grandes árvores: tornam-se mais fortes, mais frondosas e mais necessárias. Cajazeiras é uma delas. A cada novo aniversário, não soma apenas um ano.
Acrescenta mais uma página a uma história iniciada por um sacerdote que acreditava na força transformadora da educação e continuada por gerações inteiras que fizeram da cultura uma forma de existir. E talvez seja justamente esse o maior legado desses cento e sessenta e três anos.
Cajazeiras nunca foi apenas um lugar no mapa do sertão paraibano. É uma ideia. A ideia de que um povo educado constrói uma sociedade mais justa. De que uma cidade que valoriza seus artistas nunca perde sua identidade. De que preservar a memória é preparar o futuro. Por isso, celebrar Cajazeiras é celebrar muito mais do que uma data. É celebrar um modo de viver. É celebrar um povo. É celebrar uma cidade que, há 163 anos, continua ensinando que o maior patrimônio de qualquer terra não está em suas pedras, nem em suas ruas, nem em seus prédios.
Está
nas pessoas que fazem da educação, da cultura e da esperança uma permanente
obra coletiva. Parabéns, Cajazeiras. Aos seus 163 anos, você continua sendo uma
das mais belas lições que o sertão brasileiro já escreveu.
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