quinta-feira, 27 de agosto de 2026

O CONTO DO CACHORRO

By cledudimarferreira

 


Os fantasmas dos caminhos do sertão eram presepadas contadas pelos antigos. Meu bisavô Jerônimo contava; meu avô Tiantônio, também; e meu Pai José, mesmo sendo um atrapalhado narrador de histórias, era um excelente roteirista das histórias do Cachorro. Nas noites novas dos meses que marcavam o fim da estiagem e o início dos primeiros salpicos de inverno naquele remoto Nordeste onde o lampião era a divindade que clareava, à custa do querosene jacaré, as veredas de muita gente e os malcaiados cômodos das salas onde aconteciam as sessões de contação –, a namorada de Jorge, mesmo distante, lá de cima, com todo seu atrevimento, ofuscava o venerado lampejo do lendário lampião, impondo sua luz prateada, iluminando os passos de quem ia e de quem vinha pelos caminhos do Sítio Barra do Catolé.
Por aquelas paragens, só o Cachorro dispensava qualquer luz. Essa quase potestade não se incomodava com o claro ou o escuro, pois, em confronto com as adversidades da vida, aprendera e se adaptar, à força, às duas condições, sem fazer escolha por nenhuma delas. Por esses trajetos, Nonato de Ana era rei. E, sendo rei nesse ofício, toda a veneração adquirida contribuía ainda mais para sua ilibada reputação na arte de contar causos de assombração ocorridos pelo interior nordestino. Quando a boca da noite chegava, aquela mesma gente saía de suas vivendas à procura dos lugares onde a amante do centurião melhor se mostrava, pois, certamente, ali haveria um contista de bom repertório para narrar os fatos sobrenaturais que ouvira falar ou que tivesse presenciado.
Os causos do Cachorro eram os preferidos os mais solicitados, assediados e aclamados. Além dessa virtude e desse prestígio adquirido, também era o Cachorro o senhor das presepadas, das artimanhas, das enrolações e das caçadas de pebas nas primeiras chuvas do ano. Junto de Niceta, Nonato de Ana, Praxedes e Militão, a cachorrada era sempre certa... até surgir no grupo um “entrão” indesejado; um não convidado; um intruso metido a besta. Mesmo que fosse parente, um aderente, amigo ou conhecido de todos. E foi naquela noite quando o céu dera dado uma trégua, recolhendo todas as torres, barras e pesadas nuvens de vento que, por três dias seguidos, haviam desenhado o cenário das chuvas que o sertão se preparou para receber a inspiradora noiva dos poetas, abrindo sua luz sobre as noites sombrias daquelas pradarias sertanejas.
O Cachorro e os quatros amigo caçadores, resolveram aproveitar as alvejantes noites “jorgeanas”, para colocar em prática aquilo de que mais gostavam: caçar peba. Ao saber da atividade programada para aquela noite pelo coletivo do Cachorro, Chico Novo procurou Praxedes e falou do seu interesse em compor o grupo na caçada em perseguição aos parentes do tatu. Praxedes, sujeito encabulado, porém astuto e malvado, não deixou sequer o rapaz terminar de falar e já foi logo cortando a sua conversa:
Não! Não vai dar certo, Chico. Já tem gente demais. E você sabe que peba é um bicho difícil de pegar. Tem o ouvido aguçado e o faro afinado. Qualquer barulho que se faça ele ouve e, logo, sente o cheiro da gente e nem sai do buraco.
Ouvido os argumentos de Praxedes, Chico Novo rebateu:
Ora, Praxedes, me deixa ir. Garanto que vou ficar afastado. Prometo também ficar de bico calado e não atrapalhar a caçada.
Homem... Tu não garantes! Porque promessa, Chico, é uma coisa difícil de pagar.
Eu dou minha palavra! replicou Chico Novo.
Bom! Se é assim, por mim tudo bem. Mas o problema agora é o Cachorro. Será que ele vai se sentir bem com sua presença? Será que vai querer você junto nessa caçada? De qualquer forma, vou conversar com ele sobre esse seu interesse em se juntar a nós. Vamos ver o que ele acha.
Mais tarde, ao avistar o Cachorro vagando na ribanceira do Rio, Praxedes foi ao encontro da sombra e expôs o desejo de Chico Novo de participar da caçada. Entre dúvidas e certezas da participação do rapaz na caça ao peba, ficou acertado que Chico iria, mas seria o responsável pelos mantimentos dos caçadores, enquanto os demais estivessem com os cães na mata. No fim do dia, a noite caiu, e o grupo saiu em direção às capoeiras de Nhô Pereira. Depois de andarem por um bom tempo, encontraram um descampado calçado por um lajeiro cercado por um capinzal fino, rasteiro e seco lugar ideal para um bom descanso, esticar o corpo e tirar uma soneca.
Naquela noite o vento não soprava tanto. A temperatura estava amena e as estrelas do céu pareciam estar sobre a cabeça de todos. Só a lua reinava; era a dona absoluta da luz e da noite. O Cachorro parou por alguns minutos, observou a circunferência formada pela vegetação ao redor do descampado, ouviu o silêncio do lugar e mandou que todos parassem para descansar. Em seguida, isolou-se num ponto a poucos metros do grupo. Quando todos já estavam num estado pré-letárgico, entregues a um relaxamento quase eterno, ouviu-se a voz do Cachorro chamando Praxedes para uma conversa. Praxedes, com um bom obediente, dirigiu-se ao amigo e, ao chegar, ouviu do Cachorro a seguinte interpelação:
Tô com mau pressentimento. Acha que esse rapaz que tu arranjaste aí vai atrapalhar a caçada.
Será? ... respondeu Praxedes.
Vai! E, para nós não perdermos a viagem, reúna todos e comece a contar as histórias que precisam ser contadas, pra ver se ele volta pra povoado.
Será que ele vai temer a oralidade do uivo? Será que vai voltar mesmo? rebateu Praxedes. 
Alguma coisa tem que ser feita. Fiquei sabendo que esse rapaz, além de atrapalhado, é frouxo, medroso e carrega energias negativas.
Ao recompor o grupo, Praxedes convida os companheiros de caçada para uma boa conversa de trancoso e causos de assombração ocorridos nas circunvizinhanças do Sítio Barra do Catolé, muitos deles presenciados e vividos pelos próprios moradores da região. Chico Novo, ao perceber as intenções de Praxedes, interrogou:
Homem, não acredito nessas coisas. Isso não existe. É melhor a gente conversar sobre outros assuntos!
Não. Foi o Cachorro quem mandou. É ele quem comanda a caçada nesta noite, e é melhor a gente obedecer... porque, senão...
Senão o que? – respondeu Chico Novo
Senão, ele vai virar naquela coisa horrível que todos nós já sabemos o que é... inclusive você, Chico Novo!
Nesse momento, movimentadas nuvens escuras começaram a se formar no céu em direção à namorada de Jorge, numa animação frenética de tons cinzentos, enfraquecendo o clarão da noite, justamente em perfeita coerência com o início da contação das histórias, tal como o Cachorro previa e mandara. Nonato de Ana, como bom contador de histórias, usava de artifícios para impor medo aos ouvintes. Começava com causos de menor relevância, que não provocavam tanto temor assim. Depois, introduzia de forma dramática, no meio dessas narrativas, outros contos de maior tensão, capazes de causar arrepios, levantar os cabelos dos ouvintes mais destemidos e provocar “inscorrença de tiririca” naqueles mais medrosos como era o caso de Chico Novo.
Quando já estava no quarto conto, Chico Novo mal se segurava nas calças. A tremelica era grande e o mau cheiro também. Para piorar, as nuvens intensificavam o ofuscamento da iluminação lunar, quando, de repente, os cães começaram a uivar como lobos no cio. Era um gemido agoirente que, conforme a velocidade do vento aumentava ou diminuía, parecia estar ora perto, ora longe do grupo. Uma “anunciação nervosa” ecoava sobre o lajeiro, sinalizando que os caninos haviam acuado um peba em algum buraco próximo de onde estavam o Cachorro e seu grupo de aventureiros. Um sinal de que o medo de Chico estava apenas começando e de que coisas piores ainda viriam pela frente.
O grunhido aumentava, e o vento, por um capricho, acelerava seus assovios, oscilando entre altos e baixos numa velocidade constante de meter medo, expondo os galhos das árvores numa disputa por espaço entre as copas da vegetação escura, que se contorciam e se arranhavam umas nas outras. Os minutos passavam, e aquela situação parecia não ter fim.
Foi quando Nonato de Ana e os demais companheiros perceberam que Chico Novo estava deitado, com as mãos tapando os ouvidos. Mesmo assim, Nonato não deu importância ao rapaz e continuou verbalizando seu repertório de portentosas histórias de malassombro. Quando a ventania baixou, o Cachorro tomou uma atitude e chamou todos para uma conversa. Era hora de ir ao encontro dos caninos e descobrir qual era a presa que haviam acuado.
Todos vieram, menos um. Chico Novo permaneceu encolhido no meio do lajeiro. Nesse momento, ao perceber o comportamento do novo integrante, o Cachorro teve uma ideia que marcaria para sempre a vida do pobre Chico Novo. Ao notar que ele dormia, a entidade do mal reuniu-se a Nonato de Ana, Praxedes, Militão e Niceta e ordenou:
Vamos fazer um aceiro em volta desse lajeiro.
Mas como? Para quê esse aceiro? rebateu Nonato de Ana.
Cada um de nós vai pegar um pedaço de pau e sair rasgando o capim, fazendo uma espécie de círculo ao redor do lajeiro. Depois, vamos raspar o terreno até ele ficar limpo como uma laje.
E assim fizeram. Quando o serviço terminou, os companheiros passaram a olhar para o Cachorro. Precisavam saber qual era o objetivo de tanto trabalho. Foi então que veio a resposta:
Agora vamos tocar fogo no capim em volta do lajeiro. Essa parte raspada é justamente para que o fogo não se alastre mata adentro.
Naquele instante, cada um pegou sua caixa de fósforos e acendeu o aro de capim seco que circulava o lajeiro onde Chico Novo roncava. Quando o fogo se espalhou ao redor da pedreira, fechando todo o círculo de labaredas, o Cachorro gritou:
É fogo, Chico! É fogo, Chico!
Chico, atarantado, acordou assustado com o calor nas ventas. Aterrorizado com a situação em que se encontrava, pulava de um lado para outro em gritos de desespero sobre as labaredas. Quando olhou ao redor, pedindo socorro sem saber por onde sair, só via fumaça e o silencio da noite. Nesse instante, o Cachorro reuniu sua turma e, seguindo o faro dos cães caçadores, fugiu em direção à mata sombria e densa à procura dos lugares onde “os pebas” estavam acuados.
No Sítio Barra do Catolé, até hoje dizem os seus habitantes que Chico Novo só não virou cinza porque o medo deu a ele pernas de corisco – correu tanto que só parou no povoado. E lá, por muito tempo, ainda se conta que o Cachorro não caçava apenas peba: caçava também o medo dos homens.
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