By cledudimarferreira
Os
fantasmas dos caminhos do sertão eram presepadas contadas pelos antigos. Meu
bisavô Jerônimo contava; meu avô Tiantônio, também; e meu Pai José, mesmo sendo
um atrapalhado narrador de histórias, era um excelente roteirista das histórias
do Cachorro. Nas
noites novas dos meses que marcavam o fim da estiagem e o início dos primeiros
salpicos de inverno naquele remoto Nordeste – onde o lampião era a divindade que clareava,
à custa do querosene jacaré, as veredas de muita gente e os malcaiados
cômodos das salas onde aconteciam as sessões de contação –, a namorada de Jorge,
mesmo distante, lá de cima, com todo seu atrevimento, ofuscava o venerado
lampejo do lendário lampião, impondo sua luz prateada, iluminando os passos de
quem ia e de quem vinha pelos caminhos do Sítio Barra do Catolé.
Por
aquelas paragens, só o Cachorro dispensava qualquer luz. Essa quase potestade não
se incomodava com o claro ou o escuro, pois, em confronto com as adversidades
da vida, aprendera e se adaptar, à força, às duas condições, sem fazer escolha
por nenhuma delas. Por esses trajetos, Nonato de Ana era rei. E, sendo rei
nesse ofício, toda a veneração adquirida contribuía ainda mais para sua ilibada
reputação na arte de contar causos de assombração ocorridos pelo interior
nordestino. Quando
a boca da noite chegava, aquela mesma gente saía de suas vivendas à procura dos
lugares onde a amante do centurião melhor se mostrava, pois, certamente, ali
haveria um contista de bom repertório para narrar os fatos sobrenaturais que
ouvira falar ou que tivesse presenciado.
Os
causos do Cachorro eram os preferidos –
os mais solicitados, assediados e aclamados. Além dessa
virtude e desse prestígio adquirido, também era o Cachorro o senhor das
presepadas, das artimanhas, das enrolações e das caçadas de pebas nas primeiras
chuvas do ano. Junto de Niceta, Nonato de Ana, Praxedes e Militão, a cachorrada
era sempre certa... até surgir no grupo um “entrão” indesejado; um não
convidado; um intruso metido a besta. Mesmo que fosse parente, um aderente,
amigo ou conhecido de todos. E
foi naquela noite – quando
o céu dera dado uma trégua, recolhendo todas as torres, barras e pesadas nuvens
de vento que, por três dias seguidos, haviam desenhado o cenário das chuvas – que o sertão se
preparou para receber a inspiradora noiva dos poetas, abrindo sua luz sobre as noites
sombrias daquelas pradarias sertanejas.
– Não! Não vai dar certo, Chico. Já tem gente demais. E você sabe que peba é um bicho difícil de pegar. Tem o ouvido aguçado e o faro afinado. Qualquer barulho que se faça ele ouve e, logo, sente o cheiro da gente e nem sai do buraco.
– Ora, Praxedes, me deixa ir. Garanto que vou ficar afastado. Prometo também ficar de bico calado e não atrapalhar a caçada.
Mais
tarde, ao avistar o Cachorro vagando na ribanceira do Rio, Praxedes foi ao
encontro da sombra e expôs o desejo de Chico Novo de participar da caçada.
Entre dúvidas e certezas da participação do rapaz na caça ao peba, ficou
acertado que Chico iria, mas seria o responsável pelos mantimentos dos
caçadores, enquanto os demais estivessem com os cães na mata. No
fim do dia, a noite caiu, e o grupo saiu em direção às capoeiras de Nhô
Pereira. Depois de andarem por um bom tempo, encontraram um descampado calçado
por um lajeiro cercado por um capinzal fino, rasteiro e seco – lugar ideal para um
bom descanso, esticar o corpo e tirar uma soneca.
Naquela
noite o vento não soprava tanto. A temperatura estava amena e as estrelas do
céu pareciam estar sobre a cabeça de todos. Só a lua reinava; era a dona
absoluta da luz e da noite. O Cachorro parou por alguns minutos, observou a
circunferência formada pela vegetação ao redor do descampado, ouviu o silêncio
do lugar e mandou que todos parassem para descansar. Em
seguida, isolou-se num ponto a poucos metros do grupo. Quando todos já estavam
num estado pré-letárgico, entregues a um relaxamento quase eterno, ouviu-se a
voz do Cachorro chamando Praxedes para uma conversa. Praxedes, com um bom
obediente, dirigiu-se ao amigo e, ao chegar, ouviu do Cachorro a seguinte
interpelação:
– Tô com mau pressentimento. Acha que esse rapaz que tu arranjaste aí vai atrapalhar a caçada.
–
Será? ... – respondeu
Praxedes.
–
Vai! E, para nós não perdermos a viagem, reúna todos e comece a contar as
histórias que precisam ser contadas, pra ver se ele volta pra povoado.
–
Será que ele vai temer a oralidade do uivo? Será que vai voltar mesmo? – rebateu Praxedes.
–
Alguma coisa tem que ser feita. Fiquei sabendo que esse rapaz, além de
atrapalhado, é frouxo, medroso e carrega energias negativas.
– Tô com mau pressentimento. Acha que esse rapaz que tu arranjaste aí vai atrapalhar a caçada.
Ao
recompor o grupo, Praxedes convida os companheiros de caçada para uma boa
conversa de trancoso e causos de assombração ocorridos nas circunvizinhanças do
Sítio Barra do Catolé, muitos deles presenciados e vividos pelos próprios
moradores da região. Chico Novo, ao perceber as intenções de Praxedes,
interrogou:
– Homem, não acredito nessas coisas. Isso não existe. É melhor a gente conversar sobre outros assuntos!
–
Não. Foi o Cachorro quem mandou. É ele quem comanda a caçada nesta noite, e é
melhor a gente obedecer... porque, senão...
–
Senão o que? – respondeu
Chico Novo
– Senão, ele vai virar naquela coisa horrível que todos nós já sabemos o que é... inclusive você, Chico Novo!
– Homem, não acredito nessas coisas. Isso não existe. É melhor a gente conversar sobre outros assuntos!
– Senão, ele vai virar naquela coisa horrível que todos nós já sabemos o que é... inclusive você, Chico Novo!
Nesse momento,
movimentadas nuvens escuras começaram a se formar no céu em direção à namorada
de Jorge, numa animação frenética de tons cinzentos, enfraquecendo o clarão da
noite, justamente em perfeita coerência com o início da contação das histórias,
tal como o Cachorro previa e mandara. Nonato
de Ana, como bom contador de histórias, usava de artifícios para impor medo aos
ouvintes. Começava com causos de menor relevância, que não provocavam tanto
temor assim. Depois, introduzia de forma dramática, no meio dessas narrativas,
outros contos de maior tensão, capazes de causar arrepios, levantar os cabelos
dos ouvintes mais destemidos e provocar “inscorrença de tiririca”
naqueles mais medrosos –
como era o caso de Chico Novo.
O
grunhido aumentava, e o vento, por um capricho, acelerava seus assovios,
oscilando entre altos e baixos numa velocidade constante de meter medo, expondo os galhos das árvores numa disputa por
espaço entre as copas da vegetação escura, que se contorciam e se arranhavam
umas nas outras. Os minutos passavam, e aquela situação parecia não ter fim.
Foi quando Nonato de Ana e os demais companheiros perceberam que Chico Novo estava deitado, com as mãos tapando os ouvidos. Mesmo assim, Nonato não deu importância ao rapaz e continuou verbalizando seu repertório de portentosas histórias de malassombro. Quando a ventania baixou, o Cachorro tomou uma atitude e chamou todos para uma conversa. Era hora de ir ao encontro dos caninos e descobrir qual era a presa que haviam acuado.
Foi quando Nonato de Ana e os demais companheiros perceberam que Chico Novo estava deitado, com as mãos tapando os ouvidos. Mesmo assim, Nonato não deu importância ao rapaz e continuou verbalizando seu repertório de portentosas histórias de malassombro. Quando a ventania baixou, o Cachorro tomou uma atitude e chamou todos para uma conversa. Era hora de ir ao encontro dos caninos e descobrir qual era a presa que haviam acuado.
Todos vieram, menos um.
Chico Novo permaneceu encolhido no meio do lajeiro. Nesse momento, ao perceber
o comportamento do novo integrante, o Cachorro teve uma ideia que marcaria para
sempre a vida do pobre Chico Novo. Ao notar que ele dormia, a entidade do mal
reuniu-se a Nonato de Ana, Praxedes, Militão e Niceta e ordenou:
– Vamos fazer um aceiro em volta desse lajeiro.
–
Mas como? Para quê esse aceiro? – rebateu Nonato de Ana.
–
Cada um de nós vai pegar um pedaço de pau e sair rasgando o capim, fazendo uma
espécie de círculo ao redor do lajeiro. Depois, vamos raspar o terreno até ele
ficar limpo como uma laje.
E
assim fizeram. Quando o serviço terminou, os companheiros passaram a olhar para
o Cachorro. Precisavam saber qual era o objetivo de tanto trabalho. Foi então
que veio a resposta:
– Agora vamos tocar fogo no capim em volta do lajeiro. Essa parte raspada é justamente para que o fogo não se alastre mata adentro.
– Vamos fazer um aceiro em volta desse lajeiro.
– Agora vamos tocar fogo no capim em volta do lajeiro. Essa parte raspada é justamente para que o fogo não se alastre mata adentro.
Naquele instante, cada
um pegou sua caixa de fósforos e acendeu o aro de capim seco que circulava o
lajeiro onde Chico Novo roncava. Quando o fogo se espalhou ao redor da
pedreira, fechando todo o círculo de labaredas, o Cachorro gritou:
– É fogo, Chico! É fogo, Chico!
– É fogo, Chico! É fogo, Chico!
Chico,
atarantado, acordou assustado com o calor nas ventas. Aterrorizado com a
situação em que se encontrava, pulava de um lado para outro em gritos de
desespero sobre as labaredas. Quando olhou ao redor, pedindo socorro sem saber
por onde sair, só via fumaça e o silencio da noite. Nesse instante, o Cachorro
reuniu sua turma e, seguindo o faro dos cães caçadores, fugiu em direção à mata
sombria e densa à procura dos lugares onde “os pebas” estavam acuados.
No Sítio Barra do Catolé, até hoje dizem
os seus habitantes que Chico Novo só não virou cinza porque o medo deu a ele
pernas de corisco – correu tanto que só parou no povoado. E lá, por muito
tempo, ainda se conta que o Cachorro não caçava apenas peba: caçava também o
medo dos homens.
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