Concepção, estilo e tecnica: Cleudimar Ferreira. execução: caneta pico de pena (IA - Gamini)
Há almas que transitam pela
terra envoltas em uma aura de santidade inabalável, cuja existência se converte
em um constante cântico de virtude, resignação e amor ao próximo. Assim foi a
trajetória terrena do Padre Inácio de Sousa Rolim. Na memória dos homens e nas
crônicas do tempo, não há mácula, desatino ou rasgo de cólera que possa
ensombrar a pureza de seu espírito. Ele encarnou, na essência mais sublime, a
figura do justo: aquele que caminha com sobriedade e retidão, desvencilhando-se
das veredas tenebrosas dos ímpios para seguir, irrestritamente, os preceitos do
Altíssimo.
Todavia, o maior milagre
perpetrado por essa alma iluminada não se deu por prodígios místicos, mas pelo
milagre do saber. Sensível às dores de sua gente, o sacerdote enxergou nas
vastidões áridas do sertão paraibano o terrível fardo da ignorância. Foi no
ensino que ele encontrou sua missão santa: erguer a primeira escola de ensino
secundário do sertão, estendendo aos jovens daquelas terras ressequidas a luz
da sabedoria.
Pois o legado do virtuoso
presbítero jamais se ateve apenas ao sacerdócio ou às paredes da sala de aula.
Padre Rolim trazia consigo o gênio invulgar dos sábios, cuja curiosidade
abraçava os segredos do mundo natural e as ciências de seu tempo. Na célebre
obra Noções de História Natural, seu mais luminoso projeto pedagógico,
catalogou a fauna e a flora sertanejas, legando às futuras gerações um
relicário de conhecimento. Humanista formidável e um dos maiores latinistas e
helenistas de sua época, compilou o Extracto de Gramática Grega para conduzir
com suavidade seus alunos através dos encantos do idioma clássico.
Relatos de biógrafos e velhos
documentos revelam ainda uma profusa produção didática de circulação interna:
compêndios de Gramática Portuguesa, Retórica, Filosofia e Moral Educacional.
Meticuloso e zeloso por sua obra, o sacerdote recusou-se a publicar muitos
desses manuais em escala comercial, indignado com os erros e as imperfeições
das tipografias de seu tempo. Admirável poliglota, transitava com elegância
singular entre dez línguas vivas e mortas: dominava o português, o latim, o
grego, o francês, o alemão, o inglês, o italiano, o espanhol, o hebraico e o
milenar sânscrito.
Até mesmo a arte soprou
suavemente sobre a alma do religioso. Registros históricos atribuem-lhe
delicadas gravuras e desenhos trançados como preces nas páginas de missais
antigos. O Cônego Florentino Barbosa encontrou, entre os folhetos de um missal
manuseado pelo sacerdote – com o qual por vezes se refugiava no silêncio
contemplativo de Cococi, no Ceará –, um singelo desenho a lápis representando a
Agonia de Cristo, guardado pelo olhar piedoso de São João e da Virgem Maria.
Cajazeiras, nascida sob a
benevolência de suas lições, gravou na história o título inesquecível de
"a cidade que ensinou a Paraíba a ler". Dali brotaram mentes
brilhantes que moldaram a pátria, a exemplo de figuras veneráveis como o Padre
Cícero e o Cardeal Arcoverde.
Hoje, enquanto a nação volta
seus olhos para o seu legado, o nome de Inácio de Sousa Rolim (1800 - 1899)
ascende finalmente ao cume da memória brasileira. A aprovação de seu nome no
Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria nada mais é do que a justa e tardia
consagração nos altares cívicos do país daquele que dedicou cada batida de seu
coração a educar, amar e santificar o sertão.

Nenhum comentário:
Postar um comentário