Uma página importante na
história do movimento estudantil de Cajazeiras
A história da Associação
Universitária de Cajazeiras (AUC) não pode ser compreendida apenas pelos
registros administrativos, pelas disputas internas ou pelas dificuldades
materiais enfrentadas pela entidade ao longo de sua existência. Até porque a
entidade nunca tene um patrimônio físico, tampouco material. Apenas tinha um
fichário com perfis de seus associados, muitos preenchidos ainda a caneta esferográfica.
Nesse modelo adaptativo do seu
tempo é necessário observar, também, o papel desempenhado por aqueles que
procuraram ampliar seus horizontes, atribuindo-lhe novas funções e
aproximando-a da vida cultural da cidade. Nesse contexto, destaca-se a atuação
de Ubiratan di Assis, (Bira), como era conhecido na época, cuja passagem pela
presidência da AUC representou, segundo a memória de sua atuação, um momento de
valorização das artes, da produção cultural e da participação dos estudantes na
vida intelectual de Cajazeiras.
Três matérias jornalísticas
publicadas em A União, preservadas em recortes de jornal, ajudam a compreender
o ambiente em que se desenvolveu essa experiência. Embora tratem de assuntos
distintos, elas revelam uma associação envolvida em disputas políticas
internas, preocupada com sua organização institucional e empenhada em
conquistar condições materiais para continuar funcionando. Claro, era regida
por jovens preocupados mais em viver seus momentos do que se apegar as coisas materiais.
Lidas em conjunto, essas notícias oferecem elementos para situar a gestão de
Bira em um período de tensões, mas também de afirmação da identidade da
entidade.
A primeira matéria, intitulada “A AUC entra com ação contra Ubiratan”, registra o conflito entre o ex-presidente e a direção que o sucedeu. O texto informa que a disputa chegou à esfera judicial e que a legitimidade das decisões tomadas por Bira estava sendo contestada pelos novos dirigentes. A notícia menciona, ainda, a gestão 1978/1979 e a situação de Ubiratan no quadro da associação após 27 de julho de 1979.
O episódio demonstra que sua saída da presidência não ocorreu sem divergências. Entretanto, é importante distinguir o registro jornalístico dos conflitos da avaliação histórica de sua contribuição. A existência de uma disputa administrativa não apaga, por si só, o trabalho realizado durante uma gestão, assim como as acusações formuladas por adversários não devem ser tomadas, automaticamente, como expressão definitiva dos fatos. Para compreender a importância de Bira, é preciso considerar também aquilo que sua atuação deixou como referência para a história cultural da cidade.
Essa dimensão aparece de
maneira mais direta na segunda matéria, intitulada “Ex-presidente da AUC desfaz
as acusações de opositores”. Nela, Ubiratan apresenta sua defesa e contesta as
críticas dirigidas à sua administração. Entre os argumentos registrados pelo
jornal, afirma que a AUC não deveria se envolver em política partidária,
defendendo uma entidade voltada à integração dos estudantes e ao fortalecimento
de suas atividades.
O texto também registra sua
preocupação com o desenvolvimento físico, moral, cultural e social da
associação. Bira procura justificar as decisões tomadas durante sua gestão,
menciona as dificuldades financeiras e administrativas e defende a necessidade
de soluções para os problemas da entidade. A matéria revela, portanto, um
dirigente interessado em apresentar publicamente sua versão dos acontecimentos
e em preservar a legitimidade do trabalho que havia realizado.
Mais do que uma simples
resposta aos adversários, essa declaração permite perceber uma concepção de
associação universitária que ultrapassava as tarefas burocráticas. A AUC
poderia ser um espaço de encontro, formação, convivência e expressão dos
estudantes. E é justamente nesse ponto que ganha importância a contribuição
cultural atribuída à gestão de Bira.
Conforme a memória de sua
atuação, Ubiratan foi o presidente que mais claramente imprimiu à AUC um
caráter cultural, priorizando a realização de eventos artísticos e ampliando a
presença da entidade na vida cultural de Cajazeiras. Entre essas iniciativas,
merece destaque o Festival Regional da Canção no Sertão, além de exposições de
artes, apresentações teatrais e outras manifestações que abriram espaço para a
criatividade, a sensibilidade e a participação de artistas e estudantes.
Essas atividades tinham um
significado que ia além do entretenimento. Em uma cidade cuja história está
profundamente ligada à educação, a uma tradição de formação intelectual e à
efervescência dos grupos artísticos, promover festivais, teatro e artes visuais
significava oferecer oportunidades de expressão e estimular o contato da
comunidade com diferentes linguagens culturais. A AUC, sob essa perspectiva,
deixava de ser apenas uma organização representativa dos universitários para
atuar também como agente de dinamização cultural.
O Festival Regional da Canção no Sertão, em particular, representa um marco importante nessa lembrança. Um evento dessa natureza podia reunir intérpretes, compositores, músicos e apreciadores da canção, contribuindo para a circulação de ideias e para o reconhecimento de talentos. Ao abrir espaço para a música e para outras manifestações artísticas, a associação ajudava a fortalecer um ambiente em que a juventude não se limitava a acompanhar a cultura produzida em outros lugares, mas também podia participar de sua criação e difusão.
A terceira matéria, “Sede de
Associação Universitária será construída em breve”, amplia o quadro histórico.
A notícia informa que a sede provisória da AUC, instalada em galpões da Rede
Ferroviária Cearense alugados pela entidade, havia sido demolida por determinação
da administração municipal de Epitácio Leite Rolim, para o alargamento e a
continuidade de uma rua. Diante da perda daquele espaço, a associação conseguiu
do prefeito a doação de um terreno de 1.600 metros quadrados, onde pretendia
construir sua sede própria.
O jornal também menciona os
universitários Robson Bastos, diretor de Relações Públicas, e José Moreira
Lustosa, vice-presidente, e registra o planejamento de promoções para arrecadar
recursos destinados à construção. Entre elas, estava a instalação de uma
barraca nas festas natalinas de Cajazeiras, com a venda de comidas, bebidas,
artesanato e outros produtos.
Essa notícia revela as
dificuldades concretas enfrentadas pela associação para assegurar sua
continuidade. A conquista de um terreno e a perspectiva de uma sede própria
representavam a busca por estabilidade institucional e por um espaço capaz de
abrigar as atividades dos estudantes. Não se deve, contudo, atribuir
automaticamente essas iniciativas à gestão de Bira, pois o recorte não
estabelece essa relação. Seu valor para a análise está em mostrar o contexto
material e organizacional em que a AUC precisava afirmar sua presença.
As três matérias, examinadas
em conjunto, revelam uma entidade atravessada por divergências, empenhada em
defender sua organização e preocupada em garantir condições para existir. Mas a
memória da atuação de Ubiratan di Assis acrescenta a essa história uma dimensão
que não se esgota nas disputas registradas nas páginas do jornal: a
transformação da associação em espaço de promoção cultural.
É por essa contribuição que
Bira merece ser lembrado. Sua importância não reside apenas no fato de ter
ocupado a presidência da AUC, mas na marca que deixou ao valorizar a música, o
teatro, as artes visuais e os encontros culturais. Enquanto os documentos
jornalísticos registram as controvérsias de seu tempo, a memória de suas
iniciativas aponta para um legado que precisa ser reconhecido na história
cultural de Cajazeiras.
Agora sobre o clima do
discurso que propõe a sua volta, resgatar essa trajetória significa compreender
que as instituições estudantis também podem desempenhar um papel decisivo na
formação cultural de uma cidade. Quando abrem suas portas à arte, criam
oportunidades, aproximam pessoas e estimulam a produção de conhecimento e
sensibilidade. Foi nessa direção que, segundo a memória de sua gestão, Ubiratan
di Assis procurou conduzir a AUC.
Bira, assim, permanece como
uma referência de uma época em que a Associação Universitária de Cajazeiras
encontrou na cultura uma forma de ampliar sua atuação e de participar mais
ativamente da vida da cidade. Uma história que merece ser preservada não apenas
como lembrança de um ex-presidente, mas como parte da memória daqueles que
fizeram da arte e da cultura instrumentos de encontro, expressão e
transformação social.
cleudimarferreira
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