segunda-feira, 19 de outubro de 2026

UBIRATAN DI ASSIS e a transformação cultural da AUC dos anos 80

Uma página importante na história do movimento estudantil de Cajazeiras



A história da Associação Universitária de Cajazeiras (AUC) não pode ser compreendida apenas pelos registros administrativos, pelas disputas internas ou pelas dificuldades materiais enfrentadas pela entidade ao longo de sua existência. Até porque a entidade nunca tene um patrimônio físico, tampouco material. Apenas tinha um fichário com perfis de seus associados, muitos preenchidos ainda a caneta esferográfica.

Nesse modelo adaptativo do seu tempo é necessário observar, também, o papel desempenhado por aqueles que procuraram ampliar seus horizontes, atribuindo-lhe novas funções e aproximando-a da vida cultural da cidade. Nesse contexto, destaca-se a atuação de Ubiratan di Assis, (Bira), como era conhecido na época, cuja passagem pela presidência da AUC representou, segundo a memória de sua atuação, um momento de valorização das artes, da produção cultural e da participação dos estudantes na vida intelectual de Cajazeiras.

Três matérias jornalísticas publicadas em A União, preservadas em recortes de jornal, ajudam a compreender o ambiente em que se desenvolveu essa experiência. Embora tratem de assuntos distintos, elas revelam uma associação envolvida em disputas políticas internas, preocupada com sua organização institucional e empenhada em conquistar condições materiais para continuar funcionando. Claro, era regida por jovens preocupados mais em viver seus momentos do que se apegar as coisas materiais. Lidas em conjunto, essas notícias oferecem elementos para situar a gestão de Bira em um período de tensões, mas também de afirmação da identidade da entidade.



A primeira matéria, intitulada “A AUC entra com ação contra Ubiratan”, registra o conflito entre o ex-presidente e a direção que o sucedeu. O texto informa que a disputa chegou à esfera judicial e que a legitimidade das decisões tomadas por Bira estava sendo contestada pelos novos dirigentes. A notícia menciona, ainda, a gestão 1978/1979 e a situação de Ubiratan no quadro da associação após 27 de julho de 1979.

O episódio demonstra que sua saída da presidência não ocorreu sem divergências. Entretanto, é importante distinguir o registro jornalístico dos conflitos da avaliação histórica de sua contribuição. A existência de uma disputa administrativa não apaga, por si só, o trabalho realizado durante uma gestão, assim como as acusações formuladas por adversários não devem ser tomadas, automaticamente, como expressão definitiva dos fatos. Para compreender a importância de Bira, é preciso considerar também aquilo que sua atuação deixou como referência para a história cultural da cidade.

Essa dimensão aparece de maneira mais direta na segunda matéria, intitulada “Ex-presidente da AUC desfaz as acusações de opositores”. Nela, Ubiratan apresenta sua defesa e contesta as críticas dirigidas à sua administração. Entre os argumentos registrados pelo jornal, afirma que a AUC não deveria se envolver em política partidária, defendendo uma entidade voltada à integração dos estudantes e ao fortalecimento de suas atividades.

O texto também registra sua preocupação com o desenvolvimento físico, moral, cultural e social da associação. Bira procura justificar as decisões tomadas durante sua gestão, menciona as dificuldades financeiras e administrativas e defende a necessidade de soluções para os problemas da entidade. A matéria revela, portanto, um dirigente interessado em apresentar publicamente sua versão dos acontecimentos e em preservar a legitimidade do trabalho que havia realizado.

Mais do que uma simples resposta aos adversários, essa declaração permite perceber uma concepção de associação universitária que ultrapassava as tarefas burocráticas. A AUC poderia ser um espaço de encontro, formação, convivência e expressão dos estudantes. E é justamente nesse ponto que ganha importância a contribuição cultural atribuída à gestão de Bira.

Conforme a memória de sua atuação, Ubiratan foi o presidente que mais claramente imprimiu à AUC um caráter cultural, priorizando a realização de eventos artísticos e ampliando a presença da entidade na vida cultural de Cajazeiras. Entre essas iniciativas, merece destaque o Festival Regional da Canção no Sertão, além de exposições de artes, apresentações teatrais e outras manifestações que abriram espaço para a criatividade, a sensibilidade e a participação de artistas e estudantes.

Essas atividades tinham um significado que ia além do entretenimento. Em uma cidade cuja história está profundamente ligada à educação, a uma tradição de formação intelectual e à efervescência dos grupos artísticos, promover festivais, teatro e artes visuais significava oferecer oportunidades de expressão e estimular o contato da comunidade com diferentes linguagens culturais. A AUC, sob essa perspectiva, deixava de ser apenas uma organização representativa dos universitários para atuar também como agente de dinamização cultural.

O Festival Regional da Canção no Sertão, em particular, representa um marco importante nessa lembrança. Um evento dessa natureza podia reunir intérpretes, compositores, músicos e apreciadores da canção, contribuindo para a circulação de ideias e para o reconhecimento de talentos. Ao abrir espaço para a música e para outras manifestações artísticas, a associação ajudava a fortalecer um ambiente em que a juventude não se limitava a acompanhar a cultura produzida em outros lugares, mas também podia participar de sua criação e difusão.


A terceira matéria, “Sede de Associação Universitária será construída em breve”, amplia o quadro histórico. A notícia informa que a sede provisória da AUC, instalada em galpões da Rede Ferroviária Cearense alugados pela entidade, havia sido demolida por determinação da administração municipal de Epitácio Leite Rolim, para o alargamento e a continuidade de uma rua. Diante da perda daquele espaço, a associação conseguiu do prefeito a doação de um terreno de 1.600 metros quadrados, onde pretendia construir sua sede própria.

O jornal também menciona os universitários Robson Bastos, diretor de Relações Públicas, e José Moreira Lustosa, vice-presidente, e registra o planejamento de promoções para arrecadar recursos destinados à construção. Entre elas, estava a instalação de uma barraca nas festas natalinas de Cajazeiras, com a venda de comidas, bebidas, artesanato e outros produtos.

Essa notícia revela as dificuldades concretas enfrentadas pela associação para assegurar sua continuidade. A conquista de um terreno e a perspectiva de uma sede própria representavam a busca por estabilidade institucional e por um espaço capaz de abrigar as atividades dos estudantes. Não se deve, contudo, atribuir automaticamente essas iniciativas à gestão de Bira, pois o recorte não estabelece essa relação. Seu valor para a análise está em mostrar o contexto material e organizacional em que a AUC precisava afirmar sua presença.

As três matérias, examinadas em conjunto, revelam uma entidade atravessada por divergências, empenhada em defender sua organização e preocupada em garantir condições para existir. Mas a memória da atuação de Ubiratan di Assis acrescenta a essa história uma dimensão que não se esgota nas disputas registradas nas páginas do jornal: a transformação da associação em espaço de promoção cultural.

É por essa contribuição que Bira merece ser lembrado. Sua importância não reside apenas no fato de ter ocupado a presidência da AUC, mas na marca que deixou ao valorizar a música, o teatro, as artes visuais e os encontros culturais. Enquanto os documentos jornalísticos registram as controvérsias de seu tempo, a memória de suas iniciativas aponta para um legado que precisa ser reconhecido na história cultural de Cajazeiras.

Agora sobre o clima do discurso que propõe a sua volta, resgatar essa trajetória significa compreender que as instituições estudantis também podem desempenhar um papel decisivo na formação cultural de uma cidade. Quando abrem suas portas à arte, criam oportunidades, aproximam pessoas e estimulam a produção de conhecimento e sensibilidade. Foi nessa direção que, segundo a memória de sua gestão, Ubiratan di Assis procurou conduzir a AUC.

Bira, assim, permanece como uma referência de uma época em que a Associação Universitária de Cajazeiras encontrou na cultura uma forma de ampliar sua atuação e de participar mais ativamente da vida da cidade. Uma história que merece ser preservada não apenas como lembrança de um ex-presidente, mas como parte da memória daqueles que fizeram da arte e da cultura instrumentos de encontro, expressão e transformação social.

cleudimarferreira

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