Na história
do teatro em Cajazeiras, o antigo Grupo Cênico Boiada levou ao palco, em 1983, uma
história de fantasia, resistência e defesa da natureza, numa experiência que
marcou a trajetória do teatro cajazeirense.
Pois bem,
nesse ano o teatro de Cajazeiras viveu uma experiência que merece ser
recuperada e valorizada pela história cultural da cidade. O Grupo Cênico
Boiada, vinculado às atividades do Núcleo de Extensão Cultural da Universidade
Federal da Paraíba (UFPB), Campus V, por meio da Coordenação de Artes Cênicas,
realizou aquela que, segundo a memória de seus participantes, foi a primeira
experiência de encenação concebida diretamente para o público infantil na
cidade.
O
espetáculo, intitulado O Palhaço e o Filho da Lua contra o Caçador da
Floresta, tinha texto e direção de Marcus Pequeno. A estreia aconteceu no
auditório do Colégio Diocesano de Cajazeiras, reunindo jovens atores amadores
em torno de uma proposta que buscava aproximar o teatro das crianças,
utilizando a fantasia, o humor e a aventura para abordar questões sociais e
ambientais.
A
realização não se limitou à apresentação inaugural. Depois da estreia, o grupo
levou o espetáculo a outros espaços de Cajazeiras, entre eles o Centro Social
Urbano (CSU), ampliando o contato com o público infantil. A montagem também
chegou a Pombal e a João Pessoa, através da Gincana Cultural Descubra a
Paraíba, realizada pelo MOBRAL, levando a experiência teatral produzida no
sertão para outros públicos paraibanos.
Uma
floresta ameaçada e a união dos oprimidos
A trama
apresentava um casal de curumins — indiozinhos interpretados por Aguinaldo
Cardozo e Amazonina Cardoso — que vivia em uma floresta habitada por diferentes
animais. A tranquilidade daquele ambiente, porém, estava ameaçada pela chegada
de um caçador acompanhado de seu cão medroso e sonolento, personagem que,
conforme a narrativa, se caracterizava pela covardia.
O caçador
pretendia perseguir e eliminar os animais, expulsá-los da mata ou
aprisioná-los. A destruição da vida silvestre abriria caminho para a derrubada
da floresta e a implantação de um empreendimento agropecuário ligado a
interesses econômicos externos.
A história
infantil adquiria, assim, uma dimensão que ultrapassava a aventura. Na leitura
política presente na concepção do espetáculo, a floresta representava um
território ameaçado pela exploração econômica, enquanto seus habitantes
simbolizavam aqueles que precisavam unir forças para defender a própria
existência.
O confronto
entre os personagens podia ser compreendido como uma representação da luta
entre opressores e oprimidos. De um lado, o caçador, movido pela intenção de
dominar e destruir; do outro, os habitantes da mata, ameaçados de perder seu
espaço e seu modo de vida.
É nesse
ponto que a presença do palhaço ganha importância. Associado ao humor e à
linguagem acessível às crianças, ele se juntava aos curumins e aos animais para
enfrentar a ameaça. A resistência deixava de ser uma ação individual e se
transformava numa luta coletiva.
No
desfecho, a união dos personagens conseguia dominar o caçador e expulsá-lo da
floresta. A ameaça era afastada, os animais recuperavam seu espaço e a vida
voltava à normalidade. Para o público infantil, a história apresentava uma
mensagem de solidariedade: diante de uma ameaça comum, a união pode se tornar
uma força capaz de mudar o curso dos acontecimentos.
A criação
do espetáculo e seus realizadores
A montagem
também representou um exercício de criação coletiva, reunindo diferentes
profissionais e artistas na construção de sua linguagem visual e cênica.
O cenário
foi produzido por Marcos Pê, responsável por criar o ambiente em que se
desenvolveria a ação dramática. Para tornar real essa fantasia Marcos teve que
pintar um imenso painel de fundo que representação uma floresta densa e
fechada, acrescido adereços que simulavam cipós e outros atrativos de uma mata
fechada. O figurino foi concebido e confeccionado por Noemia, esposa de Marcus
Pequeno, contribuindo para a caracterização dos personagens e para a composição
do universo fantástico da peça.
Além de
Aguinaldo Cardozo e Amazonina Cardoso, que interpretavam o casal de curumins, o
espetáculo reunia outros integrantes do Grupo Cênico Boiada, entre eles Marcos
Pê, Marcos Ramalho, Francisco Lira, Amazonina Cardoso, Aguinaldo Cardozo,
Patrícia Albuquerque, Francisco Batista Amaro, Claudimar Ferreira, José
Clementino, Josefa Harkley e Wildenir Albuquerque, conforme a relação publicada
pelo jornal A União em 1983.
A
participação do Núcleo de Extensão Cultural da UFPB, Campus V, situava a
experiência no âmbito da aproximação entre a universidade e a comunidade. A
extensão universitária possibilitava que conhecimentos, práticas artísticas e
experiências de criação circulassem para além dos espaços acadêmicos,
alcançando diferentes públicos.
Nesse
sentido, levar uma montagem especificamente destinada às crianças aos palcos de
Cajazeiras significava ampliar as possibilidades de atuação do teatro local. O
público infantil passava a ser considerado não apenas como espectador eventual,
mas como destinatário de uma criação artística concebida para suas formas de
percepção, imaginação e compreensão do mundo.
O Brasil de
1983: entre a crise política e a busca por novos caminhos culturais
Para
compreender melhor o significado daquela experiência, é necessário situá-la no
Brasil de 1983. O país ainda vivia sob o regime militar instaurado em 1964.
João Figueiredo ocupava a Presidência da República, e o processo de abertura
política, iniciado nos anos anteriores, avançava em meio a disputas, limitações
institucionais e crescente mobilização da sociedade.
A situação
econômica era difícil. A inflação elevada, a recessão, o desemprego e o peso da
dívida externa agravavam as condições de vida da população. Ao mesmo tempo, a
reorganização dos movimentos sociais e sindicais e o fortalecimento das forças
de oposição ampliavam as pressões por mudanças políticas.
Em março de
1983, o deputado Dante de Oliveira apresentou uma proposta de emenda
constitucional que pretendia restabelecer as eleições diretas para presidente
da República. A campanha das Diretas Já ganharia força nas ruas em 1984,
tornando-se uma das maiores mobilizações populares daquele período. Portanto,
quando o Grupo Boiada preparava seu espetáculo, o Brasil atravessava uma fase
de transição, na qual as demandas por participação política e democratização
começavam a ocupar um espaço cada vez mais expressivo.
No campo
cultural, também se discutia a necessidade de ampliar e organizar a atuação do
poder público. A cultura ainda estava vinculada ao Ministério da Educação e
Cultura, e a criação de um ministério próprio somente ocorreria em março de
1985, durante o governo de José Sarney. Os debates que antecederam essa mudança
refletiam o interesse crescente de artistas, intelectuais e gestores por
políticas culturais mais específicas e por maior reconhecimento da diversidade
das manifestações artísticas brasileiras.
Essas
transformações não significavam que todas as experiências culturais estivessem
diretamente vinculadas à oposição política ou que cada espetáculo constituísse
uma manifestação partidária. O cenário, entretanto, ajuda a compreender por que
temas como liberdade, desigualdade, exploração e resistência tinham especial
relevância naquele período.
O
espetáculo do Grupo Cênico Boiada permite uma leitura nesse sentido. Ao
apresentar um caçador disposto a destruir a floresta em benefício de interesses
econômicos, a narrativa colocava em cena o conflito entre a busca pelo lucro e
o direito dos seres ameaçados de permanecer em seu ambiente. A luta dos
curumins, do palhaço e dos animais contra o invasor podia ser entendida como
uma metáfora da resistência coletiva diante de uma força que pretendia impor
sua vontade aos demais.
Essa
interpretação ganha ainda mais significado quando se considera a história das
políticas de desenvolvimento implantadas durante a ditadura militar,
especialmente na Amazônia, onde grandes projetos de infraestrutura, incentivos
econômicos e expansão das fronteiras agropecuárias contribuíram para
intensificar a ocupação territorial e o desmatamento. Embora a narrativa
teatral não deva ser confundida com uma descrição literal de um projeto
específico, seu conflito dialogava com preocupações reais sobre a exploração da
natureza e os interesses econômicos que orientavam a ocupação de territórios.
O MOBRAL e
a Gincana Cultural Descubra a Paraíba
Foi nesse
contexto que o Grupo Boiada se preparou para participar da Gincana Cultural
Descubra a Paraíba, promovida pelo Movimento Brasileiro de Alfabetização
(MOBRAL).
Criado
durante o regime militar, o MOBRAL tinha como objetivo central desenvolver
ações de alfabetização de jovens e adultos, mas, ao longo de sua trajetória,
também passou a promover atividades culturais, comunitárias, esportivas e de
lazer. A gincana constituía uma dessas iniciativas, utilizando diferentes
modalidades de participação para mobilizar grupos e divulgar manifestações
culturais.
Uma matéria
publicada em A União, produzida pela sucursal de Cajazeiras, registrou a
participação do grupo na competição. Sob o título “Grupo Boiada concorre ao
primeiro lugar da gincana”, a notícia informava que o conjunto estava na
última fase da disputa, na modalidade de teatro, com o espetáculo O Palhaço
e o Filho da Lua contra o Caçador da Floresta.
O jornal
relatava que o Boiada havia obtido o primeiro lugar na terceira fase da
gincana, realizada em Pombal, com a pontuação máxima. A matéria também
informava que o grupo se preparava para a etapa final, prevista para uma
segunda-feira, no auditório do Liceu Paraibano, em João Pessoa, a partir das
oito horas da manhã, com entrada gratuita para todas as crianças.
A notícia é
um documento importante porque registra a circulação de uma produção teatral
originada em Cajazeiras e sua participação numa iniciativa de alcance estadual.
Mais do que anunciar uma apresentação, o texto jornalístico permite recuperar
nomes, espaços, datas aproximadas e etapas de uma trajetória que poderia
permanecer restrita à memória dos artistas envolvidos.
O recorte
também demonstra que o espetáculo não ficou limitado à estreia. Sua
participação na gincana e as apresentações em outras cidades mostram que a
montagem percorreu diferentes espaços e encontrou oportunidades para alcançar
públicos além de sua comunidade de origem.
É
importante, contudo, distinguir o resultado já documentado da etapa realizada
em Pombal da classificação final da competição: a matéria comprova a vitória
naquela fase, mas não permite afirmar, por si só, que o grupo conquistou o
primeiro lugar geral da gincana.
Uma
experiência que merece permanecer na memória
A
importância de O Palhaço e o Filho da Lua contra o Caçador da Floresta
não se resume ao seu argumento nem à participação na Gincana Cultural Descubra
a Paraíba. Ela também está no significado de se produzir, em Cajazeiras, uma
montagem concebida diretamente para crianças, reunindo dramaturgia, direção,
cenário, figurino e interpretação em torno de uma proposta artística
específica.
Ao levar o
espetáculo a escolas, espaços comunitários e palcos de outras cidades, o Grupo
Cênico Boiada contribuiu para ampliar o alcance do teatro produzido no sertão
paraibano. A experiência demonstrava que a criação teatral não precisava se
limitar aos grandes centros para tratar de questões sociais, mobilizar artistas
e estabelecer diálogo com diferentes públicos.
A peça
também oferece uma lembrança de como a linguagem infantil pode abordar assuntos
complexos sem abandonar a imaginação. A ameaça à floresta, a exploração
econômica e o confronto entre forças desiguais apareciam traduzidos em
personagens reconhecíveis, numa narrativa em que a solidariedade se tornava
condição para a vitória.
Quatro
décadas depois, a recuperação dessa história permite olhar para além das
lembranças individuais e reconhecer uma parte da trajetória cultural de
Cajazeiras. O recorte de A União, somado aos depoimentos dos
participantes, ajuda a recompor os acontecimentos e a devolver visibilidade a
artistas que, em diferentes funções, contribuíram para a construção do teatro
local.
Preservar
essa memória é também reconhecer que a história cultural de uma cidade não se
faz apenas com grandes edifícios, instituições ou acontecimentos consagrados.
Ela se constrói nos ensaios, nas apresentações, nos figurinos, nos cenários,
nas viagens e no trabalho de pessoas que acreditaram na possibilidade de fazer
arte onde viviam.
Em 1983, o
Grupo Cênico Boiada colocou em cena curumins, um palhaço, animais e um caçador.
Sob a aparência de uma aventura infantil, apresentou um conflito sobre poder,
exploração e resistência. E, ao fazer da união dos personagens o caminho para
salvar a floresta, deixou uma mensagem que ultrapassava os limites do palco: a
defesa da vida e do espaço coletivo depende da capacidade de agir em conjunto.
Recuperar essa experiência é devolver à história do teatro cajazeirense uma de suas passagens significativas — uma criação que uniu fantasia, reflexão social e o desejo de ampliar os horizontes da arte para as crianças do sertão.
- A reabertura política, de 1979 a 1985 — Memórias da Ditadura.
- Situação ruim da economia nos anos 80 favoreceu o movimento das Diretas Já — Agência Câmara.
- Decreto nº 91.144, de 15 de março de 1985 — criação do Ministério da Cultura.
- Os processos de desenvolvimento e desmatamento da Amazônia — Estudos Econômicos.

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