domingo, 25 de outubro de 2026

O Palhaço, o Filho da Lua e a Floresta: Uma experiência pioneira do teatro infantil em Cajazeiras.

Cleudimar Ferreira 


Recorte: Jornal A União, 1983. Acervo: Cleudimar Ferreira


Na história do teatro em Cajazeiras, o antigo Grupo Cênico Boiada levou ao palco, em 1983, uma história de fantasia, resistência e defesa da natureza, numa experiência que marcou a trajetória do teatro cajazeirense.

Pois bem, nesse ano o teatro de Cajazeiras viveu uma experiência que merece ser recuperada e valorizada pela história cultural da cidade. O Grupo Cênico Boiada, vinculado às atividades do Núcleo de Extensão Cultural da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), Campus V, por meio da Coordenação de Artes Cênicas, realizou aquela que, segundo a memória de seus participantes, foi a primeira experiência de encenação concebida diretamente para o público infantil na cidade.

O espetáculo, intitulado O Palhaço e o Filho da Lua contra o Caçador da Floresta, tinha texto e direção de Marcus Pequeno. A estreia aconteceu no auditório do Colégio Diocesano de Cajazeiras, reunindo jovens atores amadores em torno de uma proposta que buscava aproximar o teatro das crianças, utilizando a fantasia, o humor e a aventura para abordar questões sociais e ambientais.

A realização não se limitou à apresentação inaugural. Depois da estreia, o grupo levou o espetáculo a outros espaços de Cajazeiras, entre eles o Centro Social Urbano (CSU), ampliando o contato com o público infantil. A montagem também chegou a Pombal e a João Pessoa, através da Gincana Cultural Descubra a Paraíba, realizada pelo MOBRAL, levando a experiência teatral produzida no sertão para outros públicos paraibanos.

Uma floresta ameaçada e a união dos oprimidos

A trama apresentava um casal de curumins — indiozinhos interpretados por Aguinaldo Cardozo e Amazonina Cardoso — que vivia em uma floresta habitada por diferentes animais. A tranquilidade daquele ambiente, porém, estava ameaçada pela chegada de um caçador acompanhado de seu cão medroso e sonolento, personagem que, conforme a narrativa, se caracterizava pela covardia.

O caçador pretendia perseguir e eliminar os animais, expulsá-los da mata ou aprisioná-los. A destruição da vida silvestre abriria caminho para a derrubada da floresta e a implantação de um empreendimento agropecuário ligado a interesses econômicos externos.

A história infantil adquiria, assim, uma dimensão que ultrapassava a aventura. Na leitura política presente na concepção do espetáculo, a floresta representava um território ameaçado pela exploração econômica, enquanto seus habitantes simbolizavam aqueles que precisavam unir forças para defender a própria existência.

O confronto entre os personagens podia ser compreendido como uma representação da luta entre opressores e oprimidos. De um lado, o caçador, movido pela intenção de dominar e destruir; do outro, os habitantes da mata, ameaçados de perder seu espaço e seu modo de vida.

É nesse ponto que a presença do palhaço ganha importância. Associado ao humor e à linguagem acessível às crianças, ele se juntava aos curumins e aos animais para enfrentar a ameaça. A resistência deixava de ser uma ação individual e se transformava numa luta coletiva.

No desfecho, a união dos personagens conseguia dominar o caçador e expulsá-lo da floresta. A ameaça era afastada, os animais recuperavam seu espaço e a vida voltava à normalidade. Para o público infantil, a história apresentava uma mensagem de solidariedade: diante de uma ameaça comum, a união pode se tornar uma força capaz de mudar o curso dos acontecimentos.

A criação do espetáculo e seus realizadores

A montagem também representou um exercício de criação coletiva, reunindo diferentes profissionais e artistas na construção de sua linguagem visual e cênica.

O cenário foi produzido por Marcos Pê, responsável por criar o ambiente em que se desenvolveria a ação dramática. Para tornar real essa fantasia Marcos teve que pintar um imenso painel de fundo que representação uma floresta densa e fechada, acrescido adereços que simulavam cipós e outros atrativos de uma mata fechada. O figurino foi concebido e confeccionado por Noemia, esposa de Marcus Pequeno, contribuindo para a caracterização dos personagens e para a composição do universo fantástico da peça.

Além de Aguinaldo Cardozo e Amazonina Cardoso, que interpretavam o casal de curumins, o espetáculo reunia outros integrantes do Grupo Cênico Boiada, entre eles Marcos Pê, Marcos Ramalho, Francisco Lira, Amazonina Cardoso, Aguinaldo Cardozo, Patrícia Albuquerque, Francisco Batista Amaro, Claudimar Ferreira, José Clementino, Josefa Harkley e Wildenir Albuquerque, conforme a relação publicada pelo jornal A União em 1983.

A participação do Núcleo de Extensão Cultural da UFPB, Campus V, situava a experiência no âmbito da aproximação entre a universidade e a comunidade. A extensão universitária possibilitava que conhecimentos, práticas artísticas e experiências de criação circulassem para além dos espaços acadêmicos, alcançando diferentes públicos.

Nesse sentido, levar uma montagem especificamente destinada às crianças aos palcos de Cajazeiras significava ampliar as possibilidades de atuação do teatro local. O público infantil passava a ser considerado não apenas como espectador eventual, mas como destinatário de uma criação artística concebida para suas formas de percepção, imaginação e compreensão do mundo.

O Brasil de 1983: entre a crise política e a busca por novos caminhos culturais

Para compreender melhor o significado daquela experiência, é necessário situá-la no Brasil de 1983. O país ainda vivia sob o regime militar instaurado em 1964. João Figueiredo ocupava a Presidência da República, e o processo de abertura política, iniciado nos anos anteriores, avançava em meio a disputas, limitações institucionais e crescente mobilização da sociedade.

A situação econômica era difícil. A inflação elevada, a recessão, o desemprego e o peso da dívida externa agravavam as condições de vida da população. Ao mesmo tempo, a reorganização dos movimentos sociais e sindicais e o fortalecimento das forças de oposição ampliavam as pressões por mudanças políticas.

Em março de 1983, o deputado Dante de Oliveira apresentou uma proposta de emenda constitucional que pretendia restabelecer as eleições diretas para presidente da República. A campanha das Diretas Já ganharia força nas ruas em 1984, tornando-se uma das maiores mobilizações populares daquele período. Portanto, quando o Grupo Boiada preparava seu espetáculo, o Brasil atravessava uma fase de transição, na qual as demandas por participação política e democratização começavam a ocupar um espaço cada vez mais expressivo.

No campo cultural, também se discutia a necessidade de ampliar e organizar a atuação do poder público. A cultura ainda estava vinculada ao Ministério da Educação e Cultura, e a criação de um ministério próprio somente ocorreria em março de 1985, durante o governo de José Sarney. Os debates que antecederam essa mudança refletiam o interesse crescente de artistas, intelectuais e gestores por políticas culturais mais específicas e por maior reconhecimento da diversidade das manifestações artísticas brasileiras.

Essas transformações não significavam que todas as experiências culturais estivessem diretamente vinculadas à oposição política ou que cada espetáculo constituísse uma manifestação partidária. O cenário, entretanto, ajuda a compreender por que temas como liberdade, desigualdade, exploração e resistência tinham especial relevância naquele período.

O espetáculo do Grupo Cênico Boiada permite uma leitura nesse sentido. Ao apresentar um caçador disposto a destruir a floresta em benefício de interesses econômicos, a narrativa colocava em cena o conflito entre a busca pelo lucro e o direito dos seres ameaçados de permanecer em seu ambiente. A luta dos curumins, do palhaço e dos animais contra o invasor podia ser entendida como uma metáfora da resistência coletiva diante de uma força que pretendia impor sua vontade aos demais.

Essa interpretação ganha ainda mais significado quando se considera a história das políticas de desenvolvimento implantadas durante a ditadura militar, especialmente na Amazônia, onde grandes projetos de infraestrutura, incentivos econômicos e expansão das fronteiras agropecuárias contribuíram para intensificar a ocupação territorial e o desmatamento. Embora a narrativa teatral não deva ser confundida com uma descrição literal de um projeto específico, seu conflito dialogava com preocupações reais sobre a exploração da natureza e os interesses econômicos que orientavam a ocupação de territórios.

O MOBRAL e a Gincana Cultural Descubra a Paraíba

Foi nesse contexto que o Grupo Boiada se preparou para participar da Gincana Cultural Descubra a Paraíba, promovida pelo Movimento Brasileiro de Alfabetização (MOBRAL).

Criado durante o regime militar, o MOBRAL tinha como objetivo central desenvolver ações de alfabetização de jovens e adultos, mas, ao longo de sua trajetória, também passou a promover atividades culturais, comunitárias, esportivas e de lazer. A gincana constituía uma dessas iniciativas, utilizando diferentes modalidades de participação para mobilizar grupos e divulgar manifestações culturais.

Uma matéria publicada em A União, produzida pela sucursal de Cajazeiras, registrou a participação do grupo na competição. Sob o título “Grupo Boiada concorre ao primeiro lugar da gincana”, a notícia informava que o conjunto estava na última fase da disputa, na modalidade de teatro, com o espetáculo O Palhaço e o Filho da Lua contra o Caçador da Floresta.

O jornal relatava que o Boiada havia obtido o primeiro lugar na terceira fase da gincana, realizada em Pombal, com a pontuação máxima. A matéria também informava que o grupo se preparava para a etapa final, prevista para uma segunda-feira, no auditório do Liceu Paraibano, em João Pessoa, a partir das oito horas da manhã, com entrada gratuita para todas as crianças.

A notícia é um documento importante porque registra a circulação de uma produção teatral originada em Cajazeiras e sua participação numa iniciativa de alcance estadual. Mais do que anunciar uma apresentação, o texto jornalístico permite recuperar nomes, espaços, datas aproximadas e etapas de uma trajetória que poderia permanecer restrita à memória dos artistas envolvidos.

O recorte também demonstra que o espetáculo não ficou limitado à estreia. Sua participação na gincana e as apresentações em outras cidades mostram que a montagem percorreu diferentes espaços e encontrou oportunidades para alcançar públicos além de sua comunidade de origem.

É importante, contudo, distinguir o resultado já documentado da etapa realizada em Pombal da classificação final da competição: a matéria comprova a vitória naquela fase, mas não permite afirmar, por si só, que o grupo conquistou o primeiro lugar geral da gincana.

Uma experiência que merece permanecer na memória

A importância de O Palhaço e o Filho da Lua contra o Caçador da Floresta não se resume ao seu argumento nem à participação na Gincana Cultural Descubra a Paraíba. Ela também está no significado de se produzir, em Cajazeiras, uma montagem concebida diretamente para crianças, reunindo dramaturgia, direção, cenário, figurino e interpretação em torno de uma proposta artística específica.

Ao levar o espetáculo a escolas, espaços comunitários e palcos de outras cidades, o Grupo Cênico Boiada contribuiu para ampliar o alcance do teatro produzido no sertão paraibano. A experiência demonstrava que a criação teatral não precisava se limitar aos grandes centros para tratar de questões sociais, mobilizar artistas e estabelecer diálogo com diferentes públicos.

A peça também oferece uma lembrança de como a linguagem infantil pode abordar assuntos complexos sem abandonar a imaginação. A ameaça à floresta, a exploração econômica e o confronto entre forças desiguais apareciam traduzidos em personagens reconhecíveis, numa narrativa em que a solidariedade se tornava condição para a vitória.

Quatro décadas depois, a recuperação dessa história permite olhar para além das lembranças individuais e reconhecer uma parte da trajetória cultural de Cajazeiras. O recorte de A União, somado aos depoimentos dos participantes, ajuda a recompor os acontecimentos e a devolver visibilidade a artistas que, em diferentes funções, contribuíram para a construção do teatro local.

Preservar essa memória é também reconhecer que a história cultural de uma cidade não se faz apenas com grandes edifícios, instituições ou acontecimentos consagrados. Ela se constrói nos ensaios, nas apresentações, nos figurinos, nos cenários, nas viagens e no trabalho de pessoas que acreditaram na possibilidade de fazer arte onde viviam.

Em 1983, o Grupo Cênico Boiada colocou em cena curumins, um palhaço, animais e um caçador. Sob a aparência de uma aventura infantil, apresentou um conflito sobre poder, exploração e resistência. E, ao fazer da união dos personagens o caminho para salvar a floresta, deixou uma mensagem que ultrapassava os limites do palco: a defesa da vida e do espaço coletivo depende da capacidade de agir em conjunto.

Recuperar essa experiência é devolver à história do teatro cajazeirense uma de suas passagens significativas — uma criação que uniu fantasia, reflexão social e o desejo de ampliar os horizontes da arte para as crianças do sertão.

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REFERÊNCIAS:
- Cultura e política: a criação do Ministério da Cultura na redemocratização do Brasil — revista Tempo Social, USP.
- A reabertura política, de 1979 a 1985 — Memórias da Ditadura.
- Situação ruim da economia nos anos 80 favoreceu o movimento das Diretas Já — Agência Câmara.
- Decreto nº 91.144, de 15 de março de 1985 — criação do Ministério da Cultura.
- Os processos de desenvolvimento e desmatamento da Amazônia — Estudos Econômicos. 

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