Instigado pelas histórias “que
ouvi falar”, como costuma dizer a oralidade quando o tempo já levou os
documentos, mas não conseguiu apagar as lembranças, chega até nós a figura de
Manoel Correia do Tipi, natural de Aurora, cidade do Ceará, vizinha a Cajazeiras.
Diziam que era um engenhoso homem do campo, um rurícola empreendedor, desses
que aprendiam a sonhar mesmo vivendo num tempo em que quase tudo era difícil.
Por conta disso, tornou-se um homem de “recursos”. As histórias que
atravessaram os anos contam que possuía muitas terras, criava gado e cavalos de
raças.
Dizem que Manoel Correia
parecia não se conformar com o seu tempo. Mesmo vivendo no ambiente rural,
mantinha os olhos e os ouvidos voltados para aquilo que era novidade, que havia
de moderno. Um exemplo dessas suas investidas foi a aquisição de um rádio. Num
tempo em que as transmissões radiofônicas e o sonho com a energia elétrica
pareciam coisas distantes, quase impossíveis – coisas que nem sequer existiam
na imaginação de muitos – ele já tinha lá no seu sítio rodeado de serrotes o
seu aparelho de rádio e costumava ouvir a Rádio Nacional. Foi também ouvinte da
estreia da Voz do Brasil e acompanhava o noticiário da BBC de Londres para os
países de língua portuguesa.
E não ficou apenas na escuta
das novidades. Foi o primeiro a usar um gerador movido a querosene para dar luz
ao seu ambiente e, naturalmente, alimentar o seu rádio. Naquela paisagem
sertaneja, onde a noite ainda chegava acompanhada pela escuridão, a luz produzida
pelo gerador devia parecer quase uma pequena revolução. Era como se a
modernidade, por alguns instantes, tivesse resolvido visitar o Tipi.
Também foi um dos primeiros a
possuir um veículo na região: um Ford encapotado, ano 1921. Uma verdadeira
maravilha da tecnologia para os padrões daquele tempo. Mas possuir um automóvel
numa região de estradas precárias não era suficiente. Era preciso criar o
caminho por onde ele pudesse passar. E Manoel Correia fez isso. Para que seu
veículo pudesse sair da fazenda até a fronteira da Paraíba, construiu uma
estrada de mais de 6 quilômetros, facilitando suas idas e vindas a Cajazeiras,
cidade onde cultivava amizades e mantinha parte de seus negócios.
Assim como Raimundo Ferreira,
seus empreendimentos em Cajazeiras seguiram o mesmo caminho. Segundo se
comenta, chegou a possuir quarteirões inteiros de casas e prédios, espalhados
por diversos cantos da cidade. Alguns deles ficavam em espaços nobres, como
aqueles pertencentes a outro empresário local, José Cavalcanti Primo.
Mas Manoel Correia também
tinha suas manias – e talvez sejam justamente essas pequenas particularidades
que ajudam a tornar uma pessoa mais viva dentro da memória. Foi um apostador
contumaz do jogo do bicho. Por conta disso, recebeu em Cajazeiras a alcunha de
“Mané Piru”. O apelido teria surgido também porque conseguiu “quebrar”, por
três vezes, o cambista, isto é, o dono do jogo na cidade, sempre apostando
costumeiramente no piru.
Manoel Correia possuía cavalos
de campo, puro-sangue escolhidos, que tratava como verdadeiras relíquias. Não
eram apenas animais de criação. Tinham nome, personalidade e, de certa maneira,
lugar próprio dentro da vida do seu dono. Um cavalo de nome Relâmpago, por
exemplo, era montado por Mané Pedro das Braúnas, um empregado de confiança.
Todos os finais de tarde, o animal era colocado para correr.
Num galope só, fazia o
percurso do da comunidade do Tipi até Cajazeiras em aproximadamente uma hora e
meia. E era justamente nessa chegada à cidade que se cumpria outro dos hábitos
de Manoel Correia: suas apostas diárias no jogo do bicho, que, naquele tempo,
encerrava-se às 18 horas. Contam que Manoel Correia jamais saía antes das
quatro horas da tarde e, ainda assim, nunca deixou de fazer sua aposta.
Talvez houvesse, naquela
corrida vespertina do Relâmpago, algo mais do que pressa. Havia o compromisso
com o jogo, é verdade, mas havia também a cidade esperando, as amizades, os
negócios e aquele pequeno ritual que se repetia ao cair da tarde. Enquanto o
cavalo levantava poeira pelo caminho entre o Tipi e Cajazeiras, o relógio
avançava silenciosamente em direção às seis.
E assim, entre terras, gado,
cavalos de raça, rádio, luz de gerador, estradas construídas por iniciativa
própria, negócios, amizades e apostas no piru, a figura de Manoel Correia do
Tipi foi ficando guardada na memória de quem ouviu falar dele.
Hoje, quando essas histórias
são contadas novamente, talvez o que mais sobreviva não seja apenas a imagem do
homem de “recursos”, mas a de alguém que, mesmo vivendo no sertão de um tempo
difícil, parecia estar sempre alguns passos adiante do seu próprio tempo.
cleudimarferreira
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fonte: José Cícero. https://blogdaaurorajc.blogspot.com/

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