sexta-feira, 25 de setembro de 2026

Manoel Correia: do Tipi para Cajazeiras



Instigado pelas histórias “que ouvi falar”, como costuma dizer a oralidade quando o tempo já levou os documentos, mas não conseguiu apagar as lembranças, chega até nós a figura de Manoel Correia do Tipi, natural de Aurora, cidade do Ceará, vizinha a Cajazeiras. Diziam que era um engenhoso homem do campo, um rurícola empreendedor, desses que aprendiam a sonhar mesmo vivendo num tempo em que quase tudo era difícil. Por conta disso, tornou-se um homem de “recursos”. As histórias que atravessaram os anos contam que possuía muitas terras, criava gado e cavalos de raças.

Dizem que Manoel Correia parecia não se conformar com o seu tempo. Mesmo vivendo no ambiente rural, mantinha os olhos e os ouvidos voltados para aquilo que era novidade, que havia de moderno. Um exemplo dessas suas investidas foi a aquisição de um rádio. Num tempo em que as transmissões radiofônicas e o sonho com a energia elétrica pareciam coisas distantes, quase impossíveis – coisas que nem sequer existiam na imaginação de muitos – ele já tinha lá no seu sítio rodeado de serrotes o seu aparelho de rádio e costumava ouvir a Rádio Nacional. Foi também ouvinte da estreia da Voz do Brasil e acompanhava o noticiário da BBC de Londres para os países de língua portuguesa.

E não ficou apenas na escuta das novidades. Foi o primeiro a usar um gerador movido a querosene para dar luz ao seu ambiente e, naturalmente, alimentar o seu rádio. Naquela paisagem sertaneja, onde a noite ainda chegava acompanhada pela escuridão, a luz produzida pelo gerador devia parecer quase uma pequena revolução. Era como se a modernidade, por alguns instantes, tivesse resolvido visitar o Tipi.

Também foi um dos primeiros a possuir um veículo na região: um Ford encapotado, ano 1921. Uma verdadeira maravilha da tecnologia para os padrões daquele tempo. Mas possuir um automóvel numa região de estradas precárias não era suficiente. Era preciso criar o caminho por onde ele pudesse passar. E Manoel Correia fez isso. Para que seu veículo pudesse sair da fazenda até a fronteira da Paraíba, construiu uma estrada de mais de 6 quilômetros, facilitando suas idas e vindas a Cajazeiras, cidade onde cultivava amizades e mantinha parte de seus negócios.

Assim como Raimundo Ferreira, seus empreendimentos em Cajazeiras seguiram o mesmo caminho. Segundo se comenta, chegou a possuir quarteirões inteiros de casas e prédios, espalhados por diversos cantos da cidade. Alguns deles ficavam em espaços nobres, como aqueles pertencentes a outro empresário local, José Cavalcanti Primo.
 
Mas Manoel Correia também tinha suas manias – e talvez sejam justamente essas pequenas particularidades que ajudam a tornar uma pessoa mais viva dentro da memória. Foi um apostador contumaz do jogo do bicho. Por conta disso, recebeu em Cajazeiras a alcunha de “Mané Piru”. O apelido teria surgido também porque conseguiu “quebrar”, por três vezes, o cambista, isto é, o dono do jogo na cidade, sempre apostando costumeiramente no piru.

Manoel Correia possuía cavalos de campo, puro-sangue escolhidos, que tratava como verdadeiras relíquias. Não eram apenas animais de criação. Tinham nome, personalidade e, de certa maneira, lugar próprio dentro da vida do seu dono. Um cavalo de nome Relâmpago, por exemplo, era montado por Mané Pedro das Braúnas, um empregado de confiança. Todos os finais de tarde, o animal era colocado para correr.

Num galope só, fazia o percurso do da comunidade do Tipi até Cajazeiras em aproximadamente uma hora e meia. E era justamente nessa chegada à cidade que se cumpria outro dos hábitos de Manoel Correia: suas apostas diárias no jogo do bicho, que, naquele tempo, encerrava-se às 18 horas. Contam que Manoel Correia jamais saía antes das quatro horas da tarde e, ainda assim, nunca deixou de fazer sua aposta.

Talvez houvesse, naquela corrida vespertina do Relâmpago, algo mais do que pressa. Havia o compromisso com o jogo, é verdade, mas havia também a cidade esperando, as amizades, os negócios e aquele pequeno ritual que se repetia ao cair da tarde. Enquanto o cavalo levantava poeira pelo caminho entre o Tipi e Cajazeiras, o relógio avançava silenciosamente em direção às seis.

E assim, entre terras, gado, cavalos de raça, rádio, luz de gerador, estradas construídas por iniciativa própria, negócios, amizades e apostas no piru, a figura de Manoel Correia do Tipi foi ficando guardada na memória de quem ouviu falar dele.

Hoje, quando essas histórias são contadas novamente, talvez o que mais sobreviva não seja apenas a imagem do homem de “recursos”, mas a de alguém que, mesmo vivendo no sertão de um tempo difícil, parecia estar sempre alguns passos adiante do seu próprio tempo.

cleudimarferreira

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