– Vamos?
Saímos na descida sinuosa que moldava nosso caminho em direção ao baixio. Ainda era cedo demais para aquela aventura. Passava pouco das cinco horas daquela manhã e o sol sequer dava sinal de vida, face ao cortinado de nevoeiro baixo que dificultava a visão do percurso, enquanto o tempo chuvoso encobria a terra mergulhada numa penumbra úmida e silenciosa.
Ao voltar para o roçado, abri mais os ouvidos para os pesados barulhos dos trovões que ecoavam por trás da Serra do Boqueirão e me embrenhei novamente dentro do plantio de milho, à procura do meu pai. Após alguns minutos de busca, avistei-o mais abaixo, à beira de um pequeno riacho de águas dormidas e mansas, cristalinas e ainda geladas pela chuva torrencial que havia caído na noite anterior. Quando me aproximei, ele arregalou os olhos e foi logo perguntando onde eu estava e o que andava fazendo dentro do capoeiral. Respondi que tinha ido armar o alçapão para pegar pássaros.
Deixamos a beira daquele córrego e seguimos em direção à parte mais alta da roça. Era naquele trecho da roça de milho que ficavam os plantios de melancia, pepino e maxixe. Quando chegamos, encontramos à nossa espera uma das mais belas recompensas que aquela terra podia oferecer. Parei para contemplar, admirado, aquela exposição de frutos frescos, revestidos pelas gotas transparentes do orvalho da manhã. As melancias repousavam entre as ramas verdes, enquanto pepinos e maxixes se espalhavam pelo chão úmido, como se a chuva da noite tivesse renovado a vida de tudo que ali existia.
No plantio de melancia, meu pai começou a
percorrer as ramas da fruteira, batendo levemente em cada fruto e escutando
atentamente o som que produziam. Procurava a melhor, a mais madura e suculenta
que pudesse encontrar entre aquelas ramalheiras. Com a experiência que tinha no
cultivo daquela cultura, não demorou muito. Parou diante de uma melancia, bateu
mais uma vez na casca e afirmou com segurança:
– Essa tá boa!
Em seguida, puxou da bainha a sua faca de sete polegadas e passou a lâmina na fruta. Quando a dividiu em duas bandas, revelou-se diante dos meus olhos o vermelho intenso e vivo da polpa.
E assim ele foi fatiando... Fatiando... Até
cortar a melancia em pedaços do tamanho certo para serem saboreados. Quando
terminou de fracionar o fruto, entregou-me a primeira fatia. Estava fria.
Docinha como o mel. Com um sabor que jamais encontrei igual. As lembranças
daquele tempo pararam em mim e ficaram quardadas por definitivo – para sempre.
Fizeram morada nos meus dias mais lentos, sem nenhuma pressa de partir para o
esquecimento de tantos invernos bonitos e maravilhosos que vivi e que agora, folheados
de detalhes pelo tempo, ainda me fazem recordar.
Foram muitos os invernos assim, generosos, que passei
ao lado do meu pai. Hoje, entreabertos pelas páginas do tempo, eles continuam
vivos na memória. E basta o cheiro da terra molhada, o estrondo distante dos
trovões ou o vermelho de uma melancia recém-aberta para que eu volte a ser
aquele menino de nove anos caminhando, numa manhã de inverno, pelos roçados do
sertão.
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