A invenção do cinema, desde o feito extraordinário dos irmãos Lumière até os dias presentes, tem exercido um certo fascínio em muita gente e, por certo, continuará fascinando gerações. Parece até que a sua incomum descoberta para o mundo, lá atrás, em 1895 — mesmo que tenha acontecido sob o pretexto do acaso e da curiosidade dos dois jovens franceses —, acentuou a ideia de que o surgimento dessa arte visual já estava traçado na linha do tempo. Em outras palavras: programado para acontecer por uma razão não explicável. Por essa singular força e enigmática forma como surgiu, o cinema passou com todo o brilho rumo ao futuro, indo por aí afora, caindo cheio de graça nas graças de muitos, sem diferenciar ninguém por suas características.
Era também responsabilidade de Cícero
Alves — talvez a mais significativa de todas — ir buscar no Terminal Rodoviário
Antônio Ferreira os filmes que chegavam a Cajazeiras vindos da capital
pernambucana, por meio da empresa Viação Gaivota; além de, uma vez por outra,
revisar os rolos de filmes e, principalmente, assumir a portaria dos cinemas
quando de uma inesperada falta ou folga do porteiro titular.
Então, duas vezes por semana saíamos do
Cine Pax às nove horas, conduzindo uma carrocinha até o guichê da Viação
Gaivota. Depois que as latas com as fitas eram despachadas, nós as pegávamos e
nos deslocávamos até a Cúria Diocesana para certificar e mostrar ao Bispo o
conteúdo que havia chegado do Recife.
Uma vez passado pelo visto do Senhor
Bispo, nos deslocávamos desse local em direção ao Cine Apolo XI. Lá,
recolhíamos o material de divulgação e deixávamos, sob responsabilidade dos
operadores — Paulo Conrado e Luiz Conrado —, as latas com os rolos de filme. As
películas eram revisadas, quadro a quadro, pelos irmãos Conrado e, depois,
prontificadas para serem exibidas nas sessões à noite.
O filme Scarface, uma produção de
Brian De Palma, era sempre incluído nas programações mensais que Dom Zacarias
fazia junto às distribuidoras, no Recife. Porém, nem o bispo e muito menos
Cícero Alves sabiam os verdadeiros motivos de essas distribuidoras não enviarem
esse filme a Cajazeiras. Muitas vezes, quando eu era convidado por Cícero para
ir com ele ao gabinete do bispo, vi Dom Zacarias contrariado, chateado e, em
certos momentos, até estressado por conta do entrave provocado pelo não envio
da película. Dava a entender que havia um problema de logística com a
distribuição de Scarface.
Se havia problema ou falha, as tentativas
de correção desse imbróglio eram feitas quase todos os meses por Dom Zacarias,
através de reclamações constantes via ligações interurbanas à cidade de Recife.
Mas Scarface não chegava aos cinemas do bispo; em seu lugar, eram
enviadas outras produções menos destacadas, que chegavam como uma surpresa para
todos, já que tampouco haviam sido incluídas nas programações dos Cines Apolo
XI e Pax.
Com o passar do tempo, quando o filme de
Brian De Palma já estava entrando em um estágio de esquecimento — sendo
considerado pelo bispo exibidor uma carta fora do baralho, ou tendo entrado
subitamente na rota do esquecimento, tanto por Cícero quanto por Dom Zacarias
—, eis que, em um certo sábado, fui com Cícero ao guichê da Gaivota receber os
filmes que haviam chegado.
Depois dos trâmites e despachos do
pacotão feito por essa empresa de transporte interestadual, colocamos a
encomenda na carrocinha e, antes de sair do local, abrimos a estopa para ver
que filme havia chegado. Tal foi a nossa surpresa ao ver os cartazes, algumas
fotografias, bem como as latas com os rolos de filme, onde se estampava a
palavra: Scarface.
Nos alegramos e apressamos o passo em
direção ao Palácio do Bispo, para anunciar a Dom Zacarias a grata surpresa da
chegada do filme tão aguardado por ele. Quando chegamos ao local, eu fiquei na
calçada, sentado na carrocinha, fazendo a guarda do filme, enquanto Cícero se
dirigiu ao recinto onde Dom Zacarias estava. Fiquei esperando por quase quinze
minutos, ouvindo, mesmo um pouco distante, os murmúrios da conversa entre os
dois.
Esperei por um certo tempo a volta de
Cícero, até que, de repente, ele apareceu descendo as escadarias da capela
anexa ao Palácio Episcopal. Ao chegar junto a mim, manteve-se simplesmente
calado; sem dizer palavra, pegou o condutor da carrocinha e saiu deslizando as
duas rodas em direção ao Cine Apolo XI. O silêncio era total, até eu perguntar:
— E aí, Dom
Zacarias gostou da chegada de Scarface?
Com a cara fechada, meio embirrado, ele respondeu de
forma quase inaudível:
— “Home”, não fale não!
Ao se aproximar da esquina da Catedral
Nossa Senhora da Piedade, ele abriu a boca e começou a jogar para fora as
primeiras palavras rudes, consequência da conversa estressante que teve com o
bispo exibidor. Chutando tudo o que via pela frente, Cícero — contrariando o
bom senso e o que manda a etiqueta — começou a berrar:
— Cara, o “home” é cruel demais! Um
sujeito mau, ruim e duro com a gente. Quer porque quer fazer a estreia
simultânea do filme nos dois cinemas! Ele está vendo que isso não vai dar
certo.
Confesso que fiquei preocupado e sem
entender a ideia encomendada por Dom Zacarias. Afinal, só havia uma cópia de Scarface.
Como exibir o filme, ao mesmo tempo, nos dois cinemas? O Cine Apolo XI ficava
na Zona Norte e o Cine Pax, na Zona Sul da cidade.
Em se tratando de cidade do interior, o
percurso entre os dois cinemas não era lá tão longe assim; dava para ser
percorrido em dez minutos. O problema era a logística. Já que o bispo havia
estabelecido que a exibição do filme seria feita dessa forma, ficou acertado na
conversa entre os dois que a sessão no Cine Apolo XI iria iniciar às dezenove
horas e, no Cine Pax, às vinte horas — uma diferença de uma hora de um cinema
para o outro, com o objetivo de não haver problemas na exibição.
Uma vez feita a programação de rua, com a
colocação das tabuletas contendo os cartazes do filme em lugares estratégicos
da cidade — anunciando a exibição paralela e os novos horários —, a expectativa
dos operadores dos projetores era aguardar e ver, na prática, se tudo ia dar
certo.
Chegou a noite, e o Cine Teatro Apolo XI
começou a rodar a primeira parte do filme no horário programado. Assim que
terminou a exibição do primeiro rolo, Geraldo Galvão — um voluntário com
presença marcada todos os dias no cinema — pegou sem perder tempo a lata com a
película, subiu em uma bicicleta e disparou para deixá-la no Cine Pax.
No momento em que Geraldo Galvão chegou
no Cine Pax com a primeira parte de Scarface, Zezinho, o operador de
projetor, já o esperava na portaria do cinema para levar a película até a
cabine. O funcionário pegou o rolo e dirigiu-se rapidamente até o seu espaço de
trabalho. Depois de rebobinar o carretel de fita e ajustar no projetor, deu
início à exibição.
Tudo ia correndo muito bem, mesmo sabendo
que, para satisfazer o ego do bispo Dom Zacarias Rolim de Moura, o esforço do
voluntário Geraldo Galvão estava sendo imenso. Ele aceitou a tarefa
simplesmente por cultivar uma boa amizade com funcionários, por amar o cinema e
por vivenciar — como era de praxe entre alguns jovens de Cajazeiras naquela
época — a rotina das atividades que antecediam as exibições dos filmes nos
cinemas da sua terra.
Apesar do calor sudorífico e grudento das
cabines de projeção dos dois cinemas — principalmente a do Cine Pax, apertada,
quente e sufocante demais para os seus operadores, Zezinho e seu filho (que
exercia a função de auxiliar de operador) —, até a terceira parte do filme tudo
ia transcorrendo sem nenhum problema, ou melhor, ia se dando muito bem.
Porém, fatores abstratos no Cine Teatro
Apolo XI — muitos ligados a uma energia externa ou, quem sabe, ao imponderável
— interferiram na perfeição da projeção conduzida pelos irmãos Paulo e Luiz
Conrado, causando a quebra da película na quarta parte de Scarface. O
incidente induziu o público que assistia o filme a ter uma reação imediata,
entre assovios e gritos, obrigando todos a suportar quase dez minutos de
paralisação.
Passado esse contratempo, a exibição
prosseguiu como estava antes. Quando a quarta parte de Scarface foi
puxada pelas garras das bobinas do projetor do Apolo XI, Geraldo Galvão
imediatamente apanhou o rolo e seguiu em disparada para o Cine Pax. Ao alcançar
a portaria do cinema, o filho de Zezinho já o aguardava ansiosamente.
Preocupado com o tempo, o rapaz recebeu a
quarta parte das mãos de Geraldo e, às pressas, subiu a escada caracol do Cine
Pax rumo à cabine onde o pai o esperava. O jovem entrou como a luz de um
relâmpago naquele espaço apertado e rebobinou o rolo contando os minutos e
segundos, pois a terceira parte já estava chegando ao fim. Só houve tempo de
colocá-la no segundo projetor e, assim que a película anterior terminou, ele
acionou a máquina, dando prosseguimento à exibição sem deixar brecha ou
“clarão” na transição da terceira para a quarta parte.
No Cine Teatro Apolo XI — com sua cabine
mais moderna, ampla e dotada de ar-condicionado —, seguia a projeção da quinta
e última parte do filme de Brian De Palma. Enquanto isso, lá no Cine Pax, a
quarta parte ainda estava em andamento. Parecia que tudo acabaria com um final
feliz — exceto para Geraldo Galvão, que já estava com as “baterias arriadas”,
exausto de tanto “pra lá e pra cá” entre os dois cinemas. Foi quando, de
repente, da escuridão do céu desceram sobre Cajazeiras as primeiras gotas
cristalinas de uma chuva que durou fortes vinte minutos — tempo suficiente para
o “The End” anunciar o final do filme.
Em questão de poucos minutos, o operador
Paulo Conrado apareceu com a quinta e última parte no hall do cinema
para entregá-la a Geraldo Galvão. Ficaram olhando um para a face do outro, em
silêncio, até Geraldo Galvão sussurrar:
— E agora? O que faremos com essa chuva?
O segurança, de alcunha Didi, responsável
pela ordenação das filas na portaria e na bilheteria, que estava bem próximo,
respondeu para Geraldo Galvão:
— E agora? Agora enfrente a chuva! Vá
logo, pois a quarta parte do filme no Cine Pax, se não estiver terminando, deve
estar por um triz!
Sem dizer palavra ao segurança, Galvão
pegou a lata com o rolo de película das mãos do operador do Apolo XI,
protegeu-a debaixo da camisa, montou na bicicleta e começou a pedalar sob o
temporal em direção ao cinema da Zona Sul da cidade.
Ao se aproximar do Grande Hotel — onde
hoje fica o canal da Travessa Joaquim Costa — o toró, antes impiedoso, começou
a diminuir moderadamente de volume. Entretanto, as águas escorriam com força,
encobrindo o calçamento. Com toda a pressa do mundo, Geraldo jogou-se com
bicicleta, rolo de película e tudo no meio do aguaceiro.
Nesse momento, em meio ao esforço desesperado para vencer as águas, ele sentiu um estralo seco na corrente da bicicleta e percebeu, de imediato, que ela havia descarrilado da coroa. Tomado pela preocupação com o tempo e castigado pela chuva que ainda caía, Geraldo encostou a bike no meio-fio e, após alguns minutos de luta contra a graxa e a umidade, conseguiu recolocar a corrente no lugar.
Quando chegou ao Cine Pax com a última parte do filme — visivelmente combalido e completamente encharcado —, a projeção estava parada. No auditório, a plateia permanecia apreensiva e impaciente, aguardando o desfecho de Scarface para saber se o personagem de Al Pacino sobreviveria ou encontraria o seu fim. Logo em seguida, chegaram também os dois operadores do Cine Teatro Apolo XI e o porteiro, unindo-se a Zezinho e a seu filho na força-tarefa final para concluir a exibição naquela sala da Zona Sul, considerada pelos cajazeirenses a mais popular da cidade.




















