sexta-feira, 20 de outubro de 2023

CONVERSAS DE CINE ÉDEN. Um encontro com o último exibidor cajazeirense

por Cleudimar Ferreira


Foto do Edificio OK. Ao lado direito, na parte de cima (na marquise), os cartazes do Cine Éden


Quando começou o declínio dos cinemas em Cajazeiras, ocorrido no final dos anos 80, eu já estava alçando outros ares na capital paraibana. Mas nem assim, com o fechamento em 1990 do último espaço de exibições que ainda continuava operando, passei a dormir com outras salas no meu quarto de república estudantil. Não tinha como ser de outro jeito, pois os fantasmas das três salas de cinema que havia na cidade estavam sempre na minha cola.

Ao me deitar para serenar as emoções da convivência de um dia no DAC/UFPB, bastava só um cochilo, e aí eu os via sair das telas dos cinemas Éden, Apolo XI, Pax; por um capricho, eles começavam o ritual comanche ao redor do meu beliche. Um protocolado momento atemporal que mesmo hoje, na condição de sexagenário, ainda permanece vivo nos meus sonhos, embora esporadicamente.

Em se tratando de sonhos, sonhos são relativos! Há aqueles de que você gosta de sonhar e aqueles dos quais você foge da cama; perde uma noite de sono só para não arriscar sonhar. Os meus, com relação às salas de cinema da minha terra, sempre foram bem-vindos e, até hoje, uma vez por outra, recorro a alguns goles de suco de maracujá para melhor relaxar, dormir bem e sonhar eternamente com os bons momentos vividos naquelas salas de projeção.

Mesmo não mais existindo, as suas memórias foram, até aqui, os melhores meios que tive – que têm me prendido à história desses cinemas e à relação que eles tiveram com a minha adolescência, bem como ao acesso psicossomático às últimas imagens que vi serem exibidas nas salas dos nossos cinemas. Principalmente na tela do mais tradicional de todos, o Cine Éden.

Para ser bem claro, as recordações desses locais onde nos divertíamos em Cajazeiras têm sido uma forma de manter viva no tempo a minha remota convivência com esses cinemas, de deixar a chama do passado, do presente e da esperança acesa. Quem sabe um dia veríamos os três voltando a operar como antes, embora, naquele cenário agônico, vivêssemos momentos adversos em que pouca ação relevante contribuiria para esse feito acontecer.

Todavia, enquanto esse sonho, de fato, não se materializava com sua inesperada concretude, o que me contentava eram os pouco mais de um mês de férias que eu passava no início de cada ano. Esse período me fazia voltar a Cajazeiras para rever meus familiares, os amigos e, como praxe, visitar as velhas salas de exibições em crise dos cinemas da cidade — que sempre capengaram com dificuldades, "a duras penas", graças às benevolências dos últimos frequentadores. Por paixão à sétima arte, eles insistiam em estar presentes em algumas das noites de exibição, mesmo vendo o declínio se acentuando e, no meio dessa problemática, ouvindo também as agruras e os chororôs dos proprietários dessas salas.

E foi em uma dessas férias, a de 1991, quando voltava a Cajazeiras, como sempre fazia, que tive a grata satisfação de ter conversado sobre o Cine Éden com um dos seus mais destacados exibidores. Ao pisar em solo cajazeirense, era sagrado: o primeiro tour que eu fazia pela cidade era visitar os frontões desses espaços de entretenimento.

Ver se ainda estavam em pé e, se possível fosse, bater aquele papo com as pessoas próximas a esses locais, procurando saber como iam os cinemas. No caso do tour daquele ano, comecei pela Praça Nossa Senhora de Fátima — a famosa Praça da Cultura. Passei por ela, atravessei toda a sua extensão e me desloquei em direção à Avenida Presidente João Pessoa, pela Rua Joaquim de Souza, até chegar à esquina do Edifício Ok.

Nesse momento, as emoções começaram a cair como aquelas velhas fichas de telefone e, para completar esse sentimento, ouvi, vindo de uma residência ou de um local próximo de onde eu estava, o som, embora distante, da música “Theme from A Summer Place”, de Max Steiner — que foi a trilha sonora original do filme A Summer Place, de 1959. Esse momento pareceu coisa do acaso, ou mesmo uma coincidência digna de cinema. Tocado por esse inesquecível instrumental, que ficou marcado entre os grandes sucessos sonoros da época de ouro das produções hollywoodianas na história do cinema, fui me aproximando do Cine Éden.

Quando cheguei à lacrada portaria sanfonada que ainda estava lá, vi que havia dentro, no hall, muito entulho no chão, restos de tabuletas, pó e cartazes empoeirados — alguns ainda nas paredes, outros jogados no piso. Os sinais ali à minha frente eram de abandono e envelhecimento do local.

Não deu nem para discernir a tristeza, pois nesse momento a sombra de uma pessoa veio até mim e, convincente, disse:
— Aí não tem mais nada não, amigo! Faz uns quatro meses, acho, que fechou! Eduardo, o dono, já vendeu até um dos dois projetores para um homem de Juazeiro.
Eu olhei um pouco de lado para aquele desconhecido e simplesmente respondi:
— Foi?
E ele me replicou:
— Foi!

Depois, esqueci aquela inesperada sombra e saí de fininho. Deixei aquele mortificado local, onde o Cine Éden havia vivido com glamour seu papel de um dos grandes cinemas de sua época. Cruzei a Avenida Presidente João Pessoa em direção à continuidade da Rua Joaquim de Souza, rumando em direção à Rua Epifânio Sobreira.

No traçado irregular do percurso da Rua Epifânio Sobreira — envolvidos com as fachadas e placas das lojas daquela artéria comercial, no vaivém dos transeuntes —, os passos me conduziram à Praça Coração de Jesus, próximo às cerâmicas populares de dona Lourdes Louceira, estiradas a céu aberto no calçamento escaldante da esquina da Danielle Boutique.

Admirado com a beleza daquela arte popular, ali exposta ao chão, a ferro e brasa, porém ainda, em mente, tocado com as palavras da sombra inesperada que apareceu do nada na calçada do Cine Éden, desliguei-me de toda a movimentação daquele sábado de feira livre e voltei a mim. Passada a zonzeira, percebi que estava quase na entrada da Farmácia São Francisco. Dei mais uns passos, olhei para o interior do estabelecimento farmacêutico e me dirigi até o balcão. Prontamente, um dos balconistas me atendeu e perguntou o que eu queria. Então, eu respondi a ele:
— Falar com Eduardo Jorge!
O rapaz olhou para o final do balcão e foi logo dizendo:
— Pois não, ele está ali no escritório, pode entrar.

Ao aproximar-me de forma inesperada do aposento empresarial daquele último exibidor cajazeirense, ele foi logo percebendo a minha chegada, acompanhando com olhar surpreso a minha entrada no seu local de trabalho. Com a mão na maçaneta, fui abrindo a porta e, ao mesmo tempo, pedindo licença para entrar. Dei ‘bom dia’ e ele respondeu:
— Bom dia, pode sentar-se. O que deseja?
Então, eu disse para ele:  
— Falar sobre cinema!
Aí, nesse momento, o homem respeitosamente replicou, dizendo:
— Pois não, pode falar. É sobre o quê?
Indaguei mais uma vez, indo logo ao assunto:
— É sobre o fechamento do Cine Éden. Você lacrou mesmo o cinema, rapaz?
Ele olhou para mim e disparou a sua lábia:
— Rapaz, sabe de uma coisa? Você não é a primeira pessoa que me pergunta sobre o fechamento do Cine Éden.
E acrescentou:
— Não dava mais para mantê-lo aberto.

E continuou:
— Eu vinha fazendo de tudo para manter o cinema aberto. Não havia mais público. Abati o valor da entrada, mas não resolvi a crise! Até filmes pornôs fui obrigado a exibir tentando trazer o público de volta ao cinema, mas foi pior. No início até que deu um pouquinho de gente, mas o tempo foi passando... Você sabe, a Praça João Pessoa é um local bastante popular, muito frequentado. Há ainda ali muitas residências onde os moradores mantêm a tradição de colocar as cadeiras na calçada para conversar com o vizinho e olhar quem vem e quem passa. Muitos que têm suas casas em frente ao cinema ficavam sabendo quem entrava e saía do cinema para ver esse tipo de filme. Por conta disso, o público, na sua maioria do sexo masculino, foi diminuindo. Ninguém queria arriscar passar uma vergonha, pois se fosse visto na porta do Cine Éden para assistir a um filme assim, no outro dia a cidade inteira ficava sabendo — assim relatou o último proprietário do Cine Éden.

A nossa conversa não avançou muito e, nesse instante, tentei fazer uma reflexão a partir do que ele acabara de relatar sobre a história da crise do mais tradicional cinema de Cajazeiras antes do seu fechamento. Lamentei toda a problemática exposta e perguntei por que não buscou socorro da UFPB. E até adiantei que poderia ter feito um tipo de parceria com os professores universitários, ou até mesmo com a Prefeitura, para não ter que fechar o cinema.
Aparentando um certo estresse, antes mesmo que eu terminasse o meu raciocínio, ele cortou a minha fala e disse:
— Amigo, tudo isso eu fiz, mas não deu certo, foi pior ainda. Não tive outro jeito, outra saída.
E acrescentou:
— Você queria que eu fizesse mais o quê? Teve dias em que abri o cinema e tive que fechar por não aparecer uma só pessoa para ver o filme que seria exibido.
Nossa breve conversa parou por aqui. Levantei-me da cadeira, ofereci a mão direita como despedida e disse a ele:
— Está certo! Muito obrigado pela sua atenção.

Depois, saí de fininho em direção à Rua Padre José Tomaz, entre as tarimbas e as barracas daquele dia de feira. Semanas depois, voltei à capital paraibana levando comigo, na cadeira do ônibus, todas as memórias e lembranças possíveis das Cajazeiras do meu tempo, bem como do Cine Teatro Éden e dos grandes clássicos que foram exibidos na sua tela panorâmica.


Trailer com a trilha sonora do filme A Summer Place, de 1959.

Eduardo Jorge César Guedes. Último exibidor e dirigente do Cine Éden
Foto 1, original e Foto 2, melhorada com IA. 



GOSTOU? DEIXE O SEU COMENTÁRIO ou COMPARTILHE




Um comentário:

Anônimo disse...

Bom texto. Na minha cidade não teve cinema, apenas um senhor vinha de uma cidade vizinha e passava alguns filmes e depois voltava. Isso só acontecia uma vez por semana.