sexta-feira, 5 de fevereiro de 2021

Iº FESTCINE PIANCÓ

Festival de Cinema do Vale do Piancó. De 18 a 20 de março de 2021, na Praça Salvino Leite. Como esclarecimento, a comissão organizadora do evento comunica que nos dias do evento será obrigatório o uso de máscaras e respeitar os distanciamentos. Levem seu álcool gel e vamos prestigiar o cinema e a cultura da nossa região.

p r o g r a m a ç ã o




segunda-feira, 25 de janeiro de 2021

“Carcará” e o destino de uma cidade para não se tornar refém do cangaço

Linaldo Guedes
linaldo.guedes@gmail.com


Fosse lançado na década de 1930, o romance “Carcará” teria sido inserido no primeiro time da literatura regional brasileira. Como se sabe, aquela década revelou nomes como José Américo de Almeida, Rachel de Queiroz, Graciliano Ramos, Jorge Amado e José Lins do Rêgo, para ficar nos mais referenciados. Lançado pela primeira vez em 1984 pela José Olympio Editora, “Carcará”, de Ivan Bichara, narra o assalto do bando de cangaceiros chefiado por Sabino Gomes a Cajazeiras, no ano de 1926.

Praticamente, todas as principais características da segunda fase do Modernismo estão na obra do escritor paraibano. Entre elas, a influência do realismo e romantismo, regionalismo, realidade social, cultural e econômica, valorização da cultura brasileira, temática cotidiana e linguagem coloquial.

Como é sabido, a prosa dessa fase do Modernismo se aproximou da linguagem coloquial e regional, mostrando a realidade de diversos locais do país, ora no campo, ora na cidade.

No caso do livro de Ivan Bichara, essas características estão presentes em diversas passagens do livro. A forma como o autor descreve o cenário urbano e rural do sertão paraibano é de uma impressionante realidade, embora com um toque de prosa poética em alguns momentos. Não tem como não se sentir em pleno sertão paraibano quando Bichara descreve a feira livre ou os pequenos sítios da redondeza.

“Carcará” narra uma realidade que existiu por muito tempo em cidades dos sertões nordestinos. Eram pequenas cidades e comunidades que viviam sempre apavoradas com a iminente invasão de Lampião e seus cangaceiros. No caso de Cajazeiras, Lampião decidiu não invadir a cidade. A lenda é que essa sua decisão atendia a um pedido de Padre Cícero, que teria sido aluno do Padre Rolim e não queria que a terra do seu mestre se tornasse refém dos cangaceiros.

Sabino Gomes era um dos “cabas” de confiança de Lampião e pediu ao “capitão” autorização para invadir Cajazeiras. Na verdade, Sabino havia residido em Cajazeiras e queria se vingar de alguns habitantes da cidade. Toda a narrativa do livro é construída a partir da expectativa existente na cidade para a invasão do bando de Sabino. É a partir dela que Ivan Bichara tece sua teia de ficcionista, criando

personagens fascinantes, como o ex-cangaceiro Raimundo Anastácio, Manoel Santana, Cego Alexandre, Raimundo Casimiro, tenente Elino Fernandes, Mariá, Moisés e Chicão, entre outros, que convivem no romance com personagens reais da história de Cajazeiras e da Paraíba, como Dom Moisés Coelho, Padre Gervásio Coelho, professor Hildebrando Leal, Major Epifânio Sobreira, Hygino Rolim, poeta Cristiano Cartaxo, Otacílio Jurema e o próprio pai de Ivan Bichara, entre outros.

Segundo o poeta e editor Lenilson Oliveira, além da psicologia das personagens, uma das preocupações de Ivan Bichara foi com a sociologia central do tema do romance: o cangaço, movimento que ganhou força nas primeiras décadas do século passado. “Mesmo sem se ater muito à questão, Ivan Bichara tenta situar o leitor, por meio de suas personagens, no que foram aqueles homens e mulheres que optaram pelo cangaceirismo, ‘filhos da seca’”, analisa Lenilson.

“Carcará” é o primeiro romance de Ivan Bichara, que lançou ainda os romances “Tempo de servidão” e “Joana dos Santos” e foi governador da Paraíba nos anos 1970. E, de fato, a questão do cangaço é o mote central do livro, mas a abordagem maior é na construção dos personagens e seus dramas pessoais de vida, enquanto se aguarda a invasão dos cangaceiros. Lembra, e muito, o enredo do célebre filme “Sete homens e um destino”, de John Sturges (1961), que teve um remake de Antoine Fucqua em 2016.

Do gênero western, o filme narra a história de um grupo de mexicanos que moram em uma pequena comunidade e vivem aterrorizados pelo bandido Calveira e sua gangue, que invade o local com frequência para roubar mantimentos. Foi mais ou menos isso que aconteceu na Cajazeiras de 1926. No filme, os habitantes da cidade mexicana foram atrás de pistoleiros profissionais para se protegerem de Calveira. No livro, os habitantes de Cajazeiras foram protegidos por Raimundo Anastácio e tenente Elino Fernandes, além de outros abnegados heróis que expulsaram Sabino Gomes e os cangaceiros. Se o filme narra o destino de sete homens, a belíssima obra de Ivan Bichara conta o destino de uma cidade e como sua gente se uniu para não ser saqueada.

Em tempo: a edição que li de “Carcará” foi organizada pelo professor Francelino Soares, membro da Academia Cajazeirense de Artes e Letras (ACAL), e lançada e, 2019 pela Editora A União, em comemoração ao centenário de nascimento de Ivan Bichara.

Linaldo Guedes é poeta, jornalista e editor. Com 11 livros publicados e textos em mais de trinta obras nos mais diversos gêneros, é membro-fundador da Academia Cajazeirense de Artes e Letras (Acal), mestre em Ciências da Religião e editor na Arribaçã Editora. Reside em Cajazeiras, Alto Sertão da Paraíba, e nasceu em 1968.


fonte: https://www.osguedes.com.br/

sábado, 23 de janeiro de 2021

O MASSACRE DOS MARCELINOS

por Beto Rueda


O banditismo no sertão nordestino a partir dos anos 20 cresceu de forma assustadora. A grande seca de 1919 que devastou a região reduziu as populações a uma indescritível penúria. Os assaltos à mão armada se sucediam num crescendo, tanto nas estradas quanto nas fazendas e vilarejos.

O bando dos Marcelinos ilustra a história do cangaço nos sertões do Cariri, através de sua vivência e atuação nesta região.

Família humilde, procedentes de Pernambuco, do sítio dos Moreiras, atual Moreilândia, os irmãos João, Manoel e Raimundo, dedicaram boa parte da vida trabalhando em fazendas como agricultores e vaqueiros.

Tudo começou em meados de 1923 quando o irmão mais velho João é repreendido por Ioiô Peixoto, chefe de polícia, na feira de Caririzinho (PE). No momento que é desarmado de sua faca em público e diante de tamanha humilhação, jura vingança. Comunica os seus irmãos do fato e decidem surrar o policial. Ioiô enfurecido, contrata um pistoleiro bastante afamado na região para dar cabo dos Marcelinos. Cientes do perigo, eles pediram baixa nas fazendas que trabalhavam, venderam os seus bens, compraram armamentos e, para consumar a vingança, fuzilaram Ioiô Peixoto. A partir desse momento, ingressam na vida do crime.

Os Marcelinos ganham fama de perigosos, saqueiam, matam. Tudo isso acontecia em grande parte com o apoio de muitos coronéis da região do Cariri que os escondiam e encomendavam serviços. Os cangaceiros atuavam principalmente na ligação dos municípios de Crato, Juazeiro do Norte e Barbalha.

A fama vai se espalhando, transpõe divisas e se alastra nos estados vizinhos. Respeitados, viram também aliados de Lampião em diversas ações, inclusive no ataque a cidade paraibana de Cajazeiras e na tentativa de ataque em Mossoró, no Rio Grande do Norte. Por sua agilidade e destreza com as armas Manoel recebe a alcunha de Bom Deveras.

Tempos depois o grupo opta por não seguir mais Lampião e continuam a praticar crimes na região do Cariri.

O fim do bando dos Marcelinos se dá com a morte de Manoel (Bom de Veras) pela volante, no Sítio Minador na casa de Raimundo Alexandre. Tempos depois foi morto João (Vinte e dois), o mais velho, na Chapada do Araripe. João entra morto na cidade de Barbalha, pendurado num pau, com o seu cabelo arrastando pelo chão, como troféu, pelos policiais.

Raimundo (Lua Branca) ferido e, os demais cabras que ainda estavam com Vinte e Dois, foram capturados e levados à cadeia pública de Barbalha. Foram eles: João Gomes, Joaquim Gomes, Pedro Miranda, Manoel Toalha.

Na manhã de 05 de janeiro de 1928, com o pretexto de transportar os presos até a capital Fortaleza, o sargento José Antônio e seus soldados, conduziram os detentos para o sítio Alto do Leitão, localizado junto à velha estrada entre Barbalha e Crato. Lá chegando, obrigaram os indefesos presos cavarem suas próprias sepulturas. O desespero e a coragem do grupo acabaram tornando a chacina ainda mais dramática: Ainda não satisfeitos, fuzilaram um a um, sem piedade. Até o último cair na cova mortuária.

Covardia, vingança, lei...

O Massacre do Alto do Leitão foi sem dúvidas um dos mais marcantes e trágicos episódios do cangaço em terras cearenses.



Referências:
PEIXOTO JUNIOR, José. Bom Deveras e seus irmãos. 2. Ed. Goiânia: Kelps, 2009.
SANTOS, Vilma Maciel Lira dos. Os fuzilados do Leitão: uma revisão histórica. Juazeiro do Norte: HB, 2001.
MELLO, Frederico Pernambucano de. Guerreiros do sol: violência e banditismo no Nordeste do Brasil. 2. Ed. São Paulo: A Girafa, 2004.
Fonte:
https://www.facebook.com/groups/GrupoCangacologia

quarta-feira, 6 de janeiro de 2021

CONVERSAS DE CINE ÉDEN. Como Cajazeiras e o Cine Teatro Apolo XI receberam o ator Sávio Rolim na noite de estreia do filme "O Leão do Norte"

MEMÓRIA


Cartaz original do filme que o artor Sávio Rolim atuou.

por: Cleudimar Ferreira


‘O Cinema sempre foi e será a maior diversão’. Era mais ou menos essa a frase da mensagem gravada em um jingle que anunciava a programação dos filmes que seriam exibidos pelo Cine Éden durante a semana. O jingle era reproduzido todos dias na programação da Difusora Rádio Cajazeiras - a Pioneira. Ao retrocedermos no tempo para voltarmos às décadas de 60, 70, 80, veremos que uma das principais opções de lazer e entretenimento nesses decênios, em Cajazeiras e em todo Sertão era mesmo o cinema.

Cajazeiras, como uma cidade cosmopolita no segmento cultural da região sertaneja, sempre teve pulsante, nos seus artistas, a inquietante vontade do fazer artístico. E os seus três cinemas, nesse contexto, era o complemento necessário que aguçava os sonhos e a possibilidade da realização desses. Discursões sobre os filmes considerados ‘filmes de artes’ exibidos vez por outra no Cine Teatro Apolo XI, debates sobre as produções do Cinema Novo e as principais jornadas cineclubistas que aconteciam no Nordeste parecia ser a apoteótica viagem que a classe intelectual e artística da cidade, naquele tempo, fazia nos finais de semanas, tendo como percurso as salas de cinema de rua existentes - duas no centro e outro mais afastada, o citado Cine Teatro Apolo XI, outrora administrado pela Diocese da Cajazeiras.

Mas toda essa vontade, travestida de ilusão dos nossos trabalhadores das artes, mostrava-se frustrada quando a notícia que chegava à cidade era a de que o ator ‘fulano de tal’ - aquele ou aquela - fizera um filme ou experimentara o sabor do estrelato nas telonas, seja participando como destaque ou como ponta de uma determinada produção nacional. Isso, às vezes, causava emulação em muitos, a ponto de alguns ignorarem o destaque, até por mera ciumeira. Foi o caso do ator cajazeirense Sávio Rolim. Sávio, até fazer ‘Menino do Engenho’, era uma anônima criança talentosa, então desconhecida da classe teatral, mas que se fez ator depois do filme pelo brilhante desempenhado na fita. Mesmo assim, não foi o suficiente para ser consagrado pela classe artística ou cair na graça do público em geral de Cajazeiras.

Essa falta de empatia que Cajazeiras parecia demostrar ao trabalho de Sávio Rolim perdurou seguidamente, mesmo o ator conseguindo vários trabalhos em outros filmes que fez depois de ‘Menino de Engenho’. Isso ficou claro na noite de estreia do filme ‘O Leão do Norte’ no Cine Teatro Apolo XI, em 1976 - longa dirigido por Carlos del Pino em 1974-75, do qual Sávio Rolim participou como um dos atores de destaque. Lembro-me muito desse dia, pois estava no cinema e presenciei a falta de acolhimento e de incentivo ao ator, que naquele instante se encontrava na portaria do cinema.  

Nessa noite, que marcou estreia do filme na cidade, eu estava na calçada do Cine Teatro Apolo XI, em frente à portaria, esperando um sinal verde do então porteiro Cícero Alves - o ‘Cícero do Bradesco’ - que sempre me colocava para dentro do cinema em troca de uma ajuda que eu lhe dava na montagem dos cartazes das tabuletas de divulgação dos filmes, que eram colocadas nas ruas de Cajazeiras. Quando me preparava para esse momento, de repente, um rapaz desconhecido se aproximou de mim e de outras pessoas que estavam próximas à grade de proteção da portaria, dizendo que havia participado do filme. “Eu participei desse filme! Eu estou no elenco!” Foram essas as duas frases interpelativa que todos nós ouvimos da boca do ainda jovem ator Savio Rolim.




Se houvesse zelo da sociedade cajazeirense pelos grandes feitos dos nossos artistas - que com esforço alcançaram a consagração nacional nas linguagens das artes -, no mínimo, as emissoras de rádio da cidade na época (a Difusora Rádio Cajazeiras e a Rádio Alto Piranhas – também administrada pela diocese) teriam bradado o dia todo na sua programação, chamando o público e, principalmente a classe artística para comparecer ao Cine Teatro Apolo XI. Afinal, naquela noite, o cinema exibiria um filme em cujo elenco constava a participação de um ator da cidade, o qual estaria presente no lançamento.

Contrariando o que seria natural em um caso como esse, nada foi feito em termos de divulgação nas rádios sobre a presença do ator no cinema da Diocese para o lançamento do seu filme. Não houve também mobilização da classe artística, nem de pessoas desse seguimento, para recepcionar o ator de ‘Menino de Engenho’ - principalmente a classe teatral da época, que poderia ter feito uma campanha de divulgação boca a boca ou ter distribuído panfletos. Da parte do cinema, tendo à frente o bispo cinéfilo Dom Zacarias Rolim Moura, a situação foi pior. Lembro-me de que Dom Zacarias, mesmo estando no cinema naquela noite, nem sequer tomou conhecimento da presença do ator do filme que seria exibido - que estava ali, na calçada do seu cinema.

Nessa época, o feito de se chegar aonde Sávio Rolim havia chegado era fato raro. Não era tão fácil assim, pois as oportunidades que surgiam eram preenchidas por atores do eixo Rio - São Paulo ou a eles destinadas. Chegar ao estrelato, ou se ver na telona ou na TV, não passava de um sonho para muitos atores de outras regiões do país - principalmente do Nordeste -, que adiavam ou guardavam seus desejos, contentando-se com as raras participações em produções documentais e nos curtas realizados pelo Cinema Novo, material esse que pouco passava nos cinemas comerciais.  

Portanto, para referendar essa memória, afirmo que presenciei In Loco, nessa noite de estreia do filme ‘O Leão do Norte’ na cidade, como se comportou o público cajazeirense e como foi à recepção na época que, Cajazeiras deu a Sávio Rolim - sua, até então, estrela maior no cinema nacional, nos anos 70 e 80. 


Depois da rápida conversa que tivemos e das poucas perguntas que eu e as outras pessoas curiosas fizemos ao ator, aproximou-se o início da projeção do filme e o público, que já era pequeno, foi ficando menor ainda, esvaziando-se. Vi quando Sávio Rolim se afastar um pouco de nós e, em um dado momento, sem companhia, sozinhos na calçada do Cine Teatro Apolo XI, presenciou as últimas pessoas que chegavam às presas e se dirigiam à bilheteria e em seguida, à portaria.

Sem opção, o ator, vendo que não havia mais nada a fazer ali naquele local, olhou para um lado e para o outro e depois saiu... saiu em companhia de um casal que tinha acabado de chegar, em direção à Catedral Nossa Senhora da Piedade. Minutos depois, o improvisado porteiro Cícero Alves acenou para mim, fazendo um sinal de que eu já poderia entrar.

Auditório do Cine Teatro Apolo XI. Foto do arquivo de Netinha Quirino


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REITURA DA FOTO EM PRETO E BRANCO. 
O Auditório do Cine Teatro Apolo XI, não servia apenas para exibição de filmes, mas para outros fins. Para shows musicais, palestras, apresentações teatrais e festas de concluintes da área educacional da cidade. Na foto acima cerimônia de colação  de grau da primeira turma de formandos da FAFIC no auditório do cinema.

domingo, 3 de janeiro de 2021

CINE LUX

MEMÓRIA

por: Verneck Abrantes


Antigo Cine Lux. Foto: Acervo Verneck Abrantes

Tudo começou no ano de 1953, quando o construtor Chiquinho Formiga iniciou a construção do Cine Lux, sendo inaugurado no ano seguinte com a presença de Luiz Gonzaga. Um grande prédio com excelentes condições para projeções cinematográficas, sendo o local aproveitado para show, teatro, conferências, debates políticos etc. Em 1956, o cinema é vendido para Afonso Mouta, que sob sua administração exibiu seu primeiro filme, denominado: “A Mulher que Perdi”, uma película mexicana, e, logo em seguida, inaugurou as projeções em cinemascope com o filme: “Os Cavaleiros da Távora Redonda”.

A tela grande agora era o orgulho e o comentário da população pombalense, que tinha no cinema uma nova abertura para o conhecimento visual dos costumes, da vida social e comportamento de muitos países nunca antes vistos. No início, a energia era a motor diesel, instalado no próprio prédio, e o barulho do mesmo sempre denunciava para toda a vizinhança o início e o término de cada projeção.

Porém, o grande sucesso, devido à compreensão do público em geral, foi na exibição do primeiro filme brasileiro: “Metido a Bacana”, com Anquito e Grande Otelo. As exibições de sessão matinal, vesperal, matinês e, naturalmente, com as sessões noturnas, que era o horário nobre das exibições, marcado pela suavidade da música ambiente e o silêncio da plateia.

Os filmes de rei, amor, Oscarito, Anquito, Grande Otelo, Zé Trindade, Mazzaropi, as matinês com os gritos de Tarzan, western com índios e as grandes películas mexicanas, influenciavam claramente os frequentadores.

Na direção de Galdino Mouta, foram exibidos os melhores filmes do cinema mundial, lembrando que durante as projeções cinematográficas ele estava sempre a caminhar, entre a plateia, com uma lanterna na mão, mantendo a ordem e disciplina, que, apesar de tudo, não deixou que muitos filhos de Pombal, hoje, sejam resultados dos flertes, namoros e casamentos iniciados no “escurinho” do Cine Lux.

Em 1983, a direção do cinema passa para José Cleôncio Mouta. São novos tempos, da grande influência da televisão com seus filmes, as badaladas novelas, o vídeo cassette... E o Cine Lux vai perdendo seu público, evidenciando a cada ano o seu declínio.

Deixa de exibir filmes diariamente e alterna as projeções nos dias da semana, sem resultados compensatórios; e, sem nenhum incentivo, fecha suas portas em 1989. Localizado na Rua Jerônimo Rosado com esquina para a Rua João Pereira Fontes, o Cine Lux foi um grande marco na vida sociocultural de Pombal.

Afonso Mouta. 2º proprietário
do Cine Lux



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Verneck Abrantes de Sousa

É Escritor, Engenheiro Agrônomo, natural de Pombal, Paraíba.




fonte: facebook. https://www.facebook.com/photo?fbid=321914227921631&set=a.176336319146090

sábado, 19 de dezembro de 2020

CONVERSAS DE CINE ÉDEN (Minha primeira sessão de cinema)

   MEMÓRIA   

por Cleudimar Ferreira


Tudo parecia novo e festivo, mesmo que ainda não tivesse completado sequer a primeira quinzena de janeiro daquele ano. Porém em se tratando de fase de adaptação, já era o suficiente para recomeçar e fazer novas amizades, mesmo num cenário profuso que aquela rua do bispo me oferecia, muitas vezes estampada a olho nu, nas inúmeras imagens dos tantos garotos de comportamento urbano que a mim se dirigia, numa nítida tentativa de acercamento, procurando de imediato fazer novas amizades.

Até achava que alguns não mereciam confiança. Entretanto, mesmo retraído, acreditava que outros tinha boas intenções e que mesmo minha cultura sendo rural, ariscar uma aproximação com certos comportamentos urbanos era algo necessário e inevitável no decorrer do tempo. Não hesitei e o meu lado tímido, acanhado, deixei de lado. Não desmerecendo os demais, mas a primeira amizade pra valer naquela rua foi com o meu vizinho Ariosvaldo.

Valdo como era chamado por todos, era natural de Curais Novos, Rio Grande do Norte. Gostava de Música, Jovem GuardaCinema e Roberto. E foi através dele que eu entrei pela primeira vez em um cinema - no Cine Teatro Éden, principal cinema de Cajazeiras. Lembro sem nenhum broqueio que certa vez estávamos ouvindo na vitrola da casa dele, "O Inimitável”- LP recém-lançado pelo rei, que seu pai havia acabado de comprar na loja “Raio Discos”, quando ele perguntou se eu já tinha ido ao cinema. Curioso, respondi ao mesmo fazendo uma pergunta. O que é cinema? Ele olhou para mim, exibiu um ligeiro sorriso e não respondeu a minha curiosidade. Ora, eu um adolescente advindo de um ambiente rural, lá sabia o que era cinema.

Por entender que eu ainda não estava por inteiro adaptado às coisas boas da cidade, ele me convidou para no domingo a tarde ia ao Cine Éden assistir um filme, que segundo ele era um dos melhores em exibição no Éden. Aos domingos, à tarde, acontecia as matinês e sempre o cinema lotava. Um momento ideal para se trocar e vender revistas, conhecer outros garotos e garotas e fazer novas amizades. Era tudo que precisava para me adequar aos costumes da vida moderna na cidade e o cinema parecia ser o local favorito para se viver e conhecer as novidades do mundo.

Aproximei-me do meu pai e falei: Papai, eu vou ao cinema com Valdo e outros meninos e quero dinheiro para pagar a entrada. Meu pai virou repentinamente e foi logo perguntando o que era cinema e onde ficava essa coisa. Depois de tentar explicar, mesmo sem saber direito o que era, ele perguntou quanto era a entrada e mandou que eu pegasse o dinheiro na gaveta da bodega. Quando abri aquele dito compartimento, só havia as moedas de centavos. O grosso como se fala popularmente ele havia retirado e colocado debaixo do colchão da cama que ele dormia com minha mãe, justamente do lado onde ele dormia. 

Como a entrada era um cruzeiro e cinquenta centavos, tive que levar esse percentual em moedas de um centavos. Ao chegar à portaria do Cine Éden, a fila estava extensiva, mas em compensação estava andando, graças à agilidade da bilheteria. No momento da compra do ingresso, tirei as quinze moedas do bolço da calça coringa e coloquei no buraco da bilheteria e a mulher que vendia os ingressos olhou para mim e começou a contar as moedas. Quando recebi das mãos da bilheteira o ingresso, a minha ansiedade se misturou com a curiosidade de conhecer o que era o tal cinema que Valdo e aqueles garotos felizes naquela fila exibiam nos seus rostos.

Entrei naquele espaço cheio de cadeiras e um som ambiente tocando músicas da época. Fiquei encantado com o tamanho do ambiente, principalmente com aquele cortinado enorme na nossa frente. Era como se ali, estive escondido alguma coisa que nós não poderíamos ver por enquanto. Passado alguns minutos, senti quando de repente, as luzes começaram aos poucos se apagarem e juntos com elas vários toques diferenciados e sincronizados exauria um som forte no composto ambiente do Cine Éden. Essa reentre me fez ficar tenso, atento, colado na cadeira de madeira do auditório do cinema.

Tudo foi ficando escuro naquela sala de exibição e a espera do que ia acontecer, passou a ser o que eu mais tinha curiosidade. Após o cessar daqueles sinais sonora, eis que de repente um imenso retângulo luminoso, surgiu por traz da enorme cortina que aos poucos, devagarinho, começou a se abrir e exibir imagens que eu nunca havia visto. As imagens em preto e branco, intercaladas, passaram a mostrar fragmentos de filmes por um bom tempo e só parou quando a abertura da Fox surgiu rasgando a tela panorâmica do Cine Éden, com sua marca tridimensional e a belíssima peça sonora de fundo, marcando o inicio do filme em cartaz daquela matinê: “Meu Nome é Pecos” com Robert Woods. Um western italiano dirigido por Maurizio Lucidi em 1967 e um dos filmes mais importantes da carreira do ator Robert Woods.

Após passar duas horas nas dependências do Cine Éden, vi aquela sessão de cinema chagar ao fim e como princípio de tudo, o começo da minha paixão por cinema - bem praticada, vivida poeticamente a partir dos bons filmes que assisti e também com as boas amizades que fiz com parte dos trabalhadores das três salas de exibições que havia em Cajazeiras. A natureza simbiótica que senti quando estava com amigos à espera do inicio da minha primeira sessão de cinema, que eu não imaginava como seria, ficou marcada para sempre como o meu ápice de cinéfilo prematuro. E tudo começou no cinema mais popular que a cidade teve - o Cine Éden.


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quarta-feira, 9 de dezembro de 2020

Viuvez no Cangaço e Morte na Política.

porJoão Filho De Paula Pessoa


imagem meramente ilustrativa. fonte Internet


Cajazeira era um homem de posses, seu pai era um rico fazendeiro de Poço Redondo/SE, tinham muitas terras e rebanhos, e por conta disto eram constantemente explorados e extorquidos pelas volantes, que lhe pilhavam dinheiro, bens e animais, sob o pretexto da campanha contra o cangaço. Ele era casado, na igreja e no “papel passado” com a jovem e bela Enedina. 

Certo dia de 1937, quando estava num bar, soube da aproximação de uma volante que se dirigia à sua procura para mais uma extorsão e numa atitude impulsiva e de revolta, pois já se encontrava saturado com aquela situação, se esquivou da iminente extorsão e seguiu sertão adentro a procura do Bando de Lampião para se refugiar, localizando-o e sendo aceito no Cangaço. 

Sua Esposa Enedina, logo após, foi ao encontro de seu marido, juntando-se à ele no cangaço, onde passaram a viver. Enedina era conhecida por sua simpatia e alegria e Cajazeira por sua valentia, educação e bons modos, sendo presenças agradáveis no cangaço. Em 1938, estavam acampados na Grota de Angico, junto com Lampião e bando, quando foram atacados pelas volantes. 

Na fuga, Enedina correu junto com Sila e Dulce, mas foi atingida por uma rajada de metralhadora na cabeça, que a esfacelou jorrando pedaços de miolos em suas companheiras ao lado, que seguiram em fuga. Enedina ficou caída e teve sua cabeça cortada e exposta juntamente com as cabeças de Lampião, Maria Bonita e mais oito cangaceiros, numa exposição macabra de onze cabeças decepadas. 

Cajazeira fugiu e sobreviveu, ficou foragido algum tempo, retornou à sua cidade e casou-se, novamente, com sua cunhada, irmã de Enedina, com quem se mudou para o Rio de Janeiro onde foi bem sucedido no trabalho no ramo da construção civil. Alguns anos depois, no início da década de 50, retornou à sua cidade natal de Poço Redondo/SE e retomou a administração das terras e negócios de seu pai, entrou na política, concorreu à prefeitura por duas vezes como Zé de Julião, se envolveu em brigas e disputas políticas e foi assassinado em 1961 por adversários políticos.

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O jovem cangaceiro Cajazeira 

 




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onte: No tempo de Lampião - Memória do Cangaço. https://www.facebook.com/groups/1693285910778043