domingo, 22 de novembro de 2020

Passagem marcante de Mário de Andrade por Catolé Do Rocha. Bendito

por Pedro Nunes (UFPB)



O escritor modernista e musicólogo, Mário de Andrade, realizarou duas grandes viagens etnográficas com a finalidade de conhecer e aprender sobre as diferentes culturas e expressões musicais populares do Brasil. 

Em 1927... Empreendeu viagem etnográfica rumo à região NORTE fazendo anotações musicais, fotografando, elaborando crônicas e detalhando minuciosamente os encantos vivenciados em sua viagem-pesquisa. Apesar de ser um homem culto, sempre se posicionava na condição de aprendiz, observador criterioso que seguia na busca de expressões e manifestações culturais de cada localidade onde chegava. 

No final de 1928 e princípio de 1929, a sua segunda e intensa "viagem etnográfica" foi para região NORDESTE. 

Nesse seu mergulho de pesquisador-aprendiz irrequieto... Mário de Andrade deparou-se com as nossas riquezas culturais e, também, revoltou-se com a miséria, a seca e o fluxo migratório do nordeste para região sul do país. 

Em uma de suas crônicas que depois integrou o livro O Turista Aprendiz exclama: “a assombração deste Nordeste é a seca”. 

Nessa época o autor de Macunaíma já era considerado uma das maiores expressões literárias do movimento modernista no Brasil. Aclamado como escritor e estudioso da nossa música popular, Mário de Andrade encara o outro artista popular como ser produtor de cultura, conteúdos e significados. Em seu tempo, preocupou-se com a preservação e o registro dessas nossas manifestações culturais visando o futuro. Preparou a memória para temporalidades então futuras e que ora já são presentes. 

Seu objetivo nessas expedições exploratórias foi conhecer aprender e documentar essa nossa diversidade cultural. As raízes em forma de cantigas, toadas, cocos, aboios, emboladas, cantos de farinhadas, benditos, expressões populares, enfim, preocupou-se em registrar as tradições culturais de cada localidade visitada. 

Em janeiro de 1929, Mário de Andrade intencionalmente adentrou na cidade de Catolé Do Rocha - PB vindo assustado outras cidades do Rio Grande do Norte por onde tinha passado Lampião com o seu bando de cangaceiros. Mário de Andrade relata o seguinte: 

"Afinal entramos em Catolé do Rocha, com procissão do orago, rojões, gente bêbada e mendigos. Mas a cidade está desfalcada. Cerca de 1.100 famílias da zona foram pra S. Paulo. Vam’bora pro sul! Este refrão vai me perseguindo com amargura. “E só se fala agora em ir pra S. Paulo” acrescentou o informante...” (Diário Nacional, 28 fev., 1929). 

Aqui na cidade das rochas e da família Rocha... Mário de Andrade sofreu e se comoveu com os pequenos detalhes da cidade, Igreja Matriz, a beleza do atual Monte Tambor e a curiosidade das pessoas. 

Fez um registro magnífico dessa cidade “desfalcada” pela miséria. O escritor-pesquisador destacou o canto de uma pedinte que transmitia “uma dor magnífica, mesquinha, triste mesmo”. 

A cena real descrita por Mário era a de uma menina aleijada, em um carrinho de mão, acompanhada de uma anciã pedindo moedas, repetindo um bendito melodioso. Impressionado Mário de Andrade ouviu e apenas cifrou a melodia no dia 20 de janeiro de 1929. O canto dizia o seguinte: “Deus lhe pague a santa esmola/Deus lhe leve no andor/Acompanhado de anjo/Acirculado de flor”. (Diário Nacional: 1929) 

Mário de Andrade além de escritor e pianista também atuou como professor de conservatório musical. Em 1938, quando dirigia o Departamento de Cultura de São Paulo, encaminhou a Missão de Pesquisas Folclóricas para documentar as manifestações culturais que havia anotado meticulosamente em seus diários de viagens e vivências no NORDESTE. 

Outro detalhe é que por ocasião da vinda do linguista norte americano Lorenzo Turner, em 1940, ao Rio de Janeiro, Mário de Andrade atendeu pedido e resolveu cantar/gravar o BENDITO que ouvira em Catolé do Rocha no ano de 1929. 

Esse registro sonoro foi redescoberto por pesquisadores da Universidade de São Paulo e da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia, na Universidade de Indiana nos Estados Unidos, em 2015. Esse rico acervo com outras canções coletadas na época... Vem possibilitando a realização de uma série pesquisas e estudos principalmente na área de etnomusicologia, história e música popular brasileira. 

Por fim, Mário de Andrade em 1939 fez uma breve descrição poética, em forma de artigo, no Jornal O Estado de São Paulo sobre a sua chegada em Catolé do Rocha, isso dez anos antes da publicação. O trecho diz o seguinte: 

"Era um domingo e na igrejinha branca, admirável pela harmonia da sua fachada sem torres, a procissão entrava. O céu estava negro de nuvens que não se resolviam a chover sobre a terra, e apenas do lado do poente, uma nesga de céu limpo deixava uns últimos raios de o sol focalizarem, para efeitos da fotografia que encima estas evocações, a igreja e as casas da sua direita, no imenso largo vazio. No alto do morro, uma capelinha votiva também gritava muito espevitadamente o seu branco sem poeira, como um defeito de película fotográfica. E as casas coloridas, encarnadas, azuis, verde, limão, brincavam, numa esperança de alegria, com o ambiente feroz." Percebe-se que a vida do alto sertão paraibano ficou marcada na vida de Mário de Andrade. 

Salve Mário de Andrade! 
Salve Catolé do Rocha com suas tantas Histórias e Memórias!



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Crédito das imagens: Catolé do Rocha, 1929. Foto de Mário de Andrade. Acervo do Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo. Escrito publicado no Facebook, em 30 de novembro de 2017.

quarta-feira, 11 de novembro de 2020

NOSSA SENHORA DOS CINÉFILOS ME ACUDA

por: João Batista de Brito


Fui, outro dia, acometido de um delírio que me deixou preocupado com minha saúde mental.

Estava eu em João Pessoa, mas não era a de hoje: entre tarde e noite, era um dia na remota década de cinquenta, e, como o personagem de “Morangos Silvestres”, eu não sabia se, nessa dimensão mágica do passado, estava velho ou se ainda era criança.

Quem me tomou pela mão e me guiou por esse tempo antigo não sei se foi o Virgílio de Dante, ou um dos espíritos de Charles Dickens, ou o anjo Clarence de Frank Capra.

Só sei que, de repente, lá estava eu às portas do Cinema Astória, ali no comecinho da Rua da República, quase vizinho à extinta Fábrica Sanhauá, não muito longe da ponte do mesmo nome, aquela que liga João Pessoa a Bayeux. O filme que estava em cartaz era “Beau Geste”, mas nem comprei ingresso.

Certificado de que eu contemplara a fachada do velho Astória, o meu guia, fosse quem fosse, me fez subir a rua em direção à Praça da Pedra, e lá, dobrou comigo para o lado direito, e seguimos pela São Miguel, até o Cinema São Pedro, que estava exibindo o “Fantasia” de Walt Disney.

Olhamos o cartaz, cubamos o movimento da garotada trocando gibis, e nos mandamos, não em direção ao cemitério - graças a Deus - mas, de volta à Praça da Pedra, de onde continuamos subindo a Rua da República, até o seu final. No encontro desta rua com a General Osório, lá estava o que eu já sabia que ia encontrar - a fachada do Cine Filipéia, onde se destacava o cartaz de “Paixão dos Fortes”, o filme do dia. Pensam que ficamos para a matinê com Henry Fonda? Que nada, o meu guia me arrastou General Osório abaixo, até a Guedes Pereira, em cuja esquina dobramos e fomos ter na calçada do Cine Brasil.

Fiquei louco para ver o filme do dia, “A sombra de uma dúvida”, mas, de novo, o meu guia não permitiu. Demos alguns passos subindo a rua e dobramos à esquerda, agora General Osório acima. Na primeira esquina, o guia nem precisou sinalizar: tomamos a Peregrino de Carvalho e logo estávamos na frente do belo e grandioso Cine Rex que, com algum alarde, exibia naquele dia “Sansão e Dalila”.

Mal deu tempo de me embevecer com, no cartaz, o rosto perfeito de Hedy Lamarr e os peitos estufados de Victor Mature, descemos a Rua Duque de Caxias, viramos à esquerda no Ponto de Cem Réis, e eis-nos diante do não menos grandioso Cine Plaza, onde uma fila enorme se estendia até a calçada do vizinho Pronto Socorro, esperando para ver nada menos que “Os homens preferem as louras”. Com certa impaciência perante o meu demorado deslumbramento com a pose sensual de Marilyn Monroe, o meu guia me puxou pelo braço e seguimos pela Praça 1817.

Cruzamos em diagonal a Praça João Pessoa, tomamos a Rua das Trincheiras e fizemos uma longa caminhada, até encontrarmos a rua Capitão José Pessoa, já no bairro de Jaguaribe; aí dobramos e fomos ter com o Cine Jaguaribe, que entre um seriado e outro, exibia “As minas do rei Salomão”, Deborah Kerr e Stuart Granger no cartaz.

Daí seguimos a Capitão José Pessoa e na próxima esquina, à esquerda, Rua Floriano Peixoto, dobramos e nos dirigimos - precisa dizer? - ao Cine São José, onde o filme do dia era “O manto sagrado”. Tratava-se, como se sabe, do primeiro cinemascope e muita gente esperava para ver a novidade.

Mas nós, não. Retornamos pela mesma Floriano Peixoto, e, sempre em linha reta, cruzamos várias esquinas do bairro de Jaguaribe, até chegar à Av. Primeiro de Maio, onde tomamos a direita e, ladeando o muro alto do imenso e imponente Clube Cabo Branco, atravessamos o calçamento da Vasco da Gama, e nos detivemos no pátio frontal do Cine Teatro Sto Antônio. Tive ânsias de me livrar do meu guia e entrar para ver Gene Kelly e Debbie ReynoldsCantando na chuva”, mas não foi possível. Pela resistência que ofereceu, estava visível em seu rosto impaciente que ainda havia outros cinemas a visitar. Sim, eu sabia que havia pelo menos mais quatro, o Glória e o Bela Vista, em Cruz das Armas, e o Cine Torre e Metrópole, na Torre.

Por que ver tantos cinemas sem entrar para o que interessava? Devo ter me oposto com certa veemência ao incompreensível propósito do guia, e, por certo, foi essa oposição que desfez o meu delírio.

Voltei a mim, nostálgico, me dando conta de que, havia décadas e décadas, nenhum desses cinemas existia mais. Nostálgico e um pouco perplexo, sem ter decifrado a mensagem do meu vago e misterioso guia.

Nos seus delírios, o poeta Dante, o velho Scrooge sovina de Dickens, e George Bailey, o honesto pai de família de Capra, entenderam os seus respectivos guias e lucraram com isso: eu não.

Até agora aguardo que alguma Nossa Senhora dos Cinéfilos me acuda e revele o sentido do meu estranho delírio.

(Em tempo: Esta crônica vai para os amigos João Luiz Vieira e André Dib)



segunda-feira, 26 de outubro de 2020

XVIII FESERP - FESTIVAL SERTANEJO DE POESIA - PRÊMIO AUGUSTO DOS ANJOS 2020 REGULAMENTO



I – DO EVENTO E SEUS OBJETIVOS:

Art. 1º O XVIII FESERP Festival Sertanejo de Poesia, é uma realização da Acauã Produções Culturais e será realizado na cidade de Aparecida PB, no período de setembro a dezembro de 2020.

Art. 2º Poderão inscrever-se no XVIII FESERP todos os poetas, de qualquer país, independentes de estilo, gênero ou nacionalidade, concorrendo em absoluta igualdade, desde que as obras sejam exclusivas no idioma português e originais.

Art. 3º O XVIII FESERP tem como objetivos:

a) A promoção dos poetas, favorecendo o intercâmbio de ideias na busca de espaços para divulgação dos mesmos;

b) Fomentar a discussão entre artistas e população, criando espaços para manifestações entre educadores e educandos, para um maior crescimento cultural;

c) Descobrir e incentivar novos talentos da poesia;

d) Homenagear o mais expressivo poeta paraibano Augusto dos Anjos concedendo aos vencedores um troféu que traz seu nome.

II - DAS INSCRIÇÕES:

Art. 4º As inscrições serão feitas exclusivamente online, preenchendo o formulário e anexando a poesia em PDF, no link https://forms.gle/cXT69wxNdLcUHVio7 no período de 21 de setembro a 30 de outubro de 2020, não sendo aceitas inscrições presenciais e nem via correios.

Art. 5º Cada poeta poderá inscrever apenas uma poesia com no máximo duas laudas e a mesma não poderá conter o nome do autor apenas o título do trabalho. A identificação do autor ficará exclusiva na ficha de inscrição online.

Art.  O regulamento e maiores informações estarão disponíveis nos sites: www.acaua.org e  www.acauafm87.com.br, pelo e-mail acauaproducoes@gmail.com e pelo whatsapp (83) 98119.8145

Art. 7º Os promotores do evento não se obrigam a devolver o material utilizado para as inscrições, ficando os mesmos na guarda da Comissão Permanente do FESERP para posterior reprodução em livro.

Art. 8º O ato da inscrição implica automaticamente na aceitação integral por parte dos concorrentes dos termos deste regulamento.

III - DO JULGAMENTO:

Art. 9º O Julgamento das obras será feita por uma comissão formada por três jurados de reconhecida experiência comprovada na cultura nacional, que atribuirá notas de 0 a 10 ao material inscrito, no prazo de 20 dias após o término das inscrições, sendo sua decisão soberana, não cabendo qualquer manifestação contrária.

Art. 10 Em caso de empates entre os três primeiros colocados o desempate se dará pela nota do 1º jurado, persistindo o empate os jurados serão contatados para atribuírem novas notas aos referidos trabalhos.

IV - DA PREMIAÇÃO:

Art. 11 A premiação do XVIII FESERP acontecerá online no dia 1º de dezembro de 2020, em evento comemorativo aos 30 anos da Acauã Produções Culturais, com transmissão ao vivo pelas redes sociais no youtube, facebook e instagran.

Art. 12 Os três primeiros colocados no XVIII FESERP, receberão o troféu AUGUSTO DOS ANJOS, confeccionado artesanalmente, um livro ANTOLOGIA POÉTICA DO FESERP volume V e Certificado de participação.

Art. 13 Todos os participantes receberão certificado de participação independente da Classificação.

Art. 14 Os casos omissos a este regulamento serão resolvidos pela Comissão Permanente do FESERP.


quarta-feira, 21 de outubro de 2020

O QUE SEI SOBRE O GIMC - Grupo de Integração do Menor na Comunidade

porCleudimar Ferreira



Quem lembra do Grupo de Integração do Menor na Comunidade (GIMC). Pois bem, Foi postado pelo poeta e escritor Irismar di Lyrano meu WhatsApp, esse impresso promocional para bolço, em nylon, confeccionado em serigrafia. O mesmo, parece ser de uma das campanhas abraçada pelo GIMC, com o chamamento: "dê um pouco de si em favor do menor", que se tornou depois o principal slogan e principal característica da ação do GIMC nas comunidades periféricas de Cajazeiras, principalmente a do Bairro de Capoeira onde estava instalada a sua sede administrativa e social.

Não tenho muito liberdade para escrever sobre o GIMC, pois não conhecia o seus objetivos mais gerais e profundos em favor das causas sociais do menor cajazeirense. Tudo que eu sei é que o grupo mantinha uma atuação marcante na politica de amparo dos menores mais necessitados da cidade, nos idos anos 70 e na primeira metade da década de 80. Suas atividades nesse campo eram mais extensivas, já que buscava parcerias com associações que iam sendo criadas para atuar em causas de caráter sociais, tais como, as da defesas dos direitos humanos; defesas do meio ambiente e movimentos ecológicos; defesas das minorias étnicas, etc.

Mas o GIMC não se restringiu apenas as ações no campo sociais. O grupo durante o seus momentos áureos anos de atuação, experimentou o gerenciamento em outras áreas especificas, sendo por muitos anos parceiros dos movimentos culturais da cidade de Cajazeiras, abraçando parcerias com eventos importantes nesse setor, como os Festivais de Poesias; Festivais da Canção no Sertão e mais especificamente na área cênica, montando ou apoiando produções de peças teatrais - principalmente as que eram encampadas por grupos de teatro com atuação comunitária.

O GIMC era uma entidade privada em fins lucrativos. Tinha o nome de Irismar di Lyra sua principal referencia e linha de articulação. Irismar, foi presidente fundador do grupo e era nesse período de eficiência e eficácia do GIMC, bastante conhecido e influente no meio social e cultural de Cajazeiras. 

O GIMC foi talvez uma das primeiras organizações criadas no Nordeste com esse perfil, provido de recursos humanos capacitados para atuação na área social, com destaque, a que se destinava a causa do menor carente em situação de risco em Cajazeiras.

Antiga sede do GIMC no Bairro de Capoeiras em Cajazeiras


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terça-feira, 29 de setembro de 2020

Secretario Damião Cavalcanti convoca trabalhadores da cultura.

O Secretário Estadual da Cultura Damião Ramos Cavalcanti, reforçou o convite para que os trabalhadores da cultura no Estado façam o cadastramento na Lei Aldir Blanc, cujo prazo só vai até o dia 30 deste mês de Setembro. Cada artista cadastrado e contemplado, irá receber a importância de 3 mil reais, divididos em 3 parcelas de R$ 600,00 e mais 4 parcelas de R$ 300,00. Os benefícios que serão destinados aos trabalhadores do setor cultural na Paraíba, estão sob responsabilidade do Governo do Estado.  




domingo, 20 de setembro de 2020

“O calvário da Lei Aldir Blanc”

por Afonso Oliveira
Produtor cultural, escritor e consultor.



As frases da música “Como nossos pais” de Belchior que diz: “Eles venceram e o sinal está fechado prá nós” e “E as aparências não enganam não”, cabem perfeitamente para definir o que considero o calvário para acessar os recursos da conhecida Lei Aldir Blanc. 


A burocracia criada é tão surreal que não encontrei nada parecido em nenhuma lei, decreto ou norma publicada durante a pandemia. Uma ideia que surgiu para socorrer de forma emergencial o setor cultural ficou apenas no papel.


A necessidade de uma Lei Emergencial de Cultura surgiu após o total descaso da então Secretária Regina Duarte com o setor cultural no início da pandemia. Percebendo que nenhuma ação ia ser tomada e sofrendo as consequências da calamidade, a sociedade mobilizou-se e cobrou uma atitude política mais efetiva.


O Congresso Nacional percebeu o problema e tornou-se o termômetro e o protagonista para receber todas as demandas. Vale destacar o empenho dos diversos atores sociais, incluindo alguns deputados, deputadas, senadores e senadoras. Mas se a solução saiu do Congresso, é necessário ser dito, que também foi lá onde começou a criação do calvário. E as aparências não enganam.


Ignorando a experiência de distribuição de recursos emergências via Caixa, congresso e governo politizaram o projeto, no pior contexto da palavra, criando um fluxograma de hierarquias institucionais e interesses estranhos a proposta emergencial da lei. Imediatamente formou-se uma mobilização com interesses políticos e objetivos muito claros: articular o setor cultural em torno de uma pauta de oposição ao governo e a participação de todos os entes federados em ano de eleições municipais. Tudo isso para fazer chegar, pasmem, R$ 2.000,00 (dois mil reais) ou um pouco mais via editais, e R$ 600,00 (seiscentos reais) mensais de auxílio nas mãos dos trabalhadores do setor cultural. É importante deixar claro que com a obrigação de contrapartida e prestação de contas. Eles venceram e o sinal está fechado pra nós.


Essa politização e burocracia geraram um número incalculável de lives, grupos de aplicativos e um emaranhado de regulamentos, decretos, cadastros, editais e conferências. Tudo legitimado por um coro de muitas vozes, quase como um ritual litúrgico enaltecendo a importância desse processo cruel. Assim criou-se o calvário.


A mobilização social é e sempre será importante, mas criar uma falsa ideia de luta pelo socorro emergencial de pessoas, empresas, espaços culturais, comunidades, terreiros e festas em tempos de pandemia é inadmissível. Não há nada de emergencial nesse processo – decretos de regulamentação nas instâncias federal, estadual e municipal; cadastros que mais parecem uma solicitação de aposentadoria. Enquanto o setor agoniza, assiste-se gestores com seus salários em dia criando ainda mais burocracias, amplificando o calvário.

 

Aldir Blanc em 2016: morto pela Covid-19, cantor e compositor batiza 
lei de emergência | Foto: Leo Martins, Agência O Globo


A Lei Aldir Blanc criou no artigo 2, inciso I, a Renda Básica Emergencial em auxílio às pessoas físicas do setor cultural, com restrições, que mais parecem uma pegadinha. São elas: Pessoas com emprego formal; Pessoas que estão recebendo outros benefícios, como o Seguro-Desemprego, assistenciais ou outros, incluindo auxílio emergencial federal; Pessoas que pertencem à família com renda superior a três salários mínimos (R$ 3.135,00) ou cuja renda mensal por pessoa for maior que meio salário mínimo (R$ 522,50); Pessoas que receberam rendimentos tributáveis acima do valor de R$ 28.559.70 em 2018, de acordo com a declaração do Imposto de Renda. Pessoas que já são beneficiárias do auxílio emergencial previsto na Lei nº 13.982, de 2 de abril de 2020.


Com todas essas restrições um número muito pequeno de pessoas têm direito a receber a Renda Básica. Mas a regulamentação do governo federal, com anuência do Fórum dos Secretários e Conselhos de Cultura entregou aos Estados 1,5 bilhão de reais, sendo 1,2 bilhão para pessoas físicas e 300 milhões para editais e prêmios. Vários estados equilibraram essa divisão do bolo, sem perder o desejo sádico das regras, das dificuldades e deixando reinar a rainha da exclusão, a burocracia.


A Cultura Popular está no fim dessa enorme fila desigual. Quem possui mais recursos tecnológicos serão os primeiros atendidos e os que não têm serão enviados para sabe lá onde. Para o deleite da velha política e dos que falam em autonomia nas mesas dos bares descolados.


É a nova-velha tutela com ares pseudo socialista. O teatro dos horrores está pronto com todos os atores em seus devidos papéis, enquanto do lado de fora é a plateia que anseia por fazer arte.


Os editais e seus prêmios contidos na lei Aldir Blanc irão render muitos produtos artísticos a preço de banana. É o Estado e o mito da democracia aproveitando-se da vulnerabilidade financeira de muitos que fazem arte no Brasil. Uma vergonha! Fossemos um país que respeitasse os que fazem arte, esses recursos estariam sendo distribuídos em caráter emergencial de verdade, sem contrapartida, nem prestação de contas. Apenas com CPF ou CNPJ.


A única constatação e alento é saber que tudo isso estão nos deixando mais próximos, mais solidários. Mas não nos enganemos, porque dessa vez Eles estão indo longe demais. Esse calvário será enfrentado e vencido e a cultura por ser a fênix da sociedade, mostrará sua força e dará uma volta por cima para felicidade geral de Nação. Felicidades. Somos todos Macunaímas. 





fonte: https://ricardoantunes.com.br/

sábado, 19 de setembro de 2020

OS CANGACEIROS E CAJAZEIRAS SITIADA

Nadja Claudino

Recorte da capa do livro (romance) "Joana dos Santos", de Ivan Bichara

28 de setembro de 1926, um menino de oito anos de idade se esconde debaixo da cama dos pais. Ele e outras crianças estão acuadas a espera do ataque do bando de cangaceiros liderados por Sabino Gomes (subchefe do bando de Lampião, o temível e famoso Rei do Cangaço). A cidade de Cajazeiras está em suspense à espera dos homens selvagens que viriam do mato, prometendo todo o tipo de destruição, caso não fossem obedecidas as suas exigências.

O sol quente, o calor abafado são alguns dos elementos menos perceptíveis nessa tarde de medo e ansiedade. Os homens testavam as armas, procuravam pontos estratégicos para a defesa da cidade. Na igreja, o bispo defendia sua fé, rezando, pedindo aos céus intervenção para que Nossa Senhora da Piedade protegesse a cidade, os homens, e mesmo os cangaceiros – que fossem eles embora com a graça de Deus. Os cangaceiros nas cercanias da cidade esperavam o melhor momento para atacar; o povo esperava o ataque. A cidade estava sofrendo com a espera angustiada.

O menino embaixo da cama se chamava Ivan Bichara Sobreira, que muitos anos depois escreveu um livro intitulado Carcará, romance que conta essa história acontecida em Cajazeiras, Alto Sertão da Paraíba, em uma distante tarde do mês de setembro de 1926. O romance mostra uma Cajazeiras orgulhosa da sua história, por ser uma das maiores cidades do sertão, rota de ligação da Paraíba com o Ceará, cidade símbolo da educação. Terra de famílias tradicionais como os Rolim, Albuquerque, Sobreira, Bichara. É essa cidade e são essas famílias que estão sendo ameaçadas por um grupo de cangaceiros, personagens que tanto atemorizavam a região sertaneja da década de 20 até meados de 1940, quando a morte de Corisco baniu o último dos cangaceiros.

Podemos pensar no pavor que acometia todas essas famílias, preocupadas com o destino dos seus homens e suas mulheres, caso caíssem no poder dos cangaceiros. A perversidade dos cangaceiros era altamente propagada. Os estupros de mulheres casadas e até de moças virgens, a castração dos homens, a mutilação da língua dos traidores que falavam demais, os bailes que os cangaceiros promoviam depois da vitória, fazendo as mulheres mais respeitadas da sociedade dançarem nuas na frente dos filhos e dos maridos. Verdade ou invenção eram essas as histórias que corriam de cidade em cidade. E por conta disso os homens que protegiam Cajazeiras estavam em uma guerra de vida ou morte, de glória ou de humilhação.

Ivan Bichara, traduziu esses acontecimentos que marcaram tão profundamente sua infância por meio da literatura. O moço Ivan como muitos rapazes do seu tempo sai de Cajazeiras para terminar seus estudos e se forma na Faculdade de Direito do Recife. Volta à Paraíba e começa uma carreira política promissora, sendo eleito em 1946 para a Assembleia Legislativa, em 1955 se elege deputado federal e, em 1975, é escolhido pela Assembleia Legislativa governador. Ivan Bichara integrou um time seleto de políticos escritores da Paraíba, a exemplo de Ernani Satyro, José Américo de Almeida, Ronaldo Cunha Lima, dentre outros, que assumiram o governo do estado e deram importante contribuição às letras paraibanas.

O romance Carcará toma Cajazeiras como representativa de muitas cidades do interior do nordeste que foram atacadas por bando de cangaceiros. A verdade é que as cidades do interior eram desguarnecidas, os meios de comunicação eram incipientes e não conseguiam tirar do isolamento os lugarejos mais distantes. Esse era um dos fatores por que a maioria das cidades capitulava frente às investidas dos cangaceiros. Mossoró, no Rio Grande do Norte, no ano de 1927, expulsou os cangaceiros da cidade, sendo também uma das primeiras cidades a desafiar o Rei do Cangaço. Esse passado de lutas até hoje é preservado pela população mossoroense, usada como discurso histórico, político e cultural. São museus, memoriais, livros, discursos que formulam a identidade de um povo valente, que não aceitou os invasores. Em Cajazeiras, a expulsão dos cangaceiros não foi explorada dessa maneira, foi silenciada, esquecida e tem no livro de Ivan Bichara uma significativa fonte de pesquisa.

O livro traz personagens representativos do universo sertanejo. São rapazes que na época desejam migrar para os grandes centros e assim poderem dar continuidade aos seus estudos, moças casadoiras, poderosos locais como coronéis, políticos, delegados e também a gente do povo, feirantes, cantadores de viola, que se movimentam e nos prendem nas teias do enredo. O livro de Ivan Bichara é inspirado em um fato real, que ele soube narrar com enorme expressão literária, ligando seus personagens à vida de um Nordeste arcaico, recôndito, lugar de acontecimentos inusitados.

O ataque dos cangaceiros, a ansiedade, o medo das perversidades, tudo isso envolve o leitor do Carcará, fazendo com que ele também se angustie, tome amizade pelos personagens, se importe com sua vida e com o seu destino nas mãos dos cangaceiros. Ivan Bichara integra a vida com a literatura, fazendo a vida pulsar em cada parágrafo. A ansiedade do menino deu subsídios para, juntamente com a técnica literária do homem escritor, gerarem um livro que mesmo empoeirado e esquecido nas estantes das bibliotecas públicas nos remete a um passado que merece ser lembrado.


fonte: https://www.recantodasletras.com.br/