sexta-feira, 6 de novembro de 2026

Quem tem história, escreve ou conta; quem não tem, lê ou escuta.

Uma aventura 
para assistir ao show de Zé Ramalho 
em Brejo do Cruz.

Direitos sobre as imagens: Foto da cidade: Brejodivulga. Foto da capa 
do disco: Mario Luiz Thompson.


O cantor Zé Ramalho faz show no dia 26 de novembro, em João Pessoa, no Teatro Pedra do Reino. Vou logo avisando aos que não se sentem bem com a minha presença que estarei lá. Mas o que quero falar sobre o cantor paraibano não é especificamente sobre sua apresentação no “Pedra do Reino”.

Então, vamos direto ao que quero dizer. Em outubro de 1981, anos após o lançamento do LP Zé Ramalho, em 1978, álbum que incluiu a música “Avôhai”, o cantor fez aquele que seria o seu primeiro show na Paraíba, em praça pública, na sua cidade natal, Brejo do Cruz.

Eu era um garoto e tinha lá os meus 22 ou 23 anos. Engajado nos costumes políticos da juventude do final dos anos 1970 e início dos anos 1980, eu sonhava com o medo e vivia com a ilusão da luta voraz do dragão contra a maldade de um regime político imposto goela abaixo na vida de todos nós brasileiros.

Mas “Avôhai” apareceu como um antídoto para apaziguar os ânimos e nos envolver numa escala alienante, convincente de que não bastava só viver da rebeldia política, mas também do experimentalismo da luta e do prazer do corpo pelo corpo.

Desse engajamento ideológico vieram o experimentalismo das drogas, o aprofundamento alcoólico, a liberação do corpo e das primeiras relações sexuais, descoladas das regras conservadoras, mais soltas e libertárias, em busca das primeiras experiências homossexuais.

O rock brasileiro dos anos 1980 já contava com uma lança dilacerante, ferindo de alegria nossos corações ilusórios e os sonhos de um futuro melhor, com as liberdades que todos sonhavam ter. Nesse caminho de festa, sexo e rock and roll, o LP de Zé caiu como um zepelim recheado de sucessos, estourando as paradas pelo Nordeste e, depois, no país inteiro.

Mas também pudera! Era um álbum repleto de músicas de sucesso, como: “Avôhai”, “Vila do Sossego”, “Chão de Giz”, “A Noite Preta”, “A Dança das Borboletas”, “Bicho de Sete Cabeças” (instrumental), “Adeus Segunda-Feira Cinzenta”, “Meninas de Albarã” e “Voa, Voa”. Nossa, era uma festa de ritmos, acordes, muito som e energia da música nordestina, transbordando o dial das emissoras de rádio e os volumes das vitrolas nas residências paraibanas.

Nesse embalo, meu amigo Artista (não vou citar o nome para preservar seu direito individual) e eu resolvemos sair de Cajazeiras para assistir ao show de Zé na cidade de Brejo do Cruz. Mas como? Não tínhamos dinheiro, transporte e nem promessas de carona até Brejo do Cruz. Como chegaríamos lá, nem eu nem ele sabíamos.

Doidera? não! vontade de cair na estrada, viver uma aventura e sair cortando o vento para ver a festa do Zé. Ficamos sabendo que um amigo do rádio ia no seu Kadett marrom zero-quilômetro para o show. Fomos pedir uma carona, mas aquele que se dizia o amigo do peito, só nos levou até a cidade de Sousa. Chegando à Cidade Sorriso, fomos convidados a sair do veículo com a seguinte frase: “Desce, aqui não é lugar para macho, é só mulher”. Perdemos a carona para duas senhoritas de Sousa que entraram no carro do amigo radialista até Brejo do Cruz.

Saímos do carro e, depois de horas, pegamos uma carona e ficamos na entrada para Catolé do Rocha. Sem dinheiro, sem água, seguimos a pé pela estrada de terra até essa cidade. Cansados, ainda conseguimos atravessar o perímetro urbano de Catolé do Rocha até a saída para Brejo do Cruz. Abatidos pelo cansaço, fomos até uma venda ali e pedimos um copo com água. Abastecidos, sentamos numa calçada acalentando a barriga que não parava de roncar, debaixo de uma figueira, em uma das últimas casas daquela saída, e ficamos sonhando com uma carona.

Muito abatidos, com muita fome — sem almoço e sem dinheiro —, tínhamos apenas a esperança de encontrar outros amigos de Cajazeiras que já estavam lá e sermos convidados por eles para um lanche. O relógio já anunciava às 16 horas.

Sem esperança de conseguir uma carona naquele fim de mundo, passamos até às 17h30 esperando uma condução para Brejo do Cruz, que não vinha nunca. Já decididos a seguir o trecho a pé para não perder o show de Zé Ramalho, vimos quando, de repente, apontou, bem longe, uma caminhonete Ford F-1000 na estrada poeirenta, lançando poeira fina no ar. Era um político bastante conhecido em toda aquela região.

Corremos da calçada, desesperados, até a margem da estrada. Acenamos com as mãos, pedindo que parasse. A caminhonete passou por nós, mas parou logo adiante. Corremos e, quando a alcançamos, antes mesmo de nos apresentarmos e falarmos o que queríamos, o motorista foi logo perguntando para onde íamos. Dissemos a ele que estávamos indo para o show de Zé Ramalho.

Ele se apresentou e falou que era José Sérgio Maia. Perguntou se nós o conhecíamos. Falamos que sabíamos quem era, mas aquela era a primeira vez que o víamos. Assim, mandou um de nós entrar na boleia, pois estava acompanhado de um segurança e só havia uma vaga. Eu entrei na boleia e meu amigo Artista subiu na carroceria. E assim seguimos até a entrada do Sítio desse senhor, que ficava na estrada da cidade a 200 metros de Brejo do Cruz, trecho que fizemos a pé.

Quando chegamos, por volta das seis horas, a cidade estava lotada, não cabia mais ninguém. Havia muitas barracas de camping armadas na entrada e na praça.

Sabendo o local onde estaria o grupo de conhecidos nossos de Cajazeiras naquela cidade, fomos até lá. Era uma casa com a entrada cheia de árvores, muitas mesas, mas comida — que era o que necessitávamos naquele momento — não havia. Havia muitas bebidas: cachaça, cervejas, com tira-gostos de caju, limão e laranja.

Sem comer nada, a noite chegou, e o cheiro de cannabis inundava o ar de Brejo do Cruz com seu aroma. Encontramos um amigo de Cajazeiras (cujo nome não posso afirmar para preservar sua identidade) que, sabendo da nossa situação, nos convidou para fazer um lanche em um dos pontos de venda do show. Sua atitude humanitária amenizou a nossa fome naquelas poucas horas que antecederam a subida de Zé Ramalho ao palco. Depois disso, o show começou e rolou até depois da meia-noite.

Quando a multidão começou a se dispersar e a praça foi ficando vazia, a temperatura caiu e a umidade do ar melhorou. Já não se via muita gente andando pela cidade. Muita gente dormia em seus carros, nas barracas e nos bancos da praça. Eu e meu amigo deitamos sobre uma lona que estava debaixo de um caminhão responsável pelo transporte dos equipamentos de som do show de João Pessoa até Brejo do Cruz.

Dormimos o resto da noite e, quando deu seis horas, despertamos e, em seguida, procuramos nossos amigos de Cajazeiras, à procura de uma carona. Sem sucesso, pois as alegações eram de que todos já tinham companhia e não podiam conduzir mais ninguém. Porém, numa dessas horas em que não aparece uma solução, uma pessoa, ouvindo nossa situação, nos abordou e aconselhou que a solução era pegar carona com o caminhão do som até a BR-230.

Procuramos o motorista que, sensível à nossa situação, nos concedeu a carona, mas com uma condição: que fôssemos em cima da carga, entre as caixas de som e outros equipamentos eletrônicos usado do show. Topamos, não havia outro jeito. O caminhão nos deixou na entrada de Catolé do Rocha e seguiu viagem em direção à capital. Imediatamente, às margens da BR-230, passamos a acenar, solicitando carona a todos os caminhões que passavam pela rodovia.

Porém, à nossa direita, havia um pequeno açude e, lá, dois hippies estavam tomando banho. Após deixarem aquele açude, eles se deslocaram até próximo de nós e passaram a fazer fileira na tentativa de parar os caminhões e conseguir uma difícil carona naquele lugar. Eram eles mais à frente e nós bem na divisa para a terra de Chico César, na luta para conseguir uma carona em direção a Sousa ou Cajazeiras.

Quando já eram umas 11 horas, um caminhão que passava por aquele trecho parou. Corremos todos, mas o motorista falou que só podia levar duas pessoas sobre a carga que conduzia até Cajazeiras. Na disputa com os dois desconhecidos hippies, a gente levou a pior. Eles seguiram viagem e nós ficamos apelando para a sorte.

Pouco tempo depois, passou um caminhão com meia carga. Acenamos com a mão, pedindo a sonhada carona. O caminhão parou, porém o motorista afirmou que a carona seria até a cidade de Sousa, pois era lá que ia ficar. Aceitamos. Seguimos e, quando chegamos a um posto de gasolina, o caminhão parou. O motorista se dirigiu a nós e falou que o fim da linha era ali naquele posto.

Descemos e fomos até as bombas de abastecimento. Havia muitos carros no local. Passamos a perguntar a todos se nos davam uma carona até Cajazeiras, mas todos a quem perguntávamos diziam que não iam para Cajazeiras. De tanto perguntar e esperar que aparecesse alguém para nos conduzir até a nossa cidade de origem, eis que aparece uma caminhonete em uma daquelas bombas e fomos perguntar se ia para Cajazeiras.

Dessa vez tivemos sorte. O motorista do veículo afirmou que ia, porém que iria ficar na Rua Desembargador Boto. Meu amigo Artista, quase cortando a fala do condutor da caminhonete, disse:

— Sem problemas, a gente aceita. Estamos cansados, doidos para chegar em casa.

Quando chegamos a Cajazeiras, passava das 13 horas, indo para as 14 horas. Abatidos, descemos do carro e seguimos em direção ao Beco da Carniça, no bairro da Esperança, onde morávamos.

Eu, pelo menos, cheguei em casa todo queimado do sol, com poeira por todo o corpo, os olhos enfiados para dentro e os lábios secos, pedindo um copo de água.

Quanto ao amigo Artista, eu não sei dizer em que estado chegou. Só ele poderá declarar sua condição física na chegada.

cleudimar.ferreira

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