O cantor Zé Ramalho faz show no
dia 26 de novembro, em João Pessoa, no Teatro Pedra do Reino. Vou logo avisando
aos que não se sentem bem com a minha presença que estarei lá. Mas o que quero
falar sobre o cantor paraibano não é especificamente sobre sua apresentação no
“Pedra do Reino”.
Então, vamos direto ao que quero
dizer. Em outubro de 1981, anos após o lançamento do LP Zé Ramalho, em 1978,
álbum que incluiu a música “Avôhai”, o cantor fez aquele que seria o seu
primeiro show na Paraíba, em praça pública, na sua cidade natal, Brejo do Cruz.
Eu era um garoto e tinha lá os
meus 22 ou 23 anos. Engajado nos costumes políticos da juventude do final dos
anos 1970 e início dos anos 1980, eu sonhava com o medo e vivia com a ilusão da
luta voraz do dragão contra a maldade de um regime político imposto goela abaixo na
vida de todos nós brasileiros.
Mas “Avôhai” apareceu como um
antídoto para apaziguar os ânimos e nos envolver numa escala alienante,
convincente de que não bastava só viver da rebeldia política, mas também do
experimentalismo da luta e do prazer do corpo pelo corpo.
Desse engajamento ideológico
vieram o experimentalismo das drogas, o aprofundamento alcoólico, a liberação
do corpo e das primeiras relações sexuais, descoladas das regras conservadoras,
mais soltas e libertárias, em busca das primeiras experiências homossexuais.
O rock brasileiro dos anos 1980
já contava com uma lança dilacerante, ferindo de alegria nossos corações
ilusórios e os sonhos de um futuro melhor, com as liberdades que todos sonhavam
ter. Nesse caminho de festa, sexo e rock and roll, o LP de Zé caiu como um
zepelim recheado de sucessos, estourando as paradas pelo Nordeste e, depois, no
país inteiro.
Mas também pudera! Era um álbum
repleto de músicas de sucesso, como: “Avôhai”, “Vila do Sossego”, “Chão de
Giz”, “A Noite Preta”, “A Dança das Borboletas”, “Bicho de Sete Cabeças”
(instrumental), “Adeus Segunda-Feira Cinzenta”, “Meninas de Albarã” e “Voa,
Voa”. Nossa, era uma festa de ritmos, acordes, muito som e energia da música
nordestina, transbordando o dial das emissoras de rádio e os volumes das
vitrolas nas residências paraibanas.
Nesse embalo, meu amigo Artista
(não vou citar o nome para preservar seu direito individual) e eu resolvemos
sair de Cajazeiras para assistir ao show de Zé na cidade de Brejo do Cruz. Mas
como? Não tínhamos dinheiro, transporte e nem promessas de carona até Brejo do
Cruz. Como chegaríamos lá, nem eu nem ele sabíamos.
Doidera? não! vontade de cair na estrada, viver uma aventura e sair cortando o vento para ver a festa do Zé. Ficamos sabendo que um amigo do
rádio ia no seu Kadett marrom zero-quilômetro para o show. Fomos pedir uma carona, mas aquele que se dizia o amigo do peito, só nos levou até a cidade de Sousa. Chegando à Cidade Sorriso, fomos convidados
a sair do veículo com a seguinte frase: “Desce, aqui não é lugar para macho, é só
mulher”. Perdemos a carona para duas senhoritas de Sousa que entraram no carro do amigo radialista até Brejo do Cruz.
Saímos do carro e, depois de
horas, pegamos uma carona e ficamos na entrada para Catolé do Rocha. Sem
dinheiro, sem água, seguimos a pé pela estrada de terra até essa cidade.
Cansados, ainda conseguimos atravessar o perímetro urbano de Catolé do Rocha até
a saída para Brejo do Cruz. Abatidos pelo cansaço, fomos até uma venda ali e
pedimos um copo com água. Abastecidos, sentamos numa calçada acalentando a barriga que não parava de roncar, debaixo de uma
figueira, em uma das últimas casas daquela saída, e ficamos sonhando com uma
carona.
Muito abatidos, com muita fome —
sem almoço e sem dinheiro —, tínhamos apenas a esperança de encontrar outros
amigos de Cajazeiras que já estavam lá e sermos convidados por eles para um
lanche. O relógio já anunciava às 16 horas.
Sem esperança de conseguir uma
carona naquele fim de mundo, passamos até às 17h30 esperando uma condução para
Brejo do Cruz, que não vinha nunca. Já decididos a seguir o trecho a pé para
não perder o show de Zé Ramalho, vimos quando, de repente, apontou, bem longe,
uma caminhonete Ford F-1000 na estrada poeirenta, lançando poeira fina no ar.
Era um político bastante conhecido em toda aquela região.
Corremos da calçada,
desesperados, até a margem da estrada. Acenamos com as mãos, pedindo que
parasse. A caminhonete passou por nós, mas parou logo adiante. Corremos e,
quando a alcançamos, antes mesmo de nos apresentarmos e falarmos o que
queríamos, o motorista foi logo perguntando para onde íamos. Dissemos a ele que
estávamos indo para o show de Zé Ramalho.
Ele se apresentou e falou que
era José Sérgio Maia. Perguntou se nós o conhecíamos. Falamos que sabíamos quem
era, mas aquela era a primeira vez que o víamos. Assim, mandou um de nós entrar
na boleia, pois estava acompanhado de um segurança e só havia uma vaga. Eu
entrei na boleia e meu amigo Artista subiu na carroceria. E assim seguimos até
a entrada do Sítio desse senhor, que ficava na estrada da cidade a 200 metros de Brejo do Cruz, trecho
que fizemos a pé.
Quando chegamos, por volta das
seis horas, a cidade estava lotada, não cabia mais ninguém. Havia muitas
barracas de camping armadas na entrada e na praça.
Sabendo o local onde estaria o
grupo de conhecidos nossos de Cajazeiras naquela cidade, fomos até lá. Era uma
casa com a entrada cheia de árvores, muitas mesas, mas comida — que era o que
necessitávamos naquele momento — não havia. Havia muitas bebidas: cachaça,
cervejas, com tira-gostos de caju, limão e laranja.
Sem comer nada, a noite chegou,
e o cheiro de cannabis inundava o ar de Brejo do Cruz com seu aroma.
Encontramos um amigo de Cajazeiras (cujo nome não posso afirmar para preservar
sua identidade) que, sabendo da nossa situação, nos convidou para fazer um
lanche em um dos pontos de venda do show. Sua atitude humanitária amenizou a
nossa fome naquelas poucas horas que antecederam a subida de Zé Ramalho ao
palco. Depois disso, o show começou e rolou até depois da meia-noite.
Quando a multidão começou a se
dispersar e a praça foi ficando vazia, a temperatura caiu e a umidade do ar
melhorou. Já não se via muita gente andando pela cidade. Muita gente dormia em
seus carros, nas barracas e nos bancos da praça. Eu e meu amigo deitamos sobre
uma lona que estava debaixo de um caminhão responsável pelo transporte dos
equipamentos de som do show de João Pessoa até Brejo do Cruz.
Dormimos o resto da noite e,
quando deu seis horas, despertamos e, em seguida, procuramos nossos amigos de
Cajazeiras, à procura de uma carona. Sem sucesso, pois as alegações eram de que
todos já tinham companhia e não podiam conduzir mais ninguém. Porém, numa
dessas horas em que não aparece uma solução, uma pessoa, ouvindo nossa
situação, nos abordou e aconselhou que a solução era pegar carona com o
caminhão do som até a BR-230.
Procuramos o motorista que,
sensível à nossa situação, nos concedeu a carona, mas com uma condição: que
fôssemos em cima da carga, entre as caixas de som e outros equipamentos eletrônicos usado do show. Topamos, não havia outro jeito. O caminhão nos
deixou na entrada de Catolé do Rocha e seguiu viagem em direção à capital. Imediatamente,
às margens da BR-230, passamos a acenar, solicitando carona a todos os
caminhões que passavam pela rodovia.
Porém, à nossa direita, havia um
pequeno açude e, lá, dois hippies estavam tomando banho. Após deixarem aquele
açude, eles se deslocaram até próximo de nós e passaram a fazer fileira na
tentativa de parar os caminhões e conseguir uma difícil carona naquele lugar.
Eram eles mais à frente e nós bem na divisa para a terra de Chico César, na luta
para conseguir uma carona em direção a Sousa ou Cajazeiras.
Quando já eram umas 11 horas, um
caminhão que passava por aquele trecho parou. Corremos todos, mas o motorista
falou que só podia levar duas pessoas sobre a carga que conduzia até
Cajazeiras. Na disputa com os dois desconhecidos hippies, a gente levou a pior.
Eles seguiram viagem e nós ficamos apelando para a sorte.
Pouco tempo depois, passou um
caminhão com meia carga. Acenamos com a mão, pedindo a sonhada carona. O
caminhão parou, porém o motorista afirmou que a carona seria até a cidade de
Sousa, pois era lá que ia ficar. Aceitamos. Seguimos e, quando chegamos a um
posto de gasolina, o caminhão parou. O motorista se dirigiu a nós e falou que o
fim da linha era ali naquele posto.
Descemos e fomos até as bombas
de abastecimento. Havia muitos carros no local. Passamos a perguntar a todos se
nos davam uma carona até Cajazeiras, mas todos a quem perguntávamos diziam que
não iam para Cajazeiras. De tanto perguntar e esperar que aparecesse alguém
para nos conduzir até a nossa cidade de origem, eis que aparece uma caminhonete
em uma daquelas bombas e fomos perguntar se ia para Cajazeiras.
Dessa vez tivemos sorte. O motorista do veículo afirmou
que ia, porém que iria ficar na Rua Desembargador Boto. Meu amigo Artista,
quase cortando a fala do condutor da caminhonete, disse:
— Sem problemas, a gente aceita.
Estamos cansados, doidos para chegar em casa.
Quando chegamos a Cajazeiras,
passava das 13 horas, indo para as 14 horas. Abatidos, descemos do carro e
seguimos em direção ao Beco da Carniça, no bairro da Esperança, onde morávamos.
Eu, pelo menos, cheguei em casa
todo queimado do sol, com poeira por todo o corpo, os olhos enfiados para
dentro e os lábios secos, pedindo um copo de água.
Quanto ao amigo Artista, eu não
sei dizer em que estado chegou. Só ele poderá declarar sua condição física na
chegada.
cleudimar.ferreira
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