Esses mesmos estudiosos do assunto asseguram também que, por volta de 1926, Padre Cícero - que na época, além de declaradamente anticomunista, já mesclava ou confundia política e religião - aproveitou a lealdade que o "Rei do Cangaço" devotava à sua pessoa para propor a Lampião um ataque à Coluna Prestes quando esta cruzasse o Nordeste. Em troca da empreitada, o cangaceiro receberia a patente de Capitão das Forças Patrióticas. No entanto, diversaos historiadores apontam que tal título só possuia alguma validade simbólica no estado do Ceará, tratando-se, na prática, de um documento falso e sem efeito legal. A descoberta dessa ineficácia foi um dos principais motivos que deixaram Lampião contrariado, levando-o a dessistir da investida contra a Coluna Prestes.
De fato, não se trata de mera especulação: a historiografia confirma que o encontro entre Lampião e o líder religioso em Juazeiro do Norte realmente aconteceu, assim como a celebração do pacto para combater a Coluna Prestes. Para viabilizar a ofensiva contra os rebeldes, o Padre Cícero, em articulação com influentes fazendeiros e proprietários de terras do Cariri, garantiu o fornecimento de fardamentos, armas modernas e farta munição a Lampião e ao seu bando, equipando-os para a missão.
Pesquisadores e entusiastas da história do cangaço relatam que Lampião recebeu as armas, as munições e a patente de capitão — entregue por Pedro de Albuquerque Uchoa, funcionário do Ministério da Agricultura, a pedido do Padre Cícero —, mas jamais chegou a atacar Luís Carlos Prestes ou seus comandados. O descumprimento do pacto selado com o líder religioso representou a primeira e única traição explícita do "Rei do Cangaço" ao "Padim". No entanto, resta a provocação historiográfica: teria sido essa a única vez em que o famoso justiceiro do Sertão conseguiu ludibriar o influente sacerdote de Juazeiro do Norte?
Essa interpretação encontra forte respaldo na análise historiográfica das táticas do cangaço. As justificativas apresentadas por Sabino Gomes - vingar-se da emboscada armada pelo oficial Lourenço Dunga, punir a traição do ex-cangaceiro Raimundo Anastácio (que passara a colaborar com as forças policiais locais) e sequestrar o prefeito Sabino Gonçalves Rolim e o engenheiro do DNOCS para obter vultoso resgate - funcionavam perfeitamente como pretextos operacionais para encobrir as verdadeiras motivações estratégicas e financeiras do bando.
Diante de todos os registros históricos, este episódio suscita pontos de profunda reflexão para os estudiosos do cangaço. Afinal, quando Sabino Gomes avançou contra a cidade de Cajazeiras, não contava ele em suas fileiras com homens pertencentes ao próprio bando de Lampião? E mais: para fazer frente à rigorosa defesa organizada pela população e pelas forças locais cajazeirenses, o grupo não estaria justamente municiado com o arsenal de armas e cartuchos cedido por Juazeiro do Norte sob o pretexto de combater a Coluna Prestes?
Se a resposta a essas indagações for afirmativa, revela-se aqui uma dupla ironia do destino e da política sertaneja. O armamento que o Padre Cícero e os coronéis do Cariri disponibilizaram para defender a ordem e combater os rebeldes comunistas acabou sendo utilizado pelos próprios cangaceiros para atacar a cidade que o sacerdote tanto pedira para poupar. O episódio demonstra como o "Rei do Cangaço" e seus comandados souberam instrumentalizar o apoio do clero e da elite agrária, utilizando os recursos estatais e religiosos para financiar a sua própria logística de terror no Sertão, sem qualquer compromisso ideológico ou moral com os pactos celebrados.
Por fim, uma questão inevitável se impõe e desafia a narrativa de devoção cega ao líder espiritual do Cariri: se Lampião devotava tamanho apreço ao Padre Cícero, por que permitiu que Sabino Gomes, seu "braço direito", investisse contra Cajazeiras? Seria plausível supor que o chefe do cangaço desconhecesse a movimentação do seu principal comandante? Ou, ao contrário, sabia perfeitamente de cada passo?
Caso soubesse, desenha-se a hipótese de uma manobra articulada e calculada. Para não carregar abertamente a mancha de uma segunda perfídia contra o seu "Padim", Lampião pode ter preferido agir nas sombras: em vez de liderar pessoalmente o ataque, permitiu - ou ordenou de forma covarde - que seu homem de confiança executasse a empreitada. A estratégia garantia os ganhos materiais e o ajuste de contas com inimigos locais, enquanto preservava formalmente a sua imagem de afilhado devoto perante o sacerdote de Juazeiro do Norte.
Fica a reflexão para os historiadores e simpatizantes do tema: teria sido o "Rei do Cangaço" um homem guiado pela fé e pelo respeito à palavra empenhada, ou um estrategista frio que instrumentalizava até mesmo a santidade do Padre Cícero conforme a conveniência do seu bando?



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