sexta-feira, 22 de agosto de 2025

TEMPO DE FESTA

Frutuoso Chaves


Afinal, o 22 de agosto é dia do aniversário do Padre Rolim, ou da cidade? Não importa, porquanto Cajazeiras merece festa todo santo dia. Além do mais, há que se celebrar o êxito editorial da Arribaçã, dos Irmãos Guedes, como disso dá conta Linaldo, o mais novo deles (quero crer), ao divulgar, via Facebook, o invejável catálogo da sua editora, ela mesma, portanto, por justa razão, em clima festivo.

Um passeio rápido pela Wikipédia permite-nos a anotação das seguintes datas: em 29 de agosto de 1859, Cajazeiras torna-se distrito de Sousa pela Lei Provincial nº 5. Em 23 de novembro de 1863, é desmembrada e elevada à condição de Vila. Em 20 de junho de 1864, ali se instala o governo municipal. Em 10 de julho de 1876, é elevada à condição de cidade. O 22 de agosto, feriado municipal, assinala a data do desembarque do impressionante Padre Rolim neste mundão de Deus. A Wikipédia toma essas informações do historiador Deusdedith Leitão, como indica o verbete sobre Cajazeiras, “A Cidade que Ensinou a Paraíba a Ler”. Eis, a propósito, um emblema que enche de orgulho o peito de qualquer cajazeirense.

O topônimo advém da árvore cujo fruto contribui para exaltar os sabores e aromas do Nordeste brasileiro. Abundantes no sítio onde o povoado começou a se formar, na segunda metade do Século 18, as cajazeiras incorporaram-se, definitivamente, à existência de um dos mais destacados núcleos populacionais da Paraíba.

Os primeiros desbravadores chegaram ao local atraídos pela fama aurífera dos Sertões. Em fevereiro de 1767, o pernambucano Luiz Gomes de Albuquerque obtinha do governador Jerônimo José de Melo a sesmaria que tomou o nº 63 e onde passou a criar gado, lavoura, família e raízes.

Ana, a filha, casou-se com Vital Rolim, união da qual nasceria, em 1800, o menino Inácio, o futuro padre a quem Cajazeiras deve o lema que a consagra como berço paraibano da educação e da cultura. Trata-se de título oriundo da tradição de abrigar colégios de renome em todo o Nordeste. Dali sairiam personagens de importância nos meios políticos e jurídicos.

É o caso de nomes como o do historiador e deputado provincial Irineu Joffily e os dos desembargadores Peregrino de Araújo e José Manoel de Freitas. O primeiro foi governador da Paraíba e deputado pelo Rio Grande do Norte. O segundo chegou a presidir as Províncias do Piauí, Pernambuco e Maranhão.

Fortemente identificada com as manifestações culturais, Cajazeiras não se cansa de exibir os seus talentos. Inscrevem-se, entre eles, a atriz Marcélia Cartaxo, ganhadora do Prêmio “Urso de Prata” por sua atuação no filme “A Hora da Estrela”. Mas a dramaturgia e cinematografia nacionais ainda conheceriam e aclamariam outros cajazeirenses. Citem-se Soia Lira (Central do Brasil) e Sávio Rolim (Menino de Engenho). Há outros de igual quilate, entre os mais jovens, a serem citados.

As artes plásticas projetaram o escultor Modesto Maciel, conhecido em outros países, sobretudo na Itália, onde se especializou na restauração de imagens sacras. Pinturas de João Braz e seus temas para grandes eventos como o carnaval e as festas juninas são conhecidos, enquanto isso, em recantos diversos do Brasil.

E assim tem sido com Cajazeiras, sempre orgulhosa de suas origens, suas tradições e sua gente. A cidade é, hoje, um dos elos de ligação dos grandes centros regionais e polo comercial com um mercado consumidor de dezenas de milhares de pessoas. Parabéns, então, para Cajazeiras e sua Arribaçã.

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quarta-feira, 20 de agosto de 2025

Sala de cinema instalada em Cajazeiras tem nome da atriz Marcélia Cartaxo.

Cleudimar Ferreira


Cajazeiras tem na atividade de cinema uma história significativa, bem parecida com as das grandes cidades, onde as salas de exibições modificavam a paisagem urbana com suas mensagens publicitarias e merchandisings avivadas, coloridas, anunciando os filmes em cartaz.

Desde o libanês João Bichara até as últimas imagens exibidas no Cine Éden, antes do seu fechamento no final dos anos 80, Cajazeiras sempre foi destaque entre as principais cidade da região, por ter três cinemas em atividade e mais um clube de cinema – o Cineclube Wladimir Carvalho, por sinal, um dos primeiros a ser criado e consequentemente, um dos mais atuante na Paraíba dos anos 70.

Esse legado não tinha sido o bastante até aqui, para sensibilizar o poder público, da necessidade de se manter essa hegemonia, trazendo de volta a cidade, pelo menos uma sala de exibição, com uma programação diária, como era no passado e como tem acontecido nos últimos anos, em algumas cidades, onde há prefeitos em sintonia com a cultura dos seus municípios.

O projeto de transformação do Centro Cultural Zé do Norte em cinema, passou a ser a esperança da volta da tradição dos cinemas de ruas a cidade, mas passou a ser também motivo de expectativa de como seria essa nova sala de exibição, tão bem desenhado no projeto de reforma desse espaço cultural.

Com a entrega das reformas, segunda-feira (18) passada, percebeu-se que a tão sala de exibição esperada, é apenas um espaço multiuso, que mais parece um miniauditório adaptado para palestras, uma estrutura com praticavél e fundo adaptada para receber imagens projetados por projetores datashows, cujas imagens são limitadas e a resolução também. Ou seja, com aspectos estéticos bem diferente de uma sala de exibição convencional, regular, distante das verdadeiras salas, com suas telas panorâmicas, como apresentava no passado os três principais cinemas que havia em Cajazeiras.

Mas, tudo bem. Já é um grande passo para ter no futuro, quem sabe, um grande cinema na cidade. Cajazeiras está se tornando uma metrópole, tem arranha-céus por todos os lados, os shoppings centers estão chagando; quem sabe aparece um empresário com interesse em instalar salas de cinema na cidade! Portanto, vamos esperar. Quanto a equipamento inaugurado, melhor assim do que não ter nada. É mais um espaço que pode ser usado para locações de um cineclube; para pequenos ensaios de peças de teatro e exibições de filmes educativos, institucionais, sem necessariamente ter a qualidade das imagens que o cinemão oferece. 

Já falei em outros escritos que publique, que Cajazeiras com terra da cultura; que já redeu mais de seis atores para o estrelato no cinema brasileiro e na dramaturgia, não merece viver de minúsculos espaços multifuncionais. Pela sua grandeza como polo produtor de cultura precisa ser maior, ser destaque na Paraíba, por construir espaços consideráveis que chame a atenção, tal qual tem sido as produções e os feitas da sua classe artística no cenário nacional.   

O novo Centro Cultural Zé do Norte que agora vai será chamado Cine Centro Cultural Zé Norte, foi completamente reformado, ampliado e transformado em sala de cinema também. A entrega aconteceu as 16h30, com a presença de membros da cultural e das artes da cidade cajazeirense.

Além de mais um equipamento de cultura, o novo Cine Centro Cultural Zé do Norte, será um espaço de uso para os artistas da terra, que tem enfrentado dificuldades para realização de ensaios e exposições dos seus trabalhos, muitas vezes tendo que dividir seus espaços de ensaios no Teatro Ica com artistas de outras regiões circunvizinhas a Cajazeiras.

Com o miniteatro reformado, os artistas agora poderão usufruir do espaço para pautas puramente locais, dentro de um cronograma estabelecido pela própria secretaria de cultura do município que ficará à frente da gestão. A sala de cinema tem uma média de 58 assentos e recebeu o nome da atriz cajazeirense Marcélia Cartaxo.


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fonte: Prefeitura Municipal de Cajazeiras. https://www.cajazeiras.pb.gov.br/informa/2619/cine-centro-cultural-z-norte-inaugurado-com-sala-d

De Macabéa a Pacarrete: homenagem a Marcélia Cartaxo no 53º Festival de Gramado

Bertrand Lira 


A imagem de Marcélia mais vaga que me vem à mente é a da garota franzina, branquinha e olhar curioso, à janela da sua casa, na parte mais elevada da rua Higino Rolim, próxima do açude, o nosso mar, em Cajazeiras, Sertão da Paraíba. Além dos banhos dominicais, era o Açude Grande a nossa escola de natação. A menina Marcélia com olhos prenhes de desejos sonhava com a relativa liberdade que nos era concedida por nossos pais. Sua carta de alforria veio a conta-gotas, quando começou a brincar de “drama” no quintal do vizinho Eliezer Rolim. 

Fazia parte da trupe infantil, além do próprio Eliezer Rolim, mentor da artimanha, Soia, Nanego e Paula Lira (meus irmãos), Suedi, Lincoln, as irmãs Wilma e Wildenir Albuquerque, os irmãos Lucilda, Luciene, e Leidson Feitosa, entre outras crianças das ruas próximas. O grupo de teatro, que foi de início batizado de Mickey, fazia pequenas apresentações no formato de esquetes, primeiro na rua Higino Rolim e depois em escolas e noutros espaços da cidade. Com o “amadurecimento” dos seus integrantes (da infância à adolescência), passou a se chamar Grupo Terra de Teatro, criando textos com temas mais adultos.

Beiço de Estrada, a segunda montagem do grupo nessa nova fase – a primeira foi Os pirralhos – traz Marcélia como Véu de Noiva, a menina tímida e ingênua, reservada para o casamento pela mãe, dona de um cabaré, e fugir do destino de se tornar prostituta como as demais irmãs. Com Os pirralhos o grupo participou de circuitos estaduais de teatro na Paraíba a partir de uma visita à Cajazeiras, do ator, também paraibano, Luiz Carlos Vasconcelos, que se encantou com a maturidade artística dos “meninos”. A hora da estrela de Marcélia aconteceu com Beiço de Estrada.

Foi em 1984, pelas mãos de Luiz Carlos, que o grupo chegou ao Circuito Mambembão de Teatro encantando e comovendo o Sudeste e Sul do país. Numa das apresentações, a então aspirante à diretora Susana Amaral estava na plateia e ficou fascinada com a atuação de Marcélia. A personagem Véu de Noiva tinha muito da desafortunada Macabéa de A Hora da Estrela, do romance de Clarice Lispector. Ficou o convite para um teste que aconteceria um ano depois. Lá vai a menina tímida e assustada para o estrelato. O orçamento para o longa era tão pequeno que Marcélia penou dois dias de viagem de ônibus de Cajazeiras a São Paulo, quase uma travessia pelo país. Os testes antecederam imediatamente as filmagens.

Marcélia Cartaxo virou Macabéa, Macabéa virou Marcélia. Impossível não ver o rosto de Marcélia ao ler as desventuras da protagonista na obra-prima de Clarice Lispector. Vieram as aclamações nos festivais de cinema de Brasília (1985) e Berlim (1986). Marcélia se torna a primeira brasileira a trazer o troféu de Melhor Atriz (aqui, o Urso de Prata) de um grande festival estrangeiro. Acompanhei toda essa trajetória de Marcélia até os dias atuais, vibrando com suas conquistas e solidário aos seus infortúnios. Foram anos no Rio de Janeiro, sozinha e muitas vezes esquecida, com grandes dificuldades para sobreviver, aceitando papeis ínfimos em novelas, muito abaixo do seu grande talento. 

Vivíamos numa época em que para a atriz e o ator era uma condição essencial viver no Sudeste do país, se quisessem um lugar ao sol. Nas últimas duas décadas, os atores e atrizes paraibanos mais requisitados para a televisão e o cinema não precisam mais deixar sua terra. E Marcélia se beneficiou dessa mudança: se estabeleceu na cidade que ama ao lado da família e amigos.

O filme Pacarrete (2019), de Allan Deberton, traz Marcélia no papel da protagonista que dá nome ao filme e tem Soia Lira como Maria, sua empregada doméstica. Coincidentemente, Deberton terminou por “documentar” um retrato da relação das duas atrizes na vida real. Entre tapas e beijos, Soia e Marcélia são amigas de infância e chegam à maturidade, também artística, juntas, com amor e respeito, numa relação sempre conflituosa que amiúde nos provoca risos, não só no filme Pacarrete, mas também na vida. Marcélia recebeu o prêmio de Melhor atriz por encarnar Pacarrete e Soia o de Melhor Atriz Coadjuvante pela personagem Maria no 49º Festival de Cinema de Gramado de 2019.

Para quem acreditava que Marcélia Cartaxo estaria colada eternamente à ingênua Macabéa, sua maior performance como atriz até então, percebeu que o talento de cajazeirense é muito maior do que interpretar uma personagem com um physique de rôle semelhante ao seu e com uma história que tem muita coisa em comum com a sofrida jornada de Macabéa. A Pacarrete de Deberton veio provar que Marcélia é uma gigante ao encarnar uma bailarina idosa lutando pelo direito de levar a sua arte ao público de sua cidade natal. Marcélia agora não é apenas Macabéa, é também Pacarrete eternizadas pelo poder mágico do cinema.

Bertrand Lira é cineasta e professor do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da UFPB/Campus I

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sábado, 16 de agosto de 2025

Troféu Oscarito Para Marcélia Cartaxo



A atriz cajazeirense Marcélia Cartaxo será homenageada na 53ª edição do Festival de Cinema de Gramado, um dos eventos mais importantes e prestigiados do audiovisual brasileiro. Marcélia, receberá o Troféu Oscarito, dedicado a grandes atores e atrizes nacionais. A cerimônia de entrega da homenagem está marcada para o dia 19 de agosto, uma terça-feira, na cidade de Gramado, no Rio Grande do Sul.

Com mais de 40 anos de carreira, a atriz se destacou no cinema nacional com atuações marcantes e premiadas. Ela ganhou projeção internacional em 1985, por sua atuação no filme “A Hora da Estrela”, adaptação da obra de Clarice Lispector, que lhe rendeu o Urso de Prata de Melhor Atriz no Festival de Berlim. Ao longo da carreira, também participou de importantes produções como “Madame Satã”, “O Céu de Suely” e “Pacarrete”.

Criado em 1990, o Troféu Oscarito é uma das principais homenagens concedidas pelo Festival de Gramado. O prêmio celebra grandes nomes da atuação no cinema brasileiro e já foi entregue a artistas como Fernanda Montenegro, Zezé Motta, Tarcísio Meira, Matheus Nachtergaele, Laura Cardoso, Fernanda Montenegro, Lázaro Ramos, Marcos Palmeira, entre outros.

O Festival de Cinema de Gramado será realizado entre os dias 15 e 23 de agosto, reunindo profissionais do setor, críticos e amantes da sétima arte para uma programação dedicada ao cinema brasileiro e latino-americano.

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material divulgado em No Mundo do Turismo

ENTRE O ABISMO E A CARNE

Francc Neto


O que emerge nessas imagens não é apenas forma, cor ou matéria: é o rumor de uma ontologia própria, uma poética que se constrói como quem descobre o subterrâneo da existência. A série parece nascer de um lugar onde o grotesco e o sublime não se repelem, mas se enlaçam em tensão vital - a ferida que se abre é também claridade.

Há aqui um jogo contínuo entre peso e leveza, concreto e sombra, vermelho e silêncio. O vermelho não é cor, é pulsação: arde, sangra, denuncia o instante em que a arte se aproxima da carne. O branco não é neutralidade: é vigília, é o campo onde se gravam os choques, onde o excesso encontra seu repouso provisório. Entre os dois, insinuam-se restos de metálico, de ossatura, de rosa cansada - como se tudo fosse testemunho de um corpo maior, um corpo-mundo que resiste à decomposição.

Ontologicamente, essas obras não buscam representar, mas instaurar. São acontecimentos mais que imagens, são estados de ser. Cada peça carrega uma lembrança fossilizada, mas também um grito contemporâneo. Há nelas uma arqueologia do presente: resíduos, fraturas, concreções que nos fazem pensar naquilo que permanece mesmo quando tudo parece se desfazer.

O grotesco que atravessa a série não é niilista; é um grotesco fecundo, que descobre beleza nas ruínas. Essa estranheza não repele - seduz. O olhar é capturado, não pelo conforto, mas pelo desconforto que revela, pelo excesso que nos obriga a pensar: o que somos diante do que resiste em nós e fora de nós?

Entre o Abismo e a Carne propõe, assim, não uma narrativa, mas uma condição: a de permanecer diante do irrepresentável, de suportar o peso do indizível e ainda assim extrair dele poesia. É um convite à vigília estética, à experiência radical de olhar e deixar-se olhar pelo que excede o humano, mas só se manifesta no humano.


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Acesse a postagem original em: https://www.facebook.com/franccneto.neto
Observação: os direitos exclusivos sobre essas imagens são do autor Francc Neto, autor desse postagem

sexta-feira, 15 de agosto de 2025

ESCRITOR DE SEGUNDA UNIDADE

 João Batista de Brito

A expressão acima não existe. Acabei de inventá-la, e o fiz em analogia ao cinema. A expressão cinematográfica é “Diretor de Segunda Unidade”, que preciso explicar para justificar o título e o conteúdo desta matéria.

Vá lendo, que chego lá.

Hoje nem tanto, porém, nos velhos tempos da Hollywood clássica o “diretor de segunda unidade” era uma figura menor, porém imprescindível na produção de um filme. Seu ofício era filmar trechos considerados mecânicos, acessórios, pouco ou nada criativos, que apenas servissem para amarrar o conjunto da história. Podia ser: um avião levantando voo; a tomada geral de uma cidade; um céu nublado, indicando chuva... Coisas assim.

Era muito comum em filmes de ação, mais ainda se essa ação se estendesse a campos de batalha. Os combatentes poderiam ser os índios e a cavalaria americana, ou os nazistas e os aliados, ou os gregos e os troianos... Tanto fazia.

Vejam bem: mesmo com centenas ou milhares de figurantes na frente da câmera, tais cenas, normalmente, não eram filmadas pelo diretor principal – aquele cujo nome aparecia nos créditos do filme. Não. Ficavam ao encargo do nosso diretor de segunda unidade.

Quantas cenas de batalha nos filmes de Cecil B. DeMille, Raoul Walsh, Howard Hawks, Michael Curtiz ou mesmo de John Ford, não foram rodadas na ausência deles, apenas vistas depois em salas de montagem, onde eram “editadas” para caber bem no fluxo narrativo do filme.

Um empregado da Companhia com função bem particular, o diretor de segunda unidade não tinha direito a crédito, e, em muitos casos, mal era conhecido do pessoal da produção. Até porque as suas filmagens eram, muitas vezes, rodadas fora de Hollywood - e não necessariamente ao mesmo tempo da produção.

Devidamente apresentado o diretor de segunda unidade, vamos à questão: por que dei a esta matéria o título de “escritor de segunda unidade”?

É que vivo sempre comparando cinema e literatura, e fico me indagando como poderia ser útil, no âmbito literário, um profissional desses, que ajudasse o romancista a não perder tempo com trechos meramente informativos, ou, se fosse o caso, com longas descrições de batalhas, pois ele mesmo as escreveria.

Convenhamos: todas aquelas tediosas descrições de fachadas de casas antigas, ou mobiliários cheios de detalhes inúteis, ou de paisagens intermináveis, teriam, se feitas por outrem, facilitado a vida de – digamos, Tolstoi, Sthendal, Balzac, Melville, José de Alencar, Victor Hugo, e até mesmo Proust.

Pois bem, se existisse mesmo esse tipo de profissional no âmbito literário, acho que eu mesmo iria começar a me programar para escrever um belo e longo romance. Já que não seria um romance de guerra, o meu escritor de segunda unidade ficaria responsável pelas longas descrições das paisagens, das fachadas de residências, e da rotina dos personagens, coisas que me aborrecem só de pensar em fazer.

Aliás, para o meu escritor de segunda unidade imagino um monte de funções com mais minúcias do que a do seu colega cinematográfico. Por exemplo, arranjar um título para o romance a ser escrito, como se sabe, coisa muitas vezes mais difícil do que escrever o próprio romance. Inventar os nomes dos personagens também poderia ser muito útil, nomes em que os futuros exegetas da obra pudessem descobrir relações com a temática abordada.

Mas, um serviço adicional, com direito a pagamento extra, que eu iria querer do meu escritor de segunda unidade seria o seguinte: seria o de transmudar minhas pobres e insossas frases prosaicas em construções metafóricas, cheias de belas imagens que dessem ao texto alguma vitalidade, e se possível algum encanto.

O perigo seria, pronto o livro, o meu escritor de segunda unidade reivindicar uma coautoria.

Ou, pior, a autoria completa.

Em tempo: como não pretendo escrever romances, estou aceitando o trabalho de um escritor de segunda unidade para melhorar minhas crônicas. Pago bem.

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domingo, 27 de julho de 2025

Lembrando Ivan Bichara (II)

Ramalho Leite

Ivan Bichara. Imagem melhorada através da IA

Com mais tempo para dedicar-se à literatura, ao deixar a vida pública, Ivan Bichara produziu os romances “Carcará”,(1984) Tempo de Servidão (1988) e “Joana dos Santos” (1995). Ninguém melhor do que ele, narrou as peripécias de uma polícia desaparelhada, desassistida pelos escalões superiores e armada apenas com a cara e a coragem, para enfrentar os cangaceiros, que, aos bandos, intimidavam o sertão.

Há alguns anos a Paraíba reverenciou a memória de Ivan Bichara, quando da passagem do centenário do seu nascimento. Em um dos eventos em suas homenagens, fui chamado à tribuna e aproveitei para preencher a lacuna que observei em todos os discursos. A referência ao fino humor que Ivan Bichara cultivava, quer na convivência com seus pares, quer nas páginas dos seus romances.

Na ocasião, repeti alguns fatos que comprovam o mencionado acima. Vou registrá-los mais uma vez nesse trabalho que se recomenda curto.

O líder do seu governo, (eu era vice-líder e iniciante na AL) deputado Evaldo Gonçalves, cansou de ouvir as queixas dos seus liderados sobre fatos do governo Bichara que levaram a bancada de sustentação ao descontentamento. Resolveu tratar do assunto com o chefe do executivo

Foi marcada uma reunião em Palácio. O governador, sentado em amplo sofá sob o quadro da prisão de Peregrino, tinha ao seu redor cerca de vinte deputados. Cada um apresentou seu queixume e o paciente Bichara apenas ouvia. “Ele sabia ouvir como ninguém” disse Germano Toscano, seu chefe de gabinete. Terminada a cantilena parlamentar, foi a vez do governador falar:

– Vocês não estão satisfeitos com o meu governo? Pois vou lhes confessar uma coisa: eu também não estou!

Os espíritos foram desarmados e as armas ensarilhadas…

Em uma de suas visitas ao Poder Legislativo, ficamos a lhe fazer sala no gabinete da presidência, enquanto não se iniciava o evento. Eu, Waldir dos Santos Lima, Edvaldo Motta, Sócrates Pedro e Orlando Almeida aproveitávamos para encaminhar alguns assuntos do nosso interesse. O deputado Sócrates Pedro, como se sabe, era cunhado do empresário Walter Brito proprietário da empresa de ônibus Real e intermediário dos seus assuntos junto ao governo. No meio do papo, o deputado Orlando Almeida começa a narrar um fato que se passara em Campina Grande. Meio prolixo, Orlando demorava muito a concluir, buscando detalhes desnecessários. Impacientei-me e adverti o querido colega:

– Orlando, o governador é muito ocupado. Apressa essa conversa: para chegar em Campina você está arrodeando por Princesa Isabel…

O governador riu da minha pilhéria e fez a dele:

-Fala baixo, Ramalho, se não o Sócrates vai querer registar essa linha de ônibus…

Na campanha municipal de 1976, uma vereadora da capital, já sexagenária e sem muita disposição para a luta, procurou-o para pedir ajuda. Na conversa, lembrou ao governador que sua principal concorrente era uma linda jovem, quase dois metros e como muita disposição para pedir votos e, acrescentou:

-É uma luta desigual, Dr. Ivan!

-Realmente é muito desigual, respondeu Ivan.

Sua incursão pela literatura como vimos antes, deixou vários romances e ensaios. Em um deles, o romance Carcará, um personagem conta a história de um trabalhador, casado com moça nova e recentemente saída do parto. A mulher procurou o médico levando a criança raquítica, mas parecendo um produto daqueles países africanos onde a fome é quem dá as ordens. O médico admirou-se da fragilidade da criança e destacou:

– A senhora com tanto leite e deixa seu filho nesse estado?

A resposta da aflita mãe, retrata o humor de Bichara, também presente na sua obra.

– Não sobra nada para a criança, doutor: meu marido bebe todo o leite!

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fonte wscom..com

quinta-feira, 17 de julho de 2025

ACORRENTADA

MINICONTO
por João Vitor da Silva Teles 

Ilustração produzida por IA

Fiquei parado sem saber o que fazer. O barulho estava cada vez mais forte, como se algo estivesse batendo na porta por dentro. Meu coração começou a bater mais rápido. Peguei a chave que sempre carrego comigo e pensei em abrir..., mas pensei: e se for perigoso? Fiquei ali por alguns minutos, tentando criar coragem. Então decidi. Coloquei a chave na fechadura da porta e girei bem devagar. A porta fez um barulho alto quando começou a abrir. Lá dentro estava tudo escuro, só dava para ouvir uma respiração bem estranha, pesada. Dei um passo para frente com minha tocha e vi dois olhos brilhando ao fundo. Quase deixei minha tocha cair, assustado. Uma voz baixa falou: - até que enfim... você veio me tirar daqui. Meu corpo congelou, mas algo me faz continuar. Dei mais alguns passos e viu uma criatura acorrentada, com aparência cansada. Ela disse que foi trancada ali injustamente há muitos anos. Sem saber se era verdade, decidi ajudá-la. Quando tirei as correntes, ela sorriu... e desapareceu no ar.

JOÃO VITOR DA SILVA TELES
É aluno do 1º ano DS(B) da Escola Estadual Cidadã Integral Técnica 
Severino Dias de Oliveira - Mestre Sivuca, João Pessoa/Paraiba.

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quinta-feira, 3 de julho de 2025

A Resistência Cultural: Um Ato de Cidadania

Rui Leitão

Imagem criada por IA

Não há como discutir a questão da cidadania sem reconhecer a cultura como um direito básico. Daí a importância de estimular o desenvolvimento da vida cultural para que se consiga preservar a democracia. Uma sociedade mais justa não pode prescindir do aprimoramento individual dos seus cidadãos através da participação no processo cultural que promova o aprendizado na convivência com as diferenças e adversidades.

A cultura é, indiscutivelmente, uma ferramenta de inclusão social. Através dela se adquire identidade, voz e esperança. Em nosso país, a cultura se manifesta de maneira plural, refletindo nossas tradições e atuando como um poder questionador e promotor de reflexões. É o que podemos chamar de resistência cultural. Um movimento pelo qual parcelas da população, ainda que sob pressão, procuram manter viva a sua cultura, com manifestações que se colocam em oposição a poderes estabelecidos que adotam políticas repressivas.

Foi assim durante os anos de chumbo da ditadura militar. Artistas, escritores, músicos, cineastas e movimentos populares foram à linha de frente do enfrentamento simbólico ao autoritarismo. O teatro de resistência, a música de protesto, os festivais universitários, a poesia engajada - tudo isso foi combustível para manter acesa a chama da liberdade em tempos de censura e repressão. A cultura virou trincheira. O palco virou palanque. A canção virou manifesto.

Em meio à brutalidade do regime, o campo cultural se tornou um dos principais focos de rearticulação das forças democráticas. A arte engajada assumiu papel decisivo na conscientização da sociedade, muitas vezes em aliança com o movimento estudantil, que também desafiava o regime nas ruas e nas universidades.

Era o povo aprendendo a resistir, mesmo sob ameaça. Como seres sociais, somos produtores e guardiões da cultura. E, por isso, não podemos abrir mão do nosso protagonismo na luta por uma sociedade mais consciente, inclusiva e plural. Mais do que nunca, é preciso reafirmar: 

Resistir é preciso. Sempre.

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terça-feira, 1 de julho de 2025

Rádio Alto Piranhas de Cajazeiras, quase sessentona

 Cleudimar Ferreira



A Rádio Alto Piranhas de Cajazeiras (RAP), faz aniversário neste dia 01 de julho. São 59 anos de prestação de serviços a população sertaneja, desde a sua fundação. As ondas sonoras da RAP foram ao ar pela primeira vez em 01 de julho de 1966, sob a direção da Cúria Diocesana de Cajazeiras, comandada na época pelo então Bispo Dom Zacarias Rolim de Moura.

No percurso do sucesso de sua história até aqui, a emissora tem pautado junto da sua programação, um compromisso com a qualidade do conteúdo editorial de seus programas, alguns com quase a idade da emissora, como são os casos dos programas: ‘Encontro com Nelson’ e ‘Eu, o Rei e a Notícia’, campeões de audiência até hoje. Sempre priorizando um público mais popular, levando a comunicação, principalmente, as comunidades humildes do sertão paraibano.

Durante esses anos, a RAP passou por transformações históricas, tanto na parte gerencial, quanto no seu elenco de comunicadores, mas sempre mantendo a boa qualidade de som e de programas variados destinados a todas as classes sociais. Uma das mudanças de destaque, foi quando em 1983 a rádio passou a ser gerenciada pelo grupo do empresário Francisco Arcanjo de Albuquerque (in memoriam). Obteve autonomia e alcançou mais liberdade de criação e conteúdo. Atualmente é administrada pelo seu filho, o professor e historiador josé Antônio de Albuquerque, que tem prestado em manter a linha informativa de qualidade, sempre pensando suprir as necessidades dos seus inúmeros ouvintes.

Por esse leque de mudanças da Rádio Alto Piranhas, está a passagem, em breve, da frequência AM para a FM - prefixo 105.5 MHz, bem como nas suas instalações que passará a se localizar na Zona Sul da cidade, mais precisamente no Bairro da Esperança. Nessas modificações, tanto no prefixo quanto nas instalações, trará mais modernismo aos seus equipamentos e mais qualidade sonora - digital dos seus produtos alçados ao ar. 

A história da RAP, começou a ser contada em 21 de dezembro de 1961, a partir da concessão adquirida por Dom Zacarias Rolim de Moura, ladeado por um grupo de religiosos da diocese de Cajazeiras, entre eles o Monsenhor Abdon Pereira e Monsenhor Vicente Freitas, sendo o primeiro, seu primeiro diretor administrativo. A gestão de Monsenhor Abdon, foi fundamental na consolidação e afirmação do sucesso da Rádio Alto Piranhas nos seus primeiros anos de vida na radiofonia paraibana.

Nesses anos todos, a RAP construir um legado histórico merecedor de aplausos, já que apesar de toda mudança do tempo, ela continua viva e atuante como sempre foi, desde o dia que suas primeiras palavras, foram lançadas ao ar pelas suas antenas possantes, há 59 anos. Portanto, é plausível dizer, que a sua colaboração para comunicação e serviços no alto sertão de Cajazeiras, foi e é até aqui, inquestionável, destacada como um exemplo de poder que o rádio tem, que pode ser aplicado para fazer a diferença e o bem no dia a dia dos seus ouvintes. Portanto, Viva a RAP. Parabéns, Radio Alto Piranhas de Cajazeiras, quase sessentona.

ÁlbumFotográficodaRAP

        

Legenda das fotografias : 
1ª. Momento da inauguração da Rádio Alto Piranhas. Em destaque o Monsenhor Abdon Pereira (primeiro diretor administrativo) ao lado do Deputado Soares Madruga. Abdon, corta a fita. Logo atrás, o radialista Zenildo Alcântara com microfone faz a transmissão da solenidade.
2ª. Nessa foto, o sousense Dr. Ananias (Nias) Gadelha, depois Zeilto Trajano e Júlio Bandeira, nos estúdios da Radio Alto Piranhas.
3ª. O radialista J. Gomes (com microfone), numa transmissão de uma partida de futebol. Ao seu lado (com um rádio) o fotógrafo J. G. Vilante. Foto: do arquivo de J. G. Vilante.
4ª. Reportagem e transmissõa externa, o radialista Zeilto Trajano, apoia o microfônio para Prof. Antônio de Souza. No lado esquerdo, o político e Padre Levi Rodrigues.
5ª. Aqui em uma transmissão extrena, o radialista Zeilto Trajano com microfone, depois o Empresario Raimundo Ferreira e em destaque de camisa branca, Otacilio Trajano, irmão de Zeilto e funcionario da Rádio Alto Piranhas.
Os radialistas Bosco Amaro e Expedito Sobrinho, no início dos anos 80, nos estúdios da Rádio Alto Piranhas. 
7ª. Documentos da Junta Comercial, com assinaturas de Dom Zacarias, Mosenhor Abdon e Cónego Vicente Freitas, atesta a criação da emisora em 21 de dezembro de 1961.

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domingo, 29 de junho de 2025

E lá se foram o bom José; Antônio; seu João; Pedro e Paulo

Cleudimar Ferreira

foto original de: Cleudimar Ferreira

O mês junino está passando. Passou tão rápido que muita gente nem viu suas cores. No passado, a estadia dele entre nós era mais lenta e demorada, proporcionando a todos mais envolvente e engajamento com às festas juninas desse período do ano. O que está acontecendo, não seu. Mas isso tem um sentido. Só sei que o artificialismo do tempo, está deixando os dias de junho cada vez mais sem graça. As nossas tradições culturais, por exemplo, vividas e expostas para todos, perdem ano a ano o seu brilho. Tudo tem se tornado mecânico, imediato e modista, contribuído para apagar de vez as características originais desse marcante mês.

A coisa só piora e a fratura exposta das nossas tradições, parece não retroceder e aparenta não ter cura. Infelizmente, sentimos que não temos mais poder de reação. Muitos dos defensores das verdadeiras tradições juninas - aí eu me encaixo nesse meio, estão perdendo forças diante de um rolo que destrói as nossas raízes juninas. Embrulho destruidor patrocinado por políticos, prefeitos e uma plêiade de assessores desaculturados, que usando o dinheiro público, promove nessa época o festival da degola em tudo quanto é tradição junina, abrindo espaços nas suas festas de São João, para outras culturas migratórias, diferentes da nossa, vindo de outras paragens desse país.

Esse processo de desaculturação das raízes juninas, está ocorrendo desde o momento que foi permitido elementos de culturas abastardas; vindo de outras regiões do país e, até de países com culturas similares, fosse experimentado durante as nossas festas do mês junho. Essa perda de identidade, junto com outras culturas, patrocinou até aqui um casamento promíscuo, perigoso para as nossas festas de São João. Provocando a conhecida imposição de uma cultura sob Júdice, sobre outra. Nesse caso sob a nossa tradição junina, levando o seu simbolismo a sofrer uma perca parcial, por encontro, de sua singularidade.

Para ser bem claro, quando entramos no espaço digital que tem se transformado o Parque do Povo em Campina Grande/PB, vemos que cem por cento da massa ali presente, as pessoas se mostram trajadas de chapéu cowboy, camisa xadrezada, cinto com fivelão e botas longas. Isso tanto faz ser feminino ou masculino. Uma nítida confusão equivocada de vestir as nossas tradições, pois moda assim, não representa o verdadeiro jeito de como se preparava nossos antepassados para viver e festejar a nossa cultura junina.

Usar chapéu cowboy; camisa de xadrez; cinto com fivelão e botas nessa época do ano, passou a ser uma nítida representação forasteira da cultura country americana. Estilo que foi adotado pelas festas do Peão-Boiadeiro de Barretos, cidade do interior de São Paulo, que infelizmente foi trazido para o Nordeste pelas duplas de cantores da música sertaneja, durantes os São João de Campina Grande/PB e Caruaru/PE, cidades com maior destaque das suas festas juninas na mídia nacional.

Outros elementos simbólicos das festas desse mês de junho, vindo de fora e que não tem representatividade e nem parentesco como as nossas tradições culturais juninas, é o ‘Quentão’. Essa bebida tão falada, propagada nos merchans e publicidades nesse período do ano, é um elemento da cultura sulista, pois o seu termo, por se só já o caracteriza como um aperitivo para regiões frias e, o nosso Nordeste, é quente por natureza. Se você percorrer toda extensão do Parque do Povo, procurando esse tal de ‘Quentão’, não vai achar uma dose se quer dessa tal bebida.

Imbuído nesse pano de chita repleto equívocos, de difícil retorno às origens nordestinas, encontramos o despendimento cultural que mergulhou quadrilha junina. Desprestigiada do grande público, se comparada com os megas shows nos palcos principais das duas cidades maiores da Paraíba, essa expressão das nossas festas de junho, tem sofrido nas últimas décadas a excrescência das piores modificações que uma referência cultural pode sofrer.

A começar pelo luxo das vestimentas dos seus integrantes, desenvolvidas a partir das características copiadas das alas das escolas de samba do carnaval do Rio. Nas apresentações há até pequenas alegorias ou abre-alas, bastante parecida com as do carnaval. Uma verdadeira agressão a originalidade das nossas quadrilhas juninas, que representava a simplicidade dos elementos culturais do período junino. Nesse mar de ambiguidade, foram modificados a forma de dançar, as coreografias, os comandos, como: ‘olha a chuva’, ‘olha a cobra’, ‘anarriê’, ‘balancê’, que praticamente já não existem mais.

Se ainda existem as tais bandeirinhas, difundidas pelo artista plástico Alfredo Volpi (in memoria) a partir da observação do uso delas nas cidades do interior de São Paulo, é só ainda uma questão de tempo. A intensificação das bandeirinhas nos nossos terreiros juninos, se deu com mais constância a partir da dispersão popular dos quadros pintados pelo artista ítalo-brasileiro. Entretanto, já há lugares, que essas bandeirinhas (que não é originalmente uma invenção nordestina) estão sendo substituídas por painéis de leds ou por cordões de fitas, desenhados com motivos juninos, usados para decoração de tetos.

Esse descolamento das nossas raízes juninas, nunca foi tão doloroso para o povo da Região Nordeste, depois que aconteceu a regularização das fogueiras, que passou a ser proibidas por lei em certos casos - não sendo mais permitidas na zona urbana, mas restringidas na zona rural e, do uso dos fogos e similares, que também por lei, teve o seu uso impedido em qualquer circunstância. Da mesma forma aconteceu com o “balão subiu levou bilhete meu”, um dos mais emblemáticos símbolos juninos a ser o primeiro a ter a sua proibição decretada.

No que se refere a musicalidade, não preciso dizer muito dessa questão, pois a proliferação de ritmos apócrifos no período junino nas nossas festas, tem sido uma afronta ao autêntico forró raiz, chamado carinhosamente por todos de forró de pé de serra. As festas de São João têm se transformado em ‘rave’, megas festivais de hits, inversamente desproporcionais as raízes musicais do povo nordestino. Causando discórdias entre os que defendo o forró ‘gonzaguiano’ e os prós Safadão da vida, acrescido dos sertanejos da região sul e as manifestações eletrônicas de tal DJ Alok. Estilos musicais desconectados da real música cantada por Luiz Gonzaga, Trio Nordestino, Jackson do Pandeiro e Dominguinhos.

Ou seja, a cultura é a expressão mais fiel dos sentimentos de um povo. A sua preservação é importante para se saber como surgiu no passado a história de um grupo social; de uma população; o seu modo de vida, de criação artística, formas de interação e de entretenimento. Se sua conservação é ignorada e fatores externos o agride, tentando ofuscar a sua permanência, como vamos saber no futuro, de que modo brincava e festejava o São João os que vieram antes de nós?

O genuíno São João com as festas juninas desse mês de junho, são expressões tão antiga da nossa cultura, assim como é a própria história do povo nordestino. Precisa continuar existindo; ser preservado para que se mantenha vivo com todas suas cores, símbolos e ritmos populares da autêntica música. Bem como, os aromas peculiares das suas comidas tradicionais dessa época do ano. Caso contrário, não saberemos se existiu no passado quanto cultura e seus valores, bens característicos de um povo.
 
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domingo, 15 de junho de 2025

A VERDADE SEGUNDO LOBÃO

foto PostScreen de Eliel Rodrigues da Silva Lobão

Nessa época do ano, em que especialmente no Nordeste é realizada aquela que é a mais original das festas culturais da sua região; aqui e ali sempre surge nesse período, muitas opiniões, reclamações e discursões sobre o desaparecimento dos palcos juninos, do autêntico compromisso dos músicos, dos cantores e da indústria cultural, em preservar a tradição da festa, com a manutenção no mínimo, dos ritmos populares que originou e, que tradicionalmente, sempre fizeram parte da festa.  

Na opinião de Lobão, artistas, jornalista, teólogo, existe de uma máfia na indústria musical brasileira, especificamente nos gêneros forró e sertanejo. Há invisíveis donos do sucesso que decidem quem vai brilhar e quem será esquecido, controlando tudo. Artistas talentosos são ignorados em favor de conexões, dinheiro e poder. Os fãs são enganados, pois não são mais eles que decidem que vai fazer sucesso. A arrogância e a falta de respeito tomaram conta da nossa música e, os músicos, muitos vulnerável nesse contexto, bem que merecia mais dignidade e reconhecimento. Veja a seguir, nessa opinião contundente, como ele expôs esse momento: 

DISSE 
Eliel Rodrigues da Silva Lobão

Existe uma máfia na música. No forró, no sertanejo, existe uma máfia. E existe os donos do sucesso. os donos invisíveis do sucesso que decidem quem vai brilhar e que será esquecido. Eles controlam tudo. controlam de que é a vez, e ter um hit e que será apagado e vai a ficar na sombra. Artistas com talentos verdadeiras são engavetados, esmagados por um sistema que valorizam conexões, influências, dinheiro, poder, padrinho, mas nada com a arte. Cachês milionários para poucos escolhidos. Enquanto músicos incríveis que sustentam a tal da cozinha, (risos...) são forçados a mendigar por migalhas, lutando por dignidade - quando não tem dois ou três empregos, porque senão a família passa fome.

Os fãs! você que é fã; você que acredita que, quem faz o sucesso é público. Você está sendo enganado. Isso é pura ilusão. Não é público quem faz o sucesso. O jogo está viciado meu amigo, as cartas estão marcadas e os talentos reais são descartados como peças inúteis, não são mais nada. Não existe arte! que arte, que cultura? existe somente, o dinheiro, o sistema. Você acha mesmo que é o público que decide quem vai estourar. (risos...) é a máfia quem decide, quem brilha, quem desaparece. Tem artista aí que nem olha na sua cara. Esquece que foi você, fã, quem colocou ele lá em cima, no topo. Porque agora só querem dinheiro, fama. fama rápida. mas passa.

A humildade sumiu, a gratidão virou pó e aí, está tudo certo. Está tudo bem, mas até quando? e quantos talentos já morreram na praia, porque ninguém deu oportunidade. Quantos artistas estão aí, anônimos. E quanto famosos hoje se recusam, até a tirar uma simples foto com quem sempre esteve ao lado dele. Já virou rotina. A arrogância tomou conta. O sucesso subiu a cabaça e o respeito, esse foi embora. Você fã de verdade, (risos...) merece mais do que isso. E os músicos, merecem respeitos, dignidade, reconhecimento, porque música de verdade se faz com respeito e não com humilhação. Pense nisso!

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acesse o video riginal no instagram: https://www.instagram.com/p/DKOiQY7tyFG/

quarta-feira, 4 de junho de 2025

DO SITE 'OS GUEDES'

O Bispo de Cajazeiras Dom Zacarias Rolim de Moura e o Padre Gervásio Queiroga

Padre Gervásio e o programa de 
rádio que desafiou a ditadura militar

Os Guedes

Em plena ditadura militar, um dos períodos mais sombrios para a imprensa brasileira, um programa de rádio em Cajazeiras ousou desafiar o regime e levar informação aos trabalhadores rurais. Apresentado pelo padre Gervásio Queiroga na Rádio Alto Piranhas, emissora pertencente à diocese, o programa “Verdade e Vida” tornou-se um marco ao explicar para os ouvintes o Estatuto da Terra, assinado pelo Marechal Castelo Branco.

“O Marechal Castelo Branco pensou em fazer a Reforma Agrária, mas foi barrado. O Estatuto da Terra não intencionou fazer a Reforma Agrária, mas, quase como prévia a ela, promulgou uma legislação específica para as relações entre os senhores da terra e os que, não sendo os proprietários, trabalham na terra alheia. Antes do Estatuto da Terra, as pendências específicas das relações entre proprietários da terra e os que nela trabalhavam eram resolvidas segundo o Código Civil de então. Difícil para um simples trabalhador rural entrar com uma ação, tanto mais quando, antes de Goulart, juridicamente não havia sindicatos rurais que o apoiassem e ajudassem”, esclarece padre Gervásio.

Ele ressalta que pela primeira vez, na região nordestina, camponeses e meeiros encontraram amparo legal para levar os proprietários de terra à Justiça, enfrentando uma estrutura jurídica tradicionalmente atrelada às elites rurais. “Deve-se aqui nesta área à coragem maluca de um advogado, filho de latifundiário, João Bosco Braga Barreto, esse feito histórico. Como se deve a outro advogado, filho de senhor de engenho, Francisco Julião, a organização das Ligas Camponesas. Como se deve a D. Zacarias, filho de grande proprietário de fazendas, promover a formação dos sindicatos dos trabalhadores rurais em toda a diocese”.

O impacto do programa “Verdade e Vida” foi imediato e provocou reações violentas. Padre Gervásio chegou a receber ameaças de morte. Um episódio marcante ocorreu em Jaguaribe, no Ceará, quando um latifundiário sofreu um infarto após ser chamado à Justiça por um meeiro. A família do fazendeiro culpou a Rádio Alto Piranhas pelo ocorrido e ameaçou o padre. Diante do perigo, ele leu a carta com as ameaças ao vivo e declarou que, se algo lhe acontecesse, todos saberiam os responsáveis. “Tô vivo, graças a Deus”, relembra com humor.

Apesar da pressão de setores conservadores, incluindo a União Democrática Ruralista (UDR), que tentou encerrar o programa, “Verdade e Vida” se consolidou como um dos mais importantes veículos de conscientização social da época. A história do padre Gervásio e seu programa representa um testemunho de coragem e resistência em tempos de censura e repressão.


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