quinta-feira, 16 de janeiro de 2025

Espelho Rachado - Uma história de final de ano

 porJoão Batista de Brito

Escultura, título: Cabeça Construida nº 2. Autor: Naum Gabo's

Não tem jeito: todo final de ano lembro meu amigo Baxter. Um cara legal, talvez meio bobão, mas gente boa. Sua única mancada na vida foi aquela de se passar para emprestar seu apartamento de solteiro aos seus superiores no trabalho. Entendam: era naquele tempo em que não existia essa coisa prática chamada Motel, e, funcionário de uma grande Empresa de Seguros, ele achava que esses empréstimos escusos de seu modesto lar podiam lhe trazer promoções ou subidas de cargo.

Por causa disso, coitado, vivia debruçado sobre a agenda, marcando encontros para os outros. Nos dias e horários dos tais encontros, tinha que, depois do expediente, permanecer na rua por horas, mal acomodado nos bancos das praças, sujeito a frio e chuva, enquanto velhotes safados traçavam garotas de programa na sua cama. Negócio de doido.

E ele próprio, sem ninguém. A não ser que se diga que era meio caidinho pela ascensorista da Empresa, uma moça bonita e simpática que, se não correspondia ao flerte, ao menos era super gentil com ele.

Pois um dia, o que aconteceu? Baxter foi chamado ao último andar do arranha-céu da empresa, falar com o chefão. Sua tramoia havia sido descoberta, e quando ele estava para pedir perdão, foi o chefão quem falou: ao invés de condená-lo, pediu a duplicata da chave do apartamento, pois queria ser, a partir daquele dia, o único “freguês”.

E aquela foi, pra Baxter, mais uma metade de noite na rua. Ao voltar pra seu apartamento, achou no assoalho, um espelho de mão rachado. Devia ter havido briga entre o chefão e sua garota, fosse ela quem fosse. Guardou o espelho rachado e, no dia seguinte, teve o cuidado de entregá-lo ao chefão.

A recompensa pelo uso do apartamento desta vez veio rápido: Baxter foi promovido e mudou de sala, do andar em que estava para um outro, bem mais alto – e, na empresa, quanto mais alto o andar do prédio, mais prestígio.

Por coincidência, ele estava na sua nova e charmosa sala de trabalho, comemorando a promoção, quando a bela ascensorista apareceu. Provando um chapéu novo, ele perguntou a ela se combinava com sua postura, e aí, ela tirou da bolsa um espelho de mão e lhe deu pra que ele mesmo se mirasse. Foi nesse momento que o mundo de Baxter desabou: era o mesmo espelho rachado que ele encontrara no seu apartamento e devolvera ao chefão, ou seja, a amante escusa do chefão era ela, sua tão adorada e supostamente inocente ascensorista.

O baque foi grande, mas Baxter tentou se segurar. A carreira profissional de um homem não era mais importante que sua vida amorosa? Engoliu em seco e foi adiante. Quando o chefão solicitou seu apartamento no dia de natal, ele, claro, cedeu. Naquela noite, ficou pelos bares, tristonho, mas terminou arranjando uma paquera casual, que aceitou ir, sim, para o apartamento dele. Naquela hora, mais de meia noite, Baxter sabia que o chefão e a ascensorista já haviam encerrado o rendez-vous.

Ao chegar em casa, não prestou não. Abrindo a porta do quarto tomou o maior susto de sua vida: lá estava a moça, sim, sua linda ascensorista, em sua cama, desfalecida. Tentou acordá-la, mas que nada: na cabeceira da cama estava um frasco de comprimidos para dormir completamente vazio. E aí, foi um deus nos acuda. Telefonou imediatamente para o chefão, mas este alegou que tinha esposa e filhos e que não podia fazer nada; e sugeriu que Baxter, ele mesmo, resolvesse o problema. Assim, o pobre do Baxter se acudiu de um médico vizinho e amigo, e foram horas e mais horas de arrastar a moça desfalecida pelo apartamento, de lhe empurrar café goela abaixo, e de muitas outras providências e cuidados.

Quando a moça melhorou, terminou ficando uns dias no apartamento dele, e puderam conversar um bocado e à vontade sobre as coisas da vida e as dores do amor.

Voltando ao trabalho, Baxter foi chamado pelo chefão, que agradeceu suas providências e pediu, de novo, a chave do apartamento, desta vez uma cópia exclusiva. E foi aí que veio a redenção moral do nosso amigo Baxter: ele se negou a ceder a chave. O chefão ameaçou demiti-lo, e ele, impávido e altaneiro, aceitou a demissão de bom grado.

Na Noite de Ano, estavam a jovem ascensorista e o chefão num salão festivo de bar quando foi anunciado o nascer do novo ano. Ele virou-se de lado para brindar com todos, e ao voltar-se pra brindar com ela, a moça havia desaparecido. Vocês não vão acreditar, mas conto assim mesmo: não sei o que deu nela, que saiu correndo feito uma louca, e foi bater na porta do modesto apartamento de Baxter, o qual, no meio dos móveis empacotados para mudança, tinha, por coincidência, acabado de abrir uma garrafa de champanhe para comemorar o seu desemprego e desalento. Brindaram os dois e foram muito felizes depois daquele brinde. Creio que para sempre.

O espelho rachado? Ela jogou fora e comprou um outro, novinho em folha, como o ano que se iniciava.

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quarta-feira, 15 de janeiro de 2025

Seminário Diocesano Nossa Senhora da Assunção: História, lançamento da pedra fundamental e inauguração

Foto da construção ( já na fase final) do Seminário Nossa Senhora da Assunção

LANÇAMENTO DA PEDRA FUNDAMENTAL
A pedra fundamental do Seminário de Nossa Senhora da Assunção foi benta em Roma, por S. S. o Papa Pio XII, então gloriosamente reinante, no dia 16 de junho de 1950, Festa do Coração de Jesus.
Transcorria festivamente o dia 22 de agosto, mais um aniversário de Cajazeiras, comemorando-se os 150 anos do nascimento do seu imortal fundador, Padre Mestre Inácio de Sousa Rolim.
Naquele ano jubilar de 1950, era chegado, naquela mesma data, o momento histórico, ardentemente desejado por D. Mousinho, seu Clero e por todos os seus diocesanos.
Refiro-me a mais um acontecimento inesquecível e de significados indeléveis do tão famoso 22 de agosto, no calendário cajazeirense. Soara a hora deveras almejada em que S. Exa. Revma. D. Luís do Amaral Mousinho, de saudosa e imortal memória, contando com a presença efetiva e afetiva de D. Anselmo Pietrulla, Bispo de Campina Grande; D. Antônio Campelo, Bispo Auxiliar de Cuiabá; dos Sacerdotes Diocesa­nos e Salesianos e das autoridades locais: Prefeito Arsênio Araruna, Juiz de Direito Antônio do Couto Cartaxo, Presidente da Câmara de Vereadores José Bonifácio de Moura e também com a participação de representações dos estabelecimentos de ensino da cidade e grande massa popular, revestido de paramentação solene, deu início à cerimônia do lançamento da Pedra Fundamental do Seminário Nossa Senhora da Assunção.

Inicio da Construção do Seminário Nossa Senhora da Assunção

O Exmo. e Revmo. D. Mousinho entoou, em Canto Gregoriano, e bênção litúrgica e aspergiu com água benta o local, onde está construído nosso querido Seminário.
Fizeram-se fotografias. O ato foi saudado com vibrantes e estrepitosas salvas de palmas. A Banda de Música Municipal executou um dobrado. Houve espocar de foguetes. Foi entoado, fervorosa e entusiasticamente, o hino religioso-popular “Queremos Deus”, testemunhando a expansão de fé de todos os presentes.
O Bispo Diocesano dirigiu sua palavra de Pastor, com júbilo, sabedoria, eloquência e amor, afirmando que aquela tarde magnífica, da­quele dia solene, constituía “o mais emocionante momento de sua vida episcopal”, porque talvez nenhum outro empreendimento mais notável pudesse executar para a sua Diocese.
Na ocasião, ressaltou a urgente e grave necessidade do recrutamento e orientação das Vocações Sacerdotais, acentuou a sublime missão do sacerdote, evangelizador dos povos, propugnador da verda­de e sentinela dos direitos humanos.
Formulou ardentes votos para que o futuro Seminário forjasse corações abrasados como o de outro Moisés e inteligências brilhantes como a daquele Santo Sacerdote, Padre Mestre Inácio de Sousa Rolim.
Pediu insistente e confiante aos diocesanos que elevassem preces ao Altíssimo para que a semente plantada nascesse, crescesse, flo­rescesse, frutificasse e safrejasse (sic), abundantemente, numerosos san­tos sacerdotes para a Igreja de Deus.
Na oportunidade, disse, igualmente, que fazia presente ao Semi­nário de um Cálice banhado a ouro, recebido como lembrança de sua eleição para Bispo de Cajazeiras.
Afirmou que muitos compreendem o valor do Seminário, embo­ra outros existam que não querem ver a sua alta missão de formar cida­dãos que se tornam verdadeiros expoentes da vida social. Ao finalizar, proclamou em alto e bom som: "Neste Seminário irá se construir toda a segurança de nosso passado e toda grandeza de nosso futuro”.
Por sua vez, agradeceu a generosidade até agora recebida em prol do Seminário a ser construído, mas ressaltou, de maneira especial, o grande apoio da Prefeitura Municipal, através da pessoa do seu dinâmico Prefeito Arsênio Rolim Araruna e da benemérita Câmara de Verea­dores, tendo como Presidente o Sr. José Bonifácio de Moura, pela doação de um terreno de nove (09) hectares, com sua escritura devidamente registrada no Cartório do Registro de móveis, deste Município, no qual foi construído o Seminário.
Em seguida, convidou, D. Antônio Campelo, Bispo Auxiliar de Cuiabá, para usar da palavra, conclamando toda a Diocese de Cajazeiras cerrar fileiras, ardorosas e generosamente, na grande cruzada pela causa da construção e funcionamento do Seminário.
Dom Campelo, conhecedor profundo da fé e da generosidade do povo sertanejo, concitou os católicos da Diocese a prestarem o mais decisivo e irrestrito apoio ao empreendimento da criação do Seminário, obra fundamental e anseio ardente do coração de seu grande Pastor D. Mousinho.
Procedeu-se, finalmente, o lançamento da pedra fundamental que foi colocada dentro de um tubo metálico “juntamente com objetos da época, quais sejam Moeda do Brasil e uma do Estado do Vaticano, jornais, etc.”.
O Sr. Bispo depositou o invólucro em um receptáculo especialmente preparado, selando-se com cimento que os guardará à posteridade. Tudo foi depositado e acompanhado de um original da Ata da solenidade, escrita pelo Padre Américo Sérgio Maia, Vigário da Paróquia de Nossa Senhora da Piedade e Cura da Sé.
Convém notar que antes de ser depositado o original da referida Ata, no aludido receptáculo, foi extraída da mesma uma cópia, naquele momento, como perpétua memória daquela ocorrência verdadeiramente histórica.
Cumpre-me, ademais, registrar que assinaram aquela ata, após sua leitura e aprovação, os Exmos. Srs. Bispos, sacerdotes e autoridades presentes, a saber: D. Luís do Amaral Mousinho, D. Anselmo Pietrulla, D. Antônio Campelo, Arsênio Rolim Araruna, Prefeito Municipal; Dr. Antônio do Couto Cartaxo, Juiz de Direito da Comarca de Cajazeiras; José Bonifácio de Moura, Presidente da Câmara Municipal; Mons. Abdon Pereira, Padre Osias Teixeira Leite - SDB, Padre Zacarias Rolim de Moura, Padre Oriel Antônio Fernandes, Padre Mário Balbi - SDB, Padre Luís Laires da Nóbrega e Padre Américo Maia.

FESTA DE INAUGURAÇÃO
No dia 30 de janeiro do ano de 1955, dia inesquecível e histórico para toda a Diocese de Cajazeiras, foi inaugurado, solenemente, o Seminário Nossa Senhora da Assunção.
Cajazeiras desperta alegre e feliz, pelas quatro horas da manhã com uma alvorada festiva. Ouve-se o troar de bombas. Escuta-se a execução de melodiosos dobrados da Banda de Música Municipal a desfilar pelas principais artérias da Cidade.

SOLENE PONTIFICAL
Prosseguindo a programação desta data inaugural, às cinco ho­ras da manhã, D. Zacarias Rolim de Moura celebrou Solene Pontificai, na antiga Catedral de Nossa Senhora da Piedade, atual Matriz de Nos­sa Senhora de Fátima, em ação de graças pelo feliz evento da conclu­são dos trabalhos da construção do Seminário Diocesano, cuja inaugu­ração, naquele dia, se efetivava solenemente. Ao Evangelho, fez um be­lo sermão o Côn. Manoel Vieira, Diretor do Ginásio Diocesano de Patos, ressaltando o altíssimo significado da inauguração do Seminário, para a formação dos futuros sacerdotes da Diocese de Cajazeiras.

 
Ato inaugural do Seminário N.S da Assunção. Dom Luiz do Amaral Mousinho e Dom Zacarias Rolim de Moura 

ATO INAUGURAL
Assistiram à Solene Missa Pontifical os Srs. Bispos: D, Luís do Amaral Mousinho, D. Aureliano Matos, D. Manoel Pereira da Costa, o clero, religiosas, autoridades locais, seminaristas, representações das paróquias e o povo católico em geral.
Chegando a Procissão ao Seminário, procedeu-se imediatamente à inauguração. Fizeram-se ouvir quatro oradores: D. Zacarias Rolim de Moura, D. Luís do Amaral Mousinho, Côn. Manoel Vieira e Mons. Abdon Pereira, os quais extravasaram seu contentamento com a indivisível vitória da Diocese de Cajazeiras que, após uma batalha de grandes e incontáveis sacrifícios, nesta data marcante e jamais esquecida, inaugurava o majestoso edifício do Seminário Diocesano, mercê de Deus e das bênçãos de Nossa Senhora da Assunção.
Proferidos os discursos, é chegado o momento do corte da fita simbólica de inauguração. A fita deveria ser cortada pelo Côn. Manoel Vieira, honra que lhe coubera por ser Diretor do Ginásio Diocesano de Patos, que mais contribuíra na Campanha Mariana, em favor do Seminário. Entretanto, o Revmo. Côn. Manoel Vieira declinou da honra para o Exmo. Sr. D. Luís do Amaral Mousinho, uma vez que ele, quando Bispo de Cajazeiras, tinha lançado a Pedra Fundamental do bonito edifício que ora se inaugurava.
Organizou-se uma triunfal procissão com a imagem de Nossa Senhora da Assunção, Padroeira do Seminário, partindo do Palácio Episcopal, em piedosa e festiva caminhada, para o Seminário.

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fonte: Diocese da Cajazeiras - livro 'Os Garotos de Ouro'

segunda-feira, 6 de janeiro de 2025

Vladimir de Carvalho, Cajazeiras e o espírito da cultura

porJosival Pereira


Cajazeiras fez com Vladimir de Carvalho o que deveria ser regra para o reconhecimento de grandes talentos ou seres humanos excepcionais: a homenagem em vida. Na década de 1970, um bando de jovens ousados e sonhadores fundou o Cine Clube Vladimir de Carvalho, então presidido pelo jornalista Nonato Guedes, com o objetivo de discutir cinema e ser mais trincheira de combate à ditadura militar.

Certa noite, estava na Toca, barzinho na Tenente Sabino montado pelo ator Sávio Rolim e família, numa tentativa de volta às origens, quando apareceu alguém da Fafic (Faculdade de Filosofia Ciências e Letras) informando que havia dois homens procurando por pessoas do Cine Clube de Vladimir de Carvalho. Fui lá e, para surpresa, era o próprio, acompanhado pelo irmão Walter Carvalho, fotógrafo e posteriormente diretor de cinema.

Vladimir queria conhecer as pessoas que faziam o cine clube com seu nome, mas também fazer tomadas para o documentário O Homem de Areia, que à época tinha o nome provisório de sem me rir, sem chorar.

Naquela noite, Vladimir quis voltar ao Barraco do Teteu, barzinho de madeira sem porta, que não fechava nunca, para onde os boêmios e beberrões de cidade acorriam durante a madrugada para saborear o famoso caldo de mocotó de Joaquim, e cenário usado por ele para filmagens de cenas com violeiros cantando para o País de São Saruê, que estava sob censura e impedido de exibição.

No dia seguinte, Vladimir e Walter captaram imagens de árvores secas, pássaros, agricultores arando a terra e um homem montado a cavalo, vestido de azul, passando distante, representando Zé Américo (O homem de Areia), indo para a cidade Sousa tomar posse no cargo de Promotor de Justiça.

Depois, Vladimir de Carvalho voltou a Cajazeiras, em 2000, a convite do deputado Edme Tavares, para realizar documentário e ministrar seminário por ocasião das comemorações do bicentenário do padre Rolim (Inácio de Souza Rolim), que deu forma e asas à cidade, fundando uma escola na primeira metade do século XIX.

Sempre solícito, consciente do fantástico potencial do interior do Nordeste e especificamente do Sertão da Paraíba, cenário e ambiente cultural de muitos de seus documentários, Vladimir Carvalho propagava, sorrindo, a extraordinária grandeza da humildade.

As entrevistas vieram depois, em João Pessoa, mas nada se compara com aquelas cenas em torno do cine clube e das passagens de Vladimir de Carvalho e outros expoentes da cultura por Cajazeiras, certamente, o que ajudou a dar combustível ao movimento cultural lá do Sertão, que projetou e ainda projeta grandes talentos cajazeirenses para brilho no teatro, cinema nacional e na televisão (Eliezer Rolim, Marcélia Cartaxo, Soia, Nanego, Buda e Bertrand Lira, Tardelli Lima, Suzy Lopes, entre muitos outros nomes), sem deixar de mencionar o nome do professor Lúcio Vilar, que foi presidente do Cine Clube Vladimir de Carvalho e que sustenta anualmente a realização do Fest Aruanda (festival de cinema da Paraíba).

Essa ligação de Cajazeiras com Vladimir de Carvalho e vice-versa não se deu por acaso. Era movida pela força da história e do espírito da cultura. Não se encerrará.

P.S: Vale lembrar que o Cine Clube Vladimir de Carvalho também atraiu para Cajazeiras, para ministração de curso sobre cinema, o grande crítico e professor Jean-Claude Bernardet.


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domingo, 22 de dezembro de 2024

CONVERSAS DE CINE ÉDEN: No Natal sempre um grande filme

porCleudimar Ferreira

A única e principal imagem do Cine Éden com letreiro do Cajazeiras Ideal Clube acima.
foto (provavelmente) de autoria de Bosco Pinto


Como conciliar o encantamento do cinema com a mágica noite de Natal. Bom, com relação ao cinema, aparentemente essa união não parece um tanto quanto distante, se não fosse as inúmeras produções sobre a cultura natalina, realizadas pela sétima arte, desde a sua invenção, até os dias atuais com o advento da era digital. Em função disso, é de se pensar que de fato há uma certa convergência entre ambos. Portanto, não resta dúvida que o tema Natal, sempre cativou a imaginação de diretores e produtores, mesmo não sendo uma totalidade. Além do mais, o cinema como um meio de entreternimento, pode ser para uns, uma opção de lazer nessa noite especial.  

No passado, em Cajazeiras, essa aproximação pareceu ser possível e, veio se tornar bastante regular, a partir da iniciativa do proprietário do Cine Teatro Éden, o senhor Carlos Paulino, em manter a tradição de sempre exibir com exclusividade na noite natalina de 24 de dezembro, um grande filme na sua extensiva tela de exibição. "Um grande filme". Intencional ou não, era assim que Paulino se referia a película desse dia e, era dessa forma que o cinema anunciava o filme da noite de Natal. A atitude do dono do Cine Éden, era atrair a maior quantidade de gente; aumentar o fluxo na bilheteria e, evidentemente, promover uma melhor captação de recursos, visando um lucro financeiro imediato com essas exibições. Para público, a expectativa em torno desses filmes, se transformava em uma grande festa no Natal. 

Nesse dia, véspera do nascimento do menino Jesus, a noite na Rua Padre José Tomaz, destacadamente o trecho que corresponde a Praça Coração de Jesus, (antigamente Praça dos Carros) era o point dos transeuntes, cuja maioria, eram pais de famílias com seus filhos pequenos, que circulavam por toda extensão da praça, por entre as inúmeras barracas que no local eram instaladas, estocadas de brinquedos diversificados e atrativos natalinos, que encantava os olhos de todos. Principalmente das crianças ansiosas, agarradas nas pernas das calças dos pais ou puxando a saia das mães; atraídas pelas ofertas de brinquedos, temerosas em se perder dos pais entre esses pontos comerciais e ambulantes persuadidos a vender. 

A iluminação dessa parte da Rua Padre José Tomaz, fora a já existente dos postes, era acrescida também por gambiarras com lâmpadas comuns e coloridas, tornando o espaço mais iluminado e alegre. Dando uma sensação de prazer e cores para todos que passeava pelo trecho. Era assim o único local de divertimento da meninada na noite de Natal em Cajazeiras. Não havia outro lugar na cidade que pudéssemos hermanar nossas felicidades no dia da chegada do menino Jesus, pois no passado, a cultura do tal chester com a ceia em família, nem sonhava existia ainda no Natal das décadas de 60 e 70. 

Para os mais crescidinhos, já desapegados dos pais, o percurso da Praça Coração de Jesus era só uma passagem. Um corredor apertado de gente que empurrava todos e levava acidentalmente até a porta do cinema - o Cine Teatro Éden. A intenção; o interesse dessa pubescência na festa natalina, não era as luzes coloridas, a barulheira dos apitos e cornetas das crianças, nem as músicas natalinas nas difusoras de José Adegildes penduradas nos postes da Praça. Por certo, as cores e as músicas que tocava e ajudava a atraia milhares de pessoas no local, também não era a principal dimensão desses adolescentes. O desejo era ver o grande filme que ia passar no Éden. Costumeiramente, o filme era programado uma semana antes, porém com o merchan disponível pelo cinema de Carlos Paulino, somente às dezessete horas desse dia 24. 

Fora isso, para esse público, o que complementava a tradicional noite de Natal na cidade, era o vai-e-vem das pernas dos mocinhos e das mocinhas, que circulavam ansiosamente da Karlos Center até a esquina da Rua Cel. Matos, esperado o momento para ver o filme do Éden e, depois, a hora de entrar, ou na Boate Chapéu de Couro ou no Cajazeiras Ideal Clube do edifício Ok. Para os menos avançadinho, o filme do Éden já era o bastante. Muitos garotos apaixonados por cinema, sonhava o ano todo com esse dia e com esse momento. Não tenho vergonha de dizer, que eu era um desses. 

As películas exibidas na noite de 24, especial de Natal, quase por unanimidade e aclamação popular, era os filmes do gênero faroeste. Nos natais dos anos sessenta, os grandes filmes exibidos nesses dias, na sua maioria, eram os protagonizados pelos lendários atores John Wayne, Audie Murphy, James Garner e Gary Cooper. Já nos anos setenta, as estrelas dessa categoria de filme, variavam entre Clint Eastwood, Franco Nero, George Hilton, Terence Hill e o ítalo brasileiro Anthony Steffen. Não havia espaço para outra espécie de filme na programação do Éden nesse momento do ano. Era esse o gosto popular que satisfazia a vontade da maioria. 

Esse enredo natalino só era mudado, quando vez por outra, um acordo do Cine Éden com um exibidor independente, provocava um aparecimento de uma veraneio pelas ruas de Cajazeiras, abarrotada de difusoras no seu teto, cartazes e fotografias nas laterais, anunciando no finalzinho da tarde desse dia, um filme surpresa que provavelmente seria melhor do que o programado pela direção do principal cinema da cidade. Mas isso era uma raridade acontecer. Fora isso, era mantido o tradicional presente de Natal do Cine Éden para o público frequentadores da sua sala de exibição.

Certamente, com as circunstâncias do tempo na estrutura urbana da cidade, assim também, na vida social de sua população, vieram as modificações que não permitiram hoje a existência de momentos assim no Natal da cidade. As ações do tempo; as mudanças que ocorreram, não deram espaços para o romantismo dos natais de antigamente. Ou seja, tudo foi passando, ficando para trás, não emergiu mais e hoje não faz parte do brilho natalino de Cajazeiras. Quanto ao Cine Teatro Éden, as icônicas sessões de cinema dessas noites de Natal, ficaram nas lembranças dos seus fiéis frequentadores ou daqueles que aguardavam o ano todo, só para ver aquele, que na cabeça do exibidor Carlos Paulino, era considerado um grande filme.

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sábado, 21 de dezembro de 2024

Por que Cajazeiras perdeu sua ferrovia?

porAlexandre Costa


Ponte sob Rio do Peixe. Trecho do ramal ligando São João do Rio do Peixe a Cajazeiras. Foto: Cleudimar Ferreira


O ano era 1922, na tarde ensolarada do dia 15 novembro, os cajazeirenses comemoravam exultantes, a chegada do trem na cidade, mesmo depois de ter ficado de fora do traçado original da Rede de Viação Cearense (RVC). A rota original, partindo de Lavras da Mangabeira (CE), prévia contemplar Cajazeiras seguindo para SousaPombal e Patos, mas foi alterada deliberadamente para atender e beneficiar diretamente a cidade de Antenor Navarro, hoje São João do Rio do Peixe, terra natal do então deputado estadual Padre Joaquim Cirilo de Sá.

Os cajazeirenses não tinham muito a comemorar naquele dia, pois, na verdade, tratava-se apenas da inauguração de um ramal ferroviário, no fundo, aquilo era mero cala boca para a cidade e uma tremenda passada de pano do Presidente Epitácio Pessoa no imobilismo e falta de prestígio dos líderes políticos da época, os Coronéis Sabino Rolim, Joaquim Matos e Juvêncio Carneiro que depois de sofrerem uma humilhante rasteira do Padre Sá tiveram que correr atrás do prejuízo.

Ingerências políticas para alterar traçados de ferrovias e rodovias eram práticas recorrentes na época. Padre Cicero priorizou Juazeiro do Norte no traçado principal da ferrovia deixando a cidade de Barbalha assistida com um simples ramal. Idêntico caso aconteceu com Iguatu quando o poderoso líder político e intendente do município coronel Belizário Cícero Alexandrino desrespeitando critérios de viabilidade técnica e econômica conseguiu alterar a rota original da ferrovia Baturité-Icó para Baturité-Iguatu, uma intervenção ousada e determinante que catapultou aquela cidade assumir a hegemonia econômica na região do centro-sul cearense.

Esses e outros fatos semelhantes mostrando os impactos socioeconômicos da implantação de ferrovias no Nordeste são narrados com precisão e riquezas de detalhes no livro, Ferrovias do Ceará de autoria do empresário e professor universitário Rubismar Marques Galvão que pela sua importância tornou-se uma referência e uma fonte segura, para pesquisadores, estudantes e apaixonados pela história das ferrovias no Brasil.

Mesmo assistida com um simples ramal ferroviário, Cajazeiras comemorava com orgulho a sua inclusão na malha ferroviária nordestina vislumbrando que ali estava o passaporte rumo à hegemonia econômica no Alto Sertão da Paraíba. Ledo engano. Depois de 42 anos em operação, o ramal ferroviário São João do Rio Peixe-Cajazeiras foi sumariamente extinto numa canetada do Governo Militar em 04 de junho de 1964 sob alegação de operação deficitária. A partir deste malogrado fato, a cidade passaria a conviver uma máxima perversa que nos ronda até os dias de hoje: Cajazeiras a cidade do “Já teve”.

A reação veio rápida com um manifesto de protesto articulado pelo historiador cajazeirense Otacílio Cartaxo e o vereador Abdiel Rolim. Cartaxo propunha além de reativar o ramal implantar o trecho de Cajazeiras ao entroncamento ferroviário de Serra Talhada (PE), mas os altos custos para implantação desse novo trecho serviram de pretexto para também sepultar a reativação do ramal. Otacílio pode ter sido estratégico, mas não foi tático, esse foi o seu grande erro.

Hoje, há exatos sessenta anos de isolamento ferroviário estamos inertes diante de uma oportunidade única de nos reintegramos na nova malha ferroviária em implantação no Nordeste: a ferrovia Transnordestina. Um megaprojeto com 1750 km de trilhos interligando o Piauí aos portos de Suape (PE) e Pecém (CE). O Rio Grande do Norte saiu na frente ao anunciar estudos à reativação do antigo trecho ferroviário Mossoró (RN)-Sousa (PB) interligando com a Transnordestina no entroncamento de Missão Velha (CE).

E a Paraíba? Desconheço qualquer projeto ferroviário consistente para interligação com a Transnordestina. Não vejo saída, a Paraíba continua condenada a permanecer literalmente fora dos trilhos.

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Postagem publicada em 06/04/2024, no portal Diário do Sertão / https://www.diariodosertao.com.br/coluna/por-que-cajazeiras-perdeu-sua-ferrovia

terça-feira, 10 de dezembro de 2024

SOBRE O SENTIDO DE ESTARMOS AQUI

porFrancc Neto




O sentido de estarmos aqui é uma questão que escapa a qualquer resposta definitiva. "Aqui" não é apenas um lugar; é uma condição. É o fato de sermos lançados ao mundo, existindo no tempo e no espaço, atravessando experiências compartilhadas e individuais. É o estar no mundo junto com o outro, com a natureza, com o desconhecido. Viver é construir sentido, mesmo que esse sentido seja transitório e frágil, algo que criamos no encontro entre as perguntas e os gestos do cotidiano.

Para mim, aniversariar, seja no dia do nascimento ou no renascimento, é um momento de profundo significado. Hoje completo 64 anos, mas considero o dia 22 de janeiro tão significativo quanto: a data em que recebi um transplante de fígado, substituindo um órgão tomado por um tumor. Foi ali que ganhei uma nova oportunidade, um novo signo para minha existência. Não que eu tenha mudado meu olhar de maneira absoluta, mas ele passou a brilhar um pouco mais, estimulado pela gratidão de continuar.

Esse brilho não vem de otimismo ou pessimismo; é algo mais complexo. Como o niilismo ativo de Nietzsche, não vejo a vida como desprovida de sentido, mas como um espaço aberto para construí-lo. Nesse espaço, há temperança, resiliência e a consciência de que dar sentido é uma tarefa contínua. Se não damos sentido, como fica a vida? O mundo, afinal, está cheio de significados ocultos, desde as pedras que sentem e constroem suas histórias até as formigas, que me fazem refletir sobre como repousam em meio a uma vida organizada e frenética.

Deus, para mim, é a soma de todas essas possibilidades. Está no humano, na natureza, na capacidade de criar e recriar significados. Não espero um retorno de Cristo porque, para mim, Ele nunca partiu. Sua presença está em cada ato de enfrentamento, em cada oportunidade de viver e dar sentido.

No fundo, viver é um movimento. Não há um destino fixo, mas um processo. Como as pedras que resistem ao tempo, como as formigas que constroem juntas, como nós, que buscamos encontrar pausas e equilíbrio na nossa incessante busca por sentido.

E talvez o sentido maior esteja na consciência da nossa própria transitoriedade. Comemorar o transplante, para mim, é celebrar a vida que insiste em acontecer, mesmo diante da adversidade. É lembrar que viver é estar aqui, agora, partilhando, perguntando, construindo histórias, deixando marcas.

Estar aqui é, em última instância, um ato de coragem. É a disposição de olhar para o horizonte sem respostas definitivas, mas com esperança. É aceitar que o sentido não nos é dado; é algo que criamos, juntos, no ato de existir.




domingo, 1 de dezembro de 2024

Os Perigos de Nyoka

porFrutuoso Chaves

A atriz Frances Grifford, em 'Jungle Gril' (Garota da Selva). Seriado de 1941


O menino que eu fui aguardava com certa ansiedade as noites do sábado, no Pilar da minha infância. Às 20 horas, em ponto, Seu Zé Ribeiro mandava o ajudante Jiló apagar umas poucas lâmpadas do Mercado Público, onde, momentos antes, as famílias locais haviam arrumado cadeiras domésticas para mais uma sessão de cinema.

O Cine Ideal, que ele faria tijolo por tijolo, cadeira por cadeira, ainda não havia sido construído. Na área do Mercado reservada ao comércio de cereais e farinha (o que ajudava na brancura da tela pregada a uma das paredes) quem não levava cadeira de casa arranjava-se com as bancas da feira mesmo.

Ambiente escuro, a sessão iniciava-se com a projeção de alguns desenhos animados, com trailers de atrações futuras e com o futebol do Canal 100, hora de gritos e aplausos em todas os cinemas do País e, assim também, no espaço acanhado de Pilar. Isso, apesar do enorme atraso na exibição dos jogos.

Antes da projeção do filme principal, a sessão era interrompida e Jiló tratava de reacender as lâmpadas enquanto Seu Zé fazia a primeira troca de rolos na velha máquina de 35 milímetros. Havia quem não gostasse da interrupção. Uma ou outra vaia, porém, podia ser punida com a expulsão do recinto e a devolução do dinheiro empenhado no ingresso. Mais do que o olho de lince do saudoso cinemeiro, capaz de identificar as molecagens de Sapé e Paulo Barbosa onde quer que sentassem, era o medo de perder o seriado aquilo que fazia os mais impacientes aguentarem as três seguidas trocas de rolos do filme do dia.

Depois disso, estava armado o palco para a atração que levava a meninada do meu tempo ao cinema improvisado de Seu Zé: “Os Perigos de Nyoka”, o seriado que iríamos comentar até o capítulo novo do sábado seguinte.

Ah, quantas noites de sono a bela Nyoka não nos fez perder. E, para piorar, naquela fase de crescimento em que a visão de um belo par de pernas não costumava trazer bons pensamentos. O da moça, visto de determinados ângulos, superava a sua bravura.

Ficar em episódio passou a definir qualquer situação de risco vivida pelos da minha geração: a perspectiva da nota ruim na escola, a da arenga dos pais, ou a do temido fora da menina a quem se pretendesse namorar. Ao contrário de Nyoka, que escapava de qualquer perigo, nem sempre conseguíamos vencer uma ou outra encrenca em que nos metêssemos.

Mas, sem maiores problemas, a vida fluía de sábado em sábado. Às quartas-feiras, Seu Zé apanhava, manhã cedo, o trem da Great Western para o Recife de onde voltava à noite com as fitas alugadas da Metro ou de outras companhias distribuidoras. Ele escondia a sete chaves os títulos da semana (um para o sábado e outro para o domingo), até a exibição dos cartazes em postes e pés de fícus da cidade.

Dona Sílvia, a professora, torcia pelos filmes românticos que os mais novos detestavam. Queríamos mesmo eram os sopapos de Durango Kid, Roy Rogers, ou do Zorro. Não aquele de capa e espada, mas o de dois revólveres com seu cavalo e seu companheiro, o índio Tonto.

De uma coisa todos tínhamos certeza: Nyoka, em mais um de seus capítulos, seria a cereja do bolo. Depois dela, tudo terminava.

A série foi um sucesso mundial lançado em 1942 pela Republic Pictures, de William Witney, anos antes de que eu viesse ao mundo. Kay Aldridge encarnava a personagem inspirada no romance “Jungle Girl”, de Edgard Rice Burroughs. Era, portanto, uma Tarzan de saia. E que saia...

O seriado que eu vi desenrolou-se em 15 capítulos semanais com duração total próxima dos 300 minutos. Sua realização ocorreu de junho de 1942 até abril de 1952. Que saudade.


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