terça-feira, 14 de março de 2023
Rolin, Rolim: da França a Cajazeiras.
sábado, 11 de março de 2023
A KOMBI AZUL
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fonte: Jornal A União, edição de 10/03/2023. Desenho vetor, fonte: Depositphotos
quinta-feira, 23 de fevereiro de 2023
Buda Lira: “É preciso mudar para melhor o carnaval de rua da Paraíba”
Buda
Lira: “É preciso mudar para melhor o carnaval de rua da Paraíba”
“Precisamos e podemos mudar pra melhor o carnaval
de Rua da Paraíba”, diz o ator Buda Lira, que é membro fundador do Bloco Cafuçú (Foto/Secom JP). Nesta quinta-feira (23), a coluna é dele, em texto que fala
sobre a importância do Folia de Rua, a responsabilidade dos governos e a
necessidade de remodelação do carnaval. Segue o texto de Buda:
MUDAR O CARNAVAL PARA MELHOR
Buda Lira
A volta do carnaval, após três anos de quase
silêncio total, recompõe energias da maior festa popular de rua do país. A
movimentação de blocos, tribos indígenas, ala ursas, clubes de orquestras e
bailes, aqui na Paraíba, tanto na prévia como nos quatro dias da festa, reafirma
o seu potencial econômico, os aspectos revigorantes sociais e culturais que
bordam a festa.
No caso da Paraíba, é inegável a contribuição do
movimento que resultou no Folia de Rua a partir do surgimento espontâneo das
Muriçocas do Miramar e que gerou mais dez outros blocos de rua: Bulachas,
Cafuçu, Fera C.A, Filhos da Alegria, Imprensados, Morcegos, Patotinha do
Eraldo, Turma do Bôbo, Urso Gay e Virgens de Tambaú.
A partir da iniciativa genuína desses onze blocos,
foi produzido o LP Folia de Rua como ato inaugural do projeto.
Antes, o compositor e cantor Fuba já havia lançado o LP Carnaval
de Fuba e as Muriçocas do Miramar para marcar os cinco anos de criação
do bloco e que serviu de inspiração aos blocos no processo de criação do Folia
de Rua.
Entre 1991 e 1993, um entusiasmo contagiante tomou
conta desses onze blocos que apostaram na possibilidade de redimensionar o
carnaval da cidade com o crescente brilho da prévia e que de fato reacendeu o
interesse pelo carnaval da capital.
Com a venda antecipada (bônus) dos LPs, foi
possível produzir por inteiro o disco que teve a Orquestra Metalúrgica (Maestro
Chiquito) como base musical do trabalho.
Essa é a
verdade de quem viu e viveu por dentro a criação do Folia de Rua, na condição
de membro fundador do Bloco Cafuçú. O resto é bobagem e contorcionismo de
interesses que tentam sombrear um momento singular da vida cultural e política
da cidade.
A
propósito, é urgente a retomada das ideias e iniciativas que deram sentido a
esse movimento do carnaval: protagonismo da produção musical paraibana e dos
artistas paraibanos nos espaços da festa; requalificação das estruturas de
produção do evento; formação contínua de seus principais gestores e produtores;
e melhoria na comercialização dos espaços atraentes do evento.
Necessário
dizer que essas essas propostas necessitam da vontade política dos blocos e
agremiações e passam pela responsabilidade de governos.
Entendido
como tarefa primeira das agremiações a remodelação do carnaval, cabe aos
governos, no curto espaço de tempo, realizar com antecedência editais públicos
que possam repercutir na mudança de postura das agremiações, estimulando a
preparação de aspectos primários na gestão da festa. Ao mesmo tempo em que
podem ofertar incentivos para melhoria nas áreas de gestão e planejamento do
carnaval de rua no longo e médio prazo.
São mais
do que necessárias essa tensão e tesão na crença de que precisamos e podemos
mudar pra melhor o carnaval de rua PB.
Buda Lira é ator e membro fundador do Bloco Cafuçú.
segunda-feira, 20 de fevereiro de 2023
Cineclube Vladimir Carvalho em Cajazeiras
terça-feira, 7 de fevereiro de 2023
Com homenagem a Zé do Norte, começou as inscrições para 6º Festival de Música da Paraíba
O festival de música é uma realização do Governo do Estado, por meio da Empresa Paraibana de Comunicação, por meio da Rádio Tabajara, Secretaria Institucional de Comunicação (SECOM) e Fundação Espaço Cultural (FUNESC). As premiações somam um total de R$ 30 mil. Além das três canções vencedoras, serão premiadas a melhor interpretação e a canção escolhida por votação popular.
O evento surgiu da necessidade de se ter um projeto para estimular e evidenciar a produção no estado, dando voz a novos talentos. Em sua sexta edição, o certame procura dar visibilidade à produção musical do nosso Estado. Mantendo o objetivo de reconhecer e divulgar a música paraibana, descobrindo e valorizando artistas que vêm surgindo no cenário cultural.
Assim como nas edições anteriores, podem participar do festival compositor paraibanos com residência comprovada no território estadual ou artistas de outros estados, desde que comprovem ser residentes na Paraíba há pelo menos dois anos. Além disso, é preciso ter idade acima de 18 anos e se inscrever com música autoral inédita, uma vez que a natureza do festival é de revelação e valorização do artista autoral.
As duas eliminatórias e a grande final acontecem respectivamente nos dias 26 e 27 de maio e 3 de junho. As apresentações serão transmitidas ao vivo pela Rádio Tabajara.
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PARA CONSULTAR O EDITAL; A FICHA DE INSCRIÇÃO E OUTRAS INFORMAÕES; ACESSE OS LINKS ABAIXO:
quarta-feira, 25 de janeiro de 2023
Um Título de Cidadão Cajazeirense Para Mario Teixeira
Cleudimar Ferreira
Durante tudo esse mês de janeiro, a cidade de Cajazeiras voltou à cena nacional em diversos momentos, mostrando através das suas estrelas e do seu estrelato, porque é hegemônica na linguagem cênica entre as demais cidades do interior desse país. Por conta disso, o glamour tomou conta do orgulho de sua gente, provocando no seio de muitos, motivos para falações e olhares curiosos nas imagens que foram exibidas tanto na TV como nas redes sociais e outros apetrechos midiáticos que a internet dispõe.
Mas o que possibilitou sua fama ser exposta assim, mais uma vez, como fora em outros instantes no passado? O que alimentou o devido destaque nas redes sociais e nos programas de TV e em outros veículos de comunicação de massa - principalmente aqui na Paraíba, foi o gancho proposital dado por Mario Teixeira, autor da Novela das Seis, da TV Globo. Nesse sentido, já é por demais conhecido do público, que a novela escrita por Mario Teixeira, carrega no seu elenco três atores cajazeirense. Quase todos, com exceção, acho, da atriz Susy Lopes, com formação inicial feita a partir do engajamento no mobilizado teatro que a cidade teve até aqui e, que ainda permanece ativo na atualidade, mesmo sem tanta luz como fora no passado.
Por isso, não é exagero dizer que a inclusão da cidade no texto da novela global, não veio de graça ou caiu por acaso de paraquedas na seara dos que fazem hoje o teatro em Cajazeiras, mas desembarcou baseado nos seus méritos; no tudo que a cidade construiu no campo das artes cênicas nas últimas três décadas. Ou seja, no seu compromisso com a história da dramaturgia nordestina. Um trajeto percorrido com muito esforço e trabalho; com tantas lutas e a perseverança dos seus muitos agentes envolvidos com essa prática.
Cajazeiras não é exageradamente nenhum mar com constelações de estrelas. Mas modestamente, é um oceano no sertão repleto talentos; de atividades práticas e criativas, viva, quando o assunto em questão é cultural. Uma cidade onde todas as artes, principalmente a linguagem cênica, convergem e circulam livremente junto com os ventos das noites; dos dias secos de verão e, das manhãs amenas bem sedo tecidas de sol. Um lençol de seda dourada que nos envolvem num querer, num gostar e nas suas inspirações artistas que tanto tem nos colocado no topo dos grandes centros irradiadores de cultura do Nordeste e do Brasil, por que não!
Mas tudo foi um processo. Um laboratório experimental que veio lá de trás com seus pioneiros. Uma gente boa que abnegou na linha do tempo até chegar aos frutos de hoje. Um processo continuado que nos caracterizou como a cidade destaque nas artes cênicas; que começou formatar-se e concretizar-se com a construtiva ação de Íracles Pires-Ica (in memoriem), nos anos 50 e 60. Trabalha esse que fez Dona Ica ser hoje reconhecida como a matriarca do nosso tão sucedido movimento teatral.
Se nesses anos o trabalho de Dona Ica teve significância no contexto das nossas representações dramáticas; nos anos seguintes, outro personagem por demais quixotesco, emoldurou nosso cordel cultural com a modernidade do seu teatro ideológico, de resistência, influenciando toda uma geração que advieram daquele presente, para o futuro. Um legado que o ator, autor, dramaturgo Ubiratan di Assis, na década de 70 e parte dos anos 80, traçou e riscou nos caminhos de Cajazeiras a João Pessoa, com a sua moderna e engajada forma de fazer teatro, que se pareceu por demais revolucionária para esse tempo. Tanto foi que Ubiratan chegou e bateu facialmente nas portas dos teatros da capital, com o seu teatro vanguardista, galgando depois o destacado posto de primeiro gestor da Federação Paraíba de Teatro Amador - FPTA.
Da contundente construção desse teatro além-sertão projetado por Ubiratan, vieram os mestres do futuro, como foram os casos de outros personagens, autores e diretores da nossa dramaturgia. O elenco foi vasto mais dar para arriscar alguns nomes. Eliézer Rolim (in memoriam), Tarcísio Siqueira, Roberto Cartaxo (in memoriam), Gutemberg Cardoso, Antônio dos Anjos (in memoriam), e um leque de atividades feitas por anônimos trabalhadores da atividade teatral, que tomou conta das escolas, das associações comunitárias e outros eventuais espaços cênicos que havia na cidade.
Essa movimentação durou, estendeu-se, foi segurada pelas mãos dos deuses do teatro até chegar à contemporaneidade, revelando-nos estrelas, que passaram a brilhar tanto na telinha quanto na telona. Olhando para trás, quem não lembra o trabalho do próprio Ubiratan na novela regional Velho Chico. De Buda Lira, Marcélia Cartaxo e Ana d’Lira, todos com atuação destacadas em diversas minisséries e novelas.
Agora, tudo é festança. Tudo é contemplação de sonhos realizados. Tudo são ventos frescos de positividade e de outras perspectivas futuras para o nosso teatro. Nesse tudo, os atores Nenego Lira, Thardelly Lima e Susy Lopes bem que poderiam ser acolhidos na sua volta do Projac, como foram recebidos em 1984, Eliézer Rolim (in memoriam) e a trupe de ‘Beiço de Estrada’ pretensos aclamados aos fogos e batucadas desde a entrada da cidade até o seu centro comercial.
Se o feito de Eliézer e do Grupo Terra, em 84, lançou o nome da nossa cidade no circuito nacional das artes cênicas, o inventario nordestino assinado por Mário Teixeira, hora no ar pela TV Globo, foi mais além. Quem tem visto os capítulos da novela, viu que no conjunto de indumentárias de Mar do Sertão, o autor gentilmente incluiu no texto, citações de entidades e personalidades da nossa cultura. Atlético, Chico Amaro, forró, contendas futebolísticas entre Sousa e Cajazeiras. Um balaio destacado com parte da cultura cajazeirense que foi exposta para tudo Brasil. Um momento de louvação do nome de Cajazeiras, em cadeia nacional, que só trouxe positividade alto-estima para a cidade.
Portanto, uma cidade que viu tanto a sua produção cultural criar asas e voar tão alto, não negaria honras aos nossos atores e, principalmente, ao autor Mario Teixeira e a produtora Sílvana Feu de Mar do Sertão, pela prestação de serviço que fizeram, enaltecendo o nome de Cajazeiras na trama das seis. Seria o encontro da cidade com esses agentes culturais e a redenção de uma cidade que através da sua colenda Câmara de Vereadores, tem dado tantas titulações a muita gente que pouco ou nada de serviços prestados teve com a terra de Eliezer Rolim.
quinta-feira, 12 de janeiro de 2023
CONVERSAS DE CINE ÉDEN. O Privado período sem ver filmes no Éden
Naquela
tarde-noite de sábado, mesmo com a chegada da penumbra, ainda dava para ver nas
águas turvas do Açude Grande, as últimas cores do por do sol, caprichosamente espelhada
nos assentos dos bancos da Praça João Pessoa. Para quem gostava de gastar
pacientemente as poucas horas que ainda havia do crepúsculo, esperando a noite
chegar com a única sessão do Cine Éden, o cintilante sol nos acentos da Praça,
principalmente os que ficavam frente-a-frente com a fachada da principal sala
de exibição da cidade, percebia logo adiante na antessala do cinema, bem na entrada,
expostos aos olhos dos que queriam ver e dos que não; os estampados cartazes das
melhores películas que a programação do Éden podia oferecer para aquele mês: Viva
Django! Love Story, Os Canhões de Navarone eram os destaques e as estrelas
anunciadas.
Daciflay,
não era bem um personagem de um enredo ficcional. Era quase real mesmo! Embora
suas virtudes fossem surreais para a vida que ele levava. Ou seja, conduzia sem
diferenças uma vida de classe media bem sucedida para os padrões das famílias
sertanejas dos anos setenta. Eu pelo menos, dos filmes que assisti naquele que
foi o tradicional cinema de Cajazeiras, não lembro ter visto um personagem com
esse nome. A não ser o parecido George Mcfly da trilogia ‘De Volta Para o
Futuro’, dirigida por Robert Zemeckis. Falavam as línguas em sintonia com os
olhos bisbilhoteiros das cajazeiras daquele tempo, que o pai era um sucedido agropecuarista
e político em Saint Helen, no noroeste paraibano, fronteira com o Estado do
Ceará.
Carregando
naturalmente um trejeito que muito lembrava o comediante Jerry Lewis, Daciflay
não demonstrava apego a sua condição social, nem tampouco a alguma virtude que parecesse
ter. Pois entre todos que comungava da sua amizade, ser versátil, engenhoso e
articulista, erámos todos nós - confusos projetos de adolescentes com adultos, que parecia que não sair dessa fase
nunca. Por isso, tanto ele como todos os garotos de sua época, na pura
inocência da vida, achava que um desviozinho de conduta juvenil, não seria
motivos de punição perante as regras e os costumes das famílias da época. Sendo
assim, os atos que praticávamos, não passava de uma traquinagem um tanto quanto
inocente.
Se por
essa perdida razão, as artimanhas eram ou não um desvio de conduta, molecagens
de garotos em fase de amadurecimento ou algo que parecesse ser; para nós não
havia diferença nenhuma quando a tarefa que estava em jogo - à garantia certa da
entrada no cinema. E foi cegamente guiado por esse raciocínio; instruído nesse
caminho, que Daciflay nos envolveu numa arriscada missão. A de vender por vias
paralelas, de forma ilegítima, as entradas no Cine Teatro Éden. Esse momento eu
não esqueci, pois está sacrificado entre as lembranças que guardo em mim,
muitos delas vividas a partir das diversas sessões que vi nesse cinema.
O
principio de toda essa história, começou durante a convivência diária que todos
nós alunos do Colégio Comercial Monsenhor Constantino Vieira, tínhamos nos
intervalos das aulas. Depois de muitas conversas preliminares sobre essa perniciosa
tarefa, num desses espaços entre as aulas, Daciflay chegou para mim e Letto d’Drão
e nos contou com detalhes como seria a vendagem dos ingressos, bem como os
mesmos estavam sendo adquirindos. Segundo ele, as entradas seriam vendidas as
escondidas, em sigilo absoluto, para que ninguém ficasse sabendo dessa inclinação.
Aparentemente uma sutil burlada no faturamento do cinema, comparada a uma
parodia de alguns momentos da primeira fase do filme ‘Era uma vez na América´,
de Sergio Leone, onde garotos na flor das suas puberdades deixaram se levar por
brincadeiras ilícitas, que na vida real, fora da tela do cinema, seriam
sumariamente desaprovadas pelos nossos pais.
No final
da tarde do dia marcado para o inicio dessa atividade, depois das aulas, na
calada da unidade do SANDU que ficava vizinho do Colégio Comercial, outros
detalhes foram esmiuçados e esclarecidos. Um deles foi à necessidade de uma
atenção total na segurança da atividade. Para que tudo não desse errado. Daciflay
com seu senso de humor deixou clara que o sigilo absoluto era necessário para que
nada vasasse ou viesse à tona, pois se isso acontecesse, cada um teria que se
virar como pudesse com a Bomba H na carapuça. E lá fomos nós embarcar pela
primeira vez nessa aventura que nenhum pensava ou sabia que fim terminaria.
No
primeiro dia ficamos os três espalhados, fazendo ponto na esquina do Edifício
Ok, se valendo apenas da pouca luz da Rua Joaquim de Souza. No movimento de ida
e volta das 19 horas na Praça João Pessoa, no amplo intervalo antes da estreia
do filme ‘Três homens em conflito’, quase todos transeuntes que passava na
calçada do Edifício OK indo em direção do cinema, eram parados por um de nós e,
uma entrada ao cinema era oferecida. Os frequentadores do Cine Éden, apressados
para pegar a melhor cadeira, já vinham olhando e monitorando o crescimento da
fila na bilheteria. Procurando evitar enfrentar a fila, alguns compravam nossos
ingressos sem nenhuma objeção. Porém outros mais curiosos compravam, mas só
depois de uma longa conversa e, as perguntavas clássicas eram: - onde vocês
conseguiram esses ingressos? Porque estão vendendo? Isso vale mesmo? Não é
falso não? As respostas dos aprendizes de cambista saíam orquestradas: - Vale! É
estreia né! Desistimos de ver o filme, pois o cinema ficará lotado e vai
atrapalhar o entendimento filme. Assim, não dar! Resolvemos revender e ver o
filme com mais folga a amanhã.
Depois que
vendemos todos os ingressos nessa noite, saímos até a Praça da Cultura para
fazia o balancete. Quando chegamos ao local, Letto e eu, entregamos o dinheiro
a Daciflay e recebemos dele os ingressos para nossa entrada no Éden. Minutos
depois quando eu, Daciflay e Letto d’Drão, chegamos à portaria do cinema, o
tempo estava estourando. Faltava pouco menos de 20 minutos para o inicio da
projeção. Então, sem mais delongas, pegamos o rabo da fila da entrada, que
conforme o horário já era bem pequena. Entramos sem nenhuma cara feia do
porteiro e fomos ver o filme. Tanto Eu e como Letto, não tinha condições
financeiras nenhuma que favorecesse pagar três por semana a entrada no Éden.
Então essa brincadeira perigosa proposta pelo filho de seu Dacirvaldo, passou a
ser um alívio no bolço dos nossos pais.
No
transcorrer do tempo, envolvidos até a alma na atividade, percebemos que já
tinha passados quase três meses viajando nessa prática. Até que um dia o colega
Daciflay, depois de muita cobrança minha e de Letto para ele nos revelasse onde
estava à fonte da derrama dos ingressos, acabou entregando o ouro e nos dizendo
como as entradas estavam chegando às suas mãos. Meio tosco tenso e nervoso ele
falou que a mina estava com o porteiro do cinema. Como praxe, o porteiro - encarregado
original de receber os ingressos dos frequentadores, era o responsável pelo
repasse. Como era habitual, ele rasgava a maioria dos bilhetes e depositava na
urna, mas uma parte desses, ele simplesmente dobrava e colocava no receptáculo.
No dia seguinte, quando voltava às 8 horas para recolher os ingressos rasgados da
urna e queimar, conforme orientação dada pelo seu empregador, o exibidor Carlos
Paulino - proprietário do Cine Éden, ele recolhia os que estavam dobrados,
embolsava e, queimava o resto.
Essa
brincadeira para uns garotos que desconhecia os limites dos atos que
praticavam, estava indo muito bem. Pois até certo prazer em praticar era
visível em cada um nós, nos deixando sentimentalmente bem à vontade. Era a
garantia de não pagar o acesso ao cinema. Ganhava o porteiro do Cine Éden e
Daciflay o dinheirinho do lanche e, eu e Letto, a entrada no Cine Éden, principalmente
nas grandes estreias, como foi a do filme ‘O Dez Mandamentos’, com o lendário
ator Charlton Heston, onde a quantidade de ingressos que vendemos foi a maior
de todas.
Inocente do
perigo que poderia ocorrer, o porteiro ganancioso aumentou a quantidade das
entradas em nossas mãos no dia da rentrée do filme ‘Terremoto’. Nesse mesmo dia
Daciflay apresentou um terceiro personagem nessa história. Era Gilnécio que
passou a compartilhar conosco na estreia desse filme, a vendagem dos ingressos
ao cinema de Carlos Paulino. Confessor que fiquei assustado e temeroso, pois já
éramos quatro infringentes na prática, operando na área do Edifício Ok. Mas o
interesse de todos, superava qualquer possibilidade de fracasso ou de algo dar
errado. Por isso continuamos! Continuamos até que um dos frequentadores rompeu
o silêncio. Ele chegou à fila da bilheteria com um ingresso na mão e, ao se
dirigir a um amigo que estava na fila, disse que havia comprado um ingresso a
uma pessoa na esquina do Edifício Ok.
O soldado
Zé Maleiro, que era o encarregado de organizar a fila da entrada, estava
próximo, viu esse frequentador com o ingresso na mão e ouviu também o que ele
tinha dito para o amigo na fila. Zé Maleiro não perdeu tempo e, imediatamente
perguntou ao frequentador quem era essa pessoa que havia repassado o ingresso
para ele. O frequentador um tanto displicente não soube explicar quem era. Alguns
minutos depois Zé Maleiro percebeu que outro frequentador chegou e foi direto
para a fila de entrada com o ingresso na mão sem passa pela bilheteria. O
organizador das filas e do movimento da portaria do cinema aproveitou a
limitada luz do edifício Ok e se deslocou calmamente até a esquina do prédio.
Ao se aproximou e viu a nossa movimentação em uma nas esquinas da Rua Joaquim
de Souza com a Praça João Pessoa.
Ele
apressou o passo em direção a Daciflay que estava mais próximo dele. Foi quando
eu ouvi do nosso amigo a frase: - Sujou! Corre, lá vem Zé Maleiro. Nesse
instante, eu vi quando Zé Maleiro chegou a tocar no braço de Daciflay, mas ele
foi mais rápido e, juntos corremos desesperadamente em direção da Praça da
Cultura e, de lá, cada um tomou seu rumo em direção das suas casas. No dia
seguinte o terremoto desabou sobre o porteiro. Seu Calo Paulino, que não
costuma vir pela manhã ao seu cinema, chegou depois das 7 horas da matina ao Cine
Éden. Esperou friamente o porteiro que chagava, sempre às 8 horas, para
demiti-lo da atividade que exercia no seu cinema.
Sobre a conversa entre os dois nessa manhã, não seu dizer como foi. Só sei que o coitado do porteiro foi substituído e, Daciflay, passou um bom tempo sem aparecer se quer na calçada do Éden. Quanto a nós - Eu, Letto e Gilnécio, já que Daciflay não havia revelado ao porteiro quem estava com ele nessa operação e, nem o próprio Zé Maleiro, na noite do ocorrido fraga, tinha conseguido identificar quem estava com Daciflay vendendo as entradas, tivemos por um triz salvaguardado os nossos rostos. Mesmo assim, só fomos assistir o filme ‘Terremoto’ na ultima sessão desse filme no Cine Éden. Pelo menos foi esse o meu caso.