terça-feira, 5 de outubro de 2021
Dona Ica, uma das precursoras do teatro paraibano.
domingo, 3 de outubro de 2021
MICRO CRÔNICA
A CANÇÃO DAS ILUSÕES
Uma
canção que gosto demais. Ela me faz calar, ensina-me a amor e ser mais
apaixonado pelo mundo ou por tudo que é maravilhoso nele. Traz inspiração para um montão de coisas que preciso fazer e viver.
Até para sonhar o que ainda não sonhei. Certa vez eu dormi ouvindo
"Preciso aprender a só ser" e, nas alucinações das noites, numa dessas me vi num
espaço de alegria, felicidade, onde nada era real. Um lugar imaginário de
cores, luzes e vida.
Aproveitei
o máximo esse momento. Quando acordei, senti que minha cama era a mesma que
me fez adormecer no fechamento do dia e, sonhar com aquilo que eu queria para o
meu coração. Algo que estava ali, no mesmo espaço que eu vinha ocupando nas
últimas horas. O problema é que no criado mudo, o meu copo ainda úmido absintado, permanecia lá,
junto com as minhas lembranças. Com as lembranças de você, desfeitas com aquele
cheiro visceral e inquietante da sua ausência.
Não me dei conta da minha condição quase letárgica e, muito menos em que local estava os ponteiros do despertador. Apenas ouvi no canto eternizado das melódicas notas que entoava, os chacoalhes dos lençóis embriagados, embebecidos dos incensos passados, me convidando a escutar os primeiros cantos dos frientos pássaros, dando boas vinda a aurora que despontava pelas flechas da janela. Não tinha como calar meus instintivos pensamentos! Pois a música continuava tocando, mesmo a bateria do celular anunciando que a sua energia estava por um fio.
Nesse caso, esqueci a melodia e encarei a solidão como uma companhia, que embora ausente, se mostrava mais presente nos momentos de ebriedade. E percebi que a ilusão de tudo que sonhamos se completa, quando você descobre sua capacidade de sonhar. Mesmo quando você perceber que é capaz de mudar as coisas que pareciam distantes do seu mundo. Do mundo que você projetou e quer para si.
referencias da imagem acima: Menina na Janela. pintura de Salvador Dalí
terça-feira, 28 de setembro de 2021
Marcélia Cartaxo e Soia Lira são indicadas para o Troféu "Grande Otelo" do cinema brasileiro.
As atrizes cajazeirenses Marcélia Cartaxo e Soia Lira são indicadas no Grande Prêmio do Cinema Brasileiro - Troféu Grande Otelo, um dos mais importantes do audiovisual no país. As nossas duas atrizes destacaram-se juntamente com a atriz paraibana Zezita Matos - que também está sendo indicada para o prêmio, no longa-metragem Pacarrete, do cineasta Allan Deberton.
Marcélia é a protagonista e foi indicada na categoria Melhor Atriz.
Já Soia e Zezita, na categoria Melhor Atriz Coadjuvante. O filme recebeu 15 indicações,
entre eles o de Melhor Longa de Ficção, Melhor Longa de Comédia, Melhor
Primeira Direção, Melhor Roteiro Original e de Melhor Ator Coadjuvante para João
Miguel. O longa de Allan Deberton foi gravado na cidade de Russas, Ceará. A
cerimônia de entrega dos troféus Grande Otelo ocorrerá no dia 28 de novembro e
será transmitida ao vivo pela TV Cultura.
Cine Éden
por: Lincoln Cartaxo de Lira. Advogado, administrador e escritor.
Eu era garoto, não tinha entrado na
adolescência, mesmo assim, jamais consegui me libertar das imagens de
então, associadas ao velho Cine Éden, cinema localizado na minha cidade
natal (Cajazeiras). Com fachada meio sombria de um azul anil desbotado, para um
moleque, a verdadeira caverna de sonhos, com todos os tesouros de magia,
fascinação...
É, ressalte-se, um tempo em que o estudo era grande, o tempo era largo e o dinheiro curto, que só dava mesmo para pagar a meia entrada.
V
E o melhor: a quebra das fitas durante a exibição era um deus nos acuda, levava a sessão a ser interrompida para o conserto, debaixo de vaia ensurdecedora da plateia.
domingo, 12 de setembro de 2021
O Cine Pax
por: Mariana Moreira
Na
tela enorme do cinema um mundo se descortinava diante dos olhos da menina que,
oriunda da zona rural, se encantava com as maravilhas da urbanidade, como a
energia elétrica, as imagens de televisão, o cinema, as casas conjugadas, o
barulho dos automóveis, o pão aguado (ou francês) no café da manhã. O cinema
passa a fazer parte de sua vida muito precocemente. Morando no treco da Rua
Pedro Américo que dá acesso a Rua Dr. Coelho éramos vizinhos do Cine Pax, um
dos cinemas pertencentes à Diocese. O outro, o Apolo XI, situava-se nas
proximidades. Além disso, outras aventuras de exibição cinematográfica eram
registradas, como cinema mambembe de Otrope.
Não apenas a proximidade do
cinema me introduz na magia da sétima arte. O bilheteiro e porteiro era colega
de colégio de uma das minhas irmãs. Isso era um valioso passaporte para
assistir, de graça, a filmes quase todas as noites. Fitas, inclusive, com
recomendações de faixa etária bastante superior a minha idade. E qual malabarismo
desenvolvia para fugir a implacável perseguição do representante do juizado de
menores; um senhor surdo mudo cujo nome a distancia do tempo apagou e que,
várias vezes, percorria o cinema a cata de penetras que ousavam assistir a filmes
proibidos. Com destreza para escapar ao vigilante facho de luz de sua lanterna.
Retomada a normalidade
viajava nos cenários deslumbrantes de emocionantes histórias de amor, nas aventuras dos heróis de capa e espada, no
destemor dos cowboys de velho oeste americano, com sua indômita bravura, abrindo
fronteiras, exterminando índios e instituindo o modo de ser que domina o mundo.
Na mesma viagem de sombras e fantasias, soltava o riso inocente com as peripécias
e trapalhadas do Gordo e do Magro, dos Três Patetas, ou se emocionava com a tragédia
dos amores impossíveis das adaptadas tragédias shakespearianas. Um mundo novo
onde sonhar era a medida de todas onde sonhar era a medida de todas as coisas e
a vida se contagiava com o chiado do projetor que lançava imagens tão
deslumbrantes na grande tela branca. O fim da exibição trazia a realidade do
cotidiano, mas deixava a sabor encantado do onírico que acalentava as saudades
de Impueiras, a ausência dos pais, a incerteza do futuro.
Nos anos de 1980 a cidade de Cajazeiras assiste, impassível, ao fechamento dos seus três cinema. A massificação da televisão traz a comodidade da sala de estar, mas rouba o encantamento do sentar-se na poltrona e, entre pipocas, balas e beijos roubados da namorada, ver abrir-se ante seus olhos magias e realidades inventadas pela genialidade do homem. A televisão desencantou o mundo do cinema, alterou sociabilidade e deixou a cidade mais pobre de sonhos e encantamentos. E nas lembranças ainda revoam os cheiros, odores e sabores do Cine Pax hoje transformado em auditório, mas onde, outrora, como eu, muitos construíram mundos, ergueram fantasias e sonharam vidas.
Artigo publicado no Jornal A União do dia 10 de Setembro de 2021.
segunda-feira, 6 de setembro de 2021
A MAJESTOSA CATEDRAL DA PIEDADE.
Linda, majestosa e imponente. A beleza da Catedral de Nossa
Senhora da Piedade consegue superar chegando ao clímax quando encontra fotógrafo
inspirado como esse que fez essa foto, ou quando sua fachada ganha fleche de luzes e cores, assim
como se apresenta na imagem acima. Considerada o principal templo católico dos
cajazeirenses, a catedral tem na sua história, dois períodos tidos como
importantes na fé e devoção do povo de Cajazeiras.
O primeiro, por volta de 1915 quando esse título de catedral
passou a ser assumida pela atual igreja matriz de Nossa Senhora de Fátima, cuja
sua primeira construção, ou seja, a edificação da primeira casa de orações da
cidade se deu no século XIX, em 1836. De todas as igrejas católicas do
município de Cajazeiras, a matriz de Nossa Senhora de Fátima é uma das mais
antigas, tornando-se um importante acervo do patrimônio histórico da igreja romana na
terra das cajazeiras.
O segundo período que marca a sua história, se deu com a expectativa do inicio de sua construção,
que começou em 31 de janeiro em 1937, durante o bispado de Dom João da Matha de
Andrade Amaral. Com a quase que completa conclusão da construção, em 20 de
janeiro de 1957, veio em seguida à inauguração e as instalações definitiva no
novo templo, em 1959.
De característica arquitetônica ligada as construções
românicas, estilo que predominou antes do surgimento do gótico, a Catedral de
Nossa Senhora da Piedade tem na marquise do hall da sua grandiosa torre, uma
escultura da Pietá, que foi uma sugestão do então bispo Dom Zacarias Rolim de
Moura, que administrou a diocese do sertão até 1990. Além da imagem da Pietá, na mesma torre, há dois anjos em tamanho real, Gabriel e Arcanjo estão escorados, como de estivesse guardando o templo e vigiando a cidade 24 horas.
Sendo um motivo de orgulho de todos habitantes, a igreja
dedicada a Nossa Senhora da Piedade que também é a padroeira da cidade é sem
dúvida uma das mais belas do sertão da Paraíba, já que sua torre extremamente
alta se destaca na paisagem, podendo ser vista dos vários pontos mais distante da zona urbana
do município e, ainda pelos visitantes que vão chegando pelas estradas e caminhos que dão acessos à cidade.
Sempre, entre os dias 05 e 15 do mês de setembro de cada ano,
é realizada a festa consagrada a Virgem Maria. Na festa além das atividades
sociais e culturais, também acontece as celebrações litúrgicas, com destaque
para a grande romaria para homenagear e invocar a santa de todos os
cajazeirenses.
Cleudimar Ferreira
sexta-feira, 3 de setembro de 2021
CINEMA, NUNCA MAIS.
por: João Batista de Brito (escritor e critico de cinema e literatura)
Toda
história tem seu tempo e seu lugar. Esta não faria sentido, a não ser na
provinciana João Pessoa dos anos quarenta.
A família
era das mais tradicionais e o casarão ficava no Parque Solon de Lucena, na
época considerado área nobre da capital. Filha única, Doralice fora criada com
o zelo esperado: babá, aula de piano, Aliança Francesa, ginásio no Colégio das
Lourdinas, secundário na Escola Normal, e tudo mais cabível a uma moça de
família rica, ainda mais filha única.
Foi no tempo
da Escola Normal, ali na Praça João Pessoa, que os problemas apareceram. Não se
sabe como, Doralice conheceu esse rapaz, Júlio, e, em pouco tempo começaram um
namoro que, com certeza, se a família soubesse, desaprovaria de chofre.
Residente no bairro de Jaguaribe, humilde balconista de loja, o rapaz estava
longe de ter as credenciais necessárias. Os dois sabiam disso e por isso mesmo
se mantinham furtivos, feito dois criminosos.
Só conheciam
o caso algumas das colegas da Escola, e, possivelmente, algumas das irmãs e
mães dessas colegas, e... O fato é que o namoro chegou aos ouvidos da família,
e daí a pouco, estava peremptoriamente encerrado. Se Júlio sofreu, não se sabe,
mas, Doralice ficou mal, muito mal. Filha obediente engoliu o veto, a
separação, a dor...
Passou-se o
tempo e, com as estratégicas providências da família, eis que, anos mais tarde,
apareceu “o homem certo” para Doralice, esta agora já nos seus vinte e um anos
de idade. Seis anos mais velho que ela, Constantino era um alto comerciante,
dono de vários negócios na cidade. Com apoio e reforço da família, o namoro
logo virou noivado, que logo virou casamento.
E assim
Doralice foi se adaptando, como podia, a essa nova forma de vida, em sua
confortável nova residência, uma das mais elegantes da rua Duque de Caxias.
Não é que
não gostasse de Constantino, mas sentia que seu afeto por ele – um homem
bondoso e simpático – era, em princípio, diferente do que sentira por Júlio.
Havia carinho, sossego, respeito, mas não havia chama. Por isso, toda noite
rezava à Virgem Maria para esquecer de vez o passado e aceitar o presente.
Aparentemente
a Virgem Maria lhe atendeu ao pedido. Já fazia cinco anos de casamento, e tudo
caminhava dentro da normalidade esperada. Na condição de esposa e dona de casa,
Doralice vivia se não feliz, ao menos tranquila, e, mais importante, em paz com
sua consciência.
Essa paz
começou a ser ameaçada naquele dia em que decidiu que as roupas de cama e mesa
da casa estavam gastas. Conversou com o marido, o qual, rindo do problema, lhe lembrou
de que as Lojas Medeiros e Cia, ali na subida da Guedes Pereira, eram da
família: era só ir lá, escolher e mandar entregar. Nem pagar precisava,
completou ele, ainda rindo.
Ela foi e...
Susto! Quem a atendeu? Sim, ele, Júlio, o mesmo Júlio que, agora que o revia,
sabia nunca haver esquecido. Estava mais maduro, porém, formoso como sempre,
com sua sensualidade morena, o brilho no olhar, a fala doce e o sorriso
encantador. Sem quaisquer referências ao passado, Doralice, embora trêmula e um
pouco tonta, desempenhou como pôde o papel de freguesa, e ele, aparentemente
muito bem, o papel de atendente. Entre os tecidos mostrados, ela não deixou de
notar o anel em sua mão esquerda, visão que não sabia se a acalmava ou se mais
a perturbava. Na despedida, trocaram olhares demorados e enigmáticos, talvez –
quem sabe? – esperançosos perigosamente esperançosos.
Na noite
daquele dia Doralice não conseguiu dormir. E não houve chá de camomila que a
acudisse. Então seu ex-amado era empregado de seu esposo! O destino estava
maldosamente brincando com ela... E a insônia persistiu por noites e noites.
Notando-a
abatida, o marido aconselhou-a a divertir-se um pouco. Ele mesmo não gostava de
filmes, mas, a cidade estava cheia de cinemas. O Rex, o Plaza, o Brasil, estavam
próximos, e ela podia aproveitar a companhia da amiga vizinha Carlota – por que
não?
Assim, numa
sexta-feira qualquer Doralice revolveu aceitar os insistentes convites da
vizinha Carlota, e foram assistir à primeira sessão noturna do Cinema Filipéia,
aquele que ficava ali por trás do Palácio do Governo. Sem prestar atenção ao
cartaz, compraram ingresso e viram o filme.
Sem
conseguir conter o choro, da primeira à última cena, Doralice saiu do cinema
arrasado, bem pior do que já estivera em toda a sua vida. Do modo mais cruel
que se possa imaginar, o filme contava a sua história. Havia eventuais
diferenças nos enredos, o da tela e o dela, porém, as tristes implicações
emocionais eram as mesmas. Não era à toa que o filme se chamasse “Desencanto”.
O fato é
que, depois daquela dolorosa sessão no Filipeia, Doralice decidiu: cinema nunca
mais!






