cleudimarferreira
As boas intenções aparecem quando se tem por trás, pessoas iluminadas, provocadoras de atitudes positivas. A esse respeito, conclama a oralidade, que a história de algumas cidades pode apresentar formas diferentes de nascimento. No caso de Cajazeiras, o que todos sabem é que ela nasceu a partir de uma escola. Essa é versão oficial. Mas há cidades por aí a fora que suas histórias podem revelar duas versões. Uma, a de que surgiu simplesmente das primeiras alvenarias fincadas no seu chão, que foram erguidas com suas ruas e edificações; a outra vem do pensamento popular, de que simplesmente nasceram com uma luz que um dia as atravessaram, deixando feitiço e brilho intenso nos seus solos.
Não sei se Cajazeiras foi tocada por
esse romantismo barato. Mas, baseado esse ponto de vista, a cidade teve de fato, o
privilégio raro de renascer pela luz que escapava das janelas estreitas de três
salas de cinema, mais especificamente, dois, o Cine Teatro Apolo XI e o Cine
Teatro Pax, ambos sonhados, erguidos e guardados com o zelo de um pai por seu
filho mais querido, sensível, pelo Bispo Dom Zacarias Rolim de Moura, um homem
que dividia com sabedoria o coração entre o púlpito e o projetor, ou seja, a
vocação para o eclesiástico e a paixão pelo cinema. Essa dualidade do bem, o
fez um bispo cinéfilo que ousou construir não só igrejas, mas cinemões no
centro do sertão paraibano.
Algumas pessoas, principalmente as
mais próximas, costumava dizia que Dom Zacarias tinha uma alma inquieta -
dessas que não cabem só nas obrigações episcopais. Era bispo, sim;
disciplinado, sim; dedicado, sim, a fé religiosa; homem de oração, claro. Mas havia
nele uma pulsação voraz de menino: o encantamento pelas histórias projetadas
nas grandes telas de cinema. Essa atração, talvez viesse de muito longe, de
Umari, de Iguatu, de alguma tarde perdida em que ele, então adolescente, viu
pela primeira vez o milagre de uma luz tremida transformando-se em rostos,
aventuras e paisagens. Seja como for, essa fagulha ficou nele, e ardeu
silenciosa até o dia em que se tornou chama.
Quando assumiu a diocese de
Cajazeiras, muitos sob a ótica da tradição, esperavam dele as obras
características de um bispado: escolas, centros educacionais, presença cativa
nas festas religiosas, pregações, peregrinações pelas paróquias da diocese e
uma destacada participação na vida social da cidade. Mas ninguém imaginava que,
naquela mente, sempre três passos adiante, germinava a ideia de instalar dois
cinemas comerciais, estruturados com ambição dos que haviam na capital, mas
fincados no coração de Cajazeiras.
Das duas salas instaladas, a sua joia
rara, o Cine Teatro Apolo XI - e o nome, por si só, já anunciava que Dom
Zacarias não era de pensar pequeno, fazia parte de um complexo de comunicação, de
construção arrojada, moderna para os padrões da época, dotado com equipamentos de última
geração, que incluía uma emissora de rádio - a Rádio Alto Piranhas e um cinema - o Apolo XI.
Dom Zacarias Rolim de Moura. Concepção IA Gemini
As boas intenções aparecem quando se tem por trás, pessoas iluminadas, provocadoras de atitudes positivas. A esse respeito, conclama a oralidade, que a história de algumas cidades pode apresentar formas diferentes de nascimento. No caso de Cajazeiras, o que todos sabem é que ela nasceu a partir de uma escola. Essa é versão oficial. Mas há cidades por aí a fora que suas histórias podem revelar duas versões. Uma, a de que surgiu simplesmente das primeiras alvenarias fincadas no seu chão, que foram erguidas com suas ruas e edificações; a outra vem do pensamento popular, de que simplesmente nasceram com uma luz que um dia as atravessaram, deixando feitiço e brilho intenso nos seus solos.
No caso do Cine Teatro
Apolo XI, a sala apresentava fachada imponente, cabine de projeção ampla, com
ar condicionado gelado como uma noite de inverno. Dois projetores enormes,
lustrosos, que davam orgulho só de olhar, da melhor marca que havia na época. A sua tela panorâmica se destacava
pela amplitude retangular. O auditório espaçoso com camarotes no seu mezanino,
lembravam os cines-teatros dos grandes centros.
No auditório havia uma cadeira
cativa. A mais vazia de todas as cadeiras lotadas. A cadeira que ninguém ousava
ocupar, nem por engano. O cinema podia estar abarrotado, gente sentada no chão,
gente encostada nas paredes, gente entrando ainda com o tremor da fila - e lá
estava ela: livre, esperando o bispo. Era como se o próprio Apolo ficasse em
silêncio diante dela, aguardando a autoridade de quem lhe dera o sopro de vida.
Os frequentadores do Cine Teatro
Apolo XI, todos sabiam que, quando estreava um filme novo, Dom Zacarias vinha
certeiro no primeiro dia de exibição. Ele era pontual, vinha ver o filme, como
quem cumpre um ritual sagrado. Chegava discreto, mas sua entrada tinha o efeito
de apagar murmúrios. Sentava-se no assento proibido e, quando a luz da cabine
acendia pela fresta, o cinema inteiro parecia respirar com mais calma.
Mas o religioso não vivia só para o
seu cinema preferido - o Apolo XI. No outro extremo da cidade, zona sudoeste da
cidade, ele criou o Cine Teatro Pax, mais popular, mais ruidoso, mais vivo.
Instalado no antigo prédio carmelita, o Cine Pax recebia a população cinéfila
da zona sul. Os meninos curiosos, os casais apaixonados, os que vinham pela
diversão pura. Ali, fora a programação da noite, ele exibia nas matinês de
domingo à tarde, filmes de aventuras, faroestes, desenhos da Disney, produções
de Mazzaropi, que marcaram a infância de gerações.
A sala do Pax era menor do
que a do Apolo XI, com a cabine projeção apertada, desconfortável, muito quente
e abafada. Diferente do Cine Apolo, não havia ar condicionado, apenas um
pequeno ventilador ajudava na ventilação dos projetores e dor operadores. Mas o
Pax era o point de todos nós e, as suas acomodações, embora improvisadas,
adaptadas, sem muito conforto, praticamente não era sentidas pelos seus
frequentadores.
O Dom Zacarias conhecia seu público
como um dono de circo conhece a alma da plateia. Viajava no ônibus da Viação
Gaivota, todo fim de mês a Veneza brasileira - Recife. Chagando lá percorria
pacientemente as distribuidoras de filmes da capital pernambucana, observando
catálogos; lendo sinopses; escolhendo os filmes que melhor adequasse ao perfil
da programação dos seus cinemas. Depois, assinava os contratos de locação com
essas empresas, escolhendo com cuidado o que Cajazeiras veria nas próximas
semanas. Era assim, uma das partes da rotina do nosso bispo exibidor.
Dos muitos momentos, que a convite de Cícero Alves, atravessei
o corredor silencioso do Palácio Episcopal e cheguei ao gabinete de Dom
Zacarias, vi um homem que parecia estar mais centrado nas atividades dos dois
cinemas do que nas suas obrigações primarias de líder religioso, responsável
pela orientação de seus paroquianos. Esse comportamento se mostrava no instante
que estávamos lá, quando chegava no seu birô pessoas da diocese. A atenção às
demandas dos cinemas, trazidas por Cícero, o bispo escutava com mais alma, como
mais cuidado, olhava com mais interesse e respondia com mais ênfase, porém essa
cena não se repetir quando outras questões eram trazidas por representantes do
clero.
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