quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

AS DUAS IMAGENS DO NATAL

por: Nonato Guedes


Cajazeiras no tempo em que o artigo foi escrito. Imagem do Cine Éden 
           
                  já em clima de natal, transcrevo abaixo um artigo do jornalista cajazeirense Nonato Guedes, publicado no Jornal A União, em 25 de dezembro de 1983 – há 30 anos, atrás. Nele Nonato (que na época tinha 25 anos) usa de toda inteligência argumentativa para expor e fazer de forma contextualizada, um suscito comentário, sobre as políticas dos países considerados de primeiro mundo, no campo da corrida armamentista. O jornalista, no artigo, descreve fatos, comenta noticias e faz uma relação entre o clima natalino de 1983 e a angustia que passava as sociedades mundial da década de 80, com a queda de braço da chamada "Guerra Fria", que ameaçava a paz no planeta. Vale apenas ler e fazer uma viagem sobre o que rolavam no mundo, no natal do ano de 1983.         


As duas imagens do Natal
Nonato Guedes.

No natal de 83, as imagens mais fortes que ficam são as do “The Day After”, o documentário cinematográfico que descreve o holocausto nuclear e que, ao ser exibido nos Estados Unidos, tornou-se um pesadelo para milhares de pessoas ainda mal refeitas das tragédias anteriores. A explicação para o pânico é simples: a possibilidade de uma guerra nuclear era, até pouco tempo, apenas uma miragem a rondar cabeças em todo o mundo.

Nos últimos anos, as sociedades constataram que se tratava de uma ameaça real e decidiram que se impõe algum tipo de reação, diante da desenvoltura com que as chamadas grandes potências acumularam forças, ampliam arsenais e perseguem uma superioridade cada vez mais distante do equilíbrio desejado.

O exemplo dos sintomas de reação que está havendo, pode ser sentido na multiplicação dos grupos pacifistas em inúmeros países e das gigantescas manifestações de rua que tentam pressionar os líderes das potências a abandonar essa corrida obsessiva pelo armamento. A luta pela paz deixou de ser um eufemismo romântico de gerações adolescentes para se transformar num instrumento de defesa de todas as gerações, intimidades com a sensação iminente da destruição total.

Essa resistência cresce na medida em que, os dirigentes dos atuais sistemas políticos prosseguem na medição de forças desenfreada, empenhando fortunas e mais fortunas na invenção de equipamentos para uma guerra que só eles desejam. A militarização dos Estados tornou-se uma constante nas últimas décadas, na mesma proporção em que emagrecem nos orçamentos as verbas para programas sociais e investimentos de consumo público e em que o padrão de vida deteriorou-se a níveis alarmantes.

Os preparativos para o confronto são cada vez mais acelerados – e até países como o Brasil, que deveria concentrar suas energias na busca de meios para resgatar uma monstruosa dívida externa e melhorar a qualidade de vida do seu povo – candidata-se a uma vaga no famoso “clube da bomba” – um grupo elitista e dominador. As sociedades restam apenas o direito de esboçar gritos de sobrevivência, evitando ceder ao pessimismo fatalista de que a sorte da humanidade está deliberada por antecipação. E cada uma reage como pode – Agora mesmo, num longínquo país, grupos de moradores reuniram-se e decretaram o suicídio coletivo para quando estourar a bomba. Como num espetáculo macabro, a comunidade decidiu em votação, que no dia “D”, antecipando-se aos efeitos da destruição, lançará mão de um soro letal que provoca menos agonia do que o petardo nuclear.

São, como se vê, tentativa desesperada que refletem as experiências traumáticas vividas desde agora por multidões assustadas e desprotegidas em todo o mundo. Enfim criou-se a consciência de que só uma mobilização oriunda de uma correte nova de forças pode garantir a defesa de todos contra os tentáculos da dominação totalitária. Do contrário, virá o caos absoluto.

Mas o natal de 83 convive com outras imagens dantescas – e mais próximas, entre as quais o espetáculo da fome, da miséria, do desemprego, como corolário das políticas recessivas geradas pelo imperialismo econômico. Ou, então, o esmagamento do indivíduo pelo Estado, provando que as profecias de George Orwell não só eram infundadas como se materializaram antes da data-limite.

A caricatura do “Grande Irmão” descrito por Orwell parece estampada na face dos governantes em todo o mundo, que agem sob formas distintas, mas com motivações idênticas. O Estado, é, hoje, o grande monstro devorador de indefesas criaturas. E se por um lado a década de 80 marca uma tomada da consciência coletiva sobre a dimensão dos tentáculos do Poder em relação à massa humana por outro revela quão impotentes são as pessoas para dominar essa engrenagem. 

Não deixa de ser melancólico que o Natal continue sendo opressor, na medida em que acentua de forma flagrante os contrastes entre uma minoria iludida, prisioneira do reino da fantasia, e maioria realista, que, de pés no chão, sente saborearem-se cada vez suas aspirações dignidade humana. Como se de fato, estivéssemos todos a caminho do matadouro, da extinção da espécie.





fonte: Jornal A União – 25 de dezembro de 1983.

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