sábado, 26 de novembro de 2022

FUTEBOL NO TEMPO DE SHAKESPEARE



por   João Batista de Brito  

Nessa época de Copa do Mundo, lembro uma cena engraçada num filme butanês - sim, daquele país asiático miudinho, chamado Butão. Intitulado “A copa”, o filme contava a história de como os monges budistas tentam convencer o Dalai Lama a alugar um aparelho de televisão para assistirem aos jogos da copa de 1998.
O Santo Homem pergunta: “E o que é futebol?” E ouve dos monges que é uma luta entre dois países por causa de uma bola. Admirado, o Santo Homem indaga se há sexo no futebol, e ouve que não; indaga então se há violência, e ouve que eventualmente, mas quando acontece é punida. Convencido, o Dalai Lama consente e, pela primeira vez na história do país, os monges podem assistir a um jogo de futebol.
Deixando o improvável tópico do sexo pra lá, lembrei da cena por causa da referência à violência. Lembrança que me conduziu a minhas leituras shakespearianas. Foi assim:
Meados dos anos setenta eu estava, pela primeira vez, lendo o “Rei Lear” (1605) de Shakespeare quando me deparei com o que menos esperava: futebol.
Futebol no século XVI? Como podia? Li e reli o trecho para me certificar. Não havia dúvidas, até porque a versão da peça que eu lia era no original, e o termo era aquele mesmo: football.
O trecho que eu lia era uma daquelas cenas violentas da peça em que o personagem de Kent insultava Oswald, o empregado de Goneril, uma das filhas do rei. E o fazia com uma série de palavras grosseiras - uma longa lista de termos baixos, ofensivos, e no fim da linha, o mais ofensivo de todos era: “seu jogador de futebol!”.
Com o mesmo sentido de jogo sujo e baixo, mais tarde achei uma outra referência ao futebol em Shakespeare, agora em “A comédia dos erros”, quando o servente Drômio reclama de seus patrões por estar sendo tratado com desdém e maus tratos, inferiorizado como se fosse ele “um vil jogador de futebol”.
Como todo mundo, eu achava que o futebol fosse uma distinta e sofisticada invenção inglesa do século XIX.
Fui pesquisar e descobri que, de fato, os ingleses haviam inventado as regras do futebol no século XIX, mas só as regras, pois o jogo mesmo existia de muito tempo – praticamente desde a Idade Média - e sem regra nenhuma.
No tempo de Shakespeare era um jogo grosseiro, baixo, extremamente violento e mesmo letal.
Era disputado entre as aldeias e a prática era derrubar, ou se fosse o caso, aniquilar os adversários a todo custo. A bola era feita da bexiga do porco e para metê-la na trave do adversário valia tudo, soco, puxão, empurrão, pontapé, tapa, espancamento, o que desse e viesse. Como não havia limite para o número de jogadores, podiam participar grupos enormes de pessoas, em alguns casos, multidões que se digladiavam, e era comum que tudo terminasse em muito sangue e até mortes.
Segundo registros da época, o futebol matava mais que os duelos, ou as lutas livres, ou a prática do arco e flecha. Sua grosseria, baixeza e sanguinolência só eram comparadas ao “bear bating”, aquele esporte horrendo em que, em praça pública, uma multidão munida de ferrões pontiagudos, se divertia, às gargalhadas, espetando um urso até a morte.
Ao longo dos séculos houve, no Reino Unido, várias sugestões parlamentares para a extinção desse jogo infame que era o futebol. Até que lá pelos meados de século XIX, as autoridades britânicas encontraram uma solução para a questão: criaram e aprovaram por lei as rigorosas regras do jogo que conhecemos até hoje, jogo que, ironicamente, se tornou, como se sabe, o mais belo, o mais elegante e o mais amado dos esportes.
Tudo bem, às vezes, em campo e/ou fora de campo, ocorrem pancadarias e agressões, mas nada que se compare à sanguinolência que Shakespeare conheceu.
De modo que até o Dalai Lama poderia hoje, se quisesse, assistir, sem perder sua pureza de espírito, a uma boa partida de futebol.




sábado, 12 de novembro de 2022

Peça de Eliézer Rolim "Trinca, Mas Não Quebra" será apresentada no Teatro Paulo Pontes, dia 27 deste mês de novembro

imagens do arquivo da ACATE - Associação Cajazeirense de Teatro



A produção do espetáculo cajazeirense “Trinca, Mas Não Quebra”, que tem texto de autoria do dramaturgo Eliézer Rolim e direção de Francisco Hernandez; espetáculo esse que carrega mais de 25 anos de palco nas costas - mais do que isso, acho, só “Vau da Sarapalha”, está intensificando os ensaios, se preparando para participação do espetáculo na II Mostra Sertaneja de Teatro, que acontecerá no Teatro Paulo Pontos, na FUNESC, em João Pessoa. A apresentação da peça será dia 27 desse mês de Novembro, a partir das 20 horas.          

O texto “Trinca, Mas Não Quebra” conta a história de uma festa de casamento na noite de Santo Antônio, no interior nordestino. Festa mesclada de superstições e recordações lúcidas dos estouros dos fogos de artifícios nas amarras de uma desesperada paixão entre dois adolescentes. O texto recorre ao gênero drama, para simbolizar aspectos do período junino na localidade rural de Umburanas, quando a personagem Terezinha, uma noiva de 15 anos, descobre morrer de amor por seu ex-namorado que se faz penetra para resgatar publicamente o sentimento que o sufoca.

Por esse viés, o texto sai mesclando e criando uma colagem que mistura danças folclóricas com elementos dos folguedos populares. Com esse perfil “Trinca, Mas Não Quebra” é antes de tudo uma festa com dosagem de tragédia na sua essência, daquelas contadas nos versos de literatura de cordel. Influenciado por essa riqueza popular, o espetáculo é um conto de São João com cheiro de milho assado. Onde tudo pode acontecer desde o corriqueiro incêndio de balão ao absurdo dos motes de cordel.

A II Mostra Sertaneja de Teatro é promovida pela FUNESC/Governo do Estado da Paraíba.





conteúdo produzido a partir das informações contidas na rede social de Francisco Hernandez:

domingo, 6 de novembro de 2022

Em casa da minha mãe

por Adalberto dos Santos


imagem meramente ilustrativa. fonte: internet

Escrevo na cozinha da minha mãe, em Cajazeiras, na Paraíba. Aqui deste lado dos trópicos, durante o dia, não corre vento, sequer um raio de brisa depura as noite altaneiras do luar das caatingas. Parece um sonho, cenário de sonho. Há tempos desfigurou-se a face colorida do ambiente sertanejo após a queda das águas celestes. Se o ar se atreve a bolinar as poucas folhas das árvores, surge também um mormaço indiscreto que mortifica os ossos. O cristão não aguenta sem reclamar. Deita no chão de cimento, vai ao pote mil vezes durante a tarde, procura a melhor sombra entre o oitão dos largos e altos casarões mais antigos do lugar. É a luta desigual entre o sertanejo e as condições naturais. Aquele, um adepto das acomodações, um insurgente das variações climáticas que o assola sem piedade a cada quadra anual. É a luta pela sobrevivência e o estigma de morar na porta de entrada do inferno. O sertão em tempos sem chuva é a morada do diabo.

Mas estou em casa de minha mãe e aguardo a resolução de problemas pessoais. Enquanto as coisas não acontecem, vou numa rotina que pouco me agrada. Desde quinta-feira, acordo cedo, e logo faço pequenos passeios pelas ruas sujas e sem graça da cidade. Visito ali um amigo, aqui um conhecido distante. Lembro (e não faz tanto tempo) do tempo em que todo dia passava esse mesmo caminho. Tenho o sentimento que deprimia o caminheiro. Detestava passar entre as casas de comércio, dobrar essas esquinas nos primeiros raios da manhã. Enquanto caminhava, testemunhar ninguém dizer bom dia, como vai, tenha um ótimo trabalho. Depois, passe cá mais tarde para trocarmos um dedo de prosa.

Está feia a cidade, como jamais esteve. Seu Açude Grande, a imensa roda de água que liga a urbe ao passado de glória dos primeiros habitantes, não mais comove o coração. Perderam nele a magia e a ternura de um símbolo histórico importante que dizia coisas sobre lazer e memória para todo o sempre. O açude, a água dele que se bebia para o eterno feitiço de amar a cidade, é como se não existisse. Nele se afogaram a devoção e amor pela terra. Nele está enlameado qualquer sentimento. Tudo, a partir dele, não faz sentido. É um submundo de esgotos e mágoas. Ainda que faça a decência de resfriar o clima que estressa o solitário neurastênico, aos meus olhos perdeu a beleza. Esse seu ar de titã assevera a toda hora que esta cidade jamais me amou.

Ao fim da tarde, recordo o conversar nas calçadas; um dos dados mais vivos dessas bandas sertanejas. Pena que a feiúra da cidade não deixa que os versos de Vinicius atravessem a conversa. Hoje, as casas não são tão lindas. São feias, assim como são feios os políticos e as polacas, os bares e as praças, os que vão à missa e os que rezam no templo. São feios os homens e as mulheres, as plantas e os animais. Por fim, tudo está pouco atraente. Nada agrada. Aqui, parece que ninguém mais deseja que nada preste. Deram fim a tudo. Adeus àquela cidade que pintei muitas vezes com tintas bonitas e que não borravam.

À noite, ao menos, as crianças correm vivamente. Como em todo lugar elas acendem a esperança e dão à alma uma riqueza de mistérios que ninguém explica. Enquanto uns tantos veem as novelas, elas expressam com gritos de alegria que apesar de tudo talvez nem tudo esteja perdido. Conseguem tirar essa sisudez grosseira. Arrancam um pouco essa tristeza de não se amar mais a quem tanto se amou. Essa tristeza que só não é maior porque estou em casa de minha mãe, e aqui me sinto protegido do restante da cidade.

Crônica publicada em 15.fev.2016.



fonte:  https://cronicascariocas.com/colunas/cronicas/em-casa-da-minha-mae/

quinta-feira, 3 de novembro de 2022

Histórias de Lua e Sol. Espetáculo Infantil de Guarabira no Palco do Ica, dias 11 e 12 de Novembro




Nos dias 11 e 12 desse mês de novembro, o Teatro Íracles Pires-Ica, estará recebendo no seu palco, a partir das 19 horas, o espetáculo infantil “Histórias de Lua e Sol”. A produção teatral que por onde passa está sendo sucesso de público e críticas é um monólogo voltado ao público infante juvenil, mas segunda a produção local, promete agradar a todas as idades, pois conforme a direção da peça, o texto aborda o respeito à ancestralidade e a valorização do tempo na vida das pessoas. Temas como bullyng e respeito ao meio ambiente também fazem parte da narrativa.

Vinda diretamente da cidade de Guarabira, cidade do brejo paraibano, hoje considerada entre as quatro cidades do estado da Paraíba que mais produzem cultura, a peça “Histórias de Lua e Sol”, trás para Cajazeiras um espetáculo eclético onde o universo infantil é tema central da encanação, “Nossa meta é fazer o público se divertir e refletir com temas importantes para crianças, jovens e adultos. É também uma forma de incentivar a volta do público ao teatro e marcar nosso retorno aos palcos, depois de anos perdidos e sofridos da pandemia”, resume o ator do monologo.

Tanto a direção quanto à atuação na peça teatral é do ator paraibano Vando Farias, que interpreta o Senhor Tick, personagem que se mete em diversas aventuras ao tentar diminuir o tamanho da lua. Ingressos, informações e as escolas que quiserem fazer parceria, já devem entrar em contato com a produção do espetáculo em Cajazeiras, pelo o telefone: (83) 99412 - 5226.



domingo, 16 de outubro de 2022

POLÍTICA e RELIGIÃO, mistura impossível (III)




por: Luiz Carlos Nascimento Sousa 

Para encerrar o assunto da mistura, para mim impossível, de política e religião, aqui vai mais um exercício sobre os resultados que essa união defendida por muitos, inclusive pastores que se autoproclamam ungidos por Deus e são capazes de, em vez de conduzir o rebanho para o Reino, indicar aos fiéis uma candidatura política em quem votar.

O mundo está repleto de exemplos onde à mistura deu resultados terríveis, com a eclosão de guerras, cuja duração uma delas atravessa séculos de História (o caso dos judeus com os palestinos é um deles) ou outros fatos recentes, embora todos inspirados em situações idênticas, nas quais lideranças políticas buscaram na religião argumentos para convencer o povo de que eram escolhidos por desígnios de Deus.

Como é que a fé pode ser usada para defender uma cor partidária? Deus não pode ser refutado, não é uma teoria científica, que exige avaliação dos pares, sistema e método para ser reconhecida e lançada nos compêndios e almanaques, com a edição de livros. Não dá para se opor a Deus com a Evolução das Espécies de Charles Darwin, ou com o Big Bang.

Por mais oposição que se possa fazer a Deus, o máximo é a incredulidade ou ser agnóstico. Tentar raciocinar cientificamente sobre a existência de Deus é quase um delírio.

Imagine, então, tentar conciliar algo que exige a verdade como premissa, o amor ao próximo como mandamento com a arte de tentar apaziguar conflitos, de alternar sistemas econômicos (capitalismo x comunismo).

Dá para defender algo usando a mentira para maquiar a verdade que é dura e pode prejudicar uma candidatura, por exemplo, com a obrigatoriedade de dizer a verdade a qualquer custo.

O mundo está aí com seus povos, seus sistemas, suas opções políticas e religiosas para mostrar que levar o messianismo religioso à política só acaba em confusão, guerras, indignidade, repressão e esmagamento, principalmente dos direitos da mulher e das minorias. Tem que cobrir o rosto, não tem participação política, não pode dirigir, só para citar algumas restrições graves à liberdade das mulheres que são impostas onde a religião se mete na política de forma mais presente. O Oriente Médio está aí.

O pior é que ficam evocando o nome de Deus para massacrar, oprimir e impor pela força física, se necessário com a morte de quem discorda.

Podem pesquisar. De acordo com a Bíblia, o que Deus determina tem que ser cumprido, não dá para recorrer. E não há como existir oposição.

A política dos homens é diferente. Ela separou a Índia, por causa da oposição política que fez nascer o Paquistão muçulmano, revelou ao mundo às monstruosidades da guerra na Bósnia, Croácia e outras ex-repúblicas iugoslavas e a Albânia, sem falar nos anos de terror envolvendo a Irlanda com o terrorismo matando inocentes, dividindo uma nação.

E ainda há o exemplo a que me referi de passagem no início desse texto ao lembrar da guerra entre os judeus e os palestinos, cujo número de mortos chega aos milhares, e a política dos homens não consegue

um acordo de paz, porque o que inspira cada um a tentar destruir o outro é a religião, querer impor seu Deus ao próximo.

E vejam que toda religião prega a paz.  Como entender, então, a guerra suja que a política faz? Guerra na qual o homem atribui a Deus a determinação de matar o inimigo em vez de dar a outra face.

Quando política e religião se misturam só há um resultado: radicalização!



fonte: Jornal A União

terça-feira, 11 de outubro de 2022

Mostra Acauã do Audiovisual Paraibano, já tem programação definida. Veja!

 



Está chegando o dia da realização da Mostra Acauã do Audiovisual Paraibano - um grande evento de cinema no alto sertão do estado da Paraíba. A mostra acontecerá entre os dias 09 a 12 do próximo mês novembro de 2022, no Conjunto Histórico da Fazenda Acauã, no município de Aparecida. Esse ano, a festa do cinema sertanejo vai homenagear o produtor cultural e cineasta, J. França. O evento será realizado pela Acauã Produções Culturais e contará com o visual do desenhista, animador e cineasta André Dias Araújo.

 V EJA A PROGRAMAÇÃO ABAIXO

 🎬Clique nas imagens para melhor ver o conteúdo     

Conjunto Histórico Fazenda Acauã, em Aparecida/PB - Palco onde será realizado a mostra




quinta-feira, 22 de setembro de 2022

FOTOGRAFIAS e FOTÓGRAFOS - Tópicos para um possível estudo em Cajazeiras.

por: Cleudimar Ferreira


José Cavalcante (no meio), um pioneiro desde o tempo dos lambe-lambes

 

O ato de fotografar talvez não seja compreendido com o fazer artístico, mas a forma como se busca uma imagem e der a ela uma importância maior além do que ela já tem para o fotógrafo, pode sim ser considerado um procedimento de busca de uma estética diferente e aí, pode ser definido como arte. Se buscarmos na história, a sua importância para concepção de outras linguagens da arte, veremos que a fotografia contribui e muito para desenvolvimento das artes visuais, não só as artes plásticas, mas principalmente o cinema que é considerado uma espécie de cria da fotografia.

Vem desse pressuposto, o entendimento da discursão que há, quando se pergunta: A fotografia é arte ou não?  Uma resposta que não pode ser dada unicamente por quem a pesquisa ou estuda sua história, mas o fotógrafo como parte desse contexto, merece e pode muito bem responder a tal pergunta e, como propor meios para referendar certos conceitos, que define que o ato de fotografar é um ato de criação e, se é um ato de criação, vem inserido também o direito de ser a fotografia um instante de criação artístico.

Para justificar esse debate, o trabalho do fotógrafo nessa circunstancia é captar a imagem, buscando a melhor qualidade visual e estética possível. Embora seja o momento de fotografar, uma minúscula busca de um recorte do vasto cenário desse mundo em que vivemos, o cuidado na ora de captar uma imagem é que vai resultar se essa imagem gravada é uma obra de arte ou não. 

Há muito tempo que a história da fotografia em Cajazeiras, vinha sendo uma atividade remota, difícil de ser revelada. Tudo não passava de um capítulo a ser contado ou complexo demais para ser revelado. Perecia na escuridão dos arquivos mofados, por falta de voluntários ou pessoas que apresentasse algum interesse pelo seu passado, pelo o seu estudo. Mas eis que nesse marasmo de falta de dados, apareceu alguém interessado de conhecer a sua história.    

O trabalho do fotógrafo José Cavalcante, que nos últimos anos passou a desenvolver junto com a sua atividade profissional, uma incessante busca e procura de maiores referências dos pioneiros dessa atividade na cidade, merece apoio, destaque por muitos e, ser referenciada por todos cajazeirenses. Por esse viés, se qualquer um que for remexer os anais; os arquivos da história dessa atividade na cidade, facilmente logo descobria que teria muito trabalho pela frente, pois a cidade tem tradição e teve muitos profissionais atuando nesse campo.

Entre estúdios montados, equipados com laboratórios e as atividades de freelances ou aqueles que trabalharam nas ruas, fazendo-se de amador ou aprendiz, a fotografia em Cajazeiras desde as primeiras ações isolados do fotógrafo José Magalhães nos anos vinte, já ultrapassou os cem anos e chegou à modernidade dos Smartphones registrando o perfil do povo cajazeirense.

Até aqui, revelou durantes muitos anos, profissionais pioneiros, que a priori, com suas sedutoras e versáteis Rolleiflex, deixaram um vasto acervo documental da vida social, politica da cidade. Basta ver a quantidade de fotos antigas que tem sido divulgada nas redes sociais até aqui. Entre esses tantos, outros e os lambe-lambes do senhor José Cavalcante (pai), destacaram ainda no século passado os nomes dos estabelecidos: Seu Iraídes do Foto Recife; Elias Paulo do Foto Rápido, Nelson Lira, proprietário do Estúdio Lira de Fotografias e Cícero Batista que chegou a ter um dos bem equipados laboratório em preto e branco do sertão de Cajazeiras.   

O Estúdio Lira era especialista em fotografias de noivos. Atuava nas solenidades de casamentos e quando não esta in loco, geralmente os noivos iam até o seu estúdio. “Como foi o caso da minha tia Naninha Ferreira, que no dia do seu casamento, no final dos anos sessenta, quis ser fotografada na igreja, mas preferiu também ir instantes depois do casamento ao Estúdio Lira para ser fotografada com o esposo Paulo Saraiva e a dama de honra”. Lira e seu estúdio chegou a situar nos anos 60, em uma sala comercial que ficava na Rua Padre José Tomás, entre as esquinas das antigas Casas Pernambucanas e o Armazém Nova Aurora de seu Zuza Moreira.

Outro destaque no contexto para o estudo da fotografia em Cajazeiras foi à atuação do senhor Cícero Batista. Estabelecido no ramo com a fachada Foto Recife, que ficava na Rua Padre José Tomaz, perto da esquina da Rua Padre Rolim, Cícero além da loja, possuía um estúdio bem equipado que garantia nitidez e bom contraste das fotos que produzia, oferecendo aos seus clientes fotos de qualidade e durabilidade das revelações. Seu filho Manoel Arsênio Batista, reservava com Cícero os trabalhos tanto no laboratório, como o atendimento no balcão do Foto Recife e até a atividade de fotografo, quando tinha que substituir numa cobertura fotográfica a pedido de um cliente.

Usando os recursos do laboratório do pai Cícero Batista, Arsênio brincava com a imagem, fazendo fotomontagem, usando a fotografia como expressão artística e não simplesmente uma imagem, se tornando uma dos pioneiros da fotomontagem em Cajazeiras. Como admirador da sétima arte, costumava brincar com os fotogramas descartados das revisões dos filmes que eram exibidos nos cinemas de Cajazeiras, transformando as pequenas imagens desses, em fotografias ou retratos em preto e branco. Ou seja, para o seu bel prazer transformava a ilusão do cinema em uma imagem fixa no papel.

Por esse caminho, voltando pelas vias do passado, numa época remota quando a demanda maior da atividade fotográfica ainda concentrava-se nas mãos dos homens, Cajazeiras dava um salto maior, mostrando ser cosmopolita avançado no tempo, apresentado para a sociedade o nome de Chiquitinha Elias, talvez a primeira mulher na cidade a se aventurar na atividade fotográfica em Cajazeiras. Sempre nos grandes eventos, sejam eles, festas de debutantes, colação de grau, batizados e casamentos, Chiquitinha sempre se fazia presente, com sua simpatia, profissionalismo e seriedade no trabalho que fazia. Lembro muito bem da sua imagem nas festas e sou testemunha do seu profissionalismo a presteza como conduzia o seu trabalho.          

Numa cidade onde nos ano oitenta, a ascensão da imprensa escrita se mostrava crescente com as instalações das sucursais dos jornais impressos da capital, a atividade de fotógrafo ganhava mais uma opção de trabalho, com possibilidades de qualificação da mão de obra e de formação de outra especialidade - a do fotojornalismo. Conceito em que a matéria escrita é atrelada a uma apresentação de fotos ou que a produção de uma narrativa em imagens, poderia ser por vias de conjugação de fotografias e textos, és que surge a figura eminente e simpática do fotografo Bosco Pinto. Bosco era aquele que circulavam pelos clichês dessas sucursais fazendo o que ele sabia fazer - fotografar. Só que dessa vez para esses jornais. Em pouco tempo, já familiarizado com a nova atividade, se tornava mais tarde o nosso primeiro fotojornalista da cidade.

Portanto, foram muitos os nossos fotógrafos que congelaram durante esses cem anos um pedacinho das Cajazeiras que eu vi, que você viu, que todos viram passar. Nogueirinha, João Luiz, Adonias Alexandre, o Moco, Almir, todos que já passaram ou estão passando, levando consigo, mas deixando para cidade um legado de grande valor, que precisa ser revelado, mostrado, exibido e fixado nas lembranças de cada cidadão cajazeirense. Que o trabalho do fotografo Zé Cavalcante seja continuo e que outras pessoas apaixonado por fotografia, venham está com ele nessa fileira, contando para nós a história dessa atividade na cidade de Cajazeiras.














LEGENDA DAS FOTOS
01. Retrato do fotógrafo Cícero Batista
02. O fotógrafo Cicero Batista em seu Laboratório
03. O jovem fotógrafo Nelson Lira do Estúdio Lira de Fotografias
04. A melhor pose do fotógrafo Francisco Aprígio Nogueira (Nogueirinha)
05. Fotógrafo freelance Bosco Pinto - Também o fotógrafo das sucursais.
06. Chiquitinha - A primeira mulher na atividade de fotógrafa na cidade (com o Governador João Agripino Maia)   
07. O fotógrafo Iraides no interior de sua loja Foto Recife
08. O fotógrafo Elias Paulo do Foto Rápido no seu laboratório
09. Porta Retrato para 3x4 Foto Estudio Silvanere Rocha
10. Os Freelances. Da direita para a esquerda os fotógrafos Djalma, Bosco Pinto e João Luiz
11. Cartão de Natal da Loja J.L. Braga, Criação do Foto Lira. Com imagens da loja e de Terezinha Morango-Miss Brasil e vice Miss Universo/1957.
12. Retrato do fotógrafo Zé Cavalcante
13. O fotógrafo Leopoldo Ferreira - Borracha, no canteiro central da Av. Presidente João Pessoa. Ao fundo, vê-se o Foto Lira. Década de 1950

CRÉDITOS
01. Todas as fotos dessa postagem pertence ao acervo do fotógrafo Zé Cavalcante

OBS: O uso do conteúdo desse texto, por terceiros, para produção de impressos e outras finalidades, sem a breve outorização do autor, implica e reclamação perante a lei. 
   

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