segunda-feira, 25 de outubro de 2021

MEU RECORTE I

Recorte de jornal. Acervo: Cleudimar Ferreira. Click na imagem. Resolução 100% para Smartphone


MEU RECORTE: (Jornal A União) Em 1979, há 42 anos, o Cineclube Wladimir Carvalho, fundado em Cajazeiras, em 1976, por Marcus Luiz, Nonato Guedes, Ubiratan di Assis e outros; estava com suas atividades completamente paralisadas. Até esse ano, quase que desativado, sem patrimônio nenhum, o talvez primeiro cineclube fundado na Paraíba, vivia de reuniões e encontros dos seus membros-integrantes, para debater conteúdos de filmes considerados de artes que vez por outra era inserido na programação comercial dos cinemas da cidade. Pois bem! Nesse ano de1979, Eugenio Alencar, Eu - Cleudimar Ferreira e Petrus Alencar (irmão de Eugenio), reativamos o mesmo e partimos para dar ao Cineclube Wladimir Carvalho, um caráter mais social e político no material que era exibido. 

Para esclarecer melhor, que ele não fosse só um espaço de discussão de cinema, mas que também fosse uma entidade que promovesse de forma democrática, o debate de temas de real interesse do público trabalhador em geral. Para tanto, através da boa amizade de Eugenio com dois professores da FAFIC, de nacionalidade alemã, conseguimos como doação no Instituto Goethe alemã, dois projetores de 16 mm e vários curtas metragens produzidos pelo cinema alemão. Além disso, foi doada pelo Sindicato dos trabalhadores Rurais de Campina Grande ao cineclube, uma cópia do documentário “O que eu conto do Sertão é isso”. 

Todo esse material educativo e esclarecedor do debate política social do final dos anos 70 e primeira metade dos anos 80, foram exibidos em seções noturnas nas associações comunitárias e classistas, bem como em sindicatos de trabalhadores rurais de Cajazeiras e cidade circunvizinhas. Para mim, foi melhor período desse primeiro clube de cinema fundado no Sertão paraibano. Em 1985, tive que deixar Cajazeiras, me desligando da cidade e do cineclube - que anos depois, teve seus projetores e outros materiais anexados a UFCG. Hoje ele está desativado. O RECORTE de A União registra a reabertura do Cineclube com a exibição do filme: "O estranho caminho de São Tiago" do diretor espanhol Luis Buñuel. 


MINHA CARTEIRINHA DE SÓCIO 
Carteira de Sócio. Acervo: Cleudimar Ferreira



imagem: Acervo Cleudimar Ferreira

sábado, 16 de outubro de 2021

Bom texto escrito por Fernando Carvalho sobre a relação do Cartunista Luzardo Alves (in memoriam) com Assis Chateaubriand

foto: http://www.memorialhqpb.org/autores/luzardoalves/luzardoalves.html


O PONTO DOS CEM RÉIS NUNCA MAIS SERÁ O MESMO SEM A PRESENÇA DE LUZARDO ALVES.

por Fernando Carvalho. (Texto publicado no Facebook do autor em dezembro/2016)


Eis que o grande chargista e amigo LUZARDO ALVES, sai de cena, deixando um grande vazio no Humor Gráfico Paraibano.

LUZARDO, não apenas era um grande Chargista, mas também era fiel depositário da arte de fazer amigos. Bem que poderia ter sido ele o autor do livro: COMO FAZER AMIGOS E INFLUENCIAR PESSOA, o clássico de Dale Carnegie.

Nascido no bairro de Jaguaribe, João Pessoa em 1932, começou a demonstrar seu dom, aos oitos anos de idade, desenhando com pedaços de tijolos e carvão nas calçadas das casas do referido bairro, cenas que via em filmes.

O que poucos sabem, é que era também apaixonado por cinema. Por falar nisso, fiquei devendo-lhe o filme: SALUTE TO THE MARINES, com o ator Wallace Beery. Mas confesso que fiz um esforço sobre-humano para conseguir uma cópia desse clássico do cinema americano, produzido em 1943, para presenteá-lo, sem lograr êxito. Luzardo gostara tanto deste filme, que ainda guardava em sua mente, mais de quarenta anos depois, cenas do mesmo, em quase toda plenitude.

Aos doze anos de idade foi convidado a trabalhar no Jornal A UNIÃO, onde permaneceu por um período significativo de tempo.

Em 1960, o rei da imprensa brasileira, o criador dos Diários Associados, Assis Chateaubriand, inaugura a TV Tupi do Recife, canal 6, onde foi desenvolvido um dos períodos mais produtivos da TV brasileira com programas jornalísticos, humorísticos, programas de auditórios e infantis.

Foi num desses programas de auditório que o jovem chargista, com 28 anos de idade, começou a fazer sucesso. O quadro consistia no seguinte: Uma pessoa da plateia era convidada a fazer qualquer rabisco, em um quadro negro, e a partir deste rabisco Luzardo realizava um belíssimo desenho.

Numa dessas performances, o todo poderoso, Assis Chateaubriand, encontrava-se na plateia e encantou-se com o traço e a criatividade de Luzardo, procurando-o logo após o término do programa, que era ao vivo. Assis Chateaubriand apresentou para Luzardo um desenho do inesquecível personagem AMIGO DA ONÇA, criado pelo fabuloso cartunista pernambucano, Péricles, e perguntou se ele era capaz de reproduzi-lo, coisa que Luzardo realizou, em questões de segundos.

Na realidade, Assis Chateaubriand, estrategista que era já estava prevendo a morte de Péricles, devido ao alto grau de alcoolismo de que o mesmo era detentor, e queria um chargista para continuar com o mesmo personagem (amigo da onça ), devido ao grande sucesso que ele fazia, na revista O CRUZEIRO e contratou o conterrâneo Luzardo, de imediato.

Já contratado, pelo visionário, Assis Chateaubriand, Luzardo deixa a Paraíba para radicar-se no Rio de Janeiro, onde foi trabalhar na revista O Cruzeiro, na época a mais importante do país.

A aventura no Rio de Janeiro era o que faltava para a lapidação do artista, pois trabalhara com a nata do humor gráfico à época, a exemplo de Henfil, Millôr Fernandes, Péricles, Carlos Estevão, Juarez Machado, Nilson, Redi, Ciça, Daniel Azulay, Ziraldo, Zélio, Jaguar, Fortuna, enfim, o sumo do humor gráfico brasileiro. Além de publicar em O Cruzeiro, participou da Revista do Rádio e dos jornais Correio da Manhã e O Dia. Também confeccionou arte para capas de revistas em quadrinhos destinadas ao público infantil, como Bolinha, Luluzinha, entre outras.

Em 1970 Luzardo retorna a João Pessoa, onde em parceria com alguns jornalistas cria o Jornal Edição Extra, seguindo a linha irreverente e escrachada do PASQUIM.

Neste Jornal, ao lado de Anco Márcio, criou uma das mais irreverentes personagens dos quadrinhos paraibanos: Bat-Madame, que fazia uma sátira pervertida de Batman e dos costumes da região.

Durante, praticamente toda a década de 70, publica Charges e Cartuns em quase todos os jornais paraibanos, além de editar a Charge da Semana, um folheto patrocinado pelo comércio local e com distribuição gratuita, onde o personagem Pataconho ironizava a política e a banalidade de nossa vida quotidiana.

Em parceria com o escritor, jornalista, pesquisador, biógrafo, historiador, tradutor, editor técnico e literário, contista e poeta bissexto, Evandro da Nóbrega, publicou "A vida de Assis Chateaubriand em quadrinhos", publicada serializadamente pela Fundação Assis Chateaubriand, com sede em Brasília (DF), nos jornais dos Diários Associados, durante praticamente todo o ano de 2001, sob a batuta do Jornalista Marcondes Brito, à época , Diretor-Geral das então sete empresas dos Diários Associados.

Sobre este trabalho, Luzardo Alves, falava com muito orgulho, sempre elogiando o colaborador, Evandro da Nóbrega. Falava que este trabalho era uma espécie de gratidão à Assis Chateuabriand, por tudo que tinha feito por ele.

Detentor de uma das características dos grandes homens, a humildade, sempre marcava presença no “Ponto dos Cem Réis”, coração de João Pessoa, a observar os seres arquetipados que por lá transitam, ou residem, na busca frenética do viver. Dizia que lá era a sua fonte de inspiração.

O cronista do traço e precursor do Cartunismo na Paraíba trabalhou, com amor e afinco, até o último dia de sua existência, fato ocorrido em 18 de dezembro de 2016, aos 84 anos de idade, de infarto fulminante, deixando o humor gráfico paraibano mais pobre e, sobretudo uma atmosfera triste e melancólica no “Ponto dos Cem Réis”.

Quem sabe a colocação, de uma estátua sua, ao lado da já existente do seu irmão Livardo Alves, mesmo sendo de bronze, material inânime, desprovido de vivacidade e animação, possa suavizar um pouco o estado mórbido de tristeza que de lá se apoderou.



terça-feira, 5 de outubro de 2021

Dona Ica, uma das precursoras do teatro paraibano.

foto (ainda jovem) da teatróloga Íracles Pires (in memoriam)

escreveu Bosco Maciel:

Dona Ica - Íracles Pires, foi uma das primeiras referências em teatro de minha vida. Eu ainda criança em Cajazeiras/PB. Ouvia que a esposa de Dr. Valdemar - médico que cuidou de mamãe até finalzinho da vida dela, lidava com teatro. E, todos reconheciam nessa Senhora uma lutadora. Dedicou sua vida à arte e a cultura. Todos os cajazeirenses que hoje lidam com arte, de alguma forma devem um pouco a Dona Ica. O antigo teatro de nossa cidade, hoje não existe mais com seu nome foi uma homenagem de valia. Mas é pouco, diante do que esta grande mulher fez pela arte e pela cultura de nossa cidade de Cajazeiras, e do estado da Paraíba. Todos os filhos de Cajazeiras devem saber que se nossa cidade tem nomes de expressão nacional, como Marcélia Cartaxo - Cinema, deve-se ao trabalho pioneiro, corajoso, e destemido de uma mulher cajazeirense chamada Dona Ica. E por Dona Ica - uma das precursoras do teatro paraibano, eu brado: “viva a cultura nordestina” “viva a cultura popular do Brasil. ” E como bradou Darci Ribeiro ... viva o povo brasileiro!



MACIEL, BOSCO. É poeta, escritor - autor dos livros: "Romanceiro" e "As Narinas do Dragão", folclorista, cantador, fundador da Casa dos Cordéis de Guarulhos/SP, membro efetivo da Academia Guarulhense de Letras (AGL) e também da Academia Cajazeirense de Artes e Letras (ACAL)

domingo, 3 de outubro de 2021

MICRO CRÔNICA


A CANÇÃO DAS ILUSÕES

Uma canção que gosto demais. Ela me faz calar, ensina-me a amor e ser mais apaixonado pelo mundo ou por tudo que é maravilhoso nele. Traz inspiração para um montão de coisas que preciso fazer e viver. Até para sonhar o que ainda não sonhei. Certa vez eu dormi ouvindo "Preciso aprender a só ser" e, nas alucinações das noites, numa dessas me vi num espaço de alegria, felicidade, onde nada era real. Um lugar imaginário de cores, luzes e vida.

Aproveitei o máximo esse momento. Quando acordei, senti que minha cama era a mesma que me fez adormecer no fechamento do dia e, sonhar com aquilo que eu queria para o meu coração. Algo que estava ali, no mesmo espaço que eu vinha ocupando nas últimas horas. O problema é que no criado mudo, o meu copo ainda úmido absintado, permanecia lá, junto com as minhas lembranças. Com as lembranças de você, desfeitas com aquele cheiro visceral e inquietante da sua ausência.

Não me dei conta da minha condição quase letárgica e, muito menos em que local estava os ponteiros do despertador. Apenas ouvi no canto eternizado das melódicas notas que entoava, os chacoalhes dos lençóis embriagados, embebecidos dos incensos passados, me convidando a escutar os primeiros cantos dos frientos pássaros, dando boas vinda a aurora que despontava pelas flechas da janela. Não tinha como calar meus instintivos pensamentos! Pois a música continuava tocando, mesmo a bateria do celular anunciando que a sua energia estava por um fio. 

Nesse caso, esqueci a melodia e encarei a solidão como uma companhia, que embora ausente, se mostrava mais presente nos momentos de ebriedade. E percebi que a ilusão de tudo que sonhamos se completa, quando você descobre sua capacidade de sonhar. Mesmo quando você perceber que é capaz de mudar as coisas que pareciam distantes do seu mundo. Do mundo que você projetou e quer para si. 


por Cleudimar Ferreira

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referencias da imagem acima: Menina na Janela. pintura de Salvador Dalí

terça-feira, 28 de setembro de 2021

Marcélia Cartaxo e Soia Lira são indicadas para o Troféu "Grande Otelo" do cinema brasileiro.

As atrizes cajazeirenses Soia Lira e Marcélia Cartaxo

As atrizes cajazeirenses Marcélia Cartaxo e Soia Lira são indicadas no Grande Prêmio do Cinema Brasileiro - Troféu Grande Otelo, um dos mais importantes do audiovisual no país. As nossas duas atrizes destacaram-se juntamente com a atriz paraibana Zezita Matos - que também está sendo indicada para o prêmio, no longa-metragem Pacarrete, do cineasta Allan Deberton. 

Marcélia é a protagonista e foi indicada na categoria Melhor Atriz. Já Soia e Zezita, na categoria Melhor Atriz Coadjuvante. O filme recebeu 15 indicações, entre eles o de Melhor Longa de Ficção, Melhor Longa de Comédia, Melhor Primeira Direção, Melhor Roteiro Original e de Melhor Ator Coadjuvante para João Miguel. O longa de Allan Deberton foi gravado na cidade de Russas, Ceará. A cerimônia de entrega dos troféus Grande Otelo ocorrerá no dia 28 de novembro e será transmitida ao vivo pela TV Cultura.



Cine Éden

 por: Lincoln Cartaxo de Lira. Advogado, administrador e escritor.

Prédio onde funcionou o Cine Éden. Na parte de cima havia uma danceteria 

Eu era garoto, não tinha entrado na adolescência, mesmo assim, jamais consegui me libertar das imagens de então, associadas ao velho Cine Éden, cinema localizado na minha cidade natal (Cajazeiras). Com fachada meio sombria de um azul anil desbotado, para um moleque, a verdadeira caverna de sonhos, com todos os tesouros de magia, fascinação...   


E me veio à lembrança, quando fui barrado pelo Juizado de Menores (rábula, Zezé Moreira) ao tentar assistir um filme proibido para menores de 14 anos. E aí meu leitor, fiquei com olhos marejados e fiz força pra não chorar, tamanha era a minha vergonha e desapontamento. Apesar de estar usando camisa de manga cumprida e calça social só para ver se dava pra entrar no cinema. 

É, ressalte-se, um tempo em que o estudo era grande, o tempo era largo e o dinheiro curto, que só dava mesmo para pagar a meia entrada.

Todos os pares de olhos voltados para o retângulo da tela panorâmica superscope, no instante que o senhor Carlos Paulino (dono do cinema) acionava a cigarra para que o projetista desse início à sessão, como também, ao seu auxiliar (acrobata de tirar o fôlego) para fechar as grandes janelas através de uma cumprida trava de madeira.

De repente uma cortina bordô pesada se abria para a sala de projeção, onde saia o feixe de luz levando o espectador a rir, chorar e se emocionar, e antes de desligar todas as luzes, o operador deixava uma iluminação mais fraca durante a apresentação do Canal 100, no qual fazia ver o lado lírico, dramático, delirante do futebol brasileiro, sob a direção fantástica de Carlos Niemeyer. 

Quase sempre o filme era antecedido pela trilha sonora da lendária banda The Pop’s (Driving Guitar, O Guarany, Noturno de Chopin, Johnny Guitar...), enquanto chupávamos as balas compradas em sua modesta bomboniere.

Assisti muitas coisas, naquela época. Mas as recordações marcantes são dos filmes com Ben Hur, Os Dez Mandamentos, Cleópatra, Laurence da Arábia, Spartacus. Destaque para esse último: a história real do escravo rebelde Spartacus , com Kirk Douglas, numa interpretação marcante e comovente, talvez possa ser considerado uma obra-prima dos grandes clássicos do cinema épico de todos os tempos.
V
ez por outra, dependendo da localização do assento, o mau cheiro de urina, pelo menos, não fazia distinção de classe social, atingia inexoravelmente a todos desse fedor cinemático.
E o melhor: a quebra das fitas durante a exibição era um deus nos acuda, levava a sessão a ser interrompida para o conserto, debaixo de vaia ensurdecedora da plateia.

O domingo igual a qualquer outro, estava eu lá na porta do cinema para pegar a matinê, levando pilhas de gibis para trocar com outros cinéfilos.

Soube, por amigos, que ele resistiu até o fim, diante da fúria da televisão, seguido pelo vídeo cassete paralelamente com a explosão das locadoras. Ficou por meses exibindo os mesmos filmes, alternando apenas os cartazes, até cerrar as portas de vez, dando lugar (acredito) a um estabelecimento mercantil ou para alguma igreja sem eira nem beira.

Desaparecendo, assim, uma usina de sonhos e magia dentro daquela que já foi a sétima arte e hoje tornar-se, cada vez mais, uma indústria de frias regras comerciais. Em bom e velho português: “mercenários”. 

No cenário mais verossímil o grito estridulante de Johnny Weissmuller, o Tarzan do cinema, dava mostra que o sonho não tinha limites. E o sonho era, no mais das vezes, americano.

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fonte: https://lincolncartaxo.blogspot.com/

domingo, 12 de setembro de 2021

O Cine Pax

por: Mariana Moreira 

Atual prédio onde antigamente funcionou o Cine Pax. Imagem: Google Maps 


Na tela enorme do cinema um mundo se descortinava diante dos olhos da menina que, oriunda da zona rural, se encantava com as maravilhas da urbanidade, como a energia elétrica, as imagens de televisão, o cinema, as casas conjugadas, o barulho dos automóveis, o pão aguado (ou francês) no café da manhã. O cinema passa a fazer parte de sua vida muito precocemente. Morando no treco da Rua Pedro Américo que dá acesso a Rua Dr. Coelho éramos vizinhos do Cine Pax, um dos cinemas pertencentes à Diocese. O outro, o Apolo XI, situava-se nas proximidades. Além disso, outras aventuras de exibição cinematográfica eram registradas, como cinema mambembe de Otrope.

Não apenas a proximidade do cinema me introduz na magia da sétima arte. O bilheteiro e porteiro era colega de colégio de uma das minhas irmãs. Isso era um valioso passaporte para assistir, de graça, a filmes quase todas as noites. Fitas, inclusive, com recomendações de faixa etária bastante superior a minha idade. E qual malabarismo desenvolvia para fugir a implacável perseguição do representante do juizado de menores; um senhor surdo mudo cujo nome a distancia do tempo apagou e que, várias vezes, percorria o cinema a cata de penetras que ousavam assistir a filmes proibidos. Com destreza para escapar ao vigilante facho de luz de sua lanterna.

Retomada a normalidade viajava nos cenários deslumbrantes de emocionantes histórias de amor, nas  aventuras dos heróis de capa e espada, no destemor dos cowboys de velho oeste americano, com sua indômita bravura, abrindo fronteiras, exterminando índios e instituindo o modo de ser que domina o mundo. Na mesma viagem de sombras e fantasias, soltava o riso inocente com as peripécias e trapalhadas do Gordo e do Magro, dos Três Patetas, ou se emocionava com a tragédia dos amores impossíveis das adaptadas tragédias shakespearianas. Um mundo novo onde sonhar era a medida de todas onde sonhar era a medida de todas as coisas e a vida se contagiava com o chiado do projetor que lançava imagens tão deslumbrantes na grande tela branca. O fim da exibição trazia a realidade do cotidiano, mas deixava a sabor encantado do onírico que acalentava as saudades de Impueiras, a ausência dos pais, a incerteza do futuro.

Nos anos de 1980 a cidade de Cajazeiras assiste, impassível, ao fechamento dos seus três cinema. A massificação da televisão traz a comodidade da sala de estar, mas rouba o encantamento do sentar-se na poltrona e, entre pipocas, balas e beijos roubados da namorada, ver abrir-se ante seus olhos magias e realidades inventadas pela genialidade do homem. A televisão desencantou o mundo do cinema, alterou sociabilidade e deixou a cidade mais pobre de sonhos e encantamentos. E nas lembranças ainda revoam os cheiros, odores e sabores do Cine Pax hoje transformado em auditório, mas onde, outrora, como eu, muitos construíram mundos, ergueram fantasias e sonharam vidas. 



Artigo publicado no Jornal A União do dia 10 de Setembro de 2021.