domingo, 28 de fevereiro de 2021

A QUAL DESERTO PERTENCE ESSA FLOR?

por: Mariana Moreira
moreiramariana@uol.com.br


A pergunta se forja e agrega-se às estrangeirices marianas quando me sinto integrante de uma ínfima minoria de pessoas que não traz como item indispensável de sua casa um jarro como a flor do deserto.

Não consigo precisar o momento e as circunstancias em que a flor do deserto ganha a posição de planta decorativa necessária, prioritária e exclusiva em todas as casas. Mas, como as enxurradas que, nas madrugadas sertanejas, alargam riachos e córregos de barrentas águas benfazejas anunciadas de fartos tempos de inverno, a flor do deserto vai ocupando todos os requisitos de espaços e prerrogativas de bom gosto paisagístico.

E fotos abundam nas redes socais com relatos, alguns pueris, e tantos outros repetitivos e inócuos, da beleza da flor desabrochando, do seu colorido, de sua excentricidade. Alguns, mais afoitos, rasgam relatos olímpicos sobre a aventura de ter a mais bela variedade da espécie.

E me contagio por um sentimento dinossáurico ou, como me ensina o amigo Frassales, de minha “rabugice de velha”. Assim, em tempos de modernidades e de modos efêmeras, sem raízes fincadas e sem referencias de tempos, memórias, sentidos; isolo-me e encontro abrigo de minha infâncias e na titânica peleja de minha mãe com as formigas de roça que, sobretudo, na calada da noite, insistem em devastar suas folhas, desenhando verdes caminhos na direção dos formigueiros.

Encontro pouso em uma tímida touceira de rosa amélia cultivada no oitão de casa e cujo desabrochar de suas róseas é ansiosamente aguardado para enfeitar o acanhado jarro que  compõe o cenário da pequena mesa de orações, preparada para o novenário do mês mariana. E a delícia de ver o suave despetalar quando a maturidade determina a substituição da beleza pela sequência do tempo.

Consola a anima a singela simpatia que, majestosamente, brota nas primeiras chuvas, enroscando-se e enramando por frestas das cercas de vara cobrindo curvas e dobras de estradas e vidas de minúsculas flores rosa. Simpatia, bonina, lágrima de Santa Luzia, rabo de rato e, até mesmo, a gitirana. Flores nossas ou aqui aportadas em tempos outros. Flores que, jogadas ao ostracismo pela modernidade da flor do deserto, florescem em cantos de jardins, em improvisados jarros de lata de neston ou em beiços de estradas e me atualizam a imagem e o cheiro da rosa mélia aquecida pela pálida e bruxuleante luz da vela fincada num modesto castiçal a iluminar ladainhas, novenas e bênçãos em noite de maio.



fonte: Jornal A União, fevereiro/2021

sábado, 27 de fevereiro de 2021

Prefeito João Neto se reúne com o filho de Ariano Suassuna e discute implantação de Museu na Fazenda Acauã, em Aparecida.



As paisagens e o cenário cinematográfico da Capela da Imaculada Conceição do Patrimônio Histórico da Fazenda Acauã recebeu na tarde desta terça-feira 23, um grupo de artistas, entre eles estava o filho do memorável escritor Ariano Suassuna, o ator e artista visual, Manoel Dantas Suassuna; com ele estava à professora da UFPB Suelma Soares, colaboradora e roteiristas; Maria Paula Costa Rego, intérprete, criadora e Augusto Pessoa, fotógrafo.

Na visita o grupo de artistas estava justamente gravando um curta-metragem fundamentado na obra do escritor, lembrado pelos anos de vida da infância que passou naquela fazenda, mais precisamente na década de 30.

Como tem sempre acontecido, o patrimônio da fazenda acauã tem sido palco de filmes, documentário, vídeos e produções relevantes de vários artistas, espalhados no Brasil e no mundo, amantes da arte do cinema.

A produção do curta-metragem que estava sendo filmado é capitaneada pela lei de incentivo cultural do governo federal, Aldir Blanc, com previsão de ser lançado e exibido no mês de abril desse ano.

Na oportunidade o prefeito João Neto compareceu no final das gravações, e logo entre cumprimentos e apertos de mãos, conversaram sobre o tão sonhado projeto do Museu Armorial Ariano Suassuna, que tem a ideia de abrigar parte do acervo da obra imortal do escritor.

No museu também tem como proposta conter um anexo para a escola de arte, outra parte que seria para contar a história do ciclo do couro, em que a fazendo serviu de interposto no período da ocupação do nordeste.

E a proposta central seria abrigar as figuras criadas pelo romancista e que ficaram mais nítidas na memória do povo através das peças de teatro, do cinema e da televisão, como é o caso dos personagens João Grilo e Chicó, além de padres e cangaceiros ali retratados em sua obra.

Segundo o prefeito João Neto, está trabalhando com afinco, para que em seu governo possa realizar esse sonho de abrir o museu, o que daria um ganho significativo para o crescimento do turismo religioso e cultural da cidade. “Já temos dados os primeiros passos, conversando com o governador João Azevedo, deputados e senadores, para que possamos angariar os recursos necessários, e objetivar a implantação do museu que dará um ganho substancial para a economia local, e principalmente a valorização da cultura e todo o complexo desse patrimônio histórico, que tem uma importância para a cidade de Aparecida” – destacou.

Na conversa entre os artistas e o gestor ficou sugestões e propostas para tão logo voltarem a encaminhar ações e um planejamento para discutir outros meios de captar recursos e incentivos para a implantação do museu.



Fonte: CONEXAOPB. Publicada em 24/02/21, às 21h. atualizada em 26/02/21, às 01h02

sábado, 13 de fevereiro de 2021

CONVERSAS DE CINE ÉDEN. O arriscado pulo para ver o cartaz do filme no Cine Teatro Apolo XI

 por: Cleudimar Ferreira

Uma das cenas do filme "Caminhos Perigosos" exibido no Cine Teatro Apolo XI 
no dia que esse fato aconteceu.

Esta não é, exclusivamente, uma história de cinema, mas as suas coadjuvantes, em muito, têm ligação promíscua com a maior sala de exibição que havia em Cajazeiras. Então, vamos aos fatos. No início dos anos 80, quando eu era aluno do Colégio Comercial Municipal Monsenhor Constantino Vieira, meus colegas de turma do 1º Técnico em Contabilidade e os demais alunos, tínhamos sempre, durante o recreio, uma visão privilegiada que nos atraia muito ao nos deslocávamos aos fundos do ‘Colégio Comercial’ - como a escola era conhecida. É que, nesse local, o muro era baixo para quem estivesse dentro da unidade escolar, e sua posição ficava para a Rua Victor Jurema. Esse ponto de vista permitia-nos ficar praticamente de frente para o Cine Teatro Apolo XI, ainda que um pouco de lado, o que não favorecia a visão geral dos cartazes expostos no hall.

Como não se tinha a percepção total do que era exposto na recepção do cinema, evidentemente havia uma dificuldade de avistar, daquele muro, a tabuleta com o filme que seria exibido no dia. Isso por que a tabuleta ficava dentro do cinema, bem recuada, encostada na parede frontal do hall - parede essa, que servia de espaço decorativo, onde havia fixo um pôster dos três astronautas da missão Apolo XI e que também servia de divisão das duas rampas de acesso à sala-auditório.

Na programação semanal do cinema, eram exibidos, quase como rotina, três novos filmes, sendo um com enredo e temática cristã, por ser a sala pertencente à Diocese de Cajazeiras. Especificando melhor: uma destacada produção estreava no domingo e a sua exibição ia até a terça-feira. Na quarta-feira, um novo filme era rodado e ficava em cartaz até sexta-feira. No sábado, o cinema passava um filme de conteúdo cristã, que também era exibido na matinê do domingo de manhã. Era justamente os filmes que seriam exibidos na quarta que cativava o interesse de todos nós alunos cinéfilos do Colégio Comercial, a pular o muro para ver o cartaz e as fotos das cenas do filme que eram expostas na tabuleta, que sempre ficava dentro do cinema.

Portanto, quando o sino era batido por Dona Angelina Tavares, a diretora escolar, corríamos com nossas lancheiras para o citado muro. O interesse da maioria era saber que filme seria exibido, principalmente o filme da quarta-feira, que todos chamavam de ‘rentrée’. Para tanto, muitos ficavam escorados no muro perguntando às pessoas que passava pela Rua Victor Jurema, qual era o nome do filme em cartaz para aquele dia. Quando não transitava ninguém por essa rua e nem próximo ao muro, a ansiedade e o aperreio mental tomavam conta de muitos, que chegavam praticar o arriscado pulo do muro para ver cartaz do filme que seria exibido.


Mas havia uma dificuldade para todos que se aventuravam nessa prática. A altura do muro, por dentro da escola, passava de um metro; já a do lado voltado para à Rua Victor Jurema tinha mais de três metros de altura, e quem pulava sabia que a aterrisagem lá embaixo não era muito confortável. Mas muitos não se preocupavam tanto com esse detalhe, pois o que interessava mesmo era saber que filme passaria nas quartas-feiras. A prática do ‘pulo pra ver o filme’, como passou a ser chamada entre nós, foi se tornando comum e os seus adeptos aumentaram, até chegar aos ouvidos da disciplinada diretora Dona Angelina Tavares. Certo dia, ela flagrou alunos na hora do recreio chegando à portaria principal da escola, pedindo para o porteiro abrir a porta para entrarem. Ora, a gente pulava o muro, via rapidinho o filme em cartaz e seguia pelo quarteirão, margeando o casarão da família Zuca Peba, e chegava desconfiado, com a maior ‘cara de pau’, pedindo para o porteiro abrir a porta.

O porteiro, sempre contrariado, ficava confuso, sem entender por onde os alunos estavam saindo, pois pela sua portaria não era. Dias depois, a prática chegou ao conhecimento de Dona Angelina Tavares, que administrava a unidade escolar juntamente Antônio de Souza Sobrinho, de forma severa e rígida sob todos os aspectos.

Imediatamente, como forma de conter essa prática, Dona Angelina passou a sair de classe em classe anunciando que, se pegasse um aluno pulando o muro da escola para ir ver o cartaz do filme no Cine Teatro Apolo XI, este seria expulso da escola sumariamente, sem apelação. Para não ser obrigada a cumprir as ameaças feitas aos alunos, ela chegou a colocar um funcionário sentado próximo ao muro, para não deixar que nós pulássemos. Mas essa vigilância durou por poucas semanas e, tão logo o funcionário deixou de estar rotineiramente presente ao local, voltamos a cometer, mesmo às escondidas, esse desatino escolar, usando a casa do aprendiz de inventor Inácio Assis - que ficava vizinha à escola, como solução para voltar ao interior da escolar.

Alunos do 1º Técnico em Contabilidade do Colégio Comercial M. Mons. 
Constantino Vieira. Acervo: Cleudimar Ferreira

A residência de Inácio Assis tinha o muro da frente razoavelmente baixo para quem transitava pela Rua Victor Jurema. Entretanto, uma pequena escadaria conduzia o visitante do portão de pedestre até o terraço, cujo piso ficava praticamente na mesma altura do muro da escola, pela parte de dentro. Desse modo, ficava fácil o nosso retorno ao interior da escola – ao menos até o dia quando o proprietário da residência descobrisse e o alarido chegasse aos ouvidos de Angelina Tavares.

E, como por um capricho, esse dia veio. Mas veio antes mesmo que o dono da casa soubesse do que estava ocorrendo; veio de forma inesperada e até um pouco trágica, o que marcaria para todos o encerrando, de vez, dessa brincadeira arriscada que alimentava o nosso ego pela sétima arte. Especificamente para nós, alunos do 1º Técnico em Contabilidade.

Esse momento aconteceu quando, certo dia, as badaladas do sino ecoaram, anunciando a hora do recreio. A correria dos alunos saindo de suas salas de aulas para o pátio da escola e para o muro parecia pressagiar algo especial para aquele dia. De especial não houve nada; foi, até certo ponto premonitório, já que, por ironia, o filme programado para aquela quarta-feira era ‘Caminhos Perigosos’ (de 1973), um suspense dirigido por Martin Scorsese, como os atores Harvey Keitel e Robert De Niro. Quando chegamos próximos ao muro, já se perguntava entre nós quem iria pular para ver o cartaz. Um dos alunos, que não era da nossa turma, apareceu entre todos que estavam ali e disse: “eu vou”!

No muro, que, apesar de baixo, possuía um ‘gradil’, existiam também pontas afiadas, parecidas com esporões ou pequenas pontas de espadas. Toda vez que um de nós se projetava sobre ele, todo cuidado era pouco para não se ferir. nessas pontas. Mas aquele aluno não teve muita sorte nesse dia, pois, já estando em cima do muro, na hora que se preparava para pular, alguém avisou que Dona Angelina estava chegando. O adolescente, apressado para não ser pego pela gestora, escorregou, e um dos esporões dessa grade atingiu a ‘batata da perna’ dele, ficando o mesmo enganchado e pendurado, aos gritos.

De repente, a correria tomou conta do pátio. Eram alunos e professores correndo para lá e para cá para prestar socorro, enquanto outros ficavam assustados com a cena e com o desespero daquele aluno. Até que apareceu um dos funcionários da escola, que socorreu a vítima, tirando-a da grade e levando-a, todo ensanguentado para uma unidade do ‘SANDÚ’ que ficava vizinho a escola. Passado esse momento desesperador, o medo tomou conta de todos e nunca mais nenhum de nós quis se aventurar em tal prática. Até porque o recreio passou a ser realizado no salão da entrada da escola e não mais no pátio, muito menos nas proximidades do referido muro.


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sexta-feira, 5 de fevereiro de 2021

Iº FESTCINE PIANCÓ

Festival de Cinema do Vale do Piancó. De 18 a 20 de março de 2021, na Praça Salvino Leite. Como esclarecimento, a comissão organizadora do evento comunica que nos dias do evento será obrigatório o uso de máscaras e respeitar os distanciamentos. Levem seu álcool gel e vamos prestigiar o cinema e a cultura da nossa região.

p r o g r a m a ç ã o




segunda-feira, 25 de janeiro de 2021

“Carcará” e o destino de uma cidade para não se tornar refém do cangaço

Linaldo Guedes
linaldo.guedes@gmail.com


Fosse lançado na década de 1930, o romance “Carcará” teria sido inserido no primeiro time da literatura regional brasileira. Como se sabe, aquela década revelou nomes como José Américo de Almeida, Rachel de Queiroz, Graciliano Ramos, Jorge Amado e José Lins do Rêgo, para ficar nos mais referenciados. Lançado pela primeira vez em 1984 pela José Olympio Editora, “Carcará”, de Ivan Bichara, narra o assalto do bando de cangaceiros chefiado por Sabino Gomes a Cajazeiras, no ano de 1926.

Praticamente, todas as principais características da segunda fase do Modernismo estão na obra do escritor paraibano. Entre elas, a influência do realismo e romantismo, regionalismo, realidade social, cultural e econômica, valorização da cultura brasileira, temática cotidiana e linguagem coloquial.

Como é sabido, a prosa dessa fase do Modernismo se aproximou da linguagem coloquial e regional, mostrando a realidade de diversos locais do país, ora no campo, ora na cidade.

No caso do livro de Ivan Bichara, essas características estão presentes em diversas passagens do livro. A forma como o autor descreve o cenário urbano e rural do sertão paraibano é de uma impressionante realidade, embora com um toque de prosa poética em alguns momentos. Não tem como não se sentir em pleno sertão paraibano quando Bichara descreve a feira livre ou os pequenos sítios da redondeza.

“Carcará” narra uma realidade que existiu por muito tempo em cidades dos sertões nordestinos. Eram pequenas cidades e comunidades que viviam sempre apavoradas com a iminente invasão de Lampião e seus cangaceiros. No caso de Cajazeiras, Lampião decidiu não invadir a cidade. A lenda é que essa sua decisão atendia a um pedido de Padre Cícero, que teria sido aluno do Padre Rolim e não queria que a terra do seu mestre se tornasse refém dos cangaceiros.

Sabino Gomes era um dos “cabas” de confiança de Lampião e pediu ao “capitão” autorização para invadir Cajazeiras. Na verdade, Sabino havia residido em Cajazeiras e queria se vingar de alguns habitantes da cidade. Toda a narrativa do livro é construída a partir da expectativa existente na cidade para a invasão do bando de Sabino. É a partir dela que Ivan Bichara tece sua teia de ficcionista, criando

personagens fascinantes, como o ex-cangaceiro Raimundo Anastácio, Manoel Santana, Cego Alexandre, Raimundo Casimiro, tenente Elino Fernandes, Mariá, Moisés e Chicão, entre outros, que convivem no romance com personagens reais da história de Cajazeiras e da Paraíba, como Dom Moisés Coelho, Padre Gervásio Coelho, professor Hildebrando Leal, Major Epifânio Sobreira, Hygino Rolim, poeta Cristiano Cartaxo, Otacílio Jurema e o próprio pai de Ivan Bichara, entre outros.

Segundo o poeta e editor Lenilson Oliveira, além da psicologia das personagens, uma das preocupações de Ivan Bichara foi com a sociologia central do tema do romance: o cangaço, movimento que ganhou força nas primeiras décadas do século passado. “Mesmo sem se ater muito à questão, Ivan Bichara tenta situar o leitor, por meio de suas personagens, no que foram aqueles homens e mulheres que optaram pelo cangaceirismo, ‘filhos da seca’”, analisa Lenilson.

“Carcará” é o primeiro romance de Ivan Bichara, que lançou ainda os romances “Tempo de servidão” e “Joana dos Santos” e foi governador da Paraíba nos anos 1970. E, de fato, a questão do cangaço é o mote central do livro, mas a abordagem maior é na construção dos personagens e seus dramas pessoais de vida, enquanto se aguarda a invasão dos cangaceiros. Lembra, e muito, o enredo do célebre filme “Sete homens e um destino”, de John Sturges (1961), que teve um remake de Antoine Fucqua em 2016.

Do gênero western, o filme narra a história de um grupo de mexicanos que moram em uma pequena comunidade e vivem aterrorizados pelo bandido Calveira e sua gangue, que invade o local com frequência para roubar mantimentos. Foi mais ou menos isso que aconteceu na Cajazeiras de 1926. No filme, os habitantes da cidade mexicana foram atrás de pistoleiros profissionais para se protegerem de Calveira. No livro, os habitantes de Cajazeiras foram protegidos por Raimundo Anastácio e tenente Elino Fernandes, além de outros abnegados heróis que expulsaram Sabino Gomes e os cangaceiros. Se o filme narra o destino de sete homens, a belíssima obra de Ivan Bichara conta o destino de uma cidade e como sua gente se uniu para não ser saqueada.

Em tempo: a edição que li de “Carcará” foi organizada pelo professor Francelino Soares, membro da Academia Cajazeirense de Artes e Letras (ACAL), e lançada e, 2019 pela Editora A União, em comemoração ao centenário de nascimento de Ivan Bichara.

Linaldo Guedes é poeta, jornalista e editor. Com 11 livros publicados e textos em mais de trinta obras nos mais diversos gêneros, é membro-fundador da Academia Cajazeirense de Artes e Letras (Acal), mestre em Ciências da Religião e editor na Arribaçã Editora. Reside em Cajazeiras, Alto Sertão da Paraíba, e nasceu em 1968.


fonte: https://www.osguedes.com.br/

sábado, 23 de janeiro de 2021

O MASSACRE DOS MARCELINOS

por Beto Rueda


O banditismo no sertão nordestino a partir dos anos 20 cresceu de forma assustadora. A grande seca de 1919 que devastou a região reduziu as populações a uma indescritível penúria. Os assaltos à mão armada se sucediam num crescendo, tanto nas estradas quanto nas fazendas e vilarejos.

O bando dos Marcelinos ilustra a história do cangaço nos sertões do Cariri, através de sua vivência e atuação nesta região.

Família humilde, procedentes de Pernambuco, do sítio dos Moreiras, atual Moreilândia, os irmãos João, Manoel e Raimundo, dedicaram boa parte da vida trabalhando em fazendas como agricultores e vaqueiros.

Tudo começou em meados de 1923 quando o irmão mais velho João é repreendido por Ioiô Peixoto, chefe de polícia, na feira de Caririzinho (PE). No momento que é desarmado de sua faca em público e diante de tamanha humilhação, jura vingança. Comunica os seus irmãos do fato e decidem surrar o policial. Ioiô enfurecido, contrata um pistoleiro bastante afamado na região para dar cabo dos Marcelinos. Cientes do perigo, eles pediram baixa nas fazendas que trabalhavam, venderam os seus bens, compraram armamentos e, para consumar a vingança, fuzilaram Ioiô Peixoto. A partir desse momento, ingressam na vida do crime.

Os Marcelinos ganham fama de perigosos, saqueiam, matam. Tudo isso acontecia em grande parte com o apoio de muitos coronéis da região do Cariri que os escondiam e encomendavam serviços. Os cangaceiros atuavam principalmente na ligação dos municípios de Crato, Juazeiro do Norte e Barbalha.

A fama vai se espalhando, transpõe divisas e se alastra nos estados vizinhos. Respeitados, viram também aliados de Lampião em diversas ações, inclusive no ataque a cidade paraibana de Cajazeiras e na tentativa de ataque em Mossoró, no Rio Grande do Norte. Por sua agilidade e destreza com as armas Manoel recebe a alcunha de Bom Deveras.

Tempos depois o grupo opta por não seguir mais Lampião e continuam a praticar crimes na região do Cariri.

O fim do bando dos Marcelinos se dá com a morte de Manoel (Bom de Veras) pela volante, no Sítio Minador na casa de Raimundo Alexandre. Tempos depois foi morto João (Vinte e dois), o mais velho, na Chapada do Araripe. João entra morto na cidade de Barbalha, pendurado num pau, com o seu cabelo arrastando pelo chão, como troféu, pelos policiais.

Raimundo (Lua Branca) ferido e, os demais cabras que ainda estavam com Vinte e Dois, foram capturados e levados à cadeia pública de Barbalha. Foram eles: João Gomes, Joaquim Gomes, Pedro Miranda, Manoel Toalha.

Na manhã de 05 de janeiro de 1928, com o pretexto de transportar os presos até a capital Fortaleza, o sargento José Antônio e seus soldados, conduziram os detentos para o sítio Alto do Leitão, localizado junto à velha estrada entre Barbalha e Crato. Lá chegando, obrigaram os indefesos presos cavarem suas próprias sepulturas. O desespero e a coragem do grupo acabaram tornando a chacina ainda mais dramática: Ainda não satisfeitos, fuzilaram um a um, sem piedade. Até o último cair na cova mortuária.

Covardia, vingança, lei...

O Massacre do Alto do Leitão foi sem dúvidas um dos mais marcantes e trágicos episódios do cangaço em terras cearenses.



Referências:
PEIXOTO JUNIOR, José. Bom Deveras e seus irmãos. 2. Ed. Goiânia: Kelps, 2009.
SANTOS, Vilma Maciel Lira dos. Os fuzilados do Leitão: uma revisão histórica. Juazeiro do Norte: HB, 2001.
MELLO, Frederico Pernambucano de. Guerreiros do sol: violência e banditismo no Nordeste do Brasil. 2. Ed. São Paulo: A Girafa, 2004.
Fonte:
https://www.facebook.com/groups/GrupoCangacologia

quarta-feira, 6 de janeiro de 2021

CONVERSAS DE CINE ÉDEN. Como Cajazeiras e o Cine Teatro Apolo XI receberam o ator Sávio Rolim na noite de estreia do filme "O Leão do Norte"

MEMÓRIA


Cartaz original do filme que o artor Sávio Rolim atuou.

por: Cleudimar Ferreira


‘O Cinema sempre foi e será a maior diversão’. Era mais ou menos essa a frase da mensagem gravada em um jingle que anunciava a programação dos filmes que seriam exibidos pelo Cine Éden durante a semana. O jingle era reproduzido todos dias na programação da Difusora Rádio Cajazeiras - a Pioneira. Ao retrocedermos no tempo para voltarmos às décadas de 60, 70, 80, veremos que uma das principais opções de lazer e entretenimento nesses decênios, em Cajazeiras e em todo Sertão era mesmo o cinema.

Cajazeiras, como uma cidade cosmopolita no segmento cultural da região sertaneja, sempre teve pulsante, nos seus artistas, a inquietante vontade do fazer artístico. E os seus três cinemas, nesse contexto, era o complemento necessário que aguçava os sonhos e a possibilidade da realização desses. Discursões sobre os filmes considerados ‘filmes de artes’ exibidos vez por outra no Cine Teatro Apolo XI, debates sobre as produções do Cinema Novo e as principais jornadas cineclubistas que aconteciam no Nordeste parecia ser a apoteótica viagem que a classe intelectual e artística da cidade, naquele tempo, fazia nos finais de semanas, tendo como percurso as salas de cinema de rua existentes - duas no centro e outro mais afastada, o citado Cine Teatro Apolo XI, outrora administrado pela Diocese da Cajazeiras.

Mas toda essa vontade, travestida de ilusão dos nossos trabalhadores das artes, mostrava-se frustrada quando a notícia que chegava à cidade era a de que o ator ‘fulano de tal’ - aquele ou aquela - fizera um filme ou experimentara o sabor do estrelato nas telonas, seja participando como destaque ou como ponta de uma determinada produção nacional. Isso, às vezes, causava emulação em muitos, a ponto de alguns ignorarem o destaque, até por mera ciumeira. Foi o caso do ator cajazeirense Sávio Rolim. Sávio, até fazer ‘Menino do Engenho’, era uma anônima criança talentosa, então desconhecida da classe teatral, mas que se fez ator depois do filme pelo brilhante desempenhado na fita. Mesmo assim, não foi o suficiente para ser consagrado pela classe artística ou cair na graça do público em geral de Cajazeiras.

Essa falta de empatia que Cajazeiras parecia demostrar ao trabalho de Sávio Rolim perdurou seguidamente, mesmo o ator conseguindo vários trabalhos em outros filmes que fez depois de ‘Menino de Engenho’. Isso ficou claro na noite de estreia do filme ‘O Leão do Norte’ no Cine Teatro Apolo XI, em 1976 - longa dirigido por Carlos del Pino em 1974-75, do qual Sávio Rolim participou como um dos atores de destaque. Lembro-me muito desse dia, pois estava no cinema e presenciei a falta de acolhimento e de incentivo ao ator, que naquele instante se encontrava na portaria do cinema.  

Nessa noite, que marcou estreia do filme na cidade, eu estava na calçada do Cine Teatro Apolo XI, em frente à portaria, esperando um sinal verde do então porteiro Cícero Alves - o ‘Cícero do Bradesco’ - que sempre me colocava para dentro do cinema em troca de uma ajuda que eu lhe dava na montagem dos cartazes das tabuletas de divulgação dos filmes, que eram colocadas nas ruas de Cajazeiras. Quando me preparava para esse momento, de repente, um rapaz desconhecido se aproximou de mim e de outras pessoas que estavam próximas à grade de proteção da portaria, dizendo que havia participado do filme. “Eu participei desse filme! Eu estou no elenco!” Foram essas as duas frases interpelativa que todos nós ouvimos da boca do ainda jovem ator Savio Rolim.




Se houvesse zelo da sociedade cajazeirense pelos grandes feitos dos nossos artistas - que com esforço alcançaram a consagração nacional nas linguagens das artes -, no mínimo, as emissoras de rádio da cidade na época (a Difusora Rádio Cajazeiras e a Rádio Alto Piranhas – também administrada pela diocese) teriam bradado o dia todo na sua programação, chamando o público e, principalmente a classe artística para comparecer ao Cine Teatro Apolo XI. Afinal, naquela noite, o cinema exibiria um filme em cujo elenco constava a participação de um ator da cidade, o qual estaria presente no lançamento.

Contrariando o que seria natural em um caso como esse, nada foi feito em termos de divulgação nas rádios sobre a presença do ator no cinema da Diocese para o lançamento do seu filme. Não houve também mobilização da classe artística, nem de pessoas desse seguimento, para recepcionar o ator de ‘Menino de Engenho’ - principalmente a classe teatral da época, que poderia ter feito uma campanha de divulgação boca a boca ou ter distribuído panfletos. Da parte do cinema, tendo à frente o bispo cinéfilo Dom Zacarias Rolim Moura, a situação foi pior. Lembro-me de que Dom Zacarias, mesmo estando no cinema naquela noite, nem sequer tomou conhecimento da presença do ator do filme que seria exibido - que estava ali, na calçada do seu cinema.

Nessa época, o feito de se chegar aonde Sávio Rolim havia chegado era fato raro. Não era tão fácil assim, pois as oportunidades que surgiam eram preenchidas por atores do eixo Rio - São Paulo ou a eles destinadas. Chegar ao estrelato, ou se ver na telona ou na TV, não passava de um sonho para muitos atores de outras regiões do país - principalmente do Nordeste -, que adiavam ou guardavam seus desejos, contentando-se com as raras participações em produções documentais e nos curtas realizados pelo Cinema Novo, material esse que pouco passava nos cinemas comerciais.  

Portanto, para referendar essa memória, afirmo que presenciei In Loco, nessa noite de estreia do filme ‘O Leão do Norte’ na cidade, como se comportou o público cajazeirense e como foi à recepção na época que, Cajazeiras deu a Sávio Rolim - sua, até então, estrela maior no cinema nacional, nos anos 70 e 80. 


Depois da rápida conversa que tivemos e das poucas perguntas que eu e as outras pessoas curiosas fizemos ao ator, aproximou-se o início da projeção do filme e o público, que já era pequeno, foi ficando menor ainda, esvaziando-se. Vi quando Sávio Rolim se afastar um pouco de nós e, em um dado momento, sem companhia, sozinhos na calçada do Cine Teatro Apolo XI, presenciou as últimas pessoas que chegavam às presas e se dirigiam à bilheteria e em seguida, à portaria.

Sem opção, o ator, vendo que não havia mais nada a fazer ali naquele local, olhou para um lado e para o outro e depois saiu... saiu em companhia de um casal que tinha acabado de chegar, em direção à Catedral Nossa Senhora da Piedade. Minutos depois, o improvisado porteiro Cícero Alves acenou para mim, fazendo um sinal de que eu já poderia entrar.

Auditório do Cine Teatro Apolo XI. Foto do arquivo de Netinha Quirino


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REITURA DA FOTO EM PRETO E BRANCO. 
O Auditório do Cine Teatro Apolo XI, não servia apenas para exibição de filmes, mas para outros fins. Para shows musicais, palestras, apresentações teatrais e festas de concluintes da área educacional da cidade. Na foto acima cerimônia de colação  de grau da primeira turma de formandos da FAFIC no auditório do cinema.