sexta-feira, 2 de fevereiro de 2024

Enquanto o carnaval não chega, as prévias vão rolando


            
VEJA ESSE BELO CENÁRIO!


Poi é, enquanto a folia de momo não chega, as prévias carnavalescas tem que acontecer para esquentar os foliões e deixar todos preparados para cair na folia, a partir do dia 8, E nesse clima, hoje, dia 02 (sexta-feira), às 20 horas, sob a briza desse encantado cenário, que poderia ser transformado no oases do sertão, essa imagem vai ficar melhor ainda com a apresentação do "NOSSO AFOXÉ". que vai fazer a sua tão esperada prévia de carnaval. Então você não tem motivos nenhum para ficar em casa. Venha, por que o Leblon está de braços abertos, esperando você. 

foto: Nonatto Saraiva



VEJA O QUE VAI ROLAR NO CARNAVAL 2024 EM CAJAZEIRAS

 


Os organizadores do Carnaval de Rua de Cajazeiras, principalmente os responsáveis pela discriminação dos dias e horas das saídas dos blocos populares, definiu a programação que ficou especificada assim. Veja:

DESFILE DOS BLOCOS

QUINTA-FEIRA (8)
Bloco Afoxé de Quinta (Atrações: Cigano e Banda Afoxé)
SEXTA-FEIRA (9)
Bloco Imprensados (Atrações: Forró de Alta e Ricardinho)
Bloquinho da Diversidade (Atrações: Lukinhas Imperador e Caio DJ)
Bloco Orin Igbadu (Atração: Banda Orin Igbadu)
SÁBADO (10)
Bloco das Virgens (Atração: Tikinho Pankadão e Biguinho Show)
DOMINGO (11) 
Bloco Amélia Nunca Mais (Atrações: Raiara Moura e Armanda Caroline)
Bloco Zé Liança (Atração: Tikinho Pankadão)
Bloco do Índio (Atrações: Jonas Safadão e Popó Silva)
Bloco Vamos Hablar (Aguardando confirmação das atrações)
Bloco Maluco Beleza (Aguardando confirmação das atrações)
SEGUNDA (12)
Bloco Cafuçu (Atrações: Pagode Brega e Orquestra Retrô)
TERÇA (13)
Bloco Dindin de Cajá (Atrações: Tote Barreto Kids e Ricardinho)

PRAÇAS ALTERNATIVAS

PRAÇA DO FREVO
SÁBADO (10)
Atrações: Orquestra de Frevo Santa Cecília e Tropicana
DOMINGO (11)
Atrações: Orquestra de Frevo Clarins de Momo e Frevuna
SEGUNDA (12)
Atrações: Orquestra Uiraunense de Frevo e Edu Batera & Orquestra Retrô
TERÇA (13)
Atrações: Orquestra de Frevo Clarins de Momo e Santa Cecília

PRAÇA DO ROCK
SÁBADO (10)
Atrações: Banda A Volante, Banda Backroad e Banda Arlequim
DOMINGO (11)
Atrações: Banda Laura Freire, Banda Peleja e Banda Conspiração Apocalipse
SEGUNDA (12)
Atrações: Banda Lothbrock, Banda Descendentes das Tribos e Banda Danos Morais
TERÇA (13)
Atrações: Banda Conexão Rock Retrô, Banda Baião d'Doido e Banda Anarquia Organizada

BECO CULTURAL
SÁBADO (10)
Atrações: Dj Klyfer, Dj Theewz, Dj Mulher do F. M. e Dj Karlos
DOMINGO (11)
Atrações: Som Livre, Dj Theewz, Dj Gabs e Dj Dvart
TERÇA (13)
Atrações: Som Livre, Dj Theewz, Dj Karlos e Dj Knust

CORREDOR DA FULIA

Foi divulgada a participação da cantora Solange Almeida, do cantor Kiko Chicabana, da Banda Biquini Cavadão, Dan Ventura, entre outras atrações no corredor da folia, que esse ano será em todo percusso da Avenida Cel. Juvêncio Carneiro e só vai acontecer até as 4 horas da manhã, prazo estipulado pela órgãos do judiciário e da segurança local. Veja as atrações:

ATRAÇÕES DO CORREDOR DA FOLIA
SÁBADO (10)
Atrações: Solange Almeida, Turma da Bregadeira, Léo Mariano e Biguinho Show
DOMINGO (11)
Atrações: Kiko Chicabana, Flávio Pisada Quente, Edson Cantor e Luiza Nobre.
SEGUNDA (12)
Atrações: Biquini Cavadão, Tony Barra e Jefinho Estilizado.
TERÇA (13)
Atrações: Dan Ventura, Bonde do Brasil, Banda Sensação e Judimar Dias.

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sábado, 27 de janeiro de 2024

A Editora e Livraria Arribaçã está em nova sede. Mais ampla e multicultural

Com informações de Linaldo Guedes





A Editora e Livraria Arribaçã, está a partir de hoje, sábado 27 de janeiro, em novas instalações. O novo espaço fica na Rua Felismino Coelho, 47, Sala 36, no centro comercial de Cajazeiras. Para ser mais preciso, no popularmente chamado Prédio do Bispo, na rua paralela onde antigamente funcionou o Cine Teatro Pax.

Agora o endereço é bem maior, com espaço também para lançamentos de livros, realizações de saraus; podendo ser um ambiente para exposições de artes, já que a editora tem como prática, o exercício da promoção das artes visuais na cidade, realizando sempre, exposições de arte na sua galeria. No local, a editora disponibiliza ao visitante, todo seu acervo e mais, a venda de livros usados de outras editoras, bem como, objetos de artesanato, peças das louceiras, cds e dvds. Ou seja, mais ampla e multicultural.

Portanto, você que visita Cajazeiras, tem como opção cultural, conhecer as novas instalações da editora e voar nas asas da Arribaçã. Semana que vem, seus editores, já programou o lançamento da coletânea “Cordel do Encanto Feminino”, que reúne cordelistas de todo o Nordeste. Sinta-se brevemente convidado!


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sábado, 20 de janeiro de 2024

SUA MAJESTADE A RAINHA JOANA DE CAMPINA GRANDE:

por Walter Tavares

as novas gerações nunca ouviram nem falar, mas os campinenses das gerações dos anos 1940/1950, que estão vivos, talvez ainda lembrem ou tenham ouvido falar de uma das personagens de rua mais populares da história passada de Campina Grande, a Rainha Joana. Uma moça loira que viveu e envelheceu dormindo e perambulando pelas ruas centrais da cidade, entre o final dos anos 1930 à década de 1950. Contam os que a conheceram que ela enlouqueceu por conta de uma desilusão amorosa, após apaixonar-se por um rapaz rico e de família tradicional da cidade. Na sua sofrida vida houve um tempo em que jovem e muito bonita chamava a atenção dos rapazes que a cortejavam, entre os quais  aquele que viria a ser o amor impossível de toda a sua vida e com o qual acreditou que viria a casar-se. Mas como num folhetim de novela, o rapaz rico abandonou a moça pobre que, extremamente desiludida, passou a viver um pesadelo que lhe trouxe a fraqueza mental. O noivo e o casamento que tanto sonhou lhe tirou o juízo, e a própria família abandonou Joana, que passou a sobreviver de esmolas nas ruas centrais, acreditando ser uma Rainha. Sua bagagem real era uma cesta, onde conduzia um vestido longo usado, uma coberta encardida, um velho par de sapatos gastos, um pente e um vidro de óleo perfumado que usava acariciando os outrora lindos cabelos loiros. Joana, já bem velha, ainda se apresentava como rainha, a Rainha Joana,  que ia casar-se com um rei. E como no enredo do genial Joãosinho Trinta, Ratos e Urubus Larguem Minha Fantasia, na vida da Rainha Joana tudo também reluziu, era ouro ou lata, formou-se a grande confusão, qual areia na farofa era o luxo e a pobreza no seu mundo de ilusão... Ela, louca e mendiga, acreditava que suas vestes eram reais, eram mantos de ouro e toda Campina Grande lhe pertencia. Eram suas todas as lojas e edifícios imponentes da época, como o Grande Hotel, a Prefeitura, o Cine Capitólio e os Correios, e as igrejas eram palácios de sua propriedade. Usava uma coroa de cordas e de molambos, e ao amanhecer, depois de dormir a cada noite na calçada de um dos seus palácios era acordada pelos seus súditos, a molecada da cidade que a insultava chamando-a de rainha, que para ela não era insulto e sim uma saudação real. Passava os dias perambulando por uma Campina art déco, cantando as marchinhas carnavalescas dos clubes do seu tempo de jovem: Regador, Cana Verde, Caiadores, Chaleiras, Beija-Flor e Dona Não Grite, promovendo "cerimônias reais" públicas onde condecorava populares com tampinhas de garrafa ou recitando quadrinhas poéticas que recordavam um amor que alimentou por muito tempo e depois morreu, deixando-a ao relento, cheia de amarguras e saudades, abandonada e louca, como nesta foto de 1951, em que  ela aparece já bem velha, com sua coroa e seus trajes reais nos degraus da Matriz, pronta para mais um recital: "Quem disser que não chorou, Querendo bem, é mentira, Querendo bem de verdade, Chora, soluça e suspira..."
A louca Joana e as histórias de uma Rainha da Borborema.
"Quem já passou por essa vida e não viveu,
Pode ser mais mas sabe menos do que eu.
Porque a vida só se dá pra quem se deu,
Pra quem amou, pra quem chorou, pra quem sofreu" (Vinicius de Morais)

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quarta-feira, 27 de dezembro de 2023

CONVERSAS DE CINE ÉDEN. Como foi a exibição simultânea do filme “Scarface” no Cine Teatro Apolo XI e Cine Pax

por Cleudimar Ferreira



A invenção do cinema, desde o feito extraordinário dos irmãos Lumiére até os dias presentes, tem exercido um certo fascino em muita gente e, por certo, continuará fascinando gerações. Parece até que a sua incomum descoberta para o mundo, lá atrás, em 1895, mesmo que tenha acontecido sobre o pretexto do ocaso; da curiosidade dos dois jovens franceses; a sua conquista, acentuou a ideia de que o surgimento do cinema já estava traçado na linha do tempo. Ou seja, programado para acontecer por uma razão não explicável. Por essa singular força e, enigmática forma como surgiu, o cinema passou com todos os brilhos rumo ao futuro, indo por aí a fora, deixando-se cair cheio de graças, nas graças de muitos, sem diferenciar por características essa graça de ninguém.

E essa despretensiosa brincadeira dos Lumiére, experimento, curiosidade ou qualquer coisa como queira classificar esse momento na história do cinema, foi até certo ponto marcante para mim quanto admirador, consumidor e venerador dessa magia substancial na minha vida. Não tenho nenhuma feição tanto quanto alguém que vive diretamente ligada a feitura dessa atividade. Mas o movimento das inventivas imagens criadas pelos dos rapazes de Besançon, me atraiu desde criança, grudou e fez morada também. Afinal, quem não gosta de um bom filme, de uma história bem contada, aditivada através de imagens que encantam nossos olhos.

No presento, tão distante do que foi um dia as salas de ruas no sertão paraibano, vivo apenas das lembranças e das poucas visitas que faço aos cinemas da capital, quando tenho folga das atividades que exerço como professor. O mais, me deito na cama e, antes de dormir, tiro de dentro de mim os momentos que vivi, quanto frequentador dos cinemas na minha sempre terras Cajazeiras. Aí eu me deleito e construo um sono eterno, pleno de lembranças e sonhos de um tempo que ficou eternamente.

Partindo desse pressuposto; dos Lumiére, apenas as lembranças do que dizem os escritos e o que contam os historiadores. Mas dos extintos cinemas de Cajazeiras, tenho comigo a vivência e convívio, o que me dá subsídios para falar, contar o que vi, o que passei e o que presenciei. Um desses instantes marcantes foi quando o filme Scarface foi exibido nos cinemas Apolo XI e Pax - Os cinemas da diocese ou cinemas do bispo, como muitos se referiam a estas duas casas de exibições que já existiu em Cajazeiras.

De um lado, um exibidor apaixonando por cinema, embora conservador e durão; do outro lado um divulgador de rua quase programador, que apenas cumpria ordens, mas recorria as boas relações que havia entre os dois, para dar pitacos, sugestões e até incorrer das decisões referendadas pelo primeiro. Indo diretamente ao ponto, falo de Dom Zacarias Rolim de Moura (bispo diocesano de Cajazeiras) e de Cícero Alves (o Cícero do Bradesco). Um, o patrão e o outro, um empregado.


Dá parte de Dom Zacarias, era quase sagrado todos os meses ia a Recife, Pernambuco, para fazer duas coisas supostamente necessárias também em sua vida. A primeira, era visitar seu médico, que o medicava e orientava o seu tratamento contra um germe de barata que havia adquirido. A segunda, talvez um poco mais prazerosa para o bispo, a de percorrer as distribuidoras de filmes, escolher a seu gosto as melhores películas e fechar com essas empresas de cinema, a programação mensal dos seus dois cinemas.

De responsabilidade das distribuidoras, ficava a garantia dos repasses e envios a Cajazeiras pela Viação Gaivota, no dia e hora marcada, dos filmes programados, bem como, todo material necessário para a divulgação interna e externa dos filmes.

Do outro lado, era atribuição de Cícero Alves, a incumbência de fazer a programação de rua dos cinemas. Para que isso acontecesse, precisava preparar as tabuletas, cobrir primeiramente todas com papel jornal, colar os cartazes ou fotos e fazer os letreiros indicativos com data, hora, além da qualificação e censura - se era proibido para menores de 14 ou 18 anos. Tudo com mandava a tradição e a cultura cinéfila nessa época.

Cícero não tinha habilidade nenhum com a pintura de letreiros e, essa parte, cabia a mim. Usava as milhas habilidades de artista plástico para criar os letreiros estilizados e os outros enfeites. Ou seja, deixar as tabuletas mais atrativas, com condições de convencer o público a ir aos cinemas.

Era também responsabilidade de Cícero Alves, talvez a mais significativa de todas, ir buscar no terminal rodoviário Antônio Ferreira, os filmes, que chegavam a Cajazeiras, vindos da capital pernambucana, via empresa Viação Gaivota, além de uma vez por outra, revisar os rolos de fitas e, principalmente, assumir a portaria dos cinemas quando de uma inesperada falta ou folga do porteiro titular.

Então, duas vezes por semana saíamos do Cine Pax, às 9h00 da manhã, conduzindo uma carrocinha até o guichê da Viação Gaivota. Depois que os filmes eram despachados pela Gaivota, pegávamos esses filmes e nos deslocávamos até a Cúria Diocesana para certificar e mostrar ao bispo o conteúdo que havia chagado do Recife.

Uma vez passado pelo visto do Senhor Bispo, nos deslocávamos desse local em direção do Cine Apolo XI, onde recolhíamos o material de divulgação e, deixávamos sob responsabilidade os operadores - os irmãos Geraldo e Manoel Conrado, as latas com os rolos de fitas. As fitas eram revisadas quadro-a-quadro pelos irmãos Conrado e depois prontificadas para serem exibidas nas sessões à noite.

O filme Scarface, uma produção de Brian De Palma, era sempre incluído nas programações mensais que Dom Zacarias fazia juntos as distribuídos no Recife. Porém, nem o bispo e muito menos Cícero Alves, sabia os verdadeiros motivos dessas distribuidoras não enviar esse filme a Cajazeiras. Muitas vezes quando era convidado por Cícero para ir com ele no gabinete do Bispo, vi Dom Zacarias contrariado, chateado e, em certos momentos, até estressado, por conta do entrave protagonizado pelo não envio do filme. Dava a entender que havia um problema com a distribuição de Scarfece.

Se havia problema ou não falha, as tentativas de correção desse embrolho eram feitas quase todos os meses por Dom Zacarias, através das reclamações constantes via telefonemas a Recife. Mas Scarface não chegava nos cinemas do bispo e, no seu lugar, eram enviadas outras produções menos destacadas, que chegavam como uma surpresa para todos, que tampouco haviam sido incluídas nas programações dos Cines Apolo XI e Pax.

Nos intervalos do tempo, quando o filme de Brian De Palma já estava entrando para um estágio de olvidamento, sendo considerado pelo bispo exibidor, uma carta foro do maço do baralho ou tinha entrado subitamente na rota do esquecimento, tanto por Cícero quanto por Dom Zacarias, eis que um certo sábado eu fui com Cícero ao guichê da Gaivota, receber os filmes que havia chegado.


Depois dos tramites e despachos do pacotão feito por essa empresa de transporte interestadual, colocamos a encomenda na carrocinha e antes da sair do local, abrimos a estopa para ver que filme havia chagado. Tal foi a inesperada surpresa para nós dois, ao ver os cartazes e algumas fotografias, bem como, as latas com rolo de fitas, estampado a palavra Scarface.

Nos alegramos e apresamos o passo em direção ao Palácio do Bispo, para anunciar a Dom Zacarias a grata surpresa da chegada do filme tão aguardado por ele. Quando chegamos ao local, eu fiqueI na calçada, sentado na carrocinha cuidando do filme e Cícero se dirigiu ao recinto onde Dom Zacarias estava. Fiquei no aguardo por quase 15 minutos e ouvindo, mesmo um pouco distante, múrmuros da conversa entre os dois.

Esperei por um certo tempo a volta de Cícero. Quando de repente ele apareceu, descendo as escadarias da capela anexa ao Palácio Episcopal. Ao chegar junto a mim, ele chega simplesmente calado, sem dizer nada, pegou o condutor da carricinha e saiu deslisando as duas rodas em direção ao Cine Apolo XI. O silêncio era total até eu falar: - e aí, Dom Zacarias gostou da chegada de Scarfase? Com a aura fechada, meio embirrado, de forma inaudível ele respondeu: - home, não fale não!

Ao se aproximar da esquina da Catedral Nossa Senhora da Piedade, ele abriu a boca e começa a jogar para fora as primeiras palavras grosseiras, consequência da conversa estressante que teve com o bispo exibidor. E chutando tudo que via pela frente; Cícero, contrariando o bom sentido como manda a etiqueta, começou a berrar: - Cara, o home é cruel demais! Um sujeito mau, ruim e duro com a gente. Quer porque quer fazer a estreia simultânea do filme nos dois cinemas. Está vendo que isso não vai dar certo.

Confesso que fiquei preocupado e sem entender a ideia encomendada por Dom Zacarias. Afinal só havia uma cópia de Scarface. Como exibir ao mesmo tempo o filme nos dois cinemas. O Cine Apolo XI, ficava na zona Norte e o Cine Pax, na zona sul da cidade.

Em se tratando de cidade do interior, o percurso entre os dois cinemas não era lá tão longe assim. Dava para ser percorrido em 15 minutos. O problema era a logísticas. Já que o bispo havia estabelecido que a exibição do filme seria feita dessa forma, então ficou estabelecido na conversa entre os dois, que a sessão no Cine Apolo iria iniciar as 19h00 e no Cine Pax, às 20h00. Uma diferença de uma hora de cinema para cinema, com objetivo não haver problemas na exibição simultânea.

Uma vez feito a programação de rua, com a colocação das tabuletas contendo os cartazes do filme em lugares estratégicos da cidade, anunciando a exibição paralela e os novos horários de exibição, a expectativa dos operadores dos projetores, era aguardar e ver na prática se tudo ia dar certo.

Chegou à noite, o Cine Teatro Apolo XI começou rodar a primeira parte do filme no horário programado. Quando terminou a exibição da primeira parte, Geraldo Galvão, um voluntário com presença marcada todos os dias no Cine Teatro Apolo XI, pegou sem perder muito tempo a fita, subiu em uma bicicleta e foi deixar no Cine Paz.

Na hora que Geraldo chegou no Cine Paz com a primeira parte de Scarfece, Zezinho, o operador de projetor, já estava esperando na portaria do cinema para levar a fita até a cabine de projeção. Aquele funcionário pegou o rolo de fita, se dirigiu rapidamente até o seu espaço de trabalho, rebobinou a fita e, em seguida, deu início a exibição.

Tudo ia correndo muito bem, mesmo sabendo que para satisfazer o ego do bispo Dom Zacarias Rolim de Moura, o esforço do voluntário Geraldo Galvão, estava sendo grande. Ele aceitou a tarefa, simplesmente por ter cultuado uma boa amizade com funcionários do cinema, por gostar de cinema e vivenciar como era de praxe em alguns jovens de Cajazeiras desse tempo, o dia a dia das atividades que antecedia as exibições dos filmes nos cinemas da sua terra.


Apesar do calor sudorífico e grudento das cabines de projeções dos dois cinemas, principalmente a do Cine Pax - apertada, quente e sufocante demais para os seus projetistas, Zezinho e seu filho - que fazia a função de auxiliar de operador, até a terceira parte do filme, tudo ia transcorrendo sem nenhum problema ou se dando muito bem.

Porém fatores abstratos no Cine Teatro Apolo XI, muito mais ligados a uma energia externa ou quem sabe do além, interferiu na perfeição da projeção feitas pelos irmãos Geraldo e Manoel Corado, quebrando a fita da quarta parte de Scarface. E assim, induzindo o público que assistia o filme, a produzir ligeiros assovios, gritos e suportar quase 10 minutos de paralização da projeção.

Passado esse momento, o filme continuou sendo rodado e quando a quarta parte de Scarface foi consumida pelas garras das bobinas do projetor do Apolo XI, Geraldo Galvão, imediatamente pegou o rolo de fita e seguiu em disparada para o Cine Pax. Quando chegou na portaria do cinema, o filho de Zezinho já o aguardava.

Sem mais delongas, o rapaz recebeu a quarta parte das mãos de Geraldo e, as pressas, subiu a escada caracol do Cine Paz, até a cabine onde o pai esperava. O rapaz entrou feito a luz de um relâmpago naquele espaço apertado, rebobinou a o rolo de fita contando os minutos e segundo, pois a terceira parte já estava acabando. Só deu tempo de colocar no segundo projetor. Quando terminou, já foi acionando a máquina, dando prosseguimento a projeção do filme, sem provocar brecha ou espaço branco na passagem da terceira parte para quarta parte.

No Cine Teatro Apolo XI, com sua cabine mais moderna, ampla, com ar condiciono, seguia a projeção da quinta e última parte do filme de Brian De Palma e lá no Cine Paz, a quarta parte ainda estava em andamento. Parecia que tudo aí acabar com um final feliz. Menos para Geraldo Galvão que já estava com as baterias arriadas e vencidas de tanto “pra lá e pra cá” entre os dois cinemas. Quando de repente da escuridão do céu desceu sobre Cajazeiras as primeiras gotas cristalinas de uma chuva forte de 20 minutos. Tempo suficiente para o “The End” anunciar o final do filme.

Em questão de pouco minutos, o operador Geraldo Conrado, apareceu com quinta e última parte no hall do cinema para entregar a o outro Geraldo, o Galvão. Ficaram olhando uma para cara do outro, até Geraldo Galvão sussurrar: - E agora, o que faremos com essa chuva?

O Segurança de alcunha Didi, responsável pela ordenação das filas na portaria e na bilheteria, que estava bem próximo dos dois Geraldo, respondeu para Geraldo Galvão: - E agora! Agora enfrente a chuva. Vá logo! pois a quarta parte do filme no Cine Pax, se não estiver terminando, está faltando pouco tempo. Sem dizer nada para o segurança, ele pegou do operador de projeto do Cine Apolo XI, a lata com rolo de fita, colocou debaixo da camisa, subiu na bicicleta e começou a pedalar em direção ao cinema da zonal sul da cidade.

Ao se aproximar do Grande Hotel, onde hoje é o canal da Travessa Joaquim Costa, a chuva de um toró como estava, passou a diminuir moderadamente o seu volume. Entretanto, as águas escorriam forte, encobrindo o calçamento. Geraldo com toda pressa do mundo, se jogou com bicicleta, rolo de fita e tudo, no meio do aguaceiro.

Nesse momento, com todo esforço feito para vencer as águas, ele sentiu um estralo na corrente da Bike. Percebeu que a corrente havia saído da coroa. Preocupado com o tempo e com a chuva que ainda caia naquela noite, encostou a bicicleta no meio fio do calçamento e depois de certo tempo, colocou de volta a corrente no seu lugar.

Quando chegou no Cine Pax com a última parte do filme, visivelmente cansado, todo exarcado, a projeção estava parada, com a plateia apreensiva, impaciente no auditório do cinema, esperando para assistir o desfecho final de Scarface. Se Al Pacino sobreviveria ou se seria morto. Logo em seguida, chegaram também os dois operadores do Cine Teatro Apolo XI e o porteiro, para ajudar Zezinho e seu filho na logística, na conclusão da exibição do filme, nessa sala que era considerada o tradicional cinema da zonal sul de Cajazeiras.
 
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Créditos das imagens:
Imagem 1. (da Internet) Cícero Alves (in memoriam) e Dom Zacarias Rolim de Moura(in memoriam) Bispo Diocesano de Cajazeiras.
Imagem 2. (acervo: Cleudimar Ferraira) Cícero Alves na Cabine de Projeção do Cine Teatro Apolo XI 
Imagem 3. (de um fotograma) O ator Al Pacino em Scarface
Imagem 4. (1. Foto: Borracha) Cine Teatro Apolo XI (2. do Google Map) Prédio onde funcionou o Cine Pax




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sexta-feira, 15 de dezembro de 2023

O Casarão do Bispo - Umari, Ceará.

por Roberto Júnior
POSTAGEM PUBLICADA EM 26 DE JULHO DE 2018 NO BLOG CARIRI DAS ANTIGAS

Imponente Casarão de beira de estrada, onde nasceu e morreu Dom Zacarias Rolim de Moura 


No sítio Malhada das Pombas, em Umari, a vegetação é ampla e os baixios e morrotes encantam a vista de qualquer um, tal paisagem é completada por uma enorme construção, provavelmente do Séc. XIX, que nas margens de uma das vias rurais da cidade impõe presença, é o Casarão do Bispo.

O bispo a quem o nome faz referência é Dom Zacarias Rolim de Moura, Bispo de Cajazeiras, que aí nasceu em 1914, e seguindo os passos do pai, Bonifácio Gonçalves de Moura, que morreu na casa em 12 de março de 1941, aí também faleceu em 05 de Abril de 1992.

Pouco consegui apurar sobre o passado do imóvel antes de ser adquirido por Bonifácio, a cidade é servida basicamente pela oralidade e algo mais palpável me chegou através de memorialistas de Cajazeiras, onde a família exercia plenamente seu poder econômico e político, tendo sido o patriarca eleito deputado em mais de uma legislatura.

Na falta de documentação cartorial que me desse mais subsídios para falar sobre o imóvel em si, levei em consideração as características arquitetônicas da construção, que tem a cumeeira contando mais de 9 metros de altura, a fachada composta por 4 janelas e 3 portas, todas com arco abaulado, mas que não seguem uniformidade e não chegam a configurar uma fenestração perfeita.

Os elementos construtivos são típicos das arquiteturas vernaculares, e a estrutura do imóvel foi relativamente pouco alterada ao longo dos anos, algo necessário, uma vez que o imóvel ainda é habitado, por “Seu Miguelino”, um senhorzinho simpático que nos recebeu e nos encantou com as histórias do local, algumas fantásticas e que envolvem até causos de botijas.

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sexta-feira, 3 de novembro de 2023

As mulheres não têm coração

por João Batista de Brito

Atriz e Modelo Dita Von Teese. Imagem da internet


Tinha, então, treze anos de idade.
Era final de setembro, começo de primavera, quando o Circo chegou ao seu bairro, Jaguaribe. Foi armado ali no terreno livre que sobrou depois que derrubaram os muros do Clube Cabo Branco.
Por acaso, acompanhou a armação, pois a avenida Primeiro de Maio era o seu caminho para a escola, o Grupo Sto Antônio. Entre idas e vindas, daí a pouco o Circo Parondi já estava de pé, e, no dia seguinte, os cartazes já anunciavam a programação, sem falar no palhaço de pernas de pau, percorrendo as ruas do bairro, divulgando o espetáculo aos gritos, rodeado de crianças.
Naquele fim de semana o Cinema Sto Antônio não o viu. O filme em cartaz não parecia boa coisa e, afinal de contas, o Circo era a grande novidade do momento.
E foi. Mágicos, animais adestrados, malabaristas, palhaços, drama - tudo empolgante, porém, nada mais empolgante que a bailarina.
Ah, a bailarina! Dançando no palco ou girando no trapézio de pernas para o ar, a bailarina era simplesmente maravilhosa, fantástica, luxuriante, a mulher mais linda do mundo. Sua pouca roupa mostrava um corpo perfeito, cintura estreita, seios rijos, coxas roliças, mãos e pés delicados, quadris carnudos, arredondados feito dois balões. Embora delgada, translúcida, vaporosa, também era corpórea, palpável, mais que isso, irresistivelmente sensual, carnal mesmo. O rosto era de uma deusa pagã, e o sorriso aberto, um convite ao amor.
Naquela noite não dormiu bem. Macia, sedosa, sedutora, a figura da bailarina veio para a cama com ele. Inquieto, nervoso, não conseguia conciliar o sono. Até seu cheiro sentia. Virava de um lado para o outro e uma espécie de fogo o queimava por dentro; essa sensação estranha, que nunca sentira, instigava seu espírito e seu corpo e gerava em suas carnes um desejo até então desconhecido, um que cobrava desafogo, fosse como fosse. Foi quando se deu conta de que estava perdidamente apaixonado pela bailarina.
Depois desse dia, o cofre onde escondia suas parcas economias - um porquinho de barro - esvaziou. Espedaçou-o no encalço das últimas moedas, e jogou os cacos no lixo. Inventando mentiras em casa, gastou o dinheiro todo com os ingressos do Circo e, mais grave, passou a gazear as aulas para rondá-lo, brechando sua vida fora das lonas. Fazia isso a manhã toda, na esperança de ter contato com a bailarina.
E teve. Ela terminou notando aquele menino com farda de escola, por ali, espionando, meio disfarçado, e sempre de olho nela. Ao se saber notado por ela, gelou e não teve coragem de falar, mas ela mesma falou: aproximou-se devagar e lhe perguntou o que ele fazia ali, e ele, o coração batendo, suado, trêmulo, gaguejante, disse que queria trabalhar no Circo, fazer qualquer coisa, aprenderia rápido.
“Que idade você tem?” perguntou.
“Treze”, disse, já arrependido de ter dito.
“Seus pais estão sabendo?”
Quis mentir que sim, mas disse “Não”.
“E por que você quer trabalhar no Circo?”
E aí juntou toda a coragem de que dispunha e confessou de uma vez por todas seu sentimento e sua intenção: estava apaixonado e queria estar com ela, queria casar.
Ela respondeu com uma larga risada, o que o deixou tonto e mais perdido que nunca.
E então ela curvou-se para fitá-lo mais de perto, e, ainda rindo, agora suavemente, talvez carinhosamente, foi dizendo que tinha três vezes a sua idade ou mais; que seria muito estranho para todo mundo se casassem; disse que ele esquecesse esse negócio de amor, que afinal de contas ele não tinha idade para assumir compromissos; e, com mais firmeza na voz, ordenou que ele fosse para casa, ou para a escola, que seria bem melhor, e acrescentou que vida de circo era coisa de maluco.
E afastou-se, apressada, em direção a uma das tendas do circo, de lá lhe jogando um beijo de mão. E ele nunca mais a viu.
Foi nesse dia triste que tomou consciência da dura verdade: que as mulheres não têm coração.

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Referência da Imagem: Dita Von Teese - Atriz e Modelo. Produção da imagen: Revista Plastic Deeans