sábado, 17 de setembro de 2016

CAJAZEIRAS DE ONTEM

Maria Nazareth Lopes (In Memoriam) Crônica publicada em 1983, no Jornal A União

Cajazeiras, o centro da cidade. Hoje está tudo mudado.

Antes que vocês façam um esforço mental, é SAUDADE o tema deste trabalho – Cajazeiras de ontem. Esse ontem refere-se a trinta e cinco anos passados.
Não faz tanto tempo, mas tudo era diferente. Como era tudo tão bom!
O progresso cria coisa boa, mas outras ótimas ficam no rol das que “já eram”.
Pensávamos como tudo mudou. Vejamos uma síntese do antigo ano sócio religioso em nossa cidade.
A começar pela Semana Santa: naquele tempo não tínhamos a igreja catedral e, principalmente, no sábado de aleluia, já pelas quatro horas da madrugada nos comprimíamos na atual matriz de N. S. de Fátima, de onde saiamos mais tarde com uma rosa do altar do santo sepulcro.
O carnaval de rua era mais simples, com menos barulho, mas havia a concorrência entre os clubes 1º e 8º de maio que desfilavam com suas fantasias e um teria que vencer, mediante os aplausos do povo que vibrava com esta apresentação.
Durante o mês de maio, a igreja ficava cheia de gente que, diariamente comparecia às novenas. O altar cada noite se revestia de mais encanto, porque os responsáveis faziam tudo que pudessem para exaltar Maria, a Rainha dos Homens. Depois da novena, os fogos de artificio chamavam a atenção dos mais velhos, enquanto os jovens faziam o seu costumeiro passeio ali na praça da matriz.
O mês de junho era dos mais animados, pois festejávamos Santo Antônio, São João e São Pedro. A festa de Santo Antônio, lá em frente a sua capela, era uma beleza, com o folclore presente na banda de pífanos (que nós chamávamos banda cabaçá), e os célebres leilões. Eram três noites de muita alegria.
O São João. Ah, o São João era muito bem comemorado. Na primeira quarta feira, começavam os ensaios de quadrilhas que se repetiam todas quartas e sábados que precediam a noite de São João. Havia prêmios para os homens mais caipira e para mulher que se apresentasse com característica de matuta. Tivemos até o prazer de receber um desses prêmios. (Como era comum naquele tampo, a festa tinha seu início às 20 horas e não havia as bebedeiras tão comum hoje) O Baile de São Pedro, não sei porque era em traje passeio, mas a quadrilha não faltava.
Vinha A então tradicional festa de agosto. No dia 5 de agosto, havia o hasteamento da bandeira da paróquia, seguindo-se nove noites de quermesses, com dois partidos, numa competição entusiástica que contagiava todos. No dia do Estudante, 11 de agosto, saímos da igreja, em passeios cantando o nosso hino do Estudante até o local das barracas, onde o Estudante ara o homenageado da noite.
Natal e Ano Novo hoje, ainda se assemelham muito ao do no passo tempo. Havia os mesmos passeios do povo da cidade e dos sítios, pelos mesmos locais, com a Missa do Galo, no Ano Novo, o Réveillon, despertando para novos dias.
E, com estas recordações, quisemos não só mudar um pouco a norma das crônicas, mas, principalmente, informar a geração de hoje sobre Cajazeiras de ontem e, reavivar algumas, ou, quem sabe, grande saudade no coração de muita gente.



sexta-feira, 16 de setembro de 2016

Os deserdados filhos da ponte




As fotos acima, mostra como era e como estava a estrutura da antiga ponte sobre o sangradouro do açude grande de Cajazeiras. Se fosse seguido os trâmites que o bom censo recomenda, bastava apenas ter feito uma restauração. O rito agradecia e a história também. Entretanto, como tem mostrado a tradição, a marca registrada da indiferença com o passado deixado pelas nossas origens, reza na cartilha que essa conversa de preservação não convém para os que sempre mandaram e mandam na cidade. 

Que Cajazeiras é a cidade da Paraíba que mais agride sua história; o seu passado; disso não se tem dúvida alguma. Basta um tur pelas suas ruas, avenidas e praças, que se vai percebendo a mudança e o rastro de destruição dos seus equipamentos antigos - prédios, monumentos, fachadas. 

Nesse rastro impiedoso da devastação de sua memória que tem atravessado décadas, um fato grotesco marcou muito na sua sociedade, principalmente na parte social composta por artistas, jornalistas, historiadores e intelectuais em particular, foi a derrubada da velha ponte sobre o sangradouro do açude público Epitácio Pessoa - o popular Açude Grande.

Quem viveu esse momento, como eu vivi, lembra in loco do fatídico dia que passamos frente uma decisão arbitrária do então prefeito Epitácio Leite Rolim, de mandar derrubar a quase (esse ano estaria com cem anos) centenária ponte, simplesmente, pelo fato dos pilares da ponte estarem impedindo a vegetação aquática de descer pela sangria do açudo. Nesse contundente relato da jornalista Mariana Moreira, publicado no Jornal A União na década de 80, com o título: 'Os Deserdados Filhos da Ponte', possamos perceber como tudo aconteceu. Veja a seguir, abaixo.

Foto da destruição da velha ponte: Acervo de Cleudimar Ferreira


Os deserdados filhos da ponte

porMariana Moreira

A imagem permanece dramática em minha memória. As tábuas e pilares quase centenários e históricos sucumbindo, em razão de minutos, ante a forço bruta das maquinas e a incoerência de homens, vestidos de governantes e preocupados somente com o exercício autoritário do poder. A história da cidade é negligenciada em detrimento de antipatias pessoas que ferem as nossas esperanças e ideias democráticas.

A derrubada da velha ponte do açude grande de Cajazeiras foi uma medida insensata e que reflete a orientação dos nossos administradores em não zelar pela nossa memória histórica. Construída nos anos e 1915 e 1916, na administração do coronel Sabino Coelho, aglutinando esforços e homens, a velha ponte exercia fator de integração entre o centro e a zona note da cidade, funcionando como canal de comunicação para pessoas, animais e ideias.

Nas lágrimas de Sonia e no desespero de Wilma o reflexo cristalino de nossos íntimos desperdiçados pelos golpes das marretas e dos cabos de aço frios, manipulados por homens a arrastarem para a imbecilidade e a destruição os pilares e tábuas sob os quais debruçavam nossas cabeças e mentes, arquitetando sonhos e idealizando novos mundos, banhados pelo céu “púrpura” do pôr do sol que morria no horizonte sertanejo.

Uma medida insensata porque não veio respaldada pelas recomendações de engenheiros e técnicos, alguns deles com participação na esfera oficial do poder, que condenaram a demolição da ponte por ser esta uma medida incompatível com a solução ideal para o açude que, supostamente, ameaçava arrombar. Rumores fundamentados mais m sensacionalismo e promoções idiotas de alguns que em dados concretos e manados do consenso.

E os pilares continuaram sendo arrastados pelos tratores e cabos de aço, tão fortes que suplantaram as nossas tentativas de argumentar e venceram a nossa impotência ante o poder, manuseado de maneira antidemocrática e suicida. As águas do açude continuaram correndo pelo sangradouro como a levar a nossa revolta e frustração e outras gentes e a outros mundos, cerando fileiras em tono do nosso íntimo, agredido e desfraldando bandeiras que são esfarrapadas pelas fortes tormentas que não podemos controlar.

A derrubada da ponte por ser um monumento da memória história da cidade e integrante d uma área pública carecia se amplamente discutida e analisada em todas as instâncias da sociedade cajazeirense, abrangendo vereadores, artistas, comerciantes, jornalistas, historiadores, historiadores, engenheiros. Enfim, toda a população. Mas, pela pressão de um pequeno grupo de comerciantes e respaldado pelo exercício antidemocrático de poder, opta-se pela solução mais radical, mais dramático e elimina-se uma ponte sesquicentenária repleta de história e vida.

Sem tomar conhecimento dos projetos e tentativas arquitetadas para salvar o açude grande de Cajazeiras de sua morte lenta e gradual, à revelia dos gritos e protestos, a velha ponte caiu. Hoje, apenas um esqueleto de concreto atesta a amputação de um dos nossos membros vitais. E é esta a cidade que sediará o IX Festival de artes da Paraíba(?)










quinta-feira, 15 de setembro de 2016

A Arte Beradeira na Visão de Telma Cartaxo

por Cleudimar Ferreira

Telma Rolim Cartaxo foi nas décadas de 70 e 80, épocas de maior concentração política no campo cultural em Cajazeiras, a principal porta-voz das artes visuais no Alto Sertão paraibano. Esse legado ela adquiriu depois de ter acumulado larga experiência nessa área, desde o tempo de sua militância artística nas artes visuais da capital paulista. Com a sua volta ao sertão da Paraíba nos anos 70, teve sua imagem exposta ao público da terra que o acolheu-Cajazeiras, através da contundente participação que teve, durante a realização em 1978, do 1º Salão Oficial de Arte Contemporâneo do Sertão, e depois, com mais ênfase, través do seu exercício na coordenadoria de Artes Plásticas no antigo NEC/UFPB/Campus – Cajazeiras, onde desenvolveu um trabalho voltado a procura de caça talentos e de incentivo à produção das artes visuais, no hoje instinto, ateliê de artes, Instalado na sua época pela UFPB no antigo prédio da Ação Católica - FAFIC, na Avenida Padre Rolim. 

Dos esforços feitos por ela no Atelier do NEC/UFPB, foi possível ser realizadas várias exposições coletivas e um intercâmbio de artes entre as cidades de Cajazeiras e Campina Grande. Dias antes de abrir entre 18 e 25 de novembro de 1981, na Rainha da Borborema, a primeira coletiva dos artistas cajazeirenses no Museu de Artes da antiga FURNE, Telma falou nessa entrevista abaixo ao Jornal A União, do dia 15 de novembro de 1981, página 03; do seu trabalho, de sua arte e da arte brasileira especificamente. Falou também das dificuldades, das conquistas, dos desafios e do modelo de produção das artes visuais vigente no interior paraibano. Destacou ainda, os estilos, as temáticas e as técnicas utilizados pelos artistas sertanejos para conceber seus trabalhos artísticos, ou seja, como ela mesmo batizou, os desdobramentos que os artistas do interior tinham que fazer, principalmente nessas duas décadas, para realizar sua Arte Beradeira.


Arte Beradeira contra a Arte Brasileira

- Telma, quem é você?
- Telma: O que sei de mim é que sou uma pessoa que se busca, se procura e que tenta, a cada dia, ser. Como artista, sou uma artista em formação.
- É difícil trabalhar com Arte no Sertão?
- Telma: Trabalhar com Arte é fazer apostolado artístico. Acredite, tenho suado sangue para prosseguir. Claro que ideias não nos faltam e qu estamos batalhando um espaço. O problema é outro. Sabe, juntando a carência financeira da maioria dos talentos sertanejos, mais falta de verba e de apoio, a tarefa torna-se dificílima. O que salva é que os artistas e os amigos são sóbrios com nossa lutar e como o trabalho segura minha cabeça a gente caminha. Faço questão de frisar que o meu compromisso, bem como do NEC – Campus, não é apenas com os talentos sertanejos, mas com todos os novos talentos paraibanos. Daí o nosso espaço está aberto para todos.
- Você gosta do seu trabalho?
- Telma: Gosto do meu trabalho e assumo todos os altos e baixos. Porque todos os meus trabalhos são resultado de um parto. É como ter um filho, entende? E de filho a gente sempre gosta. E, adoro meu trabalho, apesar de, por ser cultural, está em último plano aqui e em 3º em todo Brasil.
- Sobre qual aspecto você ver a importância do seu trabalho?
- Telma: A importância de um trabalho não está na liderança desse trabalho, mas na sintonia porque você sabe que é um trabalho de equipe, em função de um fato maior. Quem não pensa assim, tem lantejoulas na cabeça.
- Alguma regra de criação deve ser imposta ao artista?
- Telma: É óbvio eu nenhuma regre de conduta pode ser imposta a criação artística. O artista deve se deixar guiar por sua imaginação e sensibilidade. O momento de criar é espontâneo. Sabe, Arte é como o amor: a partir do momento que passar a ser racional, deixará de existir como sentimento.
- Nas Artes Plásticas, você acha necessário abrir mais frentes as outras manifestações artísticas?
- Telma: Sem dúvida. Já não se concebe uma limitação de só se expor obras em óleo por exemplo, quando a arte brasileira anda repleta de alterações e novas tendências de impacto visual e temático.
- Em termos de escola, como anda a Arte Brasileira?
- Telma: A quantas anda a Arte Brasileira em temos de escola não dá pra dizer. O que sei é que existe um monte de influencias, raízes, sobre nossa civilização e formação. A meu ver, a nossa Arte é uma arte que difere da região a região. Por exemplo, aqui no sertão o que predomina é o estilo rural. Em palavras mais sertaneja: Arte Beradeira, onde o que conta é o talento. O mais é fazer do nada o tudo. Daí ninguém pode cobrar do artista sertanejo uma visão maior. É bom lembrar que aqui é terra mesmo, onde os talentos são autodidata ao modo de cada um. Em outras palavras, são artistas em formação que estão se descobrindo e da raiz, estão se buscando, se processando até acontece um mergulho maio.
-  A imprensa divulga a altura as artes de modo geral?
- Telma: Não, não divulga. Principalmente artes plásticas que é uma arte que ainda precisa fazer a cabeça das pessoas, como é o caso do Sertão. O que a imprensa divulga mesmo pra valer é política e crime.
- O que você acha da política?
- Telma: Não entendo de política.
- Fora a arte, o que mais preocupa você?
- Telma: A preservação da natureza, o desemprego, a inflação. As espécies estão cada vez mais raras. O desemprego e o alto custo de vida espalham miséria e fome de ponta a ponta. A situação em todo o mundo é crítica. Aqui no sertão, não obstante as frentes de emergências, o sertanejo está morrendo de fome.
- E o amor?
- Telma: O amor é a mola da vida. É o único que constrói realmente.

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sábado, 10 de setembro de 2016

Teatro de Cajazeiras, muito além de um sonho.

Cleudimar Ferreira




No auge do seu oficio como jornalista, Nonato Guedes foi testemunha ocular como qualquer um cajazeirense do seu tempo, da luta dos atores de sua terra em busca de um espaço apropriado, onde pudesse representar suas produções teatrais.

Nesse artigo, ele escreve com detalhes os momentos de euforia vividos pelos nossos amadores, com a notícia dado pelo governador Wilson Braga, de que o governo do Estado, definitivamente, iria construir um teatro na cidade.

Entretanto, é bom ser citado, que até o governador Braga trazer a boa nova para classe cênica de Cajazeiras, muita força de vontade rolou pelos poros daqueles que estiveram à frente da luta pela construção desse espaço cênico.

Essa luta do povo de Cajazeiras, que varou décadas pela construção de seu teatro, hoje devidamente edificado e em ampla reforma e ampliação pelo Governo do Estado, não foi prematuramente um devaneio contemporâneo da sua classe teatral, mas sim, um sonho antigo automatizado desde as primeiras produções teatrais que se tem conhecimento na cidade.

Algumas dessas produções, foram protagonizadas pelas emblemáticas esquetes montadas nos anos 40, por padres salesianos na Ação Católica, entre esses, com destaque para o Padre Luiz Gualberto de Andrade, que dividiu os palcos improvisados da cidade com as isoladas ações nesse campo da dramaturgia, com grupos de nomes pouco sugestivo na linguagem teatral, como por exemplo, Os Romeiros do Futuro; e doravante, puncionadas pelas montagens clássicas nos tempos do TAC de Hidelbrando Assis, e agudamente abraçada com mais consistência política nos idos de 70 e 80, pela intensa movimentação de sua dramaturgia moderna, tendo à frente as resistências intervenções da Metac, Tac e Grutac, depois Cajá, Boiada e Terra.

Nessa insigne regularidade que as produções desses grupos teatrais apresentavam, fez de Cajazeiras, a primazia na produção teatral do sertão e com a demanda em ascensão, surgiram eventos de destaques nesse campo, como a realização das versões do Festival de Teatro Rápido, transformado nos anos 80, no Sertanejo de Artes Cênicas e muito além de um sonho, com a decolagem meteórica nos primeiros anos da década de 90, de seus atores, cito entre eles os casos de Nanego Lira, Sôia Lira, Ana de Lira e Marcélia Cartaxo, rumo ao estrelato na dramaturgia nacional. 

Veja abaixo o texto de Nonato Guedes, publicado no Jornal A União, em 1983, dia 25, (uma Quarta-feira), Pág. 07 - Estado, há 33 anos atrás.        


O SONHO DE UM TEATRO
Nonato Guedes


Embora seja tida como política conservadora, a cidade de Cajazeiras sempre teve uma posição de vanguarda do ponto de vista cultural, e, sobretudo nos últimos anos, as iniciativas nesse campo ali tem florescido como uma regularidade ininterrupta. A cidade vive um processo de efervescência e de reinventarão cultural, onde manifestações as mais variadas se sucedem, desafiando a pobreza dos recursos matérias e a própria situação socioeconômica da população, que em tese torna a cultura um produto de luxo numa terra castigada pela seca e pela falta de emprego.

O poder público local, por outro lado, acossado pelas suas limitações, nem sempre tem condições de bancar o mecenas dos grupos criativos que proliferam. Nem por isso a resistência dos vanguardeiros cajazeirenses se esgota. Eles recorrem a outras fontes menos combalidas ou apelam para o improviso das promoções artesanais, contanto que os espaços não fiquem vazios nem a imaginação posta de quarentena.

Na década de 70, participei ativamente de alguns movimentos que pipocavam em Cajazeiras. Éramos um punhado de jovens idealistas empenhados em declarar guerra ao maramos e a inanição do espírito. A “senha” era não ficar indiferente, e, por isso, mexíamos com tudo, desde grêmios estudantis a certames de poesia, encenações teatrais, festivais de música e tertúlias cineclubísticas, numa movimentação tão intensa que acabava atraindo inevitável repercussão regional. Como pano de fundo dessa “cruzada” havia a já tradicional Semana Universitária, uma promoção sempre polêmica, mas invariavelmente concorrida.

Divergências à parte, a luta comum desses grupos era para a construção de um teatro ou um Centro Cultural que viabilizasse as manifestações em ebulição. Ubiratan di Assis, Gutemberg Cardoso, Tarcísio Siqueira, Carlos Alberto Assis Montenegro, Josival Pereira, entre muitos outros, já não se conformavam em extravasar talentos entre as paredes apertadas do Colégio Diocesano, onde nem a acústica ajudava, ou em tomar de empréstimo os salões do cine Apolo XI ou do cine Éden, a preços nem sempre acessíveis, para poder protagonizar tudo a que tinham direito na sua inquietude mental.

Durante muito tempo concordaram em abrir mão desse sonho, em nome de outras prioridades que o homem do sertão estava a exigir. Mas a certeza de novos e bons tempos continuava alimentando as ilusões desse bando de obstinados, e dos outros que pegaram carona no caminho. Segunda-feira última, o governador Wilson Braga, que como deputado testemunhou essa luta titânica, levou-me, de surpresa, a Cajazeiras e lá me mostrou o terreno do futuro teatro.

A crise econômica é mais grave, na região, mas a cultura passa a também ser prioridade em meio à mágica dos orçamentos apertados. Não seria um investimento cara – o terreno já é do Estado, está ocioso, falta apenas ter ocupação. Reencontrei Gutemberg Cardoso, eufórico, exigente, dando palpites como se fosse um engenheiro ou um “expert” em dimensões de obras públicas. E o governador garantindo que comprou essa briga. Não posso deixar de acreditar que enfim “o sonho será realidade. ” Lembra, Ubiratan? ...



quarta-feira, 7 de setembro de 2016

As Aventuras do "Capitão Brechó"

Postamos o último conto da série   "Capitão Brechó",  de autoria de Francisco Alexandre Gomes, publicado no Jornal A União, entre os anos de 1981 e 82.



Nasceu com um tiro de bacamarte
Francisco Alexandre Gomes

No comentário anterior, afirmei que por causa de um desejo da mulher, que estava gestante, o “Capitão” fora obrigado a roubar tripas e bucho de boio da casa do vigário de São João do Rio do Peixe, caindo em águas de bacalhau, como, certamente, diria um bom lusitano de Lisboa. Mas acontece que, apesar do vexame, da humilhação e da vergonha que sofrera, o nosso herói evitou realmente que a mulher perdesse o filho. Isso aconteceu exatamente no mês de agosto do ano de 1877. E, como reza a cartilha popular, agosto é mês de vexame e de desgosto. Cinco meses depois do acontecimento já narrado, encontrava-se o “Capitão” muito preocupado. Preocupadíssimo seria o termo apropriado. A mulher, Dona Honorina, há três dias sofria as dores do parto. Entrara em trabalho de parto, mas a criança não nascia. Não nascia mesmo apesar de todos os esforços já empreendidos pelo parteira, Dona Joaquina, cachimbeira de fama regional. E o “Capitão” abobalhado olhava o infinito procurando Deus e a Ele pedindo o nascimento do filho, em prece silenciosa. Era homem que não se amofinava com pouca coisa, mas estava como um tresloucado morrendo em holocausto por um filho que o fizera ladrão de tripas. Antes e vir ao mundo.

Andava de um lado ao outro do alpendre pitando o seu cigarro de palha de milho. De vez em quando ia a camarinha procurar saber da parteira como estava a patroa. Queria saber se estava perto. A resposta da assistente era a mesma: tudo pronto para o nascimento, mas o rebento não vinha. Voltava ao alpendre ou ao terreiro e ficava matutando como um bilé. Ora, pensava ele, Sinhá Joaquina era a melhor parteira da região e já havia pegado mais de cinquenta meninos. Sabia todos os remédios caseiros para ocasiões como, aquela. Sabia, melhor do que ninguém, fazer massagens no ventre da parturiente com uma papa de cebola branca, alho e mel de fumo de rolo. Essas massagens eram infalíveis.

O “Capitão” já não sabia mais o que fazer. De repente, porém, teve uma ideia: Ora, se uma mulher aborta com um susto, com um susto grande pregado à patroa o caso seria certamente resolvido. Assim pensando, o “Capitão” deu de garras no velho bacamarte. Carregou-o com um tiro de festim, usando uma boa quantidade de pólvora para isso. Ninguém presenciou o carregamento da arma e ninguém iria imaginar que o “Capitão” fizesse uma traquinagem dessa. Disparar um tiro de bacamarte dentro de sua própria casa. Mas ele estava cheio de fé que aquele seria o remédio. Era tiro e queda. Assim fez. Disparou a arma na sala que ficava ao lado do quarto onde estava a mulher. O rito foi tão grande que abalou as paredes e ecoou nas quebradas da serra.

Dona Joaquina ouvindo o disparo correu a sala tão apressadamente que escorregou numa espiga de milho, caindo sentada, e tendo o vestido levantado até a cintura, e mostrando suas partes íntimas. Isso num abrir e fechar de olhos, pois imediatamente a mulher levantou-se. Recompondo-se disse ao “Capitão”: viu minha ligeireza? Ao que ele, ouvindo o choro do filho que nascia, respondeu-lhe: “Cri Jisus”, Sinhá Joaquina, vi mais num sabia que tinha esse apelido, não. A parteira não entendeu o repente e ambos se dirigiram ao quarto para cuidar da parturiente e do filho do trovão que anunciava a sua chegada.





domingo, 4 de setembro de 2016

Coro Alto da nossa Catedral foi utilizado pelos alunos do PRIMA para ensaio.

Destaque:  

O PRIMA, é um projeto de incentivo a música instrumental erudito mais importante nesse segmento musical, que se tem conhecimento na Paraíba. O diferencial do projeto é que ele está sendo executado, objetivando favorecer as crianças e jovens de baixa renda nas principais regiões do Estado. 

Esta semana que passou, uma das cenas mais bonitas envolvendo o PRIMA/Cajazeiras, foi mostrada para quem quisesse ver. Foi um ensaio que PRIMA fez no Coro Alto da Catedral Nossa Senhora da Piedade, preparando seus músicos para parte musical da posse do novo Bispo da Diocese de Cajazeiras, que aconteceu neste Domingo (4). 

O Coro Alto da nossa catedral geralmente não é muito utilizado durante as celebrações das missas, já que como todas igrejas, fica distante do altar, e os fiéis ficam de costa para o mesmo. A sua função é mesmo para o introito, ou seja, para cânticos e celebrações musicais, antes e durante as missas. Hoje em dia, o Coro Alto perdeu sua função e não é mais usado como era antigamente. 

Antigamente os coros altos das igrejas eram bastante usados por ordens religiosas como os carmelitas, beneditinos, franciscanos e jesuítas, para o canto gregoriano durante as celebrações religiosas. No ensaio do PRIMA, os músicos, sobre a regência do Professor David Alefh, utilizaram quatros violoncelos, dez violinos, três violas, um oboé, dois clarinetes, um trompete e um fagote. Veja as imagens.






sábado, 3 de setembro de 2016

As Aventuras do "Capitão Brechó" (IV)


A placa do Leão do Norte
Francisco Alexandre Gomes

No coração do céu azul, marcava o cronômetro do Rochedo dos Século, exatamente, meio dia. O calor era asfixiante, nem a mais leve brisa denunciava sua existência na quietude das folhas das árvores, que existiam no local da atual praça Coração de Jesus. Não. Nenhuma aragem vinha diminuir o sufocante mormaço aquela tarde de outubro. Poder-se-ia pensar que o astro rei, com seus raios, látegos de fogo, queria transformar a terra numa fornalha ou no purgatório de Dante, para expiação dos erros da humanidade.

Homens rudes, com suas caras tostadas pelo sol, seríssimos ou jubiloso faziam as compras da semana. Havia pouca gente na feira. Àquelas horas, muitos já haviam voltado os seus sítios, que, muitas vezes, ficavam distantes duas, três ou quatro léguas da cidade.

Naquele dia, estava o “Capitão” mais do que satisfeito. A bom preço, vendera a carne seca de dois carneiros gordos que trouxera, sem ter necessidade de andar de porta em porta de rua em rua a oferecer sua mercadoria, como sempre fizera. Como já envelhecia a tarde, ele sentia fome. Procurou o “Café Leão do Norte” para fazer um quebra jejum. O “Leão do Norte”, é bom que se explique, era naquela época a única casa que vendia refeições em Cajazeiras. Apesar de ser a única no gênero, a freguesia não era lá essas coisas de vantagens. Como a renda não lhe era suficiente, a proprietária, uma viúva quarentona, recebia em sua casa às escondidas casais para encontros amorosos. Geralmente, velhos fazendeiros e suas camufladas amantes.

O “Capitão” já havia feito refeições na “Leão do Norte”, três ou quatro vezes antes, mas nunca pensou que ali fosse também casa de tolerância. E, na verdade, nunca ria talvez, saber se após a ligeira refeição que fez naquela tarde não houvesse perguntado a Inocência, a proprietária do café, se ali na casa dela não tinha “privada”, posto que estava querendo fazer uma necessidade fisiológica. Inocência respondeu-lhe que sim. No final do quintal, havia uma.

Após passar pelo corredor da residência e, em frente aos dois únicos quartos da casa, cuja intimidade dos mesmos era resguardada por duas cortinas de pano transparente no local das portas, o “Capitão” viu em cada aposento em trajes de Adão e Eva um casal relacionando-se intimamente. A cena que presenciou despertou-lhe espírito humorístico e se tivesse a cultura de um Bocage ou Walter Scott, certamente, para não dar na vista, teria dito ou pensado num repente: Se tendes boas montarias, faites vos devoirs, preux chevaliers!

Mas não tendo dito isto nem pensado, após pagar a conta, agradeceu a dona do café e saiu. Mas que coincidência! Na calçada do café, um cão e uma cadela estavam em cio, unidos pelo amor canino. Aí o “Capitão” teve uma boa ideia: voltando a sala e chamando a proprietária do estabelecimento ao lado disse: “Cris Jisus, Sinhá Inocença! Mande apregá de novo a praça do seu hoté, qui ele tá caída aí na carçada”. A mulher o acompanhou até a porta e vendo o cão e a cadela unidos pelos sexos exclamou com espanto: “Virge nossa! Qui iscaindo horrive, e logo na porta duma pobe muié Cuma eu”. O “Capitão” riu um so sarcástico e deixou o “Leão do Norte”.

Melhor no mato do que em casa.
Francisco Alexandre Gomes

Era Rosa de Juca uma cabocla muito bonita e cheia de facécia. Tinha olhos negros como a noite, boca pequena, lábios sensuais, um belo e constante sorriso, e cabelos e anelados. Seu corpo era tão bem feito que, creio causaria inveja a muitas Brunas. Haviam vindos ele e marido das bandas do Ceará e em terras do “Capitão” foram morar. A princípio, não se ligou muito à família d meu trisavô, entretanto, com o passar do tempo fora se chegando mais e mais e, por fim, ei-la já como comadre do “Capitão” e de Dona Honorina que haviam sido padrinhos de um filho seu na Igreja de São João do Rio do Peixe.

Andava Juca, o marido, já na casa dos sessenta anos, e ela havia há pouco tempo completado trinta e cinco primaveras. Nunca, porém por causa da dessa semelhança de idade, entre ela e esposo, ninguém dela falou mal. Nunca também homem algum pensou em lhe dizer lérias, pois Dona Rosa era mulher de muito recato e vivia só para o esposo. Nunca lhe passou pela mente a ideia de enfeitar a cabeça do Juca com cornos. Não. Não era nem doida para isso, pois por causa da infidelidade o marido havia acabado com a vida da primeira mulher e do suposto amante dela. A verdade é que gostava muito do marido e com ele vivia satisfeita e feliz.

O “Capitão” morria de amores pela moradora, mas a ninguém demonstrava o interesse que tinha pela comadre Rosa. E certo, que, aqui e acolá, facilitava algum empréstimo ao compadre Juca ou fiava-lhe alguns quilos de carne de sol, mas ninguém, iria pensar que por trás dessa generosidade houvesse outras intenções não tão fraternas.

Certo dia, o “Capitão” falou à comadre dos seus sentimentos e a convidou para um encontro, mas esta deu-lhe um não de casa fechada. Mas estava o “Capitão” e não que inclinado pela comadre e não perdia tempo em suas investidas. A comadre continuava negando-lhe um sim. Era inexorável aquela atitude da mulher. Dona Rosa já não suportava as investidas do “Capitão” e não queria dizer ao marido o que estava lhe acontecendo, pois sabia que se assim o fizesse uma desgraça na certa aconteceria. Como era muito amiga de Dona Honorina, resolveu contar-lhe o que lhe estava acontecendo. Dona Honorina que era como quase todas as mulheres cheia de ideias, combinou com a comadre Rosa que ela dissesse ao “Capitão” que aceitava a sua proposta para um encontro com ele. Ficou acertado entre as duas mulheres que Dona Honorina, a mulher do “Capitão” iria no lugar da outra ao tão esperado encontro. E no lugar, dia e hora marcados os dois se encontraram. Era noite escura e caía uma chuvinha fina. A mulher nada dizia, e o “Capitão” sem perda de tempo fez o que há muito vinha pretendendo fazer. E depois que tudo havia acontecido, Dana Honorina falou-lhe: “Veio sem veigonha, eu num só sua cumade Rosa, não. Só Hanorina, sua muiá. Só assim eu ia descobri suas tramóia. Veio sarfado”.  Percebendo que fora enganado pela mulher, o “Capitão” respondeu-lhe num repente: Cri Jisus minha veia! Eu nunca haverá de maginá qui você fosse muito mió no mato do que im casa”.


O remédio: trinta e dois ovos de capote
Francisco Alexandre Gomes

O ano era o de 1878. O mês, novembro e o dia, uma quinta feira. Naquela manhã, o “Capitão” saíra de casa com a firma resolução de preparar a baixa do arroz para o plantio, caso houvesse inverno no ano vindouro. Não seria possível que 1879 também fosse ser seco.

O sol andava depressa no infinito e já estava a quase a pino no meio do céu azul. O “Capitão” era um trator de enxada na mão no destocamento da terra. A poeira da terra escanhoada misturava-se com o suor que lhe cobria o rosto. Ele sentia que suas forças começavam a diminuir com o passar das primeiras horas de trabalho. Mesmo com suas forças vitais diminuídas ele continuava atacando com fúria o trabalho pesado, como se pretendesse provar a si mesmo que ainda era homem. Pau para toda obra. Que a idade nunca iria transformá-lo num incapaz até de cumprir os seus deveres matrimoniais para com a própria esposa. Isso nunca.

Sempre fora um homem fogoso, que toda hora era hora, que nunca negara fogo. Lembrava-se que só deixava Hanorina em paz quando ela estava de “dieta”, e, como não suportava a falta do que gostava muito, ia à procura de alguma que estivesse disponível. O que vinha lhe martelando à cabeça. Que diabo de falta de interesse por Honorina era aquele que estava tendo? Não sabia o que era aquilo. Já havia tomado chá de barba de bode, de crista de galo, e estava comendo muito coentro e quase um quilo de cebola por dia, mas nada disso estava dando resultado. Será que estava virando menino? Não. Antes morrer do que voltar a ser menino.

Absorto em seus pensamentos o “Capitão” continuava a retalhar o peito da terra, como retalhava o peito dos carneiros que vendia nas feiras, mas a cada instante mais lhe fugiam as forças. De repente, ei-lo diante de um ninho de galinha da Guiné, que estava camuflado debaixo de uma moita de jurema. Seus olhos vibraram de alegria. E, naquele instante, teve uma ideia: se comesse os trinta e dois ovos achados no ninho, suas forças, certamente, voltariam e, talvez, naquela noite, não negasse fogo como espingarda velha.

Resoluto tomou do achado e levando-o para o leito seco do rio, colocou os trintas e dois ovos debaixo de um monte de areia e em cima fez uma fogueira. Alguns minutos depois estava pronto o cozido. Calmamente, mesmo sem sal, comeu os trintas e dois ovos de capote de uma só vez. Acreditava, cegamente, que comidos de uma só vez aqueles ovos seriam o remédio certo para todos os seus problemas.

Uma hora depois, voltava o “Capitão” a casa. Estava se sentindo muito mal. O estômago lhe doía. A cabeça estava pesada, e a vista escurecia. Ouvia um estranho zumbido. E, chegando a casa, a mulher lhe preparou imediatamente um forte chá de macela com folhas de mamoeiro, mas o “Capitão” continuava muito doente. Três dias e três noites esteve ele à cabeira da morte. Dias depois Joaquim Ferreira, seu compadre e amigo, veio lhe fazer uma visita. Ao chegar foi logo dizendo: “Subi que voimicê estava amurriado e vim lhe fazê uma visita, mais me diga se é verdade que o cumpade cumeu trinta e dois ovo achado no mato”. O capitão olhou-o seriamente e respondeu-lhe: “Cri Jisus, meu cumpade! É verdade. Eu cumi trinta e dois ovo de capote duma só vez pra vê se recuperava dois que instão quage perdido, mas veja voimicê o que foi que me aconteceu. Meu cumpade, carro veio e sem roda, num vai pra frente mermo que seja puxado por boi novo”. Disse o repente e sorriu largamente.