cleudimarferreira
Não é de mim viver imaginando no
que fiz no passado, nem no que faço no presente, nem no que farei no futuro.
Ajo assim porque, em nossas vidas, o que faremos amanhã não depende apenas de
nós. Há uma condicionante na vida, exclusivamente determinada por ela, para
influir sobre nossos destinos. Falo assim porque dizem os leigos que os sonhos
são uma herança deixada pelos nossos atos e ações praticados dantes e o que
tentamos fazer no presente.
Freud costumava dizer que os
sonhos são realizações disfarçadas de um desejo reprimido. Costumo sonhar quase
todas as noites com o meu tempo de frequentador dos cinemas de minha terra. Não
vivo pensando sobre esse tema, nem vou dormir lembrando dele, pois fui livre
para viver essas emoções desprendido de qualquer opressão. Mas sonho todas as
noites.
Nietzsche declarou certa vez que
“nada é tão nosso quanto os nossos sonhos”. Falava que os sonhos não eram
apenas fugas da realidade, mas sim um espaço criativo e soberano onde o
indivíduo expressa desejos genuínos, longe das imposições morais e sociais.
Eu tive uma participação bastante significativa na vivência dos bastidores desses locais de exibição e vivi isso intensamente. Experimentei o trampolim que ligava ambos; circulava livremente por esses locais. Talvez esteja aí o segredo de mim, com quase setenta anos, ainda sagradamente ter que sonhar quase todas as noites com situações e momentos vividos nesses cinemas.
Eu tive uma participação bastante significativa na vivência dos bastidores desses locais de exibição e vivi isso intensamente. Experimentei o trampolim que ligava ambos; circulava livremente por esses locais. Talvez esteja aí o segredo de mim, com quase setenta anos, ainda sagradamente ter que sonhar quase todas as noites com situações e momentos vividos nesses cinemas.
Kafka afirma que os sonhos são
extensões diretas da realidade, uma autobiografia reprimida. Não sei se há
energias reprimidas em mim. Acho que, diante da minha fragilidade de ser
humano, sinto que há um uso indiscriminado das minhas energias por outros seres
humanos. Seria essa condição um aditivo para os sonhos visitarem minha cama
durante as noites leves de sono?
Por exemplo, ontem à noite
sonhei com uma senhora de vestido branco, longo, rendado, com todos os babados
necessários para se mostrar; eu era apenas um coadjuvante nessa cena. Alegria,
pretensão e otimismo completavam o cenário. Andava para lá e para cá numa
euforia avassaladora. Depois me convidava para ver uma caixinha. De dentro,
tirava duas bandas douradas. Entregava uma para mim e a outra titubeava, como
se não quisesse expor ou tomar para si.
Em seguida aparecia com outro
traje, auxiliada por uma espécie de mucama ou pessoa convidado a estar na cena.
Vinha com pacotes, bolsas e malas, como se fosse fazer um deslocamento
voluntário de lua de mel, e eu, nesse contexto, aparecia como uma ferida entreaberta,
algo a ser decidido de última hora, ou apenas uma coluna do meio que seria
exposta no final de tudo. Foi o que sonhei ontem, na madrugada deste domingo,
01.03.26.
Bom, passei por situações
emocionais que, diante da fragilidade onírica que carrego, poderiam me trazer
surpresas assim. Mas trago comigo uma fortaleza que tem me dado certa proteção
o suficiente para não viver pensando nisso constantemente. O que me garante que
não vou sonhar outra vez? O pouco que ainda resta em mim tento preservar
escrevendo sobre meu avô, planejando as aulas de artes, indo ao cinema e
assistindo a alguns shows que se encaixam no meu gosto musical.
O certo mesmo é que estou
fugindo, aos poucos, de tudo que tem me afugentado para não sonhar com coisas
que me faça perder uma noite de sono, mas os fantasmas são hilários e tentam
fazer gracinha de mim. Será possível que os fantasmas nem se divertir sabem
mais.
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