terça-feira, 3 de março de 2026

NADA É TÃO NOSSO.

cleudimarferreira



Não é de mim viver imaginando no que fiz no passado, nem no que faço no presente, nem no que farei no futuro. Ajo assim porque, em nossas vidas, o que faremos amanhã não depende apenas de nós. Há uma condicionante na vida, exclusivamente determinada por ela, para influir sobre nossos destinos. Falo assim porque dizem os leigos que os sonhos são uma herança deixada pelos nossos atos e ações praticados dantes e o que tentamos fazer no presente.

Freud costumava dizer que os sonhos são realizações disfarçadas de um desejo reprimido. Costumo sonhar quase todas as noites com o meu tempo de frequentador dos cinemas de minha terra. Não vivo pensando sobre esse tema, nem vou dormir lembrando dele, pois fui livre para viver essas emoções desprendido de qualquer opressão. Mas sonho todas as noites.

Nietzsche declarou certa vez que “nada é tão nosso quanto os nossos sonhos”. Falava que os sonhos não eram apenas fugas da realidade, mas sim um espaço criativo e soberano onde o indivíduo expressa desejos genuínos, longe das imposições morais e sociais.
Eu tive uma participação bastante significativa na vivência dos bastidores desses locais de exibição e vivi isso intensamente. Experimentei o trampolim que ligava ambos; circulava livremente por esses locais. Talvez esteja aí o segredo de mim, com quase setenta anos, ainda sagradamente ter que sonhar quase todas as noites com situações e momentos vividos nesses cinemas.

Kafka afirma que os sonhos são extensões diretas da realidade, uma autobiografia reprimida. Não sei se há energias reprimidas em mim. Acho que, diante da minha fragilidade de ser humano, sinto que há um uso indiscriminado das minhas energias por outros seres humanos. Seria essa condição um aditivo para os sonhos visitarem minha cama durante as noites leves de sono?

Por exemplo, ontem à noite sonhei com uma senhora de vestido branco, longo, rendado, com todos os babados necessários para se mostrar; eu era apenas um coadjuvante nessa cena. Alegria, pretensão e otimismo completavam o cenário. Andava para lá e para cá numa euforia avassaladora. Depois me convidava para ver uma caixinha. De dentro, tirava duas bandas douradas. Entregava uma para mim e a outra titubeava, como se não quisesse expor ou tomar para si.

Em seguida aparecia com outro traje, auxiliada por uma espécie de mucama ou pessoa convidado a estar na cena. Vinha com pacotes, bolsas e malas, como se fosse fazer um deslocamento voluntário de lua de mel, e eu, nesse contexto, aparecia como uma ferida entreaberta, algo a ser decidido de última hora, ou apenas uma coluna do meio que seria exposta no final de tudo. Foi o que sonhei ontem, na madrugada deste domingo, 01.03.26.

Bom, passei por situações emocionais que, diante da fragilidade onírica que carrego, poderiam me trazer surpresas assim. Mas trago comigo uma fortaleza que tem me dado certa proteção o suficiente para não viver pensando nisso constantemente. O que me garante que não vou sonhar outra vez? O pouco que ainda resta em mim tento preservar escrevendo sobre meu avô, planejando as aulas de artes, indo ao cinema e assistindo a alguns shows que se encaixam no meu gosto musical.

O certo mesmo é que estou fugindo, aos poucos, de tudo que tem me afugentado para não sonhar com coisas que me faça perder uma noite de sono, mas os fantasmas são hilários e tentam fazer gracinha de mim. Será possível que os fantasmas nem se divertir sabem mais.

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