cleudimarferreira
Em Cajazeiras, no alto sertão
paraibano, a atividade teatral não surgiu a partir de grandes estruturas ou
políticas culturais consolidadas patrocinadas por instituições públicas, sejam
elas de que esfera vier. Nasceu da insistência, da necessidade urgente de
expressão e da ocupação criativa de espaços improvisados por parte de
organizações de jovens, influenciados por atividades lúdicas e artísticas, desenvolvidos
nos grêmios estudantis, secundaristas, das escolas na cidade.
Foi nesse cenário que, por
volta de 1973, surgiu o Grupo de Teatro Amador de Cajazeiras - o GRUTAC. Nesse
tempo efervescente, experimentado por sua juventude, a cidade já demonstrava
vocação cultural, impulsionada por iniciativas educacionais e pela atuação de
figuras como Íracles Pires, que ajudaram a estimular o movimento teatral local.
Mas foi com o GRUTAC que essa vocação ganhou forma contínua, organização e
presença pública.
O surgimento do grupo coincide
com um dos períodos mais complexos da história brasileira: os anos conturbados da
ditadura militar. Em todo o país, o teatro assumia, ainda que de forma
indireta, um papel de resistência. Era arte engajada pura. Na Paraíba,
especialmente na capital João Pessoa, grupos universitários e coletivos
independentes mantinham a produção artística em meio à censura e à escassez de
recursos. No interior, como em Cajazeiras, fazer teatro exigia ainda mais
improviso e força de vontade.
Sem teatros estruturados ou
apoio institucional, o GRUTAC construiu o seu terreno, a sua trajetória
ocupando espaços alternativos. Ensaios e apresentações aconteciam em
bibliotecas, escolas, auditórios e ambientes adaptados. O palco era, antes de
tudo, uma conquista seja em que lugar fosse, até em um banco de praça
Uma das primeiras montagens do
grupo, “Fé-Ré”, levada à cena em 1974 sob direção de Ubiratan Assis, marcou o
início de sua projeção no teatro paraibano. A peça participou de festivais e
revelou um grupo com ambição estética, mas também enfrentou os limites do
período, sofrendo intervenções da censura.
Ao longo da década de 1970, o
GRUTAC consolidou sua presença na cena cultural de Cajazeiras. Em 1978, com a
montagem do espetáculo “Aí”, o grupo demonstrou maior maturidade artística. O
elenco reunia nomes que mais tarde se tornariam referências na cultura local,
como Beto Montenegro, Antônio Carlos Vilar e Clizélite Assis. O grupo já não
era apenas uma iniciativa experimental - tornava-se um núcleo formador e
incentivador.
Sem espaço fixa, fazendo
leitura de texto aqui e ali, o GRUTAC transformou a cidade em extensão mambembe
de sua prática teatral. Apresentações no apertado auditório do Colégio
Diocesano Padre Rolim, na Biblioteca Pública Castro Pinto e em eventos
culturais universitários aproximavam o teatro da população e ampliavam seu
alcance. A experiência era coletiva, tanto para quem fazia quanto para quem
assistia as apresentações.
Mais do que produzir
espetáculos, o grupo funcionou como espaço de formação. Jovens interessados em
arte via ali um ambiente de referência e aprendizado prático, onde se
acumulavam experiência e se compartilhavam processos. Desse dinamismo surgiram
novos trabalhos, novos artistas e, posteriormente, outros grupos teatrais que
dariam continuidade ao movimento teatral da cidade.
Na primeira metade dos anos
1980, o cenário teatral de Cajazeiras começou a se diversificar. Novas
propostas surgiram, o teatro comunitário ganhou força e outras iniciativas de
cunho profissional passaram a ocupar o espaço cultural local. Nesse processo de
transformação, o GRUTAC perdeu gradualmente seu protagonismo central.
Na segunda metade da década de
1980, o grupo encerrou suas atividades. Não houve um fechamento solene, formal
amplamente documentado, mas sim uma dispersão progressiva, comum a muitos
coletivos culturais da época, marcado pelo afastamento de seus integrantes e
pela mudança no cenário artístico estadual e nacional.
Apesar do fim de suas
atividades, o GRUTAC deixou marcas profundas. Sua atuação foi decisiva para
consolidar o teatro em Cajazeiras, instigando artistas, criando público e
estabelecendo uma tradição que ultrapassou sua existência.
Hoje, sua história sobrevive
de forma fragmentada - em fotografias guardadas por ex-integrantes, em
programas de espetáculos, em relatos orais e em registros dispersos. A ausência
de um acervo institucional faz com que sua memória dependa, em grande parte,
daqueles que viveram a experiência.
Ainda assim, sua influência
permanece visível. O teatro em Cajazeiras, reconhecido como uma das expressões
culturais mais fortes no cenário nacional, carrega diretamente o legado daquele
grupo que, sem estrutura e com poucos recursos, transformou o improviso em
linguagem e a precariedade em criação. O GRUTAC não foi apenas um grupo de
teatro. Foi um movimento. E, mesmo após seu encerramento, continua ecoando na história
cultural da cidade que ajudou a moldar.
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