quarta-feira, 22 de abril de 2026

GRUTAC: o grupo que fez do sertão um palco

cleudimarferreira 




Em Cajazeiras, no alto sertão paraibano, a atividade teatral não surgiu a partir de grandes estruturas ou políticas culturais consolidadas patrocinadas por instituições públicas, sejam elas de que esfera vier. Nasceu da insistência, da necessidade urgente de expressão e da ocupação criativa de espaços improvisados por parte de organizações de jovens, influenciados por atividades lúdicas e artísticas, desenvolvidos nos grêmios estudantis, secundaristas, das escolas na cidade.  

Foi nesse cenário que, por volta de 1973, surgiu o Grupo de Teatro Amador de Cajazeiras - o GRUTAC. Nesse tempo efervescente, experimentado por sua juventude, a cidade já demonstrava vocação cultural, impulsionada por iniciativas educacionais e pela atuação de figuras como Íracles Pires, que ajudaram a estimular o movimento teatral local. Mas foi com o GRUTAC que essa vocação ganhou forma contínua, organização e presença pública.

O surgimento do grupo coincide com um dos períodos mais complexos da história brasileira: os anos conturbados da ditadura militar. Em todo o país, o teatro assumia, ainda que de forma indireta, um papel de resistência. Era arte engajada pura. Na Paraíba, especialmente na capital João Pessoa, grupos universitários e coletivos independentes mantinham a produção artística em meio à censura e à escassez de recursos. No interior, como em Cajazeiras, fazer teatro exigia ainda mais improviso e força de vontade.

Sem teatros estruturados ou apoio institucional, o GRUTAC construiu o seu terreno, a sua trajetória ocupando espaços alternativos. Ensaios e apresentações aconteciam em bibliotecas, escolas, auditórios e ambientes adaptados. O palco era, antes de tudo, uma conquista seja em que lugar fosse, até em um banco de praça

Uma das primeiras montagens do grupo, “Fé-Ré”, levada à cena em 1974 sob direção de Ubiratan Assis, marcou o início de sua projeção no teatro paraibano. A peça participou de festivais e revelou um grupo com ambição estética, mas também enfrentou os limites do período, sofrendo intervenções da censura.

Ao longo da década de 1970, o GRUTAC consolidou sua presença na cena cultural de Cajazeiras. Em 1978, com a montagem do espetáculo “Aí”, o grupo demonstrou maior maturidade artística. O elenco reunia nomes que mais tarde se tornariam referências na cultura local, como Beto Montenegro, Antônio Carlos Vilar e Clizélite Assis. O grupo já não era apenas uma iniciativa experimental - tornava-se um núcleo formador e incentivador.

Sem espaço fixa, fazendo leitura de texto aqui e ali, o GRUTAC transformou a cidade em extensão mambembe de sua prática teatral. Apresentações no apertado auditório do Colégio Diocesano Padre Rolim, na Biblioteca Pública Castro Pinto e em eventos culturais universitários aproximavam o teatro da população e ampliavam seu alcance. A experiência era coletiva, tanto para quem fazia quanto para quem assistia as apresentações.

Mais do que produzir espetáculos, o grupo funcionou como espaço de formação. Jovens interessados em arte via ali um ambiente de referência e aprendizado prático, onde se acumulavam experiência e se compartilhavam processos. Desse dinamismo surgiram novos trabalhos, novos artistas e, posteriormente, outros grupos teatrais que dariam continuidade ao movimento teatral da cidade.

Na primeira metade dos anos 1980, o cenário teatral de Cajazeiras começou a se diversificar. Novas propostas surgiram, o teatro comunitário ganhou força e outras iniciativas de cunho profissional passaram a ocupar o espaço cultural local. Nesse processo de transformação, o GRUTAC perdeu gradualmente seu protagonismo central.

Na segunda metade da década de 1980, o grupo encerrou suas atividades. Não houve um fechamento solene, formal amplamente documentado, mas sim uma dispersão progressiva, comum a muitos coletivos culturais da época, marcado pelo afastamento de seus integrantes e pela mudança no cenário artístico estadual e nacional.

Apesar do fim de suas atividades, o GRUTAC deixou marcas profundas. Sua atuação foi decisiva para consolidar o teatro em Cajazeiras, instigando artistas, criando público e estabelecendo uma tradição que ultrapassou sua existência.

Hoje, sua história sobrevive de forma fragmentada - em fotografias guardadas por ex-integrantes, em programas de espetáculos, em relatos orais e em registros dispersos. A ausência de um acervo institucional faz com que sua memória dependa, em grande parte, daqueles que viveram a experiência.

Ainda assim, sua influência permanece visível. O teatro em Cajazeiras, reconhecido como uma das expressões culturais mais fortes no cenário nacional, carrega diretamente o legado daquele grupo que, sem estrutura e com poucos recursos, transformou o improviso em linguagem e a precariedade em criação. O GRUTAC não foi apenas um grupo de teatro. Foi um movimento. E, mesmo após seu encerramento, continua ecoando na história cultural da cidade que ajudou a moldar.

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