terça-feira, 21 de abril de 2026

DOIS RIOS

Cezar Leitão


Essa música é primorosa, tanto na melodia quanto na letra. São seus autores, em parceria, Samuel Rosa, Lô Borges e Nando Reis.

“O céu está no chão / O céu não cai do alto / É o claro, é a escuridão”. Quando imaginamos um lugar bom, que nos deixa em paz, vivendo um intenso momento de felicidade, costumamos dizer que “estamos no céu”. Não o lugar que nos espera em outro plano, após a morte, mas aqui mesmo, na vida terrena. Por isso, o “eu lírico” diz que o “céu está no chão”, porque é a ocasião em que experimentamos essa sensação plena de satisfação. Mas ele adianta que “o céu não cai do alto”: essa condição de contentamento, de prazer, precisa ser construída. É necessário saber distinguir os momentos de claridade, em que tudo é mais fácil de conquistar, e os de escuridão, nos quais as dificuldades e os percalços muitas vezes exigem mais esforço e paciência para superar os obstáculos.

“O céu que toca o chão / E o céu que vai no alto / Dois lados deram as mãos”. A realidade e o sonho podem andar de mãos dadas. Um não pode seguir em frente sem o outro. Tudo o que se pretende fazer precisa, antes, ser pensado, sonhado, aspirado.

“Como eu fiz também / Só pra poder conhecer / O que a voz da vida vem dizer”. O “eu lírico” relata sua experiência ao buscar compreender o que a “voz da vida” tem a nos dizer. Somos nós mesmos os construtores de nossa história; portanto, o importante é saber identificar as oportunidades que nos são oferecidas.

“Que os braços sentem / E os olhos veem / Que os lábios sejam / Dois rios inteiros / Sem direção”. Nessa estrofe, começa a se delinear o projeto de vida como a construção de uma história de amor. A unificação de sentidos e sentimentos é simbolizada nas ações dos braços, na percepção dos olhos e nas manifestações expressas pelos lábios, seja na fala, seja na troca de carinho ao se beijarem. Os “dois rios inteiros” representam dois corpos que se encontram em entrega total, mesmo sem saber ainda a direção que irão tomar.

“O sol é o pé e a mão / O sol é a mãe e o pai / Dissolve a escuridão”.

Nesses versos, o “sol” pode ser interpretado como o amor. Ele é, ao mesmo tempo, o “pé”, quando nos permite dar rumo aos acontecimentos, e a “mão”, quando nos faz produzir, moldar e adaptar as circunstâncias aos sonhos que nos impulsionam. É “a mãe e o pai”, como um sentimento que protege e orienta na construção de um destino comum, inclusive dissipando diferenças e incompatibilidades que possam impedir o caminhar conjunto — “dissolve a escuridão”.

“O sol se põe, se vai / E, após se pôr / O sol renasce no Japão”. O amor não morre; pode desaparecer por um tempo, mas ressurgirá depois, independentemente do momento ou do lugar em que volte a aparecer.


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