terça-feira, 10 de março de 2026

O JUMENTO

cleudimarferreira


Imagem não real dos personagens criada por IA


Ligeiro era um asno de estimação, adotado e domesticado para ajudar na lida diária do meu avô Antônio Ferreira - Tiantonio, mas também servia como empréstimo a todos da família que precisassem dos seus préstimos. Na sua condição de ação por instinto, eu até tinha pena, pois achava que era uma criatura abastarda, mas que devia ser tratada e respeitada como qualquer membro da família. Mesmo sendo bem alimentado e cuidado pelo meu vô Ferreira, eu olhava para ele e sentia dó do coitado. um escravo que não falava nem esboçava nenhuma reação quando era molestado - no bom sentido da palavra - por Tiantonio, nos momentos em que não atendia os seus pedidos ou não respeitava às suas ordens.

Certa vez, disse aquele artista lá de exu, que ele era um “servidorzinho que era danado”. Uma declaração, para mim, bem colocada, pois “Ligeiro” era muito mais, servia e suportava toda uma sobrecarga no lombo, esticava o passo em direção a residência do familiar que precisasse dos seus serviços. Essas lembranças me fazem recordar do meu tempo de garoto e as viagens que sempre fazia com Ligeiro ao Engenho de Seu Moisés Maciel, para buscar cargas de rapaduras. Os caçuás vinham cheios do doce da cana, e eu ainda sentava na cangalha, com as pernas estiradas em direção ao pescoço do pobre animal. Como era dura a vida do meu saudoso amigo Ligeiro.

Num dia de verão, em um longo período de estiagem, com a vegetação toda esturricada e a dificuldade de encontrar água potável - água de beber - minha avó, Madrinha Baíca, percebendo que o líquido estava acabando nos potes de cerâmica da cozinha, pediu a meu avô que fosse buscar água, em uma cacimba, no leite seco do Rio Santo Antônio, que ficava, mais precisamente, já dentro das terras da família Soares.    

Seu Tiantonio Ferreira, que não era muito de conversa, porém muito disposto, pegou as bombonas de couro – quatro ao todo, que estavam empilhadas no canto de uma parede na sala, uma ou duas já gastas de tanto uso - e trouxe até o terreiro da frente da casa. Foi até onde “Ligeiro” estava pastando, desapeou o animal do mourão e conduziu-o até o local que estava a cangalha. O sol ainda nem tinha chegado ao meio do céu, mas o calor era de rachar. Sem reclamar, ajeitou o chapéu de palha na cabeça, colocou a cangalha nas costas do coitado jumento e, em seguida, as bombonas nos caçoas encaixados na cangalha. Seguiu caminho pela vereda de terra, pisando no chão seco que estalava sob as sandálias currulepe, até o local onde o precioso líquido ainda jorrava, naquela corrente morta.

Desceu a pequena ladeira, por entre as barreiras que margeavam o despenhadeiro sinuoso e estreito, que mal cabiam as suas pernas e os cascos de “ligeiro”. A cacimba, no leito seco do rio, era uma das poucas esperanças da redondeza. A água ficava cada vez mais escassa e distante da superfície, exigindo que a cacimba fosse cavada quase todo mês para não deixar que sumisse. Um trabalho que demandava a paciência de todos da comunidade do Sítio Fuá. No momento de encher as bombonas, a água cristalina e doce dava a certeza de que levavam para casa um líquido de qualidade. Era a vida insistindo em não desistir; o suficiente para seguir vivendo.

Quando ele chegou na entrada do olho água, amarrou o cabresto de “ligeiro” em uma estaca que havia ao lado, para o animal não sair do local. Desceu com as bombonas nas mãos - há uma distância de cinco metro de profundidade até o poço. Cada descida e subida naquela cacimba exigia um equilíbrio e força de mestre, carregando o peso morto do couro que, aos poucos, ia se enchendo com o líquido daquele reservatório natural."

A água transparente e limpa estava repleta de abelhas nativas que extraíam, pacientemente, a doçura do líquido para produzir seu mel. Tiantonio, vagarosamente, pegou uma cuia que havia ao lado, fez flutuar no espelho d’água. Tocando levemente a superfície, espalhando as melíponas para as bordas daquele pequeno poço, abrindo caminho sem ferir as pequenas operárias da caatinga.

Meticulosamente, com a calma de quem aprendera a respeitar a natureza antes mesmo de aprender a conviver com ela, ele foi afastando as abelhas sem feri-las. Sabia que aquela cacimba era partilhada entre as pessoas e os pequenos seres que também dependiam daquela água. O seu o gesto era leve, sem agressividade, quase um pedido silencioso de licença: - eu também quero água, eu preciso dela, não é só vocês.

Esperou alguns segundos. As melíponas, zumbindo baixo, formaram um círculo inquieto ao redor, mas logo voltaram ao trabalho doce e paciente. Então, mergulhou a cuia com mais firmeza, enchendo-a devagar para não turvar o fundo arenoso. A água subiu límpida, refletindo o céu aberto e o rosto cansado de Tiantonio, sulcado pelo sol de tantos verões e pelos extensivos períodos de ausência de chuvas.

Despejou o conteúdo na primeira bombona. O som da água caindo ecoou nas paredes estreitas do recipiente - um som oco, mas cheio de esperança. Cada cuia cheia era uma pequena vitória contra a seca que insistia em castigar todos que moravam no Sítio Fuá. Tiantônio enchia as bobonas com um ritmo metódico, os olhos atentos para não desperdiçar uma gota sequer, pois sabia que ali, no fundo daquela cacimba, estava o destino da sua família e a tranquilidade da sua companheira Madrinha Baíca.

Com as bombonas cheias, ele começou a coloca-las, cuidadosamente, nos caçuás, uma por uma. Depois de ajustar a carga que Ligeiro conduziria até a sua casa, desamarrou o cabestro do asno e começou a tanger o animal pelo caminho do baixio até o pé da barreira que marcava a transição da parte baixa para a encosta mais alta onde morava. Pois foi justamente nesse local, no trajeto que ambos conheciam tão bem, que se desatenderem; e esse momento marcaria para sempre a vida do sofrido do jegue.

Quando chegaram à pequena e estreita subida, o peso da carga d’água começou a deslocar-se com maior volume em direção à traseira do animal, dificultando os passos de Ligeiro. O jumento fazia um esforço danado para avançar, mas a passagem estreita e sinuosa - que seguia fazendo cobrinha - não facilitava a sua locomoção. A cada tentativa de firmar as patas, o peso morto das bombonas cheias puxava o corpo do bicho para o despenhadeiro, exigindo uma força que as suas patas cansadas já não pareciam ter.

Enroscado e preso nas laterais da ladeira, sem saber onde firmar os cascos, Ligeiro empancou; seus movimentos agora eram apenas tremores de esforço. Foi quando Seu Antônio Ferreira, percebeu, com o coração saindo pela boca, que a cangalha estava deslizando perigosamente em direção a cauda do jumento. Tomado pelo desespero e pelo estresse da situação, ele tentou o impossível: com a mão esquerda, agarrou a cangalha para frear o peso, enquanto com a outra empunhava o chicote, desferindo golpes nas pernas de Ligeiro para força-lo a reagir. Era o grito de quem não podia perder aquela água, misturado ao esforço mudo do bicho que já não tinha mais de onde tirar forças.
 
Em vão foi a tentativa de meu avô de desenroscar o animal das paredes estreita que formavam a barreira da pequena subida, pois Ligeiro não saía do chão, não decolava. A súbita estupidez ao extremo tomou conta do juízo de Seu Tiantonio; ele soltou o chicote e pegou um cambito que estava pendurado na canganha. Segurou firmo, com força - e com muita força - bateu sem piedade na cabeça do infeliz Ligeiro.

A cambitada, forte, acertou em cheio a orelha direita, provocando a quebra da cartilagem desse membro, quase decepando-o por completo. O impacto, junto com a dor e a fissura, fez “Ligeiro” buscar forças não sei de onde e sair da ladeira pulando, correndo em disparada até o terreiro da cozinha onde Vó Baíca esperava. Foi arrastando o que tinha nas costas: cangalha, caçuás e bombonas, jogando água para todos lados por onde passava. Ao chegar na porta externa de entrada da cozinha, ele parou.

Minha vó Madrinha Baíca, ao perceber os rinchos e o fungado do jumento, saiu para ver o que estava acontecendo e viu parte da orelha de Ligeiro praticamente pendurara, com gotículas de sangue escorrendo pela cabaça - olhos e nariz – e pingando no chão. Assustado com o estado do animal, ela bradou:
- Antoi, vala-me Deus, o que tu fizeste na cabeça do coitado do jumento, home?
Meu avô que vinha logo atrás, respondeu:
- Nada! Só dei uma cambitada nesse infeliz que não queria subir a ladeira.
Baíca, ouvindo a resposta do seu esposo, replicou:
- Mas Antoi, tu quebraste a orelha do coitado. E agora?
Seu Antônio Ferreira se aproximou do animal e viu que o que tinha feito algo fora do normal; ele mesmo percebeu que tinha passado de todos os limites.

Solidário com o companheiro de trabalho, ele tentou corrigir o que evidentemente havia feito de errado. Pediu a esposa que preparasse duas talas de casca de jatobá e providenciasse, também, tiras de pano fino - como se fossem uma espécie de ataduras - para envolver a orelha de Ligeiro. Era uma tentativa desesperada de fazer um curativo para que o animal não perdesse o pedaço da orelha ou ficasse com uma deficiência física.

Imprimindo uma certa pressa na busca dos pedidos do meu avô, vó Baíca trouxe as filetas da casca do jatobazeiro com os molambos de panos usados na limpeza da cozinha. A agilidade dela tinha um motivo: o sentimento de compaixão de ver o pobre animal, que era tratado por ela com um membro da família, naquele estado. No mesmo tempo, não parava de resmungar e falar coisa com coisa: reclamava da brutalidade de Tiantonio e dos maus-tratos que ele havia cometido. O velho avô, enquanto preparava o curativo, desculpava-se a todo instante por cada palavra que minha avó dizia sobre o procedimento errado na condução de Ligeiro nos afazeres domésticos.

Sem promessas de que os danos na orelha de Ligeiro seriam sarados, os meses seguiram. Tentavam esconder ou esquecer todo o ocorrido, mas sem apresentar resultados. Tiantonio só rezingava. Vez por outra, lamentava ao ver o triste animal naquela penúria e minha vó como coadjuvante, comentava: - Bem feito! Isso é para você deixar de ser bruto, ignorante, sem paciência Antoi. Seu Antônio Ferreira só ouvia; não replicava os clamores da esposa.

O tempo, mestre de todas as curas, tratou de fechar a ferida, mas não de apagar a memória daquela brutalidade. Ligeiro sarou, voltando ao passo manso nos afazeres da casa, mas carregava agora uma marca definitiva: a orelha, antes erguida e atenta, tombara quebrada para baixo, como um sinal de resignação que o animal exibia ao mundo. Aquela orelha caída era o lembrete mudo do erro de Tiantônio; toda vez que o sol batia no rosto do bicho, a sombra da deficiência projetava-se no chão, e o homem, em um silêncio carregado de culpa, desviava o olhar, compreendendo que certas paciências, uma vez rompidas, nunca mais se põem de pé.

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