cleudimarferreira
Ligeiro
era um asno de estimação, adotado e domesticado para ajudar na lida diária do meu
avô Antônio Ferreira - Tiantonio, mas também servia como empréstimo a todos da
família que precisassem dos seus préstimos. Na sua condição de ação por
instinto, eu até tinha pena, pois achava que era uma criatura abastarda, mas
que devia ser tratada e respeitada como qualquer membro da família. Mesmo sendo
bem alimentado e cuidado pelo meu vô Ferreira, eu olhava para ele e sentia dó
do coitado. um escravo que não falava nem esboçava nenhuma reação quando era
molestado - no bom sentido da palavra - por Tiantonio, nos
momentos em que não atendia os seus pedidos ou não respeitava às suas ordens.
Certa
vez, disse aquele artista lá de exu, que ele era um “servidorzinho que era
danado”. Uma declaração, para mim, bem colocada, pois “Ligeiro” era
muito mais, servia e suportava toda uma sobrecarga no lombo, esticava o passo em
direção a residência do familiar que precisasse dos seus serviços. Essas
lembranças me fazem recordar do meu tempo de garoto e as viagens que sempre
fazia com Ligeiro ao Engenho de Seu Moisés Maciel, para buscar cargas de
rapaduras. Os caçuás vinham cheios do doce da cana, e eu ainda sentava na cangalha,
com as pernas estiradas em direção ao pescoço do pobre animal. Como era dura a
vida do meu saudoso amigo Ligeiro.
Num
dia de verão, em um longo período de estiagem, com a vegetação toda esturricada
e a dificuldade de encontrar água potável - água de beber - minha avó, Madrinha
Baíca, percebendo que o líquido estava acabando nos potes de cerâmica da
cozinha, pediu a meu avô que fosse buscar água, em uma cacimba, no leite seco
do Rio Santo Antônio, que ficava, mais precisamente, já dentro das terras da
família Soares.
Seu Tiantonio
Ferreira, que não era muito de conversa, porém muito disposto, pegou as
bombonas de couro – quatro ao todo, que estavam empilhadas no canto de uma
parede na sala, uma ou duas já gastas de tanto uso - e trouxe até o terreiro da
frente da casa. Foi até onde “Ligeiro” estava pastando, desapeou o animal do mourão e conduziu-o até o local que estava
a cangalha. O sol ainda nem tinha chegado ao meio do céu, mas o calor era de
rachar. Sem reclamar, ajeitou o chapéu de palha na cabeça, colocou a cangalha
nas costas do coitado jumento e, em seguida, as bombonas nos caçoas encaixados
na cangalha. Seguiu caminho pela vereda de terra, pisando no chão seco que
estalava sob as sandálias currulepe, até o local onde o precioso líquido ainda
jorrava, naquela corrente morta.
Desceu
a pequena ladeira, por entre as barreiras que margeavam o despenhadeiro sinuoso
e estreito, que mal cabiam as suas pernas e os cascos de “ligeiro”. A
cacimba, no leito seco do rio, era uma das poucas esperanças da redondeza. A
água ficava cada vez mais escassa e distante da superfície, exigindo que a
cacimba fosse cavada quase todo mês para não deixar que sumisse. Um trabalho que
demandava a paciência de todos da comunidade do Sítio Fuá. No momento de encher
as bombonas, a água cristalina e doce dava a certeza de que levavam para casa
um líquido de qualidade. Era a vida insistindo em não desistir; o suficiente
para seguir vivendo.
Quando
ele chegou na entrada do olho água, amarrou o cabresto de “ligeiro” em uma
estaca que havia ao lado, para o animal não sair do local. Desceu com as
bombonas nas mãos - há uma distância de cinco metro de profundidade até o poço.
Cada descida e subida naquela cacimba exigia um equilíbrio e força de mestre,
carregando o peso morto do couro que, aos poucos, ia se enchendo com o líquido daquele
reservatório natural."
A
água transparente e limpa estava repleta de abelhas nativas que extraíam,
pacientemente, a doçura do líquido para produzir seu mel. Tiantonio,
vagarosamente, pegou uma cuia que havia ao lado, fez flutuar no espelho d’água.
Tocando levemente a superfície, espalhando as melíponas para as bordas daquele
pequeno poço, abrindo caminho sem ferir as pequenas operárias da caatinga.
Meticulosamente,
com a calma de quem aprendera a respeitar a natureza antes mesmo de aprender a conviver
com ela, ele foi afastando as abelhas sem feri-las. Sabia que aquela cacimba
era partilhada entre as pessoas e os pequenos seres que também dependiam daquela
água. O seu o gesto era leve, sem agressividade, quase um pedido silencioso de licença:
- eu também quero água, eu preciso dela, não é só vocês.
Esperou
alguns segundos. As melíponas, zumbindo baixo, formaram um círculo inquieto ao
redor, mas logo voltaram ao trabalho doce e paciente. Então, mergulhou a cuia
com mais firmeza, enchendo-a devagar para não turvar o fundo arenoso. A água
subiu límpida, refletindo o céu aberto e o rosto cansado de Tiantonio, sulcado
pelo sol de tantos verões e pelos extensivos períodos de ausência de chuvas.
Despejou
o conteúdo na primeira bombona. O som da água caindo ecoou nas paredes
estreitas do recipiente - um som oco, mas cheio de esperança. Cada cuia cheia
era uma pequena vitória contra a seca que insistia em castigar todos que
moravam no Sítio Fuá. Tiantônio enchia as bobonas com um ritmo metódico, os
olhos atentos para não desperdiçar uma gota sequer, pois sabia que ali, no
fundo daquela cacimba, estava o destino da sua família e a tranquilidade da sua
companheira Madrinha Baíca.
Com
as bombonas cheias, ele começou a coloca-las, cuidadosamente, nos caçuás, uma
por uma. Depois de ajustar a carga que Ligeiro conduziria até a sua
casa, desamarrou o cabestro do asno e começou a tanger o animal pelo caminho do
baixio até o pé da barreira que marcava a transição da parte baixa para a
encosta mais alta onde morava. Pois foi justamente nesse local, no trajeto que
ambos conheciam tão bem, que se desatenderem; e esse momento marcaria para
sempre a vida do sofrido do jegue.
Quando
chegaram à pequena e estreita subida, o peso da carga d’água começou a
deslocar-se com maior volume em direção à traseira do animal, dificultando os
passos de Ligeiro. O jumento fazia um esforço danado para avançar, mas a
passagem estreita e sinuosa - que seguia fazendo cobrinha - não facilitava a
sua locomoção. A cada tentativa de firmar as patas, o peso morto das bombonas
cheias puxava o corpo do bicho para o despenhadeiro, exigindo uma força que as
suas patas cansadas já não pareciam ter.
Enroscado
e preso nas laterais da ladeira, sem saber onde firmar os cascos, Ligeiro empancou;
seus movimentos agora eram apenas tremores de esforço. Foi quando Seu Antônio
Ferreira, percebeu, com o coração saindo pela boca, que a cangalha estava deslizando
perigosamente em direção a cauda do jumento. Tomado pelo desespero e pelo estresse
da situação, ele tentou o impossível: com a mão esquerda, agarrou a cangalha
para frear o peso, enquanto com a outra empunhava o chicote, desferindo golpes
nas pernas de Ligeiro para força-lo a reagir. Era o grito de quem não podia
perder aquela água, misturado ao esforço mudo do bicho que já não tinha mais de
onde tirar forças.
Em vão foi a tentativa de meu avô de desenroscar o animal das paredes estreita que formavam a barreira da pequena subida, pois Ligeiro não saía do chão, não decolava. A súbita estupidez ao extremo tomou conta do juízo de Seu Tiantonio; ele soltou o chicote e pegou um cambito que estava pendurado na canganha. Segurou firmo, com força - e com muita força - bateu sem piedade na cabeça do infeliz Ligeiro.
Em vão foi a tentativa de meu avô de desenroscar o animal das paredes estreita que formavam a barreira da pequena subida, pois Ligeiro não saía do chão, não decolava. A súbita estupidez ao extremo tomou conta do juízo de Seu Tiantonio; ele soltou o chicote e pegou um cambito que estava pendurado na canganha. Segurou firmo, com força - e com muita força - bateu sem piedade na cabeça do infeliz Ligeiro.
A
cambitada, forte, acertou em cheio a orelha direita, provocando a quebra da
cartilagem desse membro, quase decepando-o por completo. O impacto, junto com a
dor e a fissura, fez “Ligeiro” buscar forças não sei de onde e sair da
ladeira pulando, correndo em disparada até o terreiro da cozinha onde Vó Baíca
esperava. Foi arrastando o que tinha nas costas: cangalha, caçuás e bombonas,
jogando água para todos lados por onde passava. Ao chegar na porta externa de
entrada da cozinha, ele parou.
Minha vó Madrinha Baíca, ao perceber os rinchos
e o fungado do jumento, saiu para ver o que estava acontecendo e viu parte da
orelha de Ligeiro praticamente pendurara, com gotículas de sangue
escorrendo pela cabaça - olhos e nariz – e pingando no chão. Assustado com o
estado do animal, ela bradou:
- Antoi, vala-me Deus, o que tu fizeste na cabeça do coitado do jumento, home?
Meu avô que vinha logo atrás, respondeu:
- Nada! Só dei uma cambitada nesse infeliz que não queria subir a ladeira.
Baíca, ouvindo a resposta do seu esposo, replicou:
- Mas Antoi, tu quebraste a orelha do coitado. E agora?
Seu Antônio Ferreira se aproximou do animal e viu que o que tinha feito algo fora do normal; ele mesmo percebeu que tinha passado de todos os limites.
- Antoi, vala-me Deus, o que tu fizeste na cabeça do coitado do jumento, home?
Meu avô que vinha logo atrás, respondeu:
- Nada! Só dei uma cambitada nesse infeliz que não queria subir a ladeira.
Baíca, ouvindo a resposta do seu esposo, replicou:
- Mas Antoi, tu quebraste a orelha do coitado. E agora?
Seu Antônio Ferreira se aproximou do animal e viu que o que tinha feito algo fora do normal; ele mesmo percebeu que tinha passado de todos os limites.
Solidário com o companheiro de trabalho,
ele tentou corrigir o que evidentemente havia feito de errado. Pediu a esposa que
preparasse duas talas de casca de jatobá e providenciasse, também, tiras de
pano fino - como se fossem uma espécie de ataduras - para envolver a orelha de Ligeiro.
Era uma tentativa desesperada de fazer um curativo para que o animal não perdesse
o pedaço da orelha ou ficasse com uma deficiência física.
Imprimindo
uma certa pressa na busca dos pedidos do meu avô, vó Baíca trouxe as filetas da
casca do jatobazeiro com os molambos de panos usados na limpeza da cozinha. A
agilidade dela tinha um motivo: o sentimento de compaixão de ver o pobre animal,
que era tratado por ela com um membro da família, naquele estado. No mesmo
tempo, não parava de resmungar e falar coisa com coisa: reclamava da
brutalidade de Tiantonio e dos maus-tratos que ele havia cometido. O velho avô,
enquanto preparava o curativo, desculpava-se a todo instante por cada palavra
que minha avó dizia sobre o procedimento errado na condução de Ligeiro
nos afazeres domésticos.
Sem
promessas de que os danos na orelha de Ligeiro seriam sarados, os meses
seguiram. Tentavam esconder ou esquecer todo o ocorrido, mas sem apresentar
resultados. Tiantonio só rezingava.
Vez por outra, lamentava ao ver o triste animal naquela penúria e minha vó como
coadjuvante, comentava: - Bem feito! Isso é para você deixar de ser bruto,
ignorante, sem paciência Antoi. Seu Antônio Ferreira só ouvia; não replicava os
clamores da esposa.
O tempo, mestre de
todas as curas, tratou de fechar a ferida, mas não de apagar a memória daquela
brutalidade. Ligeiro sarou, voltando ao passo manso nos afazeres da
casa, mas carregava agora uma marca definitiva: a orelha, antes erguida e
atenta, tombara quebrada para baixo, como um sinal de resignação que o animal
exibia ao mundo. Aquela orelha caída era o lembrete mudo do erro de Tiantônio;
toda vez que o sol batia no rosto do bicho, a sombra da deficiência
projetava-se no chão, e o homem, em um silêncio carregado de culpa, desviava o
olhar, compreendendo que certas paciências, uma vez rompidas, nunca mais se
põem de pé.
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