terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

TUDO POR NADA - Um Conto da Vida Real

cleudimarferreira



Para Marcus, aquela tarde não parecia diferente das demais. Dizia ele: Havia pardais a contemplar o início de verão com seus cantos apelativos e contundentes sons de melancolia. Talvez, por que já anunciavam o começo da noite – para eles, pois para mim, ainda era cedo o bastante para se ver as nuvens branquinhas acomodadas no infinito azul do céu. Mas aquele coração sem perdão e duro preenchia nosso ambiente de solidão, faltava amor por parte dela. Quanto a mim, derretia de paixões e eu chorava por dentro como se fosse uma vida que queria nascer mais por ironia do destino algo o bloqueava, não deixando ressurgir.

Guardava para ela naquela tarde tantas canções. Abria o meu peito repleto de amoras, derramava meus sentimentos em cada olhar suspeito e desconfiado que assolasse a sua áurea pálida. Como era boba a minha louca paixão. Porém nem apenas um olhar; palavras, ou algo parecido, não sinalizava ser a recíproca dela. Sinal evidente da sua falta de percepção e consideração a um homem transbordado de sentimentos.

E aquela paisagem, naquele filme de amor exibido na minha vácua e tão resumida agenda diária naquele dia, era apenas um vazio sem muita importância que me destruía por dentro. E sem saber esquecer as torturas dos dias passados, andava de um canto para outro num espaço insinuoso das horas, buscando apenas rever os conteúdos que seriam aplicados em sala de aula do dia seguinte.

Porém, não quer dizer que a ociosidade era fator que me fizesse ficar acomodado durante as últimas horas que restava para o dia acabar. Talvez um irônico convite para sair, seja para fazer um programinha na padaria, seja para ir mais longe - quem sabe viajar para os quatros contos do meu quarto, fechar os olhos e não acordar mais. Seja para onde for eu estaria pronto para decolar. O que importava era fugir das águas daquele mar turbulento em que naufragava o meu coração.

Se o nosso relacionamento não estava lá àquelas coisas! Pois havia ligações trocados entre nós, perguntas sem respostas, cobranças não cumpridas e algo mais, arranhado meu coração, Pulsava ainda mais de forma letárgico o nosso já abalado e moribundo casamento. Uma relação indiferente, aleia a qualquer possibilidade de aproximação, numa obscura noite que não brilhava mais, onde as palavras alimentavam um ditado desencadeante, que cada vez dizia não, para uma possível retomada.

E foi partindo desse pressuposto, que ela, sem que eu esperasse, pois foi para mim uma surpresa, me convidou para ir até a cidade de Cabedelo. Ela ia entregar um documento da justiça a Secretaria de Educação, e como ela estava acuada, pois eu havia cobrado dela mais explicações para tantas saídas e chagadas tardes em casa, sem haver necessidade para tanto, se sentindo, quase obrigada, resolveu me chamar para ir juntos àquela cidade. Desconfiado e cauteloso aceitei convite, e assim partimos, pegamos um ônibus dos Bancários a Epitácio Pessoa.

Chegando lá, ficamos parados em uma guarita, a espera de uma condução que nos levasse até aquela cidade. Durante o tempo que ficamos a espera um ônibus, ela e eu em nenhum momento olhamos um para o outro e nem tão pouco uma palavra se quer saiu de nossas bocas. O Silêncio entre nós era absoluto; apesar do barulho que uma cidade ainda acordada produz, principalmente durante uma tarde. Não ficamos mais do que trinta minutos naquela parada, pois a tão esperada condução, finalmente apareceu e assim entramos e seguimos viagem para aquela cidade.

Dentro do ônibus, sem nenhuma graça que pudesse justificar o convite, ela ficou calada e com um semblante que norteava bastante ira, raiva, ou algo parecido. Eu preocupado e sem saída, fiquei sem jeito procurando um momento, uma brecha, que facilitasse, e me desse espaço para conversar com ela. Foi quando já tenso e sem jeito, olhei para ela. Ela se vira para mim com ar de quem o seu silêncio havia sido violado, pergunta de forma brusca:
- O que foi, por que está me olhando.
Eu respondo:
- Nada eu não posso olhar para você não.
Ela olhando para mim como um raios-x de desprezo, responde:
- É não Marcus, já não basta tudo que você fez, agora eu vou ter que toda vez que sair de casa sair também com você!?
Eu Olhando para ela, digo:
- E o quer que tem, nós somos casados! Você não é minha esposa.
Direta e contundente, usando a gíria “cara” ela respondeu:
- Não tem nada haver cara!
Eu respondo dizendo:
Tem sim. Você é minha esposa, e toda esposa tem prazer de sair com seu marido, tem o prazer de ter ele junto dela, todas gostas de apresentar para as amigas e amigos. Não é assim!?
- Ela replicou:
- Depende do marido.
E murmurando respondeu calada:
- Agora deu...
- Marcus ouvindo, respondeu:
- Agora deu por que!?
E ela continua...
- Não tem nada haver eu sair com você, cara. Agora eu vou ter que pagar “mico” com você no meu lado? Eu ei!...
Depois dessa afirmação, ela começa a soltar todo o verbo armazenado, e paulatinamente inicia-se a desforra labial.
- Marcus põe uma coisa na sua cabeça, você tem que seguir o seu caminho, me deixe em paz, vá seguir a sua vida e me deixe viver a minha. Você tem que cuidar da sua vida. Você não pode esperar a vida inteira por mim, esse tempo já acabou. Não há mais espaço entre nós para continuarmos juntos.
Eu com o coração já dilacerado, pergunto mais uma vez.
- E é assim...
Ela responde:
- É... Marcos, não há espaço para agente continuar juntos, põe isso na sua cabeça. Eu preciso viver a minha vida. Você me sufoca.

Ouvindo aquelas palavras, fiquei em um momento calado, com um animal acuado sem saída. Como já se aproximava da cidade de Cabedelo e já havia qualquer impossibilidade de um entendimento. Abracei o silêncio e em alguns segundos me senti fora de si, e quando voltei ao normal, ouvi ela dizer:
- É aqui!

Descemos do ônibus. Ela na frente e eu atrás seguimos em direção a Secretaria de Educação daquela cidade. Durante o trajeto até aquela repartição não houve mais praticamente espaço para conversa e só o silêncio inanimado prevaleceu.

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