sábado, 31 de janeiro de 2026

Ecos da Passagem do Cangaceiro Luiz Padre por Cajazeiras

cleudimarferreira 

Cangaceiro Luiz Padre - fonte: Cangaço na Literatura

O sertão guarda a memória de um jeito diferente dos livros. Ele não arquiva - ele espalha. Um acontecimento vira poesia em cordel ou no repente de um tocador de viola, depois conversa de alpendre nas noites de nova; linha de jornal (no tempo dos impressos), e por fim se mistura ao vento que varre os terreiros nas noites de assombrações, guiada pela lua cheia clareando os lugares mais distantes do Nordeste. Assim ficou registrada a passagem de Luiz Padre por Cajazeiras, no ano de 1919: metade registrada em tinta, a outra metade transformanda em boatos e, mais uma parte, soprada na lembrança do povo.

Antes mesmo de seus passos alcançarem a Paraíba, seu nome já corria de boca em boca pelas folhas dos jornais cearenses. Bandido, famigerado facínora, terror dos sertões - os títulos vinham sempre carregados, como se cada palavra fosse também uma sentença. O sertão, que já vivia sob o peso das secas, da fome e do flagelo, ganhava agora o peso das manchetes. E manchete, naquele tempo, era coisa séria: moldava medo, criava vultos, transformava homens em presságios.

Luiz Padre surgia nas notícias envolto em dramas de honra e desavenças de sangue. Coisa comum nos sertões nordestinos do seu tempo. Falava-se que tudo começara com uma mulher - sua amada Amásia, que se afastara dele, enquanto ele perambulava em suas andanças perigosas de sedução, de abandono, de vingança atravessando fronteiras de estados. Diziam que houve sedução, abandono, fuga da mulher com outro homem. O que era vida privada tornava-se narrativa pública.

Pauta assim, no sertão de então, não era apenas assunto de coração. Era uma questão de honra, e honra, naquele tempo, era coisa que se levava com gesto extreme. O sertão, que sempre resolvera seus conflitos no campo da palavra empenhada ou do rifle engatilhado, via agora seus dilemas expostos na vitrine da imprensa. Quando Luiz Padre reaparece na narrativa dos jornais, já não é apenas amante traído ou homem em conflito - é um cangaceiro em movimento, trazendo consigo homens armados, carregando no peito um misto de vingança e destino.

Cajazeiras, na noite de 24 de agosto de 1919, entrou nessa história não por escolha, mas por circunstância de quem entra num redemoinho sem ter pedido. A fazenda Cipó, ligada ao nome de Osório Bezerra, por certo um homem de bem, talvez um coronel, boa gente, virou um cenário descrito em tons de tragédia. Os jornais falavam em ataques, com fúria, espancamentos, incêndios, destruição de depósitos de algodão, cercas queimadas, gritos rompendo a madrugada. Falavam até de mutilação de corpos - crueldade que fazia o leitor da capital arregalar os olhos e apertar o papel entre os dedos.

Mas o sertão sabe que notícia tem lado e tem carimbo. Cada jornal defendia sua cor e trazia também sua rixa política, sua intenção escondida. Uns acusavam o governo de inércia. Alguns achava que era pusilânime ao extremo, outros falavam em exploração política do banditismo. Havia quem dissesse que autoridades protegiam cangaceiros; havia quem jurasse que tudo não passava de exagero da oposição. No meio disso, a verdade caminhava de sandália gasta, sem conseguir acompanhar a velocidade das versões.

Enquanto isso, telegramas cruzavam distâncias, destacamentos eram prometidos, tropas se moviam mais no discurso que na estrada. O nome de Luiz Padre crescia nas colunas como se fosse maior que o próprio homem. Virava símbolo de desordem, prova de falha administrativa, argumento de deputado em tribuna. O cangaceiro deixava de ser só pessoa: tornava-se personagem de um debate que misturava segurança, poder e disputa política.

Mas longe das capitais, o povo via de outro jeito. Para quem morava em sítio e vila, o que importava não era o jogo político - era o barulho de cascos na estrada, o rumor de homens armados, o medo de ter a porta batida à noite. O sertanejo media a história não pelo discurso, mas pelo impacto na própria vida. Uma cerca queimada era mais real que qualquer editorial inflamado.

E ainda assim, mesmo em meio ao medo, havia o olhar curioso. O cangaço, no fundo, sempre carregou essa ambiguidade: condenação e fascínio. Era violência, mas também era mito em formação. Cada narrativa aumentava um detalhe, cada relato acrescentava uma sombra. Quando se dava conta, o homem já virara lenda.

Luiz Padre passou por Cajazeiras num tempo em que o sertão vivia entre a escassez e a honra. Sua passagem não foi desfile nem conquista - foi rastro. Rastro de conflito humano, de paixões mal resolvidas, de um sistema onde a justiça oficial chegava tarde e a justiça pessoal chegava armada.

Hoje, ao reler aquelas notícias de 1919, amareladas pelo tempo, percebe-se algo curioso: os jornais falavam muito de governo, de culpa, de providências, mas pouco falavam do silêncio que ficava depois. E o silêncio é onde o sertão realmente guarda suas histórias.

Porque, passado o alvoroço, a cidade de Cajazeiras daquele tempo, retomou depois à rotina. O algodão tornou a ser colhido, as feiras tornaram a encher, as conversas mudaram de assunto. Mas a memória ficou - não como data exata, e sim como sensação. Uma lembrança de que, num certo ano distante, o nome de um homem cruzou a cidade como nuvem carregada.

O sertão não mede o passado em calendários. Mede em marcas. E a marca de Luiz Padre não foi só de violência, mas de um tempo em que notícia, política e destino humano se misturavam como poeira na estrada. Talvez, no fim, reste isso: a certeza de que todo cangaceiro é também criatura de seu tempo. E todo tempo precisa de histórias para se explicar.

Cajazeiras, com seu jeito quieto de guardar memórias, ainda conserva essa - não como glória, não como lamento, mas como parte do grande mosaico sertanejo onde homens passam e narrativas ficam. E assim Luiz Padre permanece: entre o homem que existiu e o personagem que os jornais ajudaram a criar. Nem totalmente fato, nem totalmente lenda. Apenas mais um nome que o sertão aprendeu a lembrar do seu próprio modo.

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quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

Nos Seus 41 Anos o Teatro Ica tem Programação Especial

 

O Teatro Íracles Pires (Teatro Ica) - um dos teatros mais importantes do Nordeste está comemorando 41 anos e terá programação especial neste final de semana, ou seja, quinta e sexta-feira, dias 23 e 24 deste mês de janeiro. O Ica, na cidade de Cajazeiras, no Sertão da Paraíba, contará com agenda gratuita de dança e teatro.

Na sexta-feira, dia 23, ‘O baile dos cangaceiros’ será apresentado pela Cia de Danças Populares Pisada do Sertão (criada em 2004, na cidade de Poço de José de Moura-PB), a partir das 19h. Essa apresentação de xaxado tem patrocínio do Banco do Nordeste Cultural Sousa.

Já no sábado, dia 24, às 19h30, a atração é ‘Oh! Terrinha Boa’, da Cia Arco Íris (criada em 1985). Em cena, Jucinério Félix Filho e José Ricardo Lacerda interpretam Zé do Vale e Maria Calado. Essa comédia - reconhecida como Patrimônio Cultural Imaterial da Paraíba - é sobre temas sociais como a luta agrária, o êxodo rural e a religiosidade. Essa apresentação teatral tem patrocínio da Secretaria de Estado de Cultura (Secult).

Ramificação da Funesc em Cajazeiras, o teatro da cidade leva o nome de Íracles Pires, artista com grande atuação nos movimentos culturais do Sertão até meados dos anos 1970. Inaugurado em 26 de janeiro de 1985, o ICA conta com 240 lugares na plateia e duas salas vips com 19 lugares cada uma. Um total de 278 lugares.




domingo, 4 de janeiro de 2026

CONVERSAS DE CINE ÉDEN. Sublime Renúncia: A Sombra e a Luz na Última Sessão

cleudimarferreira


Antigas intalações do Cine Teatro Éden, hoje transformadas em apartamentos

Dizem que o destino é como uma estrada de traçado indefinido que, de qualquer jeito, nos lançará ao encontro do porto onde a vida nos espera. Um inevitável caminho de incertezas abstrato, que não sabemos a que lugar vai nos levar; mas o percorremos e fatalmente o cumprimos sem poder evitar o seu percurso, e encaramos de frente os seus desdobramentos.

Na minha peregrinação nos anos 70 pelas salas de cinema que haviam em Cajazeiras, fiz a do Cine Apolo XI o meu marco temporal. Não por achar que essa sala fosse o brotinho de olhos verdes da cidade que todo rapazinho dessa época queria cortejar; era porque ali estavam todas as minhas possibilidades de estar junto dessa magia chamada cinema. Eu gostava da sua ambientação e, é claro, havia nela um tal Cícero Alves - um amigo escudeiro que sempre facilitava o meu ingresso, de graça, nas sessões; permitindo que eu assistisse aos filmes, sem pagar nada, no dia que eu quisesse.

Com essa oportunidade conquistada, eu passei a ter uma presença imperativa nas sessões do Cine Apolo XI e, todos as noites, eu estava lá; mesmo que o clima fosse de sol ou chuva. Podiam até acontecer tremores naquela região da cidade onde cinema estava fincado; eu estaria lá, pronto para juntar seus tijolos se o prédio do cinema viesse cair. Toda essa dedicação, essa obsessão, juntou-se com a minha paixão e a necessidade de sobrevivência numa cidade em que, tirando as aulas no Colégio Estadual, o que restava como lazer e diversão era a vivência diária nas dependências daquele cinema de rua.

E foi nesse cinema, em 2 de julho de 1975, que o destino não conspirou contra mim e resolveu intervir em silêncio, à sua maneira, a meu favor, preservando o que temos de mais precioso: a vida. Era uma noite sertaneja, com céu estrelado e a lua ponteando vagarosamente por entre as noves de um final de inverno em Cajazeiras. Dentro do Cine Teatro Éden, os projetores rodavam o filme ‘Ikiru’ (Viver), do diretor japonês Akira Kurosawa. Já no Cine Teatro Apolo XI, que para mim não era apenas um lugar de exibição, mas um hábito do meu corpo; um gesto da minha alma, passava por dentro da janelinha o foco em direção a tela, levando as imagens do filme Max et les ferrailleurs’ (ou seja, Sublime Renúncia), uma produção franco-italiana dirigida por Claude Sautet.

No Cine Apolo XI, o dia 2 de julho foi destacado como uma noite de estreia e o filme em cartaz, ‘Sublime Renúncia’, provavelmente tenha recebido um bom público. Sendo a sessão marcada por uma estreia, tanto eu quanto o Senhor Bispo Diocesano - mesmo o religioso sendo uma pessoa pública e eu não - éramos figurinhas carimbadas que jamais faltariam a uma avant-première nesse cinema. Mas, nessa noite, o bispo não foi e eu também não. Segundo a oralidade cajazeirense, uma viagem a Recife teria sido o motivo que levou o bispo a não comparecer ao auditório do Cine Apolo para não ver ‘Sublime Renúncia’; informação sobre qual ainda não se têm registro concessório.

Da minha parte, houve motivos, sim, e muitos. Lembro-me, como se fosse um daqueles filmes que você assistiu e que, de tão bom, não esqueceu nunca, que meu pai chegou para mim nessa noite de 2 julho e falou assim: - hoje você não vai para o cinema. E continuou falando aquelas palavras que eu não queria ouvir jamais: - Você vai ficar em casa, na Bodega, pois vou com sua mãe para o hospital; parece que ela começou a sentir as dores do parto.

Dores que se apresentavam ainda imprecisas, mas suficientes para mudar o curso desse dia; da minha vida e da minha história afetuosa com os cinemas da cidade, principalmente com relação ao Cine Apolo XI. Parecia que minha irmã caçula, Elizangela, que se preparava para nascer, anunciava sua chegada definitiva justamente para mudar o meu destino naquela noite de estreia de ‘Sublime Renúncia’.

Enquanto meu pai e minha mãe seguiam para o hospital, restou-me o balcão da bodega e a monotonia das prateleiras; um cenário que contrastava com a grandiosidade que eu imaginava haver nas imagens de Sublime Renúncia. O que eu não sabia, naquele momento de isolamento na Rua Dom Mouzinho, era que o destino não estava apenas me privando de ver um filme, mas me protegendo de algo que marcaria a minha vida para sempre.

Entre o peso das contrações que minha mãe sofria e o silêncio daquela noite sem o cinema, fiquei tomando conta da bodega, observando a rua como quem olha o mundo por uma fresta. O tempo se arrastava e cada minuto parecia maior que o anterior. Havia em mim um desconforto, uma ausência, como se uma parte do meu corpo estivesse sentada numa cadeira de ‘cimo’, em um ambiente escuro, aguardando que o projetor acordasse a tela.

A explosão da bomba ecoaria em breve, transformando a ‘rentrée’ de Sublime Renuncia - pós férias de meio de ano - em um cenário de horror para uma cidade sonolenta, acostumada com a tranquilidade do dia-a-dia. E veio o barulhão infernal que eu nunca havia ouvido antes. Pessoas da minha rua, naquela noite, saíram assustadas às suas calçadas perguntando umas às outras o que havia acontecido no centro da cidade. Dentro de mim, formou-se um silêncio estranho; um cálculo involuntário; uma sequência de interrogações, de ‘ses’, que não pediam respostas. E se eu tivesse ido? E se meu pai não tivesse a bodega? E se minha mãe não estivesse em trabalho de parto.

Os atores Romy Schneide e Michel Piccoli em duas cenas do filme Sublime Renúncia

A minha quase rotina estabelecida no Cine Apolo XI era compartilhada com Geraldo Galvão. Mas, nem eu nem Geraldo éramos funcionários daquele cinema; éramos apenas voluntários que, interessados em alguns privilégios - ou seja, em assistir a filmes de graça - ajudávamos os funcionários do cinema prestando pequenos serviços. No meu caso, eu ajudava Cícero Alves na divulgação; e Geraldo Galvão auxiliava Geraldo Conrado na parte operacional da cabine de projeção. 

Depois que a única sessão terminava e o cinema se esvaziava, era costume nosso percorrer as fileiras de cadeiras longarinas como quem vasculha ruínas recentes, à procura de pertences deixados, dinheiros caídos, bombons, chicletes, restos mínimos da distração alheia. Se eu tivesse ido ao cinema naquele dia, teria estado ao lado de Galvão, dividindo com ele essa última atividade no cinema; envolvido nessa procura inocento, distraído no exato momento em que a pasta foi encontrada debaixo do assento da cadeira onde o bispo costumava ver seus filmes - e talvez o destino, em vez de observador tardio, me tivesse feito testemunha direta da tragédia. 

Na mais real de todas as situações, a bomba explodiu e seu estampido ecoou nos ouvidos da população que, já sonolenta, se preparava para se despedir daquele dia. Sem pedir licença, um cenário de horror foi instalado, transformando o dia da estreia ‘Sublime Renuncia’ numa cena do mais perfeito filme de terror. A notícia chegou rápido no balcão de bodega, como toda informação ruim, com todas coisas graves que a fatalidade nos traz de surpresa. Eu ouvido os furos das duas emissoras de rádio local, respirava fundo como se estivesse escapado de algo grave.

Enquanto no cinema; a exclusiva cadeira do bispo e o lugar onde eu possivelmente estaria – parte de sua estrutura era abalado por uma bomba-relógio, com o seu hall tomado pelo medo, pela tenção em meios aos restos de cartazes usados como maca para conduzir feridos até o Hospital Regional de Cajazeiras - a minha irmã nascia; chegava ao mundo a pouco metros dali, nas primeiras horas do dia 3 de julho. Era uma vida abrindo os olhos e, de um lado, a destruição rasgando o outro. Em outras palavras: dois acontecimentos separados por poucas horas, unidos pelo mesmo cordão invisível.

Se minha mãe não tivesse entrado em trabalho de parto, eu estaria nesse cinema e nada impediria. Mesmo que a noite, naquele dia 2 de julho, fosse de lua cheia e as nuvens escuras no céu fizesse os cachorros uivarem ou a chuva repentina aparecesse do nada; eu estaria no Cine Apolo XI, inteiro, distraído, entregue.

A partir daquele dia, o Cine Apolo XI passou a ser também o lugar onde eu quase estive. O cinema que me formou guardava agora essa sombra: a certeza de que, por um desvio mínimo, eu poderia ter sido apenas mais um corpo assustado, ou pior, uma ausência definitiva. Talvez o destino não seja uma estrada reta; talvez seja um pequeno atraso. Um ‘hoje não’; um pedido simples: fique em casa. E é nesse quase nada que a vida, às vezes, se salva.

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