Dizem que o destino é como uma estrada de traçado indefinido que, de qualquer jeito, nos lançará ao encontro do porto onde a vida nos espera. Um inevitável caminho de incertezas abstrato, que não sabemos a que lugar vai nos levar; mas o percorremos e fatalmente o cumprimos sem poder evitar o seu percurso, e encaramos de frente os seus desdobramentos.
Na minha peregrinação nos anos 70 pelas salas de cinema que haviam em Cajazeiras, fiz a do Cine Apolo XI o meu marco temporal. Não por achar que essa sala fosse o brotinho de olhos verdes da cidade que todo rapazinho dessa época queria cortejar; era porque ali estavam todas as minhas possibilidades de estar junto dessa magia chamada cinema. Eu gostava da sua ambientação e, é claro, havia nela um tal Cícero Alves - um amigo escudeiro que sempre facilitava o meu ingresso, de graça, nas sessões; permitindo que eu assistisse aos filmes, sem pagar nada, no dia que eu quisesse.
Com essa oportunidade conquistada, eu passei a ter uma presença imperativa nas sessões do Cine Apolo XI e, todos as noites, eu estava lá; mesmo que o clima fosse de sol ou chuva. Podiam até acontecer tremores naquela região da cidade onde cinema estava fincado; eu estaria lá, pronto para juntar seus tijolos se o prédio do cinema viesse cair. Toda essa dedicação, essa obsessão, juntou-se com a minha paixão e a necessidade de sobrevivência numa cidade em que, tirando as aulas no Colégio Estadual, o que restava como lazer e diversão era a vivência diária nas dependências daquele cinema de rua.
E foi nesse cinema, em 2 de julho de 1975, que o destino não conspirou contra mim e resolveu intervir em silêncio, à sua maneira, a meu favor, preservando o que temos de mais precioso: a vida. Era uma noite sertaneja, com céu estrelado e a lua ponteando vagarosamente por entre as noves de um final de inverno em Cajazeiras. Dentro do Cine Teatro Éden, os projetores rodavam o filme ‘Ikiru’ (Viver), do diretor japonês Akira Kurosawa. Já no Cine Teatro Apolo XI, que para mim não era apenas um lugar de exibição, mas um hábito do meu corpo; um gesto da minha alma, passava por dentro da janelinha o foco em direção a tela, levando as imagens do filme ‘Max et les ferrailleurs’ (ou seja, Sublime Renúncia), uma produção franco-italiana dirigida por Claude Sautet.
No Cine Apolo XI, o dia 2 de julho foi destacado como uma noite de estreia e o filme em cartaz, ‘Sublime Renúncia’, provavelmente tenha recebido um bom público. Sendo a sessão marcada por uma estreia, tanto eu quanto o Senhor Bispo Diocesano - mesmo o religioso sendo uma pessoa pública e eu não - éramos figurinhas carimbadas que jamais faltariam a uma avant-première nesse cinema. Mas, nessa noite, o bispo não foi e eu também não. Segundo a oralidade cajazeirense, uma viagem a Recife teria sido o motivo que levou o bispo a não comparecer ao auditório do Cine Apolo para não ver ‘Sublime Renúncia’; informação sobre qual ainda não se têm registro concessório.
Da minha parte, houve motivos, sim, e muitos. Lembro-me, como se fosse um daqueles filmes que você assistiu e que, de tão bom, não esqueceu nunca, que meu pai chegou para mim nessa noite de 2 julho e falou assim: - hoje você não vai para o cinema. E continuou falando aquelas palavras que eu não queria ouvir jamais: - Você vai ficar em casa, na Bodega, pois vou com sua mãe para o hospital; parece que ela começou a sentir as dores do parto.
Dores que se apresentavam ainda imprecisas, mas suficientes para mudar o curso desse dia; da minha vida e da minha história afetuosa com os cinemas da cidade, principalmente com relação ao Cine Apolo XI. Parecia que minha irmã caçula, Elizangela, que se preparava para nascer, anunciava sua chegada definitiva justamente para mudar o meu destino naquela noite de estreia de ‘Sublime Renúncia’.
Enquanto meu pai e minha mãe seguiam para o hospital, restou-me o balcão da bodega e a monotonia das prateleiras; um cenário que contrastava com a grandiosidade que eu imaginava haver nas imagens de Sublime Renúncia. O que eu não sabia, naquele momento de isolamento na Rua Dom Mouzinho, era que o destino não estava apenas me privando de ver um filme, mas me protegendo de algo que marcaria a minha vida para sempre.
Entre o peso das contrações que minha mãe sofria e o silêncio daquela noite sem o cinema, fiquei tomando conta da bodega, observando a rua como quem olha o mundo por uma fresta. O tempo se arrastava e cada minuto parecia maior que o anterior. Havia em mim um desconforto, uma ausência, como se uma parte do meu corpo estivesse sentada numa cadeira de ‘cimo’, em um ambiente escuro, aguardando que o projetor acordasse a tela.
A explosão da bomba ecoaria em breve, transformando a ‘rentrée’ de Sublime Renuncia - pós férias de meio de ano - em um cenário de horror para uma cidade sonolenta, acostumada com a tranquilidade do dia-a-dia. E veio o barulhão infernal que eu nunca havia ouvido antes. Pessoas da minha rua, naquela noite, saíram assustadas às suas calçadas perguntando umas às outras o que havia acontecido no centro da cidade. Dentro de mim, formou-se um silêncio estranho; um cálculo involuntário; uma sequência de interrogações, de ‘ses’, que não pediam respostas. E se eu tivesse ido? E se meu pai não tivesse a bodega? E se minha mãe não estivesse em trabalho de parto.
A minha quase rotina estabelecida no Cine Apolo XI era compartilhada com Geraldo Galvão. Mas, nem eu nem Geraldo éramos funcionários daquele cinema; éramos apenas voluntários que, interessados em alguns privilégios - ou seja, em assistir a filmes de graça - ajudávamos os funcionários do cinema prestando pequenos serviços. No meu caso, eu ajudava Cícero Alves na divulgação; e Geraldo Galvão auxiliava Geraldo Conrado na parte operacional da cabine de projeção.
Depois que a única sessão terminava e o cinema se esvaziava, era costume nosso percorrer as fileiras de cadeiras longarinas como quem vasculha ruínas recentes, à procura de pertences deixados, dinheiros caídos, bombons, chicletes, restos mínimos da distração alheia. Se eu tivesse ido ao cinema naquele dia, teria estado ao lado de Galvão, dividindo com ele essa última atividade no cinema; envolvido nessa procura inocento, distraído no exato momento em que a pasta foi encontrada debaixo do assento da cadeira onde o bispo costumava ver seus filmes - e talvez o destino, em vez de observador tardio, me tivesse feito testemunha direta da tragédia.
Na mais real de todas as situações, a bomba explodiu e seu estampido ecoou nos ouvidos da população que, já sonolenta, se preparava para se despedir daquele dia. Sem pedir licença, um cenário de horror foi instalado, transformando o dia da estreia ‘Sublime Renuncia’ numa cena do mais perfeito filme de terror. A notícia chegou rápido no balcão de bodega, como toda informação ruim, com todas coisas graves que a fatalidade nos traz de surpresa. Eu ouvido os furos das duas emissoras de rádio local, respirava fundo como se estivesse escapado de algo grave.
Enquanto no cinema; a exclusiva cadeira do bispo e o lugar onde eu possivelmente estaria – parte de sua estrutura era abalado por uma bomba-relógio, com o seu hall tomado pelo medo, pela tenção em meios aos restos de cartazes usados como maca para conduzir feridos até o Hospital Regional de Cajazeiras - a minha irmã nascia; chegava ao mundo a pouco metros dali, nas primeiras horas do dia 3 de julho. Era uma vida abrindo os olhos e, de um lado, a destruição rasgando o outro. Em outras palavras: dois acontecimentos separados por poucas horas, unidos pelo mesmo cordão invisível.
Se minha mãe não tivesse entrado em trabalho de parto, eu estaria nesse cinema e nada impediria. Mesmo que a noite, naquele dia 2 de julho, fosse de lua cheia e as nuvens escuras no céu fizesse os cachorros uivarem ou a chuva repentina aparecesse do nada; eu estaria no Cine Apolo XI, inteiro, distraído, entregue.
A partir daquele dia, o Cine Apolo XI passou a ser também o lugar onde eu quase estive. O cinema que me formou guardava agora essa sombra: a certeza de que, por um desvio mínimo, eu poderia ter sido apenas mais um corpo assustado, ou pior, uma ausência definitiva. Talvez o destino não seja uma estrada reta; talvez seja um pequeno atraso. Um ‘hoje não’; um pedido simples: fique em casa. E é nesse quase nada que a vida, às vezes, se salva.
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