domingo, 8 de fevereiro de 2026

O ISQUEIRO DE SEU TIANTÔNIO

cleudimarferreira



Os momentos e situações, por vezes vexatórios, vividos por meu avô Tiantônio - muitos que presenciei, outros contados por minha avó Baíca mostravam o quanto ele estava exposto a fatos que nem sempre se ajustavam ao seu modo de ser. Às vezes, por um traço quase quixotesco, revelava-se um homem de sensibilidade frágil, entregue de corpo e alma ao seu pedaço de chão, sujeito às fatalidades do ambiente rural e ao comportamento moldado pelo lugar onde vivia.

Se o seu solo era árido e imprevisível, com ele não era diferente: tudo podia acontecer. Por isso, aquele inseparável cigarro de palha fazia parte de seu mundo - uma espécie de calmante para a mente, algo que, ao que parecia, o deixava mais centrado e até reflexivo.

Certo dia, cansado das falhas do artifício, largou o chifrezinho acendedor e seguiu o conselho de seu compadre Antônio Soares, que apareceu matreiro, meio sorrateiro, numa daquelas tardes sertanejas:
- Antói, o que é bom mesmo é um isqueiro que não dá trabalho. O artifício é bom, mas custa a pegar. Compre um isqueiro, homi.

Ao ouvir aquela voz sussurrar em seu ouvido, ele arriscou um olhar de lado: lá estava o velho amigo e compadre Antônio Soares. Sem perder tempo, respondeu:
- Homi, tu chegas parecendo um espírito. E depois... essa ‘bixiga’ sempre acendeu; por que agora não quer acender? Tem que acender, nem que seja na marra.

Antônio Soares mirou os olhos nos do meu avô e insistiu:
- É aquilo que falei... compre um isqueiro e acabe de vez com essa briga com o artifício.
Respondeu Tiantônio:
- E se não der certo? Tem que comprar gasolina, a pedra, o pavio... e, quando a gente vai acender, não dá; é preciso tentar várias vezes e a coisa acaba falhando. Homi, tanto faz um como o outro: tudo é uma ‘bixiga’ que não presta. Bom mesmo é um facho em brasa - duvido não acender.
Antônio Soares respondeu, já encerrando a conversa:
- Mas compre um isqueiro, experimente. Quem sabe dá certo? Comigo deu; há de dar certo com você também.
Tiantônio percebeu a seriedade no apelo do amigo e, numa frase curta, finalizou o diálogo:
- Vou comprar no sábado, na feira.

Esperou o sábado chegar e, nesse dia de feira livre em Cajazeiras, foi à cidade comprar o necessário para o consumo da semana. Andou de bodega em bodega à procura de um isqueiro que melhor se ajustasse ao seu gosto, na certeza de que o objeto facilitaria acender o indispensável espanta-mosquito de suas tardes.

Depois de tanto andar, entrou, já com as pernas cansadas, na mercearia de Zimá Gonçalves. Sentou-se sobre um fardo de cordas, próximo ao balcão, e perguntou a Zimá se vendia isqueiros. Zimá, como costumava fazer com os fregueses, respondeu:
- Seu Antói, aqui tem de tudo! O senhor pode rodar essa cidade todinha atrás de um objeto, mas acaba encontrando é aqui. Aqui tem estoque! Mas o que é que o senhor quer mesmo?
Ele respondeu:
- Um isqueiro, mas que seja bom de verdade.
Zimá replicou:
- Vou vender ao senhor o melhor, o mais vendido e usado por muita gente. É este aqui!

E lhe entregou um isqueiro quadrado, de inox, com detalhes em bronze polido que pareciam ouro, popularmente chamado de “sete lapadas”. Ele se admirou com a beleza do objeto, abriu a tampa do isqueiro e testou se estava funcionando. Fez o teste, e o isqueiro não falhou. Perguntou o preço e, achando-o justo, comprou-o.

Ao final do dia, quando a feira já se desfazia e se via alguns comerciantes desmontando barracas enquanto outros fechavam as portas de suas mercearias, Tiantônio acomodou-se na carroceria da picape Chevrolet 1950 de Maçal Carolino e, pela poeira amarronzada da estrada, seguiu de volta ao Sítio Fuá.

Chegando em casa, o cansaço da viagem não foi impedimento para sua última tarefa do dia. Pegou um pedaço de sabão, um latão e uma cuia, e dirigiu-se à cacimba sulcada no leito do rio Santo Antônio. Depois de tirar o pó da estrada num refrescante banho de cuia, subiu a ladeira dos Baixios dos Soares em direção à sua residência, onde minha avó Baíca o esperava para o jantar. Após a refeição, sentou-se numa rede sempre armada na sala. Ainda ensaiou alguma conversa com a esposa, acomodada numa cadeira ao lado esquerdo da porta de entrada da casa.

Mas o cansaço do dia trouxe os primeiros cochilos daquele fim de sábado. Aí não teve jeito: inclinou o corpo e, estirado na rede, acabou adormecendo. No domingo, acordou cedo, desceu em direção ao rio e buscou as primeiras latas de água para abastecer os dois potes da cozinha. Depois de muitas idas e vindas, encheu os reservatórios, tomou um gole de café com bolo de caco e dirigiu-se à casa de seu Zé Soares, o único barbeiro da localidade.

Quando chegou, já havia vários amigos na fila, esperando a vez de fazer a barba. Cumprimentou a todos com um bom-dia e entrou na conversa. A espera foi longa, e, quando finalmente teve a barba aparada por Zé Soares, já se aproximava do meio-dia. De cara nova, pagou o barbeiro e voltou para casa, pois já estava passando a hora do almoço.

Após o almoço, como de costume, provocado pela necessidade de acomodação gástrica da comida no estômago, viu a sonolência tomar conta dos seus olhos, deitou-se outra vez na rede e adormeceu. Dormiu... e quando despertou, já era por volta das quinze horas da tarde.
Fazia calor no topo da colina onde se situava sua residência. Mas o mormaço do sertão, em sua seara, era compensado pela vista ampla dos baixios de João Ferreira e dos Soares. Pegou uma caixinha com as melhores palhas de milho - as mais finas, já cortadas em formato retangular. Junto dela, trouxe também um pedaço de fumo e sua inseparável faca amolada, e sentou-se num banco em frente à casa.

Olhando para o leste - o “nascente” - como quem procurava um sinal de chuva no firmamento, começou murmurar, a picar o fumo em farelo. E foi picando, picando, até juntar a porção necessária para o cigarro. Abriu a caixinha, escolheu a melhor palha, enrolou o cigarro e lambeu a borda para o fumo ganhar firmeza e a folha de palha lacrar. Com o cigarro pronto, sem mais o que fazer, levou-o à boca e passou a procurar entre as coisas ao seu lado: o fumo de corte, a caixinha das palhas, a faca, o velho fuso com o artifício… e o isqueiro comprado na venda de Zimá Gonçalves.

Ele olhou para o lado esquerdo, depois para o direito, e não encontrou o acendedor. Levantou-se do banco, ficou em pé, tornou a procurar com os olhos, mas nada do isqueiro. Lembrou então que podia tê-lo guardado na mala e gritou:
— Baíca, vê se deixei o isqueiro dentro da mala. Se estiver lá, traga pra mim.

Minha avó, paciente como sempre foi com o esposo, foi até a mala, encontrou o objeto e seguiu para a frente da casa, onde meu avô estava, entregando-lhe o isqueiro. O velho Antônio Ferreira, de posse daquele bonito artefato, levou o cigarro à boca e começou a acioná-lo, tentando acender o bicho. Falhou na primeira tentativa, depois na segunda. A impaciência começou atiçar seu temperamento inesperado, crescendo com a vontade de fumar. Tentou uma terceira vez – e nada do troço pegar fogo.

Com cigarro preso em uma das extremidades da boca, passou a olhar o isqueiro, examinando. Balançou, conferiu se era falta de gasolina, mas viu que estava todo correto. Tentou pela quarta vez acender o seu cigarro, mas o isqueiro não funcionou. Aí o juízo foi embora. Perdeu o controle de sua paciência e começou a chamar todo tipo de nome apócrifo com o objeto. 

Irritado, tomado de raiva, agarrou uma marreta que estava junto a uma pedra ao lado do banco, colocou o isqueiro sobre a pedra e desceu o braço. Começou a golpeá-lo sem dó, amassando por completo, sem piedade. Bateu tanto que o objeto foi se afinando até parecer uma lâmina de barbear. A cada marretada, soltava uma palavra feia, como se descarregasse no isqueiro a raiva represada.

Minha avó, ouvindo a estripulia, saiu apressada da cozinha e correu até onde o marido estava. Chegou aflita e perguntou o que estava acontecendo. Meu avô, ainda tomado de irritação, respondeu:
- É essa desgraça que tá tirando meu juízo. Mas também, olhe o que eu fiz com ele!
E mostrou o isqueiro todo arrebentado na palma da mão. Vó Baíca se assustou com tamanha grosseria, foi logo dizendo:
- Mas, home, por que foi fazer isso? Tu acabaste de comprar esse objeto. Nem tinha usado direito e já destruiu o bicho. Pra que foi gastar dinheiro com isso, se tu nem sabes usar.
Seu Antônio Ferreira respondeu à esposa, ainda contrariado:
- Deixe de conversa e me traga o fuso e o artifício. Isqueiro eu não quero nem saber mais. Além de caro, não presta, não vale nada. Bom mesmo é o artifício. Com ele eu não preciso comprar nada. Basta um capucho de algodão, um pedaço de ferro e uma pedra. A gente bate o ferro na pedra, a faísca pula e já vai pegando na lã de algodão. Assim, ó… assim, ó… tá vendo a fumaça aparecendo? Agora é só assoprar devagarinho e o fogo vai pegando, surgindo.

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