domingo, 7 de junho de 2026

SENHOR SÃO JOÃO:

cleudimarferreira

foto: autoria e acervo cleudimar ferreira

“Eu me chamo forró raiz – popularmente conhecido na região onde nasci, como forró de pé de serra e, não sou mais digno de que entreis em sua casa, pois as entidades que mandam nela, hoje, não mais estão permitindo a minha aproximação, sequer na calçada onde o Senhor mora. Pois bem, meu Senhor, mas se tu disseres uma só palavra por mim, eu, com certeza serei permitido, salvo da extinção por completo.”
Outro dia fiquei imaginando essa conversa.
Numa noite de junho, dessas em que a lua parece maior e mais próxima da terra, vi, em pensamento, um velho sanfoneiro caminhando sozinho por uma estrada de barro.
Trazia a sanfona pendurada no peito, o chapéu de couro gasto pelo tempo e uma tristeza escondida entre os dedos.
Caminhava devagar, como quem procura uma casa conhecida e não consegue mais encontrá-la.
Era o próprio forró.
Não o forró das luzes modernas, dos painéis de LED ou dos cachês milionários. Era o velho forró de pé de serra.
Aquele que nasceu no terreiro batido, cresceu nas feiras, dançou nos salões improvisados debaixo de uma latada e aprendeu a conversar com o povo através da sanfona, da zabumba e do triângulo.
Quando menino, eu o via em toda parte.
Ele estava na fogueira acesa na frente das casas.
Estava nas quadrilhas improvisadas no meio da rua, no meio dos terreiros de chão batido das casas de sítios
Estava no cheiro do milho assado, no estalar dos traques, na fumaça dos balões que ainda coloriam o céu sertanejo.
Estava no sorriso dos namorados e na alegria simples de quem passava o ano inteiro esperando a chegada de junho.
Naquele tempo, São João e forró eram quase a mesma coisa.
Um não existia sem o outro.
Mas os anos passaram.
As festas cresceram.
Os palcos ficaram gigantescos.
As cidades começaram a disputar quem fazia o maior evento, quem montava a maior estrutura, quem contratava as atrações mais caras. E foi justamente quando o São João ficou maior que o velho forró começou a ficar menor.
Primeiro perdeu espaço.
Depois perdeu horário.
Mais adiante perdeu visibilidade.
Agora, em muitos lugares, corre o risco de perder até o convite.
Olho para as programações juninas e me pergunto se alguém percebe o que está acontecendo.
Artistas que dedicaram a vida inteira ao forró tradicional são deixados de lado.
Nomes que ajudaram a construir a identidade musical do Nordeste aparecem cada vez menos.
Alguns são excluídos.
Outros recebem cachês reduzidos.
Outros sequer são lembrados.
Enquanto isso, artistas que não possuem qualquer ligação com a história dessas festas ocupam os principais espaços.
Não estou dizendo que não tenham valor.
Têm o seu público e o seu talento.
O que me intriga é outra coisa: como a casa do forró passou a tratá-lo como visita?
Como o dono da festa passou a pedir licença para entrar nela?
Talvez seja por isso que imagino o velho sanfoneiro caminhando sozinho naquela estrada.
Ele não reclama.
Não protesta.
Não grita.
Apenas segue em frente, carregando a sua sanfona e a sua história.
Porque o forró raiz tem uma dignidade antiga.
Dessas que não cabem em contratos nem em estratégias de marketing.
Dessas que sobrevivem na memória das pessoas.
E memória é coisa difícil de matar.
Toda vez que uma sanfona abre o fole em algum canto do Nordeste, ele renasce.
Toda vez que alguém dança um xote agarradinho, ele respira.
Toda vez que uma criança aprende quem foram Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro, Marinês, Os Três do Nordeste, Trio Nordestino, Santana, Flávio José e tantos outros guardiões dessa tradição, ele recupera um pedaço do terreno perdido.
Por isso, ainda tenho esperança.
Porque as festas podem mudar.
Os palcos podem crescer.
Os modismos podem passar.
Mas junho continuará pertencendo à sanfona.
E enquanto houver uma fogueira acesa em qualquer lugar do sertão nordestino, enquanto houver alguém capaz de reconhecer o som de um baião antes mesmo da primeira palavra da canção, o velho forró continuará caminhando.
Talvez mais silencioso.
Talvez mais distante dos grandes palcos.
Mas vivo.
Esperando apenas que o Senhor São João, um dia, volte a abrir a porta da própria casa e diga:
- Entre, meu velho amigo. Esta festa sempre foi sua.

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quinta-feira, 21 de maio de 2026

Quem tem história, conta. Quem não tem, escuta e respeita.

 cleudimarferreira

Umas das plenárias do Festival Brasileiro de Teatro Amador - Recife, Pernambuco, 1984.


O ano era 1984. Com 26 anos, saí de Cajazeiras para João Pessoa – seria a segunda vez que viajava para a capital – dessa vez como representante oficial da classe teatral cajazeirense. Recém-indicado presidente da ATAC – Associação de Teatro Amador de Cajazeiras – por mais de sete grupos de teatro que existiam na cidade, confesso que fiquei inseguro, pois viajava sozinho e conhecia pouco a principal cidade paraibana.

Meu objetivo era participar do Festival Brasileiro de Teatro Amador, que seria realizado dias depois, na cidade do Recife. Outra insegurança. Se eu não conhecia muito João Pessoa, imagine a metrópole recifense. Com fome e quase sem dinheiro no bolso, eu precisava economizar cada centavo.

Cheguei no final da tarde à capital da Paraíba. Abatido da viagem – feita num ônibus da Trans Paraíba. Segui a pé da rodoviária para o NTU – Núcleo de Teatro Universitário, onde iria me encontrar com Antônio Martins e representantes da FPTA – Federação Paraibana de Teatro Amador. No dia seguinte, pegaria uma carona com esses dirigentes rumo ao Recife, onde passaria uma semana participando do festival.

Saí da rodoviária perguntando a um e a outro onde ficava o Teatro Lima Penante, até finalmente chegar ao local. Quando cheguei, quase desmaiando de fome, encontrei um funcionário que me informou que os dirigentes da FPTA só chegariam ao NTU à noite. Fui então a um fiteiro vizinho e comprei um guaraná com quatro bolinhos de ló para matar a fome.

Quando passava das oito da noite, Antônio Martins e Rodolfo – um dos membros da diretoria da FPTA – chegaram ao NTU. Rodolfo veio ao meu encontro e perguntou se eu já havia jantado. Respondi que nem almoço tinha comido. Em seguida, fui convidado por ele para jantar em sua casa, no Valentina Figueiredo. Coloquei a bagagem nas costas, pegamos um coletivo e seguimos para lá. Jantei e acabei dormindo em sua casa.

No outro dia, viajamos numa kombi para o Recife. Em meio ao glamour do festival, conhecendo atores e dirigentes teatrais do Brasil inteiro, eu vivia minha primeira grande experiência como dirigente da ATAC e representante da classe teatral da minha cidade.

Entre as figuras importantes da dramaturgia nacional, conheci nomes como o ator Antônio Fagundes – que estava em cartaz no Theatro de Santa Isabel, com a peça: "Morte Acidental de um Anarquista" – e Orlando Miranda, presidente do INACEN – Instituto Nacional de Artes Cênicas, na época, o órgão do governo federal responsável pelo fomento do teatro em todo o país.

Na véspera do encerramento do festival, encontrei Orlando Miranda no segundo camarote do Teatro de Santa Isabel. Ele me convidou para sentar em uma das cabines do camarote. Entramos, e então perguntou como estava a finalização da montagem dos equipamentos cenográficos do Teatro ICA. Disse que estava contente com a construção do teatro e com a repercussão do sucesso do Grupo Teatral Terra pelo Brasil.

Conversamos por cerca de vinte minutos. Aproveitei para responder, dizendo que todos estavam aguardando a chegarem desses equipamentos a cidade e, para pedir mais agilidade no envio dos equipamentos de luz e som, que eram o principal entrave para a inauguração do teatro.

Lembro que ele ficou um pouco contrariado e respondeu que já havia liberado as verbas necessárias para a compra e, que ia cobrar naquele dia mesmo, do governo do Estado mais rapidez na aquisição dos equipamentos que estava faltando. Muito simpático, culto, educado e prestativo durante toda a conversa.

Moral da história: o festival aconteceu em julho de 1984 e, entre agosto e setembro daquele mesmo ano, os equipamentos chegaram ao teatro, juntamente com a equipe de montagem, sendo montados logo em seguida. O teatro acabou sendo inaugurado em janeiro de 1985. Aconteceu assim, comigo.

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quarta-feira, 22 de abril de 2026

GRUTAC: o grupo que fez do sertão um palco

cleudimarferreira 




Em Cajazeiras, no mormaço do sertão paraibano, a atividade teatral não surgiu a partir de grandes estruturas ou políticas culturais consolidadas patrocinadas por instituições públicas, sejam elas de que esfera fosse. Nasceu da insistência, da necessidade urgente de expressão e da ocupação criativa de espaços improvisados por parte de organizações de jovens, influenciados por atividades lúdicas e artísticas, desenvolvidos nos grêmios estudantis, secundaristas, das escolas na cidade.  

Foi ambientado neste cenário que, por volta de 1973, surgiu o Grupo de Teatro Amador de Cajazeiras - o GRUTAC. Nesse tempo efervescente, experimentado por sua juventude, a cidade já demonstrava vocação cultural, impulsionada por iniciativas educacionais e pela atuação de figuras como Íracles Blocos Pires - Ica, que ajudaram a estimular o movimento teatral local. Mas foi com o GRUTAC que essa vocação ganhou forma contínua, organização e presença pública.

O surgimento do grupo coincide com um dos períodos mais complexos da história brasileira: os anos conturbados da ditadura militar. Em todo o país, o teatro assumia, ainda que de forma indireta, um papel esclarecedor e de resistência. Era arte engajada pura. Na Paraíba, especialmente na capital João Pessoa, grupos universitários e coletivos independentes mantinham a produção artística em meio à censura e à escassez de recursos. No interior, como em Cajazeiras, fazer teatro exigia ainda mais improviso e força de vontade.

Sem teatros estruturados ou apoio institucional, o GRUTAC construiu o seu terreno, a sua trajetória ocupando espaços alternativos. Ensaios e apresentações aconteciam em bibliotecas, escolas, auditórios e ambientes adaptados. O palco era, antes de tudo, uma conquista seja em que lugar fosse, até em um banco de praça

Uma das primeiras montagens do grupo, “Fé-Ré”, levada à cena em 1974 sob direção de Ubiratan Assis, marcou o início de sua projeção no teatro paraibano. A peça participou de festivais e revelou um grupo com ambição estética, mas também enfrentou os limites do período, sofrendo intervenções da censura.

Ao longo da década de 1970, o GRUTAC consolidou sua presença na cena cultural de Cajazeiras. Em 1978, com a montagem do espetáculo “Aí”, o grupo demonstrou maior maturidade artística. O elenco reunia nomes que mais tarde se tornariam referências na cultura local, como Beto Montenegro, Antônio Carlos Vilar e Clizélite Assis. O grupo já não era apenas uma iniciativa experimental - tornava-se um núcleo formador e incentivador.

Sem espaço fixa, fazendo leitura de texto aqui e ali, o GRUTAC transformou a cidade em extensão mambembe de sua prática teatral. Apresentações no apertado auditório do Colégio Diocesano Padre Rolim, na Biblioteca Pública Castro Pinto e em eventos culturais universitários aproximavam o teatro da população e ampliavam seu alcance. A experiência era coletiva, tanto para quem fazia quanto para quem assistia as apresentações.

Mais do que produzir espetáculos, o grupo funcionou como espaço de formação. Jovens interessados em arte via ali um ambiente de referência e aprendizado prático, onde se acumulavam experiência e se compartilhavam processos. Desse dinamismo surgiram novos trabalhos, novos artistas e, posteriormente, outros grupos teatrais que dariam continuidade ao movimento teatral da cidade.

Na primeira metade dos anos 1980, o cenário teatral de Cajazeiras começou a se diversificar. Novas propostas surgiram, o teatro comunitário ganhou força e outras iniciativas de cunho profissional passaram a ocupar o espaço cultural local. Nesse processo de transformação, o GRUTAC perdeu gradualmente seu protagonismo central.

Na segunda metade da década de 1980, o grupo encerrou suas atividades. Não houve um fechamento solene, formal amplamente documentado, mas sim uma dispersão progressiva, comum a muitos coletivos culturais da época, marcado pelo afastamento de seus integrantes e pela mudança no cenário artístico estadual e nacional.

Apesar do fim de suas atividades, o GRUTAC deixou marcas profundas. Sua atuação foi decisiva para consolidar o teatro em Cajazeiras, instigando artistas, criando público e estabelecendo uma tradição que ultrapassou sua existência.

Hoje, sua história sobrevive de forma fragmentada - em fotografias guardadas por ex-integrantes, em programas de espetáculos, em relatos orais e em registros dispersos. A ausência de um acervo institucional faz com que sua memória dependa, em grande parte, daqueles que viveram a experiência.

Ainda assim, sua influência permanece visível. O teatro em Cajazeiras, reconhecido como uma das expressões culturais mais fortes no cenário nacional, carrega diretamente o legado daquele grupo que, sem estrutura e com poucos recursos, transformou o improviso em linguagem e a precariedade em criação. O GRUTAC não foi apenas um grupo de teatro. Foi um movimento. E, mesmo após seu encerramento, continua ecoando na história cultural da cidade que ajudou a moldar.

VIVA O GRUTAC. Se ainda estivesse vivo - em atividade, estaria completando neste ano, 53 anos de vida dedicado ao teatro na cidade.

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terça-feira, 21 de abril de 2026

DOIS RIOS

Cezar Leitão


Essa música é primorosa, tanto na melodia quanto na letra. São seus autores, em parceria, Samuel Rosa, Lô Borges e Nando Reis.

“O céu está no chão / O céu não cai do alto / É o claro, é a escuridão”. Quando imaginamos um lugar bom, que nos deixa em paz, vivendo um intenso momento de felicidade, costumamos dizer que “estamos no céu”. Não o lugar que nos espera em outro plano, após a morte, mas aqui mesmo, na vida terrena. Por isso, o “eu lírico” diz que o “céu está no chão”, porque é a ocasião em que experimentamos essa sensação plena de satisfação. Mas ele adianta que “o céu não cai do alto”: essa condição de contentamento, de prazer, precisa ser construída. É necessário saber distinguir os momentos de claridade, em que tudo é mais fácil de conquistar, e os de escuridão, nos quais as dificuldades e os percalços muitas vezes exigem mais esforço e paciência para superar os obstáculos.

“O céu que toca o chão / E o céu que vai no alto / Dois lados deram as mãos”. A realidade e o sonho podem andar de mãos dadas. Um não pode seguir em frente sem o outro. Tudo o que se pretende fazer precisa, antes, ser pensado, sonhado, aspirado.

“Como eu fiz também / Só pra poder conhecer / O que a voz da vida vem dizer”. O “eu lírico” relata sua experiência ao buscar compreender o que a “voz da vida” tem a nos dizer. Somos nós mesmos os construtores de nossa história; portanto, o importante é saber identificar as oportunidades que nos são oferecidas.

“Que os braços sentem / E os olhos veem / Que os lábios sejam / Dois rios inteiros / Sem direção”. Nessa estrofe, começa a se delinear o projeto de vida como a construção de uma história de amor. A unificação de sentidos e sentimentos é simbolizada nas ações dos braços, na percepção dos olhos e nas manifestações expressas pelos lábios, seja na fala, seja na troca de carinho ao se beijarem. Os “dois rios inteiros” representam dois corpos que se encontram em entrega total, mesmo sem saber ainda a direção que irão tomar.

“O sol é o pé e a mão / O sol é a mãe e o pai / Dissolve a escuridão”.

Nesses versos, o “sol” pode ser interpretado como o amor. Ele é, ao mesmo tempo, o “pé”, quando nos permite dar rumo aos acontecimentos, e a “mão”, quando nos faz produzir, moldar e adaptar as circunstâncias aos sonhos que nos impulsionam. É “a mãe e o pai”, como um sentimento que protege e orienta na construção de um destino comum, inclusive dissipando diferenças e incompatibilidades que possam impedir o caminhar conjunto — “dissolve a escuridão”.

“O sol se põe, se vai / E, após se pôr / O sol renasce no Japão”. O amor não morre; pode desaparecer por um tempo, mas ressurgirá depois, independentemente do momento ou do lugar em que volte a aparecer.


terça-feira, 14 de abril de 2026

João Batista de Brito

Foto: Audrey Hepburn e George Peppard em Bonequinha de Luxo


Hoje, 13 de abril, comemora-se o Dia do Beijo. Não sei quem instituiu a data, mas, aproveito o ensejo para repassar alguns beijos famosos na história do cinema, já que o gesto da carícia bucal é tão importante na sétima arte quanto na vida.

Vamos começar do começo? O cinema tinha apenas um ano de idade quando o primeiro beijo apareceu na tela. Produção do Vitaphone de Thomas Edison, com direção de William Heise, o filmezinho de vinte segundos, “The Kiss” (1896), mostrava na tela o que o título diz: os atores maduros May Irwin e John C Rice, felizes e sorridentes, colando os lábios e pronto.

O efeito foi escandaloso e gerou protestos de puritanos indignados por toda parte, muitos considerando o filme “completamente nojento”. Mas claro, ninguém da então nascente indústria cinematográfica levou esses protestos a sério e, fosse o filme curto ou longo, mudo ou falado, o cinema incorporou definitivamente o beijo como um elemento inseparável de qualquer estória, de amor ou não.

Tanto é assim que, duas décadas adiante, o filme “Don Juan” (1926, de Alan Crossland) já continha nada menos que 119 beijos, todos saídos da boca do ator John Barrymore para as suas muitas amadas.

No mesmo ano, 1926, o filme “O diabo e a carne” (de Clarence Brown) já mostrava um suculento beijo de boca aberta, até então, uma novidade na vida erótica do cinema, no caso, entre Greta Garbo e John Gilbert.

Pouco tempo depois disso, em 1930, já vai se ter o primeiro beijo lésbico da história do cinema, quando em “Marrocos”, Marlene Dietrich vestida de homem, beija na boca uma das moças que, no bar onde a cena acontecia, a ouvia cantar e dançar.

Na década de quarenta, um filme “inocente” como “A felicidade não se compra” (Frank Capra, 1946) vai produzir o primeiro beijo dentro de uma mesma longa tomada, beijo entre James Stewart e Donna Reed tão apaixonado que o rigoroso Código Hays de Censura – em vigor nos Estados Unidos de 1934 a 1964 - não gostou e hesitou em permitir a exibição.

Neste mesmo ano, o bruxo Hitchcock driblou a cronometragem obrigatória do Código Hays (oito segundos para cada beijo) e fez, em “Interlúdio” (1946), um longo beijo todo quebrado, com intervalos de bocas separadas a cada oito segundos, aliás, efeito mais erótico do que se tivesse sido ininterrupto. As bocas eram de Cary Grant e Ingrid Bergman.

Mas, ninguém tem dúvidas, o beijo mais ousado da época, o que abalou as estruturas do Código Hays, foi o que trocaram Deborah Kerr e Burt Lancaster em “A um passo da eternidade” (Fred Zinnemann, 1953), vocês lembram, os dois com roupa de banho, deitados um por sobre o outro nas areias mornas de Pearl Harbour, ela confessando a ele, apaixonada, “nunca ninguém me beijou assim, do jeito que você me beija”.

O primeiro beijo interracial vai acontecer logo depois, em 1957, no filme de Robert Rossen “Ilha dos trópicos” (“Island in the Sun”), onde a atriz branca Joan Fontaine é beijada pelo ator negro Harry Belafonte. Conta-se que, depois de distribuído o filme, Fontaine passou a receber cartas de seus fãs americanos, sugerindo que nunca mais se metesse a esse gesto indigno de “kiss a nigger”, expressão onde ´nigger´ é um termo pejorativo para uma pessoa de cor. Obviamente, a maior parte das cartas vinha dos estados racistas do Sul.

Com isso passamos, já na década de setenta, ao primeiro beijo gay da história do cinema, que está no filme inglês de John Schlessinger “Domingo maldito” (1971) e acontece entre os atores Peter Finch e Murray Head.

No mesmo ano, vamos ter o primeiro beijo cinematográfico com grande diferença de idade entre os beijantes. Acho que vocês se recordam da comédia ´mórbida´ de Hal Asby “Ensina-me a viver”, onde a idosa Maude e o adolescente Harold mantêm um inusitado caso amoroso e como todos os apaixonados, trocam um beijo tão quente quanto se fossem da mesma idade.
Hoje o cinema está cheio de beijos de toda espécie e entre os beijantes mais diversos, porém, os filmes citados foram os pioneiros em suas – digamos assim - ´categorias´.
Uma coisa é certa: inovador ou convencional, o beijo é um momento especial da história, gráfico, plástico, fotogênico, que por vezes pode perdurar na memória do espectador mais que o filme.

Marcelo Mastroiani e Anita Ekberg nas águas da Fontana de Trevi em “A doce vida”... Jean-Paul Belmondo e Jean Seberg no pequeno apartamento de “Acossado”... Gregory Peck e Audrey Hepburn dentro do carro em “A princesa e o plebeu”... Quais as suas cenas de beijo preferidas? Relembre-as e, com certeza, você vai incrementar o seu potencial oscular, no dia de hoje... e sempre.




quinta-feira, 9 de abril de 2026

O COLÍRIO DA PASSAGEM PARA O BREU

cleudimarferreira

Antônio Ferreira de Lira - Tiantonio. Foto 3x4.

Depois de um segundo casamento religioso que não deu certo, meu avô Tiantonio seguiu na sua lida, cuidando do seu pedaço de chão como se fosse a única esperança que ainda trazia um pouco de alento e distração aos seus longos dias de solidão. Agora morando só, mas em contato constante com seus vizinhos e sempre rodeado de amigos, ele também, sagradamente, visitava todas noites a casa de sua única filha, Joana Ferreira, que ficava próxima à sua. Lá, ele jantava, passava as horas e conversava sobre os afazeres de mais um dia de trabalho.

Porém a fatalidade, às vezes, aparece sem dar sinais e o seu preço, como moeda de chegada, costuma ser caro e doloroso. Certo dia, ele, com a disposição de sempre - até desproporcional aos seus anos vividos - e precisando tocar as atividades domésticos, fruto da lacuna deixada por falta de uma companheira, foi 'laxar' uns paus no terreiro da cozinha para abastecer um fogão de lenha que tinha dentro de casa. Não sabia ele que, a poucos minutos, um infortúnio estava para acontecer, que marcaria para sempre os poucos anos que lhe restavam de vida.

Desceu os três batentes da porta que abria para o terreiro e foi até um cepo de jucá que servia como base de apoio para cortar as toras de lenha. Era um trabalho repetitivo, de anos, que ele praticava e no qual não havia errado nunca. Pegou o machado, companheiro de tantos cortes e desceu-o certeiro na primeira tora seco, mas a madeira inanimada, morta, numa secura de rachar, reagiu: uma 'filepa' do pau saltou como uma flecha, atingindo em cheio o seu olho esquerdo. Não furou, mais bateu forte, a ponto de causar um pequeno inchaço.

O que parecia apenas um cisco, um ardor incômodo, logo se transformou em uma inflamação preocupante, com a visão ficando turva e embaraçada. Ao reclamar dos sintomas a Joana Ferreira - o socorro mais próximo nas horas de precisão - ela, ouvindo os lamentos do pai, aconselhou que meu avô quando fosse à Cajazeiras, procurasse um doutor para tratar do olho.

No dia seguinte, pegou carona no primeiro carro que passou na estrada para Cajazeiras. Quando chegou ao seu destino, foi direto para o consultório de Doutor Sabino - único médico oculista que havia na cidade - mas, por um capricho da sorte, o médico não estava para atendê-lo. Sem ter a quem socorrer para mostrar o olho, ele foi aconselhado por pessoas conhecidas a procurar o farmacêutico Francimar - estabelecido na Avenida Engenheiro Carlos Pires de Sá e dono da única farmácia que havia na zona sul da cidade.

Como a botica de Francimar ficava no mesmo trecho que ele sempre fazia para chagar à casa de um dos seus filhos que morava em Cajazeiras, saiu do centro da cidade e se dirigiu a essa farmácia. Ao chegou ao estabelecimento, deu bom dia e, buscando alivio para irritação que o hematoma causava no seu olho, contou ao farmacêutico o que havia acontecido com a sua visão esquerda. O farmacêutico, sem o devido exame, vendeu-lhe um colírio que prometia a cura em pouco tempo. E disse para o meu avô: 

- Seu Antônio, esse é tire e queda. Pingou no olho, em dois dias vai desinflamar.

Mas, não foi bem assim. Chegando em casa, foi fazer uso do remédio e, ao pingar a primeira gota, o mundo do meu avô desabou em chamas. Sentiu um ardor insuportável, seguido de uma dor lancinante e uma visão que se embaçava como a névoa das manhãs nos baixios do Sítio Riacho do Balsamo.

No outro dia, voltou a Cajazeiras e, ao chegar, encontrou o Doutor Sabino no seu local de atendimento. Desesperado, contou sua história ao médico e ouviu uma sentença dura como o chão do seu lugar, com o qual ele costumava lidar: o remédio errado havia queimado o globo ocular do seu olho e a luz daquela visão estava se apagando para sempre. Não havia mais o que fazer. O que começou com uma 'filepa' de pau no olho esquerdo tornou-se um rastro de sombra que não quis parar.

Como se um olho quisesse carregar a dor do outro, a doença passou pela glabela e atingiu o olho direito. Em pouco tempo, o mundo do meu avô - as veredas, o brilho do sol, as cores do seu lugar e o vulto da vegetação do sertão - foi sumindo a cada dia até virar um breu fechado. O homem disposto, que não era de muita conversa, agora tateava o ar em busca das paredes da casa; ficou totalmente cego. Naquela escuridão forçada, o som do vento, dos pássaros, dos animais domésticos e dos selvagens que habitavam as cercanias do Sítio Fuá passaram a ser os seus guias, os olhos que ele já não possuía mais.

As trevas da escuridão total trouxeram consigo um peso que o corpo de Tiantônio não estava acostumado a carregar: a impotência. Ele, que sempre fora o esteio da casa, o homem de pouca conversa e muita ação, viu-se subitamente entregue às mãos da filha, Joaninha. Era ela quem guiava seus passos, quem cuidava das suas feridas e quem tentava dar luz aos dias que se tornaram uma noite eterna.

Sem poder viver a vida social de antes e não conseguindo conciliar os trabalhos braçais que exercia ou corte de lenha no mato, a tristeza foi se instalando. O corpo, privado dos afazeres da roça que era o seu combustível, começou a definhar. Doenças do corpo e da alma se achegaram, se alojaram, aproveitando-se daquela imobilidade forçada. Seu Antônio Ferreira - meu avô Tiantonio - acabou falecendo, deixando para trás o Sítio Fuá, os amigos, o arrependimento mudo pelas desatinos cometidas em vida e a saudade nos olhos de quem ficou.

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Ilustração: Foto da ficha de filiado no Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Cajazeiras. Colaboração: Rildo Soares.

domingo, 5 de abril de 2026

O LEGADO DOS BISPOS VERMELHOS

Rui Leitão


Dom Hélder Câmara (arcebispo de Olinda e Recife), Dom José Maria Pires (arcebispo da Paraíba) 
e Dom Antônio Batista Fragoso (paraibano de Teixeira e bispo de Crateús, no Ceará)



​A Igreja Católica exerceu papel preponderante na concretização do golpe de 1964. Estimulada pelo discurso de que o país vivia sob a ameaça de um regime comunista, a instituição apoiou os militares na instalação do novo governo.

Entretanto, com o passar dos anos, percebeu o equívoco cometido e passou a adotar uma postura crítica à ditadura. Ganhava força o grupo progressista do clero, que decidiu combater as violações aos direitos humanos e a prática da tortura utilizada para extrair informações dos opositores do sistema. A Igreja abandonava, assim, sua postura secular como instituição elitista e conservadora para aproximar-se das classes populares em defesa da justiça social.
No Nordeste, três bispos destacaram-se como líderes religiosos que denunciavam as torturas e a violência repressiva imposta pelo governo militar. Por isso, passaram a ser chamados de “bispos vermelhos”. Dom Hélder Câmara (arcebispo de Olinda e Recife), Dom José Maria Pires (arcebispo da Paraíba) e Dom Antônio Batista Fragoso (paraibano de Teixeira e bispo de Crateús, no Ceará) eram apontados como expoentes da esquerda católica.
Eles enfrentaram a ditadura com coragem. Pregaram a reação ao regime e incentivaram a juventude a se rebelar contra a repressão. Apoiaram sindicatos e cooperativas na assistência aos trabalhadores, em especial aos camponeses. Defendiam a conscientização política do povo como forma de fortalecimento diante do regime totalitário. Embora recebessem frequentemente mensagens ameaçadoras, não se acovardaram e desafiaram os detentores do poder.
Na mesma noite em que Geraldo Vandré se consagrava no Maracanãzinho com a música que se tornaria o hino da resistência, Dom José Maria Pires proferia uma palestra na Faculdade de Direito da UFPB. Ao ser advertido por um estudante sobre a presença de agentes do DOPS, o arcebispo afirmou categoricamente que a presença policial não deveria constranger ninguém, pois eles ouviriam verdades sobre os problemas brasileiros.
Dias depois, na sede do Sindicato dos Vendedores Ambulantes, Dom José realizou uma de suas conferências mais corajosas daquele ano. Começou afirmando:
“O atual governo não é cristão. Neste sistema de privilégios de um pequeno grupo em detrimento de uma maioria faminta e analfabeta, não podemos ver uma maneira cristã de governar. É indispensável que ataquemos os erros políticos e econômicos, sem atacar as pessoas. Não somos contra ninguém; somos contra situações.

Precisamos de sindicatos fortes, abrigando o maior número de pessoas conscientizadas politicamente. O ideal é que caminhemos com inteligência, pois não é com fuzis nas mãos que mostraremos que temos razão. Não há dinheiro no mundo que possa comprar nossa liberdade ou a contribuição de amor que queremos dar para melhorar a situação de nossos irmãos.

Só acredito em mudança quando houver conscientização; não acredito em mudança que não seja pacífica. Contudo, pacífica não significa ser pacifista. Não posso exigir justiça por meios violentos, primeiro porque não condiz com o Evangelho; segundo porque a violência, para nós, agora, seria um suicídio.”
​Discursos como esse faziam com que os militares rotulassem Dom Hélder, Dom José Maria Pires e Dom Fragoso como os “bispos vermelhos”.

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quinta-feira, 2 de abril de 2026

Caiu na rede. Foto da Inauguração do Cristo Rei de Cajazeiras

cleudimarferreira

foto colorizada por IA, a partir da original em preto e branco


O monumento do Cristo Rei, em Cajazeiras, Paraíba - também chamado de Cristo Redentor de Cajazeiras, foi inaugurado em 15 de junho de 1939, durante as celebrações do Primeiro Congresso Eucarístico Diocesano da cidade. 
Ele foi instalado no alto do morro, no ponto mais elevado da sede do município.
O monumento foi concebido como símbolo da fé católica e da proteção espiritual sobre a população sertaneja.
Sua construção ocorreu em um período marcado por dificuldades sociais e climáticas no sertão nordestino, o que reforçou ainda mais o caráter simbólico da obra.
A iniciativa contou com o envolvimento da comunidade local, por meio de doações e esforços coletivos, evidenciando a forte religiosidade presente na região cajazeirense.
Com o passar do tempo, o Cristo Rei consolidou-se não apenas como um marco religioso, mas também como um importante elemento turístico cultural e identitário de Cajazeiras, integrando sua paisagem urbana e sua memória histórica.
Lá de cima do morro, onde o Cristo estar e onde o vento fala mais alto, o silêncio tem mais presença e o Cristo Rei reina absoluto observando a cidade.
Desde 1939, quando foi erguido entre fé e esperança, ele permanece de braços abertos - não como quem domina, mas como quem acolhe.
Naquele tempo, o sertão de Cajazeiras era mais seco, de chão duro, mas silencioso e otimista com relação ao futuro.
E talvez por isso mesmo tenha sido necessário levantar um símbolo tão grande: para lembrar que, mesmo nas dificuldades, a fé haverá de estar presente.
A estátua foi trazida por Silvino Bandeira de Melo - pai do saudoso Dr. Júlio Bandeira de Melo - médico e radialista, para o alto do morro da cidade em cumprimento de uma promessa feita. 
A imagem escultórica - parte do monumento, não foi uma obra autoral única, como a do Cristo Redentor do Rio de Janeiro.
Pode ter sido feita por encomenda, solicitada pelo prórpio Silvino Bandeira a uma oficina religiosa em Salvador onde era radicado.
As oficinas eram bastante comum naquele tempo e produzido através de moldes de reprodução em gesso ou concreto.
Ou seja, adquirida pronta ou em catálogo de arte sacra. 
Algo usual no Brasil naquele período.
O local é considerado um marco histórico e um ponto turístico religioso, embora tenha enfrentado desafios de conservação.
Até hoje, quando o sol se põe e pinta tudo de dourado, parece que ele continua ali, calado, assumindo a mesma função de sempre, a de guardião da cidade. 

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quarta-feira, 25 de março de 2026

Há 100 anos, Padre Cícero e Lampião se encontravam no Cariri

Paulo Henrique Rodrigues

Foto: Pedro Maia, Museu da Fotografia do Cariri Telma Saraiva.

Era final da tarde de 4 de março de 1926, quando Lampião e seu bando saltavam dos cavalos em Juazeiro do Norte. Vinham a convite do então deputado federal Floro Bartolomeu da Costa. Tinham como missão fazer parte de um exército montado às pressas pelo governo federal para lutar contra o movimento revolucionário comandado por Luís Carlos Prestes.

Lampião não encontrou ‘Floro’, que, doente, tinha viajado a Fortaleza e depois ao Rio de Janeiro, onde morreu no dia 8 daquele mesmo mês. Também não cruzou o caminho da Coluna Prestes, que, naquele momento, já marchava em outro ponto do Sertão. Mas Lampião não perdeu a viagem.

Permaneceria em Juazeiro do Norte até o dia 7, protagonizando uma sequência de acontecimentos, todos pacíficos, que só aumentariam a sua fama.

Na ausência de ‘Floro’, coube ao Padre Cícero encontrar Lampião para entregar a ele a patente de capitão do chamado batalhão patriótico criado pelo governo federal. Gesto que custou caro ao Padim, criticado em 9 de cada 10 jornais que noticiaram aquele encontro.

Lampião fez questão de frequentar as manchetes. Foi em Juazeiro do Norte que o cangaceiro concedeu sua primeira entrevista, feita pelo médico Otacílio Macedo, que morava no Crato e correra à cidade vizinha para encarar um entrevistado temido por todos e cercado de homens armados.

As respostas publicadas em "O Ceará" podem ser encontradas acompanhadas de comentários essenciais na literatura do Cangaço de Frederico Pernambucano de Mello, "Benjamin Abrahão: entre anjos e cangaceiros", e Robério Santos, do recém saído do prelo "O Santo e o Cangaceiro".

Além da entrevista, rica em detalhes, em que Lampião falava sobre a vida no cangaço e celebrava a oportunidade de visitar Juazeiro do Norte e de ver pessoalmente o Padre Cícero, foram registradas também imagens dele.

As lentes de Pedro Maia, que veio do Crato, e Lauro Cabral, vindo de Barbalha, fotografaram um Lampião jovem, com chapéu sem testeira, numa pose que o deixaria famoso. Os originais de Maia estão guardados no Museu Orgânico da Fotografia do Cariri Telma Saraiva, no Crato.

Lampião ainda conheceria uma pessoa que o faria voltar às manchetes com mais força. Benjamin Abrahão, jornalista sírio então secretário do Padre Cícero, após a morte deste, procuraria o cangaceiro e, em 1936, faria um documentário com equipamento de uma empresa que tinha sede em Fortaleza, preciosidade do cinema brasileiro, que hoje conquista admiradores em Hollywood. Um filme que pode ser encontrado no YouTube e que tem tantos detalhes do cotidiano do grupo que levaram Pernambucano de Mello a dizer que Lampião parece ter codirigido a película.

A passagem pelo Cariri durou cerca de 72 horas. Tempo suficiente para que ele entrasse um cangaceiro de rosto quase anônimo e saísse capitão famoso, mesmo que a patente não valesse um pequi roído.

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fonte: Diário do Nordeste.

terça-feira, 10 de março de 2026

O JUMENTO

cleudimarferreira


Imagem não real dos personagens dessa história criada por IA


Ligeiro era um asno de estimação, adotado e domesticado para ajudar na lida diária do meu avô Antônio Ferreira - Tiantonio, mas também servia como empréstimo a todos da família que precisassem dos seus préstimos. Na sua condição de ação por instinto, eu até tinha pena, pois achava que era uma criatura abastarda, mas que devia ser tratada e respeitada como qualquer membro da família. Mesmo sendo bem alimentado e cuidado pelo meu vô Ferreira, eu olhava para ele e sentia dó do coitado. Um escravo que não falava nem esboçava nenhuma reação quando era molestado - no bom sentido da palavra - por Tiantonio, nos momentos em que não atendia os seus pedidos ou não respeitava às suas ordens.

Certa vez, disse aquele artista lá de exu, que ele era um “servidorzinho que era danado”. Uma declaração, para mim, bem colocada, pois “Ligeiro” era muito mais, servia e suportava toda uma sobrecarga no lombo, esticava o passo em direção a residência do familiar que precisasse dos seus serviços. Essas lembranças me fazem recordar do meu tempo de garoto e as viagens que sempre fazia com Ligeiro ao Engenho de Seu Moisés Maciel, para buscar cargas de rapaduras. Os caçuás vinham cheios do doce da cana, e eu ainda sentava na cangalha, com as pernas estiradas em direção ao pescoço do pobre animal. Como era dura a vida do meu saudoso amigo Ligeiro.

Num dia de verão, em um longo período de estiagem, com a vegetação toda esturricada e a dificuldade de encontrar água potável - água de beber - minha avó, Madrinha Baíca, percebendo que o líquido estava acabando nos potes de cerâmica da cozinha, pediu a meu avô que fosse buscar água, em uma cacimba, no leite seco do Rio Santo Antônio, que ficava, mais precisamente, já dentro das terras da família Soares.    

Seu Tiantonio Ferreira, que não era muito de conversa, porém muito disposto, pegou as bombonas de couro – quatro ao todo, que estavam empilhadas no canto de uma parede na sala, uma ou duas já gastas de tanto uso - e trouxe até o terreiro da frente da casa. Foi até onde “Ligeiro” estava pastando, desapeou o animal do mourão e conduziu-o até o local que estava a cangalha. O sol ainda nem tinha chegado ao meio do céu, mas o calor era de rachar. Sem reclamar, ajeitou o chapéu de palha na cabeça, colocou a cangalha nas costas do coitado jumento e, em seguida, as bombonas nos caçoas encaixados na cangalha. Seguiu caminho pela vereda de terra, pisando no chão seco que estalava sob as sandálias currulepe, até o local onde o precioso líquido ainda jorrava, naquela corrente morta.

Desceu a pequena ladeira, por entre as barreiras que margeavam o despenhadeiro sinuoso e estreito, que mal cabiam as suas pernas e os cascos de “ligeiro”. A cacimba, no leito seco do rio, era uma das poucas esperanças da redondeza. A água ficava cada vez mais escassa e distante da superfície, exigindo que a cacimba fosse cavada quase todo mês para não deixar que sumisse. Um trabalho que demandava a paciência de todos da comunidade do Sítio Fuá. No momento de encher as bombonas, a água cristalina e doce dava a certeza de que levavam para casa um líquido de qualidade. Era a vida insistindo em não desistir; o suficiente para seguir vivendo.

Quando ele chegou na entrada do olho água, amarrou o cabresto de “ligeiro” em uma estaca que havia ao lado, para o animal não sair do local. Desceu com as bombonas nas mãos - há uma distância de cinco metro de profundidade até o poço. Cada descida e subida naquela cacimba exigia um equilíbrio e força de mestre, carregando o peso morto do couro que, aos poucos, ia se enchendo com o líquido daquele reservatório natural."

A água transparente e limpa estava repleta de abelhas nativas que extraíam, pacientemente, a doçura do líquido para produzir seu mel. Tiantonio, vagarosamente, pegou uma cuia que havia ao lado, fez flutuar no espelho d’água. Tocando levemente a superfície, espalhando as melíponas para as bordas daquele pequeno poço, abrindo caminho sem ferir as pequenas operárias da caatinga.

Meticulosamente, com a calma de quem aprendera a respeitar a natureza antes mesmo de aprender a conviver com ela, ele foi afastando as abelhas sem feri-las. Sabia que aquela cacimba era partilhada entre as pessoas e os pequenos seres que também dependiam daquela água. O seu o gesto era leve, sem agressividade, quase um pedido silencioso de licença: - eu também quero água, eu preciso dela, não é só vocês.

Esperou alguns segundos. As melíponas, zumbindo baixo, formaram um círculo inquieto ao redor, mas logo voltaram ao trabalho doce e paciente. Então, mergulhou a cuia com mais firmeza, enchendo-a devagar para não turvar o fundo arenoso. A água subiu límpida, refletindo o céu aberto e o rosto cansado de Tiantonio, sulcado pelo sol de tantos verões e pelos extensivos períodos de ausência de chuvas.

Despejou o conteúdo na primeira bombona. O som da água caindo ecoou nas paredes estreitas do recipiente - um som oco, mas cheio de esperança. Cada cuia cheia era uma pequena vitória contra a seca que insistia em castigar todos que moravam no Sítio Fuá. Tiantônio enchia as bobonas com um ritmo metódico, os olhos atentos para não desperdiçar uma gota sequer, pois sabia que ali, no fundo daquela cacimba, estava o destino da sua família e a tranquilidade da sua companheira Madrinha Baíca.

Com as bombonas cheias, ele começou a coloca-las, cuidadosamente, nos caçuás, uma por uma. Depois de ajustar a carga que Ligeiro conduziria até a sua casa, desamarrou o cabestro do asno e começou a tanger o animal pelo caminho do baixio até o pé da barreira que marcava a transição da parte baixa para a encosta mais alta onde morava. Pois foi justamente nesse local, no trajeto que ambos conheciam tão bem, que se desatenderem; e esse momento marcaria para sempre a vida do sofrido do jegue.

Quando chegaram à pequena e estreita subida, o peso da carga d’água começou a deslocar-se com maior volume em direção à traseira do animal, dificultando os passos de Ligeiro. O jumento fazia um esforço danado para avançar, mas a passagem estreita e sinuosa - que seguia fazendo cobrinha - não facilitava a sua locomoção. A cada tentativa de firmar as patas, o peso morto das bombonas cheias puxava o corpo do bicho para o despenhadeiro, exigindo uma força que as suas patas cansadas já não pareciam ter.

Enroscado e preso nas laterais da ladeira, sem saber onde firmar os cascos, Ligeiro empancou; seus movimentos agora eram apenas tremores de esforço. Foi quando Seu Antônio Ferreira, percebeu, com o coração saindo pela boca, que a cangalha estava deslizando perigosamente em direção a cauda do jumento. Tomado pelo desespero e pelo estresse da situação, ele tentou o impossível: com a mão esquerda, agarrou a cangalha para frear o peso, enquanto com a outra empunhava o chicote, desferindo golpes nas pernas de Ligeiro para força-lo a reagir. Era o grito de quem não podia perder aquela água, misturado ao esforço mudo do bicho que já não tinha mais de onde tirar forças.
 
Em vão foi a tentativa de meu avô de desenroscar o animal das paredes estreita que formavam a barreira da pequena subida, pois Ligeiro não saía do chão, não decolava. A súbita estupidez ao extremo tomou conta do juízo de Seu Tiantonio; ele soltou o chicote e pegou um cambito que estava pendurado na canganha. Segurou firmo, com força - e com muita força - bateu sem piedade na cabeça do infeliz Ligeiro.

A cambitada, forte, acertou em cheio a orelha direita, provocando a quebra da cartilagem desse membro, quase decepando-o por completo. O impacto, junto com a dor e a fissura, fez “Ligeiro” buscar forças não sei de onde e sair da ladeira pulando, correndo em disparada até o terreiro da cozinha onde Vó Baíca esperava. Foi arrastando o que tinha nas costas: cangalha, caçuás e bombonas, jogando água para todos lados por onde passava. Ao chegar na porta externa de entrada da cozinha, ele parou.

Minha vó Madrinha Baíca, ao perceber os rinchos e o fungado do jumento, saiu para ver o que estava acontecendo e viu parte da orelha de Ligeiro praticamente pendurara, com gotículas de sangue escorrendo pela cabaça - olhos e nariz – e pingando no chão. Assustado com o estado do animal, ela bradou:
- Antoi, vala-me Deus, o que tu fizeste na cabeça do coitado do jumento, home?
Meu avô que vinha logo atrás, respondeu:
- Nada! Só dei uma cambitada nesse infeliz que não queria subir a ladeira.
Baíca, ouvindo a resposta do seu esposo, replicou:
- Mas Antoi, tu quebraste a orelha do coitado. E agora?
Seu Antônio Ferreira se aproximou do animal e viu que o que tinha feito algo fora do normal; ele mesmo percebeu que tinha passado de todos os limites.

Solidário com o companheiro de trabalho, ele tentou corrigir o que evidentemente havia feito de errado. Pediu a esposa que preparasse duas talas de casca de jatobá e providenciasse, também, tiras de pano fino - como se fossem uma espécie de ataduras - para envolver a orelha de Ligeiro. Era uma tentativa desesperada de fazer um curativo para que o animal não perdesse o pedaço da orelha ou ficasse com uma deficiência física.

Imprimindo uma certa pressa na busca dos pedidos do meu avô, vó Baíca trouxe as filetas da casca do jatobazeiro com os molambos de panos usados na limpeza da cozinha. A agilidade dela tinha um motivo: o sentimento de compaixão de ver o pobre animal, que era tratado por ela com um membro da família, naquele estado. No mesmo tempo, não parava de resmungar e falar coisa com coisa: reclamava da brutalidade de Tiantonio e dos maus-tratos que ele havia cometido. O velho avô, enquanto preparava o curativo, desculpava-se a todo instante por cada palavra que minha avó dizia sobre o procedimento errado na condução de Ligeiro nos afazeres domésticos.

Sem promessas de que os danos na orelha de Ligeiro seriam sarados, os meses seguiram. Tentavam esconder ou esquecer todo o ocorrido, mas sem apresentar resultados. Tiantonio só rezingava. Vez por outra, lamentava ao ver o triste animal naquela penúria e minha vó como coadjuvante, comentava: - Bem feito! Isso é para você deixar de ser bruto, ignorante, sem paciência Antoi. Seu Antônio Ferreira só ouvia; não replicava os clamores da esposa.

O tempo, mestre de todas as curas, tratou de fechar a ferida, mas não de apagar a memória daquela brutalidade. Ligeiro sarou, voltando ao passo manso nos afazeres da casa, mas carregava agora uma marca definitiva: a orelha, antes erguida e atenta, tombara quebrada para baixo, como um sinal de resignação que o animal exibia ao mundo. Aquela orelha caída era o lembrete mudo do erro de Tiantônio; toda vez que o sol batia no rosto do bicho, a sombra da deficiência projetava-se no chão, e o homem, em um silêncio carregado de culpa, desviava o olhar, compreendendo que certas paciências, uma vez rompidas, nunca mais se põem de pé.

Imagem real dos personagens dessa história colorizada por IA

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