Paulo Henrique Rodrigues
Era final da tarde de 4 de março de 1926, quando Lampião e
seu bando saltavam dos cavalos em Juazeiro do Norte. Vinham a convite do então
deputado federal Floro Bartolomeu da Costa. Tinham como missão fazer parte de
um exército montado às pressas pelo governo federal para lutar contra o
movimento revolucionário comandado por Luís Carlos Prestes.
Lampião não encontrou ‘Floro’, que, doente, tinha viajado a
Fortaleza e depois ao Rio de Janeiro, onde morreu no dia 8 daquele mesmo mês.
Também não cruzou o caminho da Coluna Prestes, que, naquele momento, já
marchava em outro ponto do Sertão. Mas Lampião não perdeu a viagem.
Permaneceria em Juazeiro do Norte até o dia 7, protagonizando
uma sequência de acontecimentos, todos pacíficos, que só aumentariam a sua
fama.
Na ausência de ‘Floro’, coube ao Padre Cícero encontrar
Lampião para entregar a ele a patente de capitão do chamado batalhão patriótico
criado pelo governo federal. Gesto que custou caro ao Padim, criticado em 9 de
cada 10 jornais que noticiaram aquele encontro.
Lampião fez questão de frequentar as manchetes. Foi em
Juazeiro do Norte que o cangaceiro concedeu sua primeira entrevista, feita pelo
médico Otacílio Macedo, que morava no Crato e correra à cidade vizinha para
encarar um entrevistado temido por todos e cercado de homens armados.
As respostas publicadas em "O Ceará" podem ser
encontradas acompanhadas de comentários essenciais na literatura do Cangaço de
Frederico Pernambucano de Mello, "Benjamin Abrahão: entre anjos e
cangaceiros", e Robério Santos, do recém saído do prelo "O Santo e o
Cangaceiro".
Além da entrevista, rica em detalhes, em que Lampião falava
sobre a vida no cangaço e celebrava a oportunidade de visitar Juazeiro do Norte
e de ver pessoalmente o Padre Cícero, foram registradas também imagens dele.
As lentes de Pedro Maia, que veio do Crato, e Lauro Cabral,
vindo de Barbalha, fotografaram um Lampião jovem, com chapéu sem testeira, numa
pose que o deixaria famoso. Os originais de Maia estão guardados no Museu
Orgânico da Fotografia do Cariri Telma Saraiva, no Crato.
Lampião ainda conheceria uma pessoa que o faria voltar às
manchetes com mais força. Benjamin Abrahão, jornalista sírio então secretário
do Padre Cícero, após a morte deste, procuraria o cangaceiro e, em 1936, faria
um documentário com equipamento de uma empresa que tinha sede em Fortaleza,
preciosidade do cinema brasileiro, que hoje conquista admiradores em Hollywood.
Um filme que pode ser encontrado no YouTube e que tem tantos detalhes do
cotidiano do grupo que levaram Pernambucano de Mello a dizer que Lampião parece
ter codirigido a película.
A passagem pelo Cariri durou cerca de 72 horas. Tempo
suficiente para que ele entrasse um cangaceiro de rosto quase anônimo e saísse
capitão famoso, mesmo que a patente não valesse um pequi roído.
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fonte: Diário do Nordeste.

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