Na
noite de 2 de julho de 1975, o silêncio do Sertão paraibano foi abruptamente quebrado
no centro de Cajazeiras. Logo após a exibição do filme Sublime Renúncia, quando
o público já havia sido dispersado do auditório do Cine Teatro Apolo XI, o
encontro fortuito com uma espécie de bolça escolar deixada debaixo da cadeira
habitualmente usada por Dom Zacarias culminou em uma explosão com capacidade de
vitimar dois funcionários do cinema.
No
caso do parágrafo anterior, o artefato vitimou fatalmente o soldado Altino
Saturnino da Silva e o funcionário Manuel Justino Conrado, além de deixar dois feridos.
O episódio, que ganhou repercussão nacional, guarda uma ligação profunda e
inquietante com outro momento sombrio da história recente do país: a explosão
no estacionamento do centro de convenções do Riocentro, no Rio de Janeiro,
ocorrida na noite de 30 de abril de 1981 durante as celebrações do Dia do
Trabalhador.
Separados
por quase seis anos e mais de dois mil quilômetros, os dois atentados desenham
uma linha contínua da atuação clandestina da extrema-direita e de setores da
linha-dura das Forças Armadas durante a ditadura militar brasileira. Ambas as
ações fundamentaram-se em táticas terroristas voltadas a alimentar o clima de
ameaça e instabilidade, buscando frear os movimentos de abertura política ou
intimidar vozes dissonantes e espaços de resistência.
Além
da tensão política, Cajazeiras vivia um período de efervescência cultural e
artística marcante, transformando a cidade em um polo de resistência no
interior do Nordeste. O teatro local mantinha intensa produção com a montagem
de peças de forte teor político-ideológico, impulsionadas pela atuação engajada
de grupos como o GRUTAC, METAC e o Grupo CAJÁ.
Esse
ambiente era fortalecido pela realização dos Festivais de Poesia, cujos versos
e declamações abordavam abertamente os temas da repressão, da censura e do
desejo de liberdade, bem como pelo Festival Regional da Canção no Sertão, palco
onde compositores e intérpretes utilizavam suas músicas para denunciar e
refletir sobre o momento político vivido pelo país.
No
caso fluminense, o alvo era um festival de música que reunia milhares de jovens
e expressivos nomes da MPB engajados na oposição. No Sertão paraibano, o alvo da
bomba era essa própria efervescência política e cultural promovida no espaço
físico de um cinema pertencente à igreja de Cajazeiras.
A
cidade vivia uma conjuntura sociopolítica singular, marcada pela convivência
entre um bispo de perfil tradicionalista, Dom Zacarias Rolim de Moura, e uma
marcante presença de padres da ala progressista da Igreja Católica, muitos
deles vindo de missões na Itália.
Esses
religiosos mantinham forte engajamento em causas sociais e utilizavam com
frequência programas discursivos da Rádio Alto Piranhas, emissora da própria
diocese, como veículo de formação crítica e apoio aos direitos da população
local, o que despertava, talvez, a constante vigilância do aparato de
inteligência do regime.
A
logística e as condições operacionais para a realização do atentado no interior
do solo paraibano contavam com um terreno amplamente aparelhado pela presença
militar. Para se ter uma ideia, Cajazeiras abrigava nesse tempo a guarnição do
Tiro de Guerra, composto de um sub tenente, um sargento e um pelotão de cem
soldados recrutas que funcionava como ponto de apoio e monitoramento para as
agências de segurança do Estado.
Somava-se
a isso a recente conclusão dos trechos locais da BR-230, a rodovia
Transamazônica, cujas obras de infraestrutura mobilizaram o 1º Batalhão de
Engenharia de Construção do Exército. A intensa circulação de comboios e
máquinas, a forte presença de contingentes militares e a abundância de
artefatos explosivos de demolição colocados à disposição das frentes de
engenharia criaram o ambiente ideal de acesso a insumos controlados, permitindo
o trânsito e a atuação ostensiva de agentes da repressão sem levantar suspeitas
locais.
O
paralelismo entre o Sertão e a capital fluminense se consolida de forma
contundente também no manejo das investigações e no desfecho reservado a ambos
os crimes. No Riocentro, a intenção de explodir o artefato dentro do pavilhão
lotado para culpar a esquerda radical desmoronou quando a bomba detonou (para a
felicidade dos artistas e do público presente) precocemente no colo do próprio
sargento do Exército Guilherme Pereira do Rosário, levando o comando militar a
forjar um Inquérito Policial Militar de fachada para acobertar os oficiais
envolvidos.
Em
Cajazeiras, a colocação do explosivo debaixo do assento do bispo serviu para
alimentar especulações, semeando suspeitas e acusações direcionadas ao clero
progressista, aos movimentos estudantis da região e políticos de tendência esquerdista
– como foi o caso do suplente de senador Bosco Barreto.
Para
justificar o cerco aos focos de esquerda atuante na cidade e ao mesmo tempo minimizar
a propagação do foca nesse contingente ideológico, buscou-se culpabilidade em
tudo, até na inteligência popular. Fogueteiros, eletrotécnicos e pseudo de
inventores, passaram ser possíveis mentores do artefato. Mas nada ou quase
nada, do aparato militar foi destacado nas investigações e interrogatório que
se sucederam.
Passados
51 anos, as apurações sobre o atentado ao Apolo XI foram gradativamente
paralisadas e empurradas para o esquecimento institucional, assegurando a
impunidade dos verdadeiros responsáveis e confirmando o padrão de acobertamento
promovido pelo estado brasileiro no período autoritário e com a inoperância dos
governos atuais.
cleuduarferreira
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