sábado, 26 de setembro de 2026

REFLEXÕES SOBRE OS ATENTADOS NO CINE APOLO XI E RIOCENTRO


Imagens do atentado no Riocentro. Fotos: Arquivo Histórico

Na noite de 2 de julho de 1975, o silêncio do Sertão paraibano foi abruptamente quebrado no centro de Cajazeiras. Logo após a exibição do filme Sublime Renúncia, quando o público já havia sido dispersado do auditório do Cine Teatro Apolo XI, o encontro fortuito com uma espécie de bolça escolar deixada debaixo da cadeira habitualmente usada por Dom Zacarias culminou em uma explosão com capacidade de vitimar dois funcionários do cinema.

No caso do parágrafo anterior, o artefato vitimou fatalmente o soldado Altino Saturnino da Silva e o funcionário Manuel Justino Conrado, além de deixar dois feridos. O episódio, que ganhou repercussão nacional, guarda uma ligação profunda e inquietante com outro momento sombrio da história recente do país: a explosão no estacionamento do centro de convenções do Riocentro, no Rio de Janeiro, ocorrida na noite de 30 de abril de 1981 durante as celebrações do Dia do Trabalhador.

Separados por quase seis anos e mais de dois mil quilômetros, os dois atentados desenham uma linha contínua da atuação clandestina da extrema-direita e de setores da linha-dura das Forças Armadas durante a ditadura militar brasileira. Ambas as ações fundamentaram-se em táticas terroristas voltadas a alimentar o clima de ameaça e instabilidade, buscando frear os movimentos de abertura política ou intimidar vozes dissonantes e espaços de resistência.

Além da tensão política, Cajazeiras vivia um período de efervescência cultural e artística marcante, transformando a cidade em um polo de resistência no interior do Nordeste. O teatro local mantinha intensa produção com a montagem de peças de forte teor político-ideológico, impulsionadas pela atuação engajada de grupos como o GRUTAC, METAC e o Grupo CAJÁ.

Esse ambiente era fortalecido pela realização dos Festivais de Poesia, cujos versos e declamações abordavam abertamente os temas da repressão, da censura e do desejo de liberdade, bem como pelo Festival Regional da Canção no Sertão, palco onde compositores e intérpretes utilizavam suas músicas para denunciar e refletir sobre o momento político vivido pelo país.

No caso fluminense, o alvo era um festival de música que reunia milhares de jovens e expressivos nomes da MPB engajados na oposição. No Sertão paraibano, o alvo da bomba era essa própria efervescência política e cultural promovida no espaço físico de um cinema pertencente à igreja de Cajazeiras.

A cidade vivia uma conjuntura sociopolítica singular, marcada pela convivência entre um bispo de perfil tradicionalista, Dom Zacarias Rolim de Moura, e uma marcante presença de padres da ala progressista da Igreja Católica, muitos deles vindo de missões na Itália.

Esses religiosos mantinham forte engajamento em causas sociais e utilizavam com frequência programas discursivos da Rádio Alto Piranhas, emissora da própria diocese, como veículo de formação crítica e apoio aos direitos da população local, o que despertava, talvez, a constante vigilância do aparato de inteligência do regime.

A logística e as condições operacionais para a realização do atentado no interior do solo paraibano contavam com um terreno amplamente aparelhado pela presença militar. Para se ter uma ideia, Cajazeiras abrigava nesse tempo a guarnição do Tiro de Guerra, composto de um sub tenente, um sargento e um pelotão de cem soldados recrutas que funcionava como ponto de apoio e monitoramento para as agências de segurança do Estado.

Somava-se a isso a recente conclusão dos trechos locais da BR-230, a rodovia Transamazônica, cujas obras de infraestrutura mobilizaram o 1º Batalhão de Engenharia de Construção do Exército. A intensa circulação de comboios e máquinas, a forte presença de contingentes militares e a abundância de artefatos explosivos de demolição colocados à disposição das frentes de engenharia criaram o ambiente ideal de acesso a insumos controlados, permitindo o trânsito e a atuação ostensiva de agentes da repressão sem levantar suspeitas locais.

O paralelismo entre o Sertão e a capital fluminense se consolida de forma contundente também no manejo das investigações e no desfecho reservado a ambos os crimes. No Riocentro, a intenção de explodir o artefato dentro do pavilhão lotado para culpar a esquerda radical desmoronou quando a bomba detonou (para a felicidade dos artistas e do público presente) precocemente no colo do próprio sargento do Exército Guilherme Pereira do Rosário, levando o comando militar a forjar um Inquérito Policial Militar de fachada para acobertar os oficiais envolvidos.

Em Cajazeiras, a colocação do explosivo debaixo do assento do bispo serviu para alimentar especulações, semeando suspeitas e acusações direcionadas ao clero progressista, aos movimentos estudantis da região e políticos de tendência esquerdista – como foi o caso do suplente de senador Bosco Barreto.

Para justificar o cerco aos focos de esquerda atuante na cidade e ao mesmo tempo minimizar a propagação do foca nesse contingente ideológico, buscou-se culpabilidade em tudo, até na inteligência popular. Fogueteiros, eletrotécnicos e pseudo de inventores, passaram ser possíveis mentores do artefato. Mas nada ou quase nada, do aparato militar foi destacado nas investigações e interrogatório que se sucederam.

Passados 51 anos, as apurações sobre o atentado ao Apolo XI foram gradativamente paralisadas e empurradas para o esquecimento institucional, assegurando a impunidade dos verdadeiros responsáveis e confirmando o padrão de acobertamento promovido pelo estado brasileiro no período autoritário e com a inoperância dos governos atuais.

cleuduarferreira

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